Arte de grammatica da lingua brasilica da naçam kiriri/Parte I/Parágrafo I
§. I.
Das letras que ſe uſaõ na lingua, & da Pronunciaçaõ.
AS letras uſadas neſta lingua ſaõ as ſeguintes: A, Æ, B, C, D, E, G, H, I, Y, K, M, N, O, P, R, S, T, V, W, Z, til. As vogaes entre ſi naõ formaõ diphtongos, mas ſe pronuncîa cada hũa por ſi como ſyllaba diverſa.
Entre as vogaes ſe conta aqui o Æ, ainda que ſe eſcreva como diphtongo Latino, para ſignificar hũa vogal entremeya entre o A, & o E; & se pronuncía com hũ ſom diverſo das outras vogaes, ou como A fechado que participa do E, ou como E largo que participa do A. v. g. Inhuræ, Filho.
O C ſempre ſe pronuncía aſpero aſſim ſobre as vogaes A, O, U, como ſobre E, I, Y. E porque neſtas derradeiras vogaes o C fere brandamente no Portuguez; para evitar o erro q̃ poderia haver eſcrevendo-ſe o C com ellas, ſe introduzio o K, caracter Grego, que ſempre tem o ſom aſpero ſobre todas as vogaes: v. g. Kempe, fino; Kitçi, area. Uſaſe tambem o C com zevra, quando ſe ſegue à conſoante T. v. g. Tçate, cortar: mas nos mais vocabulos ſe uſa de S, por ſer mais natural o ſeu ſibilo a eſta lingua.
D, ás vezes ſe pronuncía tam brandamente, que apenas ſe conhece: como neſtas palavras Ide, mãy; Udje, legumes.
G, ſempre he aſpero ſobre todas as vogaes, & por iſſo ſe eſcreve juntamente com o H. Quando porèm tem accento circumflexo ſobre ſi, ſe ha de pronunciar brando com aſpiraçaõ na garganta, que mal ſe enxergue: como neſtas palavras, Ghŷ, ſer cheirado; Inghe, criança; Renghe, velho.
H, com as vogaes, & conſoantes ſempre he aſpiraçaõ guttural; excepto quando ſe ſegue ao C, & N, porque entaõ faz como no Portuguez nas ſyllabas Cha, Che, Nha, Nhe. Eſta aſpiraçaõ he muito uſada neſta lingua, por ſer muito guttural: mas para evitar a multiplicidade deſta letra em todas as palavras, que poderia cauſar confuſaõ, uſamos della na eſcritura ſómente entre as vogaes, & a deixamos nas conſoantes; & para eſtas ſirva de regra gèral, que as conſoantes T, & P, pedem mais ordinariamente a aſpiraçaõ do que as outras, como o uſo, & a praxe enſinarà melhor.
I, neſta lingua tem quatro vocalidades, duas de vogal, & duas de conſoante. A primeira he de I vogal como no Portuguez: a ſegunda de conſoante, como tambem no Portuguez neſtas palavras, Jogo, Janella; mas com ſom mais brando, v. g. Adje, quem; Udje, que. A terceira he de I, tambem vogal guttural, a que os Authores da arte da lingua gèral do Braſil chamáraõ I groſſo, pois ſe acha tambem neſſa lingua: & aſſim como elles o eſcrevem por Y, para o differençar do I vogal ſimplex, tambem nós o eſcrevemos cõ o meſmo caracter, porèm com accento circunflexo por cima, aſſim, ŷ, para o differençar de outro Y conſoante, que ſe eſcreve ſem accento. Pronuncia-ſe pois eſta vogal como I guttural, & na garganta com os dentes fechados; v. g. Mŷghŷ, contas; Pŷ, capim. A quarta vocalidade, ou ſom do I, he de I carregado, ou conſoante duplex, como uſaõ os Caſtelhanos na ſyllaba yo; & ſe introduzio tambem na eſcritura Portugueza, como neſtas palavras, Mayor, Cayar: & por iſſo a eſcrevemos tambem neſta lingua por Y ſem accento, v. g. Buyẽ, grande; Cayà, noite.
V, neſta lingua ſempre he vogal, nunca conſoante. E porque em alguns vocabulos concorre a vocalidade do U vogal com a vocalidade de V conſoante, para pronunciar com propriedade eſſas duas vocalidades juntas, ſe introduzio o dublú caracter eſtrangeiro, que ſe eſcreve aſſim W, & ſe pronuncía com hũ ſom miſto de dous VV, dos quaes o ſegundo fica liquido, & o primeiro como conſoante: v. g. Waré, Padre.
O til ſe uſa ſobre algũas vogaes para denotar hũ ſom medio entre M, & N, & tem a meſma pronunciaçaõ como nos vocabulos Portuguezes vãa, ſãa couſa: v. g. Tupã, Deos; Hietçã, eu.
Uſamos de dous accentos, hum agudo, & outro circumflexo. O agudo ſerve para carregar ſobre a vogal, v. g. Sambé, paga. Ordinariamente ſe acha na derradeira vogal de todos os vocabulos deſta lingua, excepto algũas palavras que náo acabaõ em agudo, como Bæ, De, & alguns poucos vocabulos, que a experiencia enſinará. Sobre o til não ſe poem accento agudo, para evitar a confuſaõ na eſcritura; mas baſta advertir que o til ſempre he agudo. Quando o vocabulo acaba em A, ou Æ ſem accento, & ſem til, ſe pronuncîa eſſa vogal a meya boca mal pronunciada como E Francez no fim da palavra: v. g. Pide, eſtà; Tekiébæ, não veyo. E havendo outros accentos agudos na meſma dicção, he ſinal q̃ he compoſta, & cada huma das partes fica na compoſiçam com o ſeu accento agudo: v. g. Tçohóhehéde, eſtaõ alguns poucos.
Do accento circumflexo uſamos ſobre as vogaes, que ſe haõ de pronunciar com ſom guttural na garganta, ou com ſom groſſo com os beiços fechados. Deſte modo ſobre o A, de nota que ſe ha de pronunciar com hum ſom que participa do A, & O, & ſe faz pronunciando o A com os dentes fechados: v. g. Sâmbá, cagado. Sobre o E faz hum E eſtreito, & ſe fórma fechando do meſmo modo os dentes: v. g. Woyên, Tapuyas bravos. Sobre o Y, já ſe diſſe que fórma hum ſom guttural mettido lá na garganta. Sobre o O, faz tambem hum O eſtreito pronunciado com os beiços fechados: v. g. Pôhô, varge.
Advirto por derradeiro, que a ſyllaba, Tçã, com til no meyo, ou no fim da dicçaõ, ſe pronuncîa com algũa ſemelhança ao noſſo Portuguez nas palavras, Oraçaõ, Maõ; ainda que o O, não fica tam ſenſivel neſta lingua, como no Portuguez: v. g. Hietçã, eu; Mohetçã, de balde; Hietçãdé, nós.