As Minas de Prata/III/VIII

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As Minas de Prata por José de Alencar
Como brota o amor entre goivos


O bergantim, a pique sobre a amarra, se balança docemente ao fraco ondular das ondas alisadas pela bonança.

Pouco tempo decorreu depois que Estácio partira na chalupa para a cidade de São Sebastião. Reina a bordo o maior silêncio. Os quatro homens, que ficaram de guarda ao navio, estão cada um em seu posto. Esteves na escotilha de popa, velando sobre os prisioneiros; Pedro de vigia no cesto de gávea para explorar os arredores; dois índios, um junto ao leme, outro à proa, com a machadinha ao alcance para cortar a amarra se fosse preciso.

Raquel ainda está no mesmo lugar, em que a deixara Estácio e de onde ela acompanhara com a vista a chalupa até encobrir-se nas saliências do costão de Santa Cruz. A linda judia parece melancólica e pensativa; entretanto nem sempre são tristes os pensamentos que revolve a mente, pois deles escapa alguma vez uma centelha de júbilo, que ilumina o formoso semblante e acende o sorriso nos lábios feiticeiros. Esse raio de alegria, que atravessa as sombras de sua alma, tem o quer que seja de celeste e imaterial; não o desfere o bem-estar comum, que chamamos felicidade.

Quem já sofreu um desses martírios do coração, a que o condena alguma paixão infeliz, conhece a situação estranha da alegria no seio da dor. Quando o objeto de nossa afeição nos repele e nega toda esperança, não podemos deixar de acompanhá-lo com os nossos votos, ainda mesmo que já começássemos a odiá-lo. Se o egoísmo vil se apodera de toda nossa personalidade, lá fica um cantinho isento, onde se abriga a essência pura do sentimento nobre, do amor. É aí o foco de onde rutila a luz divina que sorri através das lágrimas.

Raquel amava Estácio. Já não podia duvidar dessa verdade que enchia toda sua pessoa. Parecia que a alma, recentemente amalrotada por uma primeira afeição, dorida ainda e tão suscetível da cruel decepção que sofrera, não devia tão cedo abrir-se para um novo amor. Mas foi justamente esse estado de exacerbação que rendeu o coração da donzela tão poderosamente, que ela nem tempo teve de se aperceber da revolução.

Vítima de uma ilusão fatal, da qual pôde arrancar-se completamente, sem recordações que a fizessem corar, Raquel sentia a tristeza, que deixa o vácuo de uma afeição, e ao mesmo tempo o despeito de ter-se enganado. Encontrando em seu caminho, poucos instantes depois da crise, o ideal verdadeiro, que pensara achar no indigno alferes, continuou nele o mesmo amor, sem aperceber-se desse acontecimento, senão por uma espécie de bem-estar que se foi derramando por sua alma.

Os sonhos doces e os celestes enlevos do amor iludido, ainda estavam incandescentes, e pois naturalmente e sem esforço soldaram-se às esperanças do novo sentimento. Quando ela sentiu que amava Estácio, pareceu-lhe também que nunca amara senão a ele. O outro fora apenas um desconhecido, que se apresentara um instante disfarçado, como em uma mascarada, e conseguira iludi-la, procurando imitar seu verdadeiro amante; mas conhecido o engano o despedira. Não era pois a este, mas ao seu ideal, a quem ela dera o afeto. Se viesse a conhecer Estácio mais tarde, quando a dor tivesse esfriado no coração, talvez passasse ele sem deixar impressão na crosta gelada de sua alma.

Conhecendo seu estado, não se preocupou Raquel um só instante com o futuro desse amor. Ama; esse presente é bastante para desvanecer todo o passado, e encher todo o futuro, até onde pode o desejo alcançar. Mais tarde sem dúvida viria o desejo natural de ser retribuída em seu afeto; porém a declaração imprevista que fez Estácio de seu amor por Inesita, crestou aquela paixão nascente. Ela conheceu que o mancebo talvez viesse a sentir por ela algum movimento de simpatia ou compaixão quando soubesse do sentimento que lhe havia inspirado; mas nunca a poderia amar, como ela quer e merece ser amada.

Entretanto podia Estácio não ser feliz no seu primeiro amor, e buscar também no segundo a realização do ideal? Sim; ele podia ser desgraçado e traído; mas sua alma tinha-se já saturado completamente daquele amor para que conseguisse arrancar-se isenta e livre, como ela extirpara a sua das cinzas de um passado morto. Seu segundo amor era a floração virgem, que o primeiro ameaçara crestar em botão; o segundo amor de Estácio, se ele o tivesse, seria o murchar da rosa esmaiada de cores e aromas.

Assim a altiva donzela não queria ser amada, e preferia condenar seu coração ardente à eterna viuvez.

Desfolhava ela estas cismas, e como os olhos, o pensamento às vezes submergia-se no oceano para sondar a profundeza de suas mágoas, outras engolfava-se no azul diáfano do firmamento, talvez entrevendo ali os gozos angélicos de um amor infeliz na terra.

Nisto, Esