As Academias de Sião

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As Academias de Sião
por Machado de Assis
Originalmente publicado em Gazeta de Notícias, em 1884 e posteriormente compilado em Histórias sem data.


AS ACADEMIAS DE SIÃO


Conhecem as academias de Sião? Bem sei que em Sião nunca houve academias: mas supponhamos que sim, e que eram quatro, e escutem-me.


I

As estrellas, quando viam subir, atravez da noite, muitos vagalumes côr de leite, costumavam dizer que eram os suspiros do rei de Sião, que se divertia com as suas trezentas concubinas. E, piscando o olho umas ás outras, perguntavam:

--Reaes suspiros, em que é que se occupa esta noite o lindo Kalaphangko?

Ao que os vagalumes respondiam com gravidade:

--Nós somos os pensamentos sublimes das quatro academias de Sião; trazemos comnosco toda a sabedoria do universo.

Uma noite, foram em tal quantidade os vagalumes, que as estrellas, de medrosas, refugiaram-se nas alcovas, e elles tomaram conta de uma parte do espaço, onde se fixaram para sempre com o nome de via-lactea.

Deu logar, a essa enorme ascenção de pensamentos o facto de quererem as quatro academias de Sião resolver este singular problema:--porque é que ha homens femininos e mulheres masculas? E o que as induziu a isso foi a indole do joven rei. Kalaphangko era virtualmente uma dama. Tudo n'elle respirava a mais esquisita feminidade: tinha os olhos doces, a voz argentina, attitudes molles e obedientes e um cordial horror ás armas. Os guerreiros siamezes gemiam, mas a nação vivia alegre, tudo eram dansas, comedias e cantigas, á maneira do rei que não cuidava de outra cousa. D'ahi a illusão das estrellas.

Vai senão quando, uma das academias achou esta solução ao problema:

--Umas almas são masculinas, outras femininas. A anomalia que se observa é uma questão de corpos errados.

--Nego, bradaram as outras tres; a alma é neutra; nada tem com o contraste exterior.

Não foi preciso mais para que as vielas e aguas de Bangkok se tingissem de sangue academico. Veiu primeiramente a controversia, depois a descompostura, e finalmente a pancada. No principio da descompostura tudo andou menos mal; nenhuma das rivaes arremessou um improperio que não fosse escrupulosamente derivado do sanscrito, que era a lingua academica, o latim de Sião. Mas d'alli em diante perderam a vergonha. A rivalidade desgrenhou-se, pôz as mãos na cintura, baixou á lama, á pedrada, ao murro, ao gesto vil, até que a academia sexual, exasperada, resolveu dar cabo das outras, e organisou um plano sinistro... Ventos que passaes, se quizesseis levar comvosco estas folhas de papel, para que eu não contasse a tragedia de Sião! Custa-me (ai de mim!), custa-me escrever a singular desforra. Os academicos armaram-se em segredo, e foram ter com os outros, justamente quando estes, curvados sobre o famoso problema, faziam subir ao céu uma nuvem de vagalumes. Nem preambulo, nem piedade. Cahiram-lhe em cima espumando de raiva. Os que puderam fugir, não fugiram por muitas horas; perseguidos e attacados, morreram na beira do rio, a bordo das lanchas, ou nas vielas escusas. Ao todo, trinta e oito cadaveres. Cortaram uma orelha aos principaes, e fizeram d'ellas collar e braceletes para o presidente vencedor, o sublime U-Tong. Ebrios da victoria, celebraram o feito com um grande festim, no qual cantaram este hymno magnifico: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a luminaria do universo».

A cidade acordou estupefacta. O terror apoderou-se da multidão. Ninguem podia absolver uma acção tão crúa e feia; alguns chegavam mesmo a duvidar do que viam... Uma só pessoa approvou tudo: foi a bella Kinnara, a flôr das concubinas regias.


II

Mollemente deitado aos pés da bella Kinnara, o joven rei pedia-lhe uma cantiga.

--Não dou outra cantiga que não seja esta: creio na alma sexual.

--Crês no absurdo, Kinnara.

--Vossa Magestade crê então na alma neutra?

--Outro absurdo, Kinnara. Não, não creio na alma neutra, nem na alma sexual.

--Mas então em que é que Vossa Magestade crê, se não crê em nenhuma d'ellas?

--Creio nos teus olhos, Kinnara, que são o sol e a luz do universo.

--Mas cumpre-lhe escolher:--ou crêr na alma neutra, e punir a academia viva, ou crêr na alma sexual, e absolvel-a.

--Que deliciosa que é a tua boca, minha doce Kinnara! Creio na tua boca: é a fonte da sabedoria.

Kinnara levantou-se agitada. Assim como o rei era o homem feminino, ella era a mulher mascula--um bufalo com pennas de cysne. Era o bufalo que andava agora no aposento, mas d'ahi a pouco foi o cysne que parou, e, inclinando o pescoço, pediu e obeteve do rei, entre duas caricias, um decreto em que a doutrina da alma sexual foi declarada legitima e orthodoxa, e a outra absurda e perversa. N'esse mesmo dia, foi o decreto mandado á academia triumphante, aos pagodes, aos mandarins, a todo o reino. A academia poz luminarias; restabeleceu-se a paz publica.


III

Entretanto, a bella Kinnara tinha um plano engenhoso e secreto. Uma noite, como o rei examin asse alguns papeis do Estado, perguntou-lhe ella se os impostos eram pagos com pontualidade.

--_Ohimé!_ exclamou elle, repetindo essa palavra que lhe ficara de um missionario italiano. Poucos impostos têm sido pagos. Eu não quizera mandar cortar a cabeça aos contribuintes... Não, isso nunca... Sangue? sangue? não, não quero sangue...

--E se eu lhe der um remedio a tudo?

--Qual?

--Vossa Magestade decretou que as almas eram femininas e masculinas, disse Kinnara depois de um beijo. Supponha que os nossos corpos estão trocados. Basta restituir cada alma ao corpo que lhe pertence. Troquemos os nossos...

Kalaphangko riu muito da idéa, e perguntou-lhe como é que fariam a troca. Ella respondeu que pelo methodo Mukunda, rei dos Hindus, que se metteu no cadaver de um brahamane, emquanto um truão se mettia no d'elle Mukunda,--velha lenda passada aos turcos, persas e christãos. Sim, mas a formula da invocação? Kinnara declarou que a possuia; um velho bonzo achára copia d'ella nas ruinas de um templo.

--Valeu?

--Não creio no meu proprio decreto, redarguiu elle rindo; mas vá lá, se fôr verdade, troquemos... mas por um semestre não mais. No fim do semestre destrocaremos os corpos.

Ajustaram que seria n'essa mesma noite. Quando toda a cidade dormia, elles mandaram vir a piroga real, metteram-se dentro e deixaram-se ir á tôa. Nenhum dos remadores os via. Quando a aurora começou a apparecer, fustigando as vaccas rútilas, Kinnara proferiu a mysteriosa invocação; a alma desprendeu-se-lhe, e ficou pairando, á espera que o corpo do rei vagasse tambem. O d'ella cahira no tapete.

--Prompto? disse Kalaphangko.

--Prompto, aqui estou no ar esperando. Desculpe Vossa Magestade a indignidade da minha pessoa...

Mas a alma do rei não ouviu o resto. Lepida e scintilante, deixou o seu vaso physico e penetrou no corpo de Kinnara, emquanto a d'esta se apoderava do despojo real. Ambos os corpos ergueram-se e olharam um para o outro, imagine-se com que assombro. Era a situação do Buoso e da cobra, segundo conta o velho Dante; mas vede aqui a minha audacia. O poeta manda calar Ovidio e Lucano, por achar que a sua methamorphose vale mais que a d'elles dous. Eu mando-os calar a todos tres. Buoso e a cobra não se encontram mais, ao passo que os meus dous heróes, uma vez trocados continuam a fallar e a viver juntos--cousa evidente mais dantesca, em que me peze á modéstia.

--Realmente, disse Kalaphangko, isto de olhar para mim mesmo e dar-me magestade é exquisito. Vossa Magestade não sente a mesma cousa?

Um e outro estavam bem, como pessoas que acham finalmente uma casa adequada. Kalaphangko espreguiçava-se todo nas curvas femininas de Kinnara. Esta esteiriçava-se no tronco rijo de Kalaphangko. Sião tinha, finalmente, um rei.


IV

A primeira acção de Kalaphangko (d'aqui em diante entenda-se que é o corpo do rei com a alma de Kinnara, e Kinnara o corpo da bella siameza com a alma do Kalaphangko) foi nada menos que dar as maiores honrarias á academia sexual. Não elevou os seus membros ao mandarinato, pois eram mais homens de pensamento que de acção e administração, dados á philosophia e á litteratura, mas decre tou que todos se prosternassem diante d'elles, como é de uso aos mandarins. Além d'isso, fez-lhes grandes presentes, cousas raras ou de valia, crocodillos empalhados, cadeiras de marfim, apparelhos de esmeralda para almoço, diamantes, reliquias. A academia, grata a tantos beneficios, pediu mais o direito de usar officialmente o titulo de Claridade do Mundo, que lhe foi outorgado.

Feito isso, cuidou Kalaphangko da fazenda publica, da justiça, do culto e do ceremonial. A nação começou de sentir o peso grosso, para fallar como o excelso Camões, pois nada menos de onze contribuintes remissos foram logo decapitados. Naturalmente os outros, preferindo a cabeça ao dinheiro, correram a pagar as taxas, e tudo se regularisou. A justiça e a legislação tiveram grandes melhoras. Construiram-se novos pagodes; e a religião pareceu até ganhar outro impulso, desde que Kalaphangko, copiando as antigas artes hespanholas, mandou queimar uma duzia de pobres missionarios christãos que por lá andavam; acção que os bonzos da terra chamaram a perola do reinado.

Faltava uma guerra. Kalaphangko, com um pretexto mais ou menos diplomatico, atacou a outro reino, e fez a campanha mais breve e gloriosa do seculo. Na volta a Bangkok, achou grandes festas esplendidas. Trezentos barcos, forrados de seda escarlate e azul, foram recebel-o. Cada um d'estes tinha na prôa um cysne ou um dragão de ouro, e era tripolado pela mais fina gente da cidade; musicas e acclamações atroaram os ares. De noite, acabadas as festas, sussurrou-lhe ao ouvido a bella concubina:

--Meu joven guerreiro, paga-me as saudades que curti na ausencia; dize-me que a melhor das festas é a tua meiga Kinnara.

Kalaphangko respondeu com um beijo.

--Os teus beiços têm o frio da morte ou do desdem, suspirou ella.

Era verdade, o rei estava distrahido e preoccupado; meditava uma tragedia. Ia-se approximando o termo do prazo em que deviam destrocar os corpos, e elle cuidava em illudir a clausula, matando a linda siameza. Hesitava por não saber se padeceria com a morte d'ella visto que o corpo era seu, ou mesmo se teria de succumbir tambem. Era esta a duvida de Kalaphangko; mas a idéa da morte sombreava-lhe a fronte, emquanto elle afagava ao peito um frasquinho com veneno, imitado dos Borgias.

De repente, pensou na douta academia; podia consultal-a, não claramente, mas por hypothese. Mandou chamar os academicos; vieram todos menos o presidente, o illustre U-Tong, que estava enfermo. Eram treze; prosternaram-se e disseram ao modo de Sião:

--Nós, despreziveis palhas, corremos ao chamado de Kalaphangko.

--Erguei-vos, disse benevolamente o rei.

--O logar da poeira é o chão, teimaram elles com os cotovelos e joelhos em terra.

--Pois serei o vento que subleva a poeira, redarguiu Kalaphangko; e, com um gesto cheio de graça e tolerancia, estendeu-lhes as mãos.

Em seguida, começou a fallar de cousas diversas, para que o principal assumpto viesse de si mesmo; fallou nas ultimas noticias do occidente e nas leis de Manú. Referindo-se a U-Tong, perguntou-lhes se realmente era um grande sabio, como parecia; mas, vendo que mastigavam a resposta, ordenou-lhes que dissessem a verdade inteira. Com exemplar unanimidade, confessaram elles que U-Tong era um dos mais singulares estupidos do reino; espirito raso, sem valor, nada sabendo e incapaz de aprender nada. Kalaphangko estava pasmado. Um estupido?

--Custa-nos dizel-o, mas não é outra cousa; é um espirito raso e chocho. O coração é excellente, caracter puro, elevado...

Kalaphangko, quando voltou a si do espanto, mandou embora os academicos, sem lhes perguntar o que queria. Um estupido? Era mister tiral-o da cadeira sem molestal-o. Tres dias depois, U-Tong compareceu ao chamado do rei. Este perguntou-lhe carinhosamente pela saude; depois disse que queria mandar alguem ao Japão estudar uns documentos, negocio que só podia ser confiado a pessoa esclarecida. Qual dos seus collegas da academia lhe parecia idoneo para tal mister? Comprehende-se o plano artificioso do rei; era ouvir dois ou tres nomes, e concluir que a todos preferia o do proprio U-Tong; mas eis aqui o que este lhe respondeu:

--Real Senhor, perdoai a familiaridade da palavra: são treze camellos, com a differença que os camellos são modestos, e elles não; comparam-se ao sol e á lua. Mas, na verdade, nunca a lua nem o sol cobriram mais singulares pulhas do que esses treze... Comprehendo o assombro de Vossa Magestade; mas eu não seria digno de mim se não dissesse isto com lealdade, embora confidencialmente...

Kalaphangko tinha a boca aberta. Treze camellos? Treze, treze. U-Tong resalvou tão sómente o coração de todos, que declarou excellente; nada superior a elles pelo lado do caracter. Kalaphangko, com um fino gesto de complacencia, despediu o sublime U-Tong, e ficou pensativo. Quaes fossem, as suas reflexões, não o soube ninguem. Sabe-se que elle mandou chamar os outros academicos, mas d'esta vez separadamente, afim de não dar na vista, e para obter maior expansão. O primeiro que chegou, ignorando aliás a opinão de U-Tong, confirmou-a integralmente, com a unica emenda de serem doze os camellos, ou treze, contando o proprio U-Tong. O segundo não teve opinião differente, nem o terceiro, nem os restantes academicos. Differiam no estylo; uns diziam camellos, outros usavam circumloquios e metaphoras, que vinham a dar na mesma cousa. E, entretanto, nenhuma injuria ao caracter moral das pessoas. Kalaphangko estava attonito.

Mas não foi esse o ultimo espanto do rei. Não podendo consultar a academia, tratou de deliberar por si, no que gastou dois dias, até que a linda Kinnara lhe segredou que era mãi. Esta noticia fel-o recuar do crime. Como destruir o vaso eleito da flôr que tinha de vir com a primavera proxima? Jurou ao céo e á terra que o filho havia de nascer e viver. Chegou ao fim do semestre; chegou o momento de destrocar os corpos.

Como da primeira vez, metteram-se no barco real, á noite, e deixaram-se ir aguas abaixo, ambos de má vontade, saudosos do corpo que iam restituir um ao outro. Quando as vaccas scintillantes da madrugada começaram de pisar vagarosamente o céo, proferiram elles o formula mysteriosa, e cada alma foi devolvida ao corpo anterior. Kinnara, tornando ao seu, teve a commoção materna, como tivera a paterna, quando occupava o corpo de Kalaphangko. Parecia-lhe até que era ao mesmo tempo mãi e pai da creança.

--Pai e mãi? repetiu o principe restituido á fórma anterior.

Foram interrompidos por uma deleitosa musica, ao longe. Era algum junco ou piroga que subia o rio, pois a musica approximava-se rapidamente! Já então o sol alagava de luz as aguas e as margens verdes, dando ao quadro um tom de vida e renascença, que de algum modo fazia esquecer aos dous amantes a restituição psychica. E a musica vinha chegando, agora mais distincta, até que n'uma curva do rio, appareceu aos olhos de ambos um barco magnifico, adornado de plumas e flammulas. Vinham dentro os quatorze membros da academia (contando U-Tong) e todos em côro mandavam aos ares o velho hymno: «Gloria a nós, que somos o arroz da sciencia e a claridade do mundo»!

A bella Kinnara (antigo Kalaphangko) tinha os olhos esbogalhados de assombro. Não podia entender como é que quatorze varões reunidos em academia eram a claridade do mundo, e separadamente uma multidão de camellos. Kalaphangko consultado por ella, não achou explicação. Se alguem descobrir alguma, pode obsequiar uma das mais graciosas damas do Oriente, mandando-lh'a em carta fechada, e, para maior segurança, sobrescriptada ao nosso consul em Changai, China.


FIM DAS ACADEMIAS DE SIÃO.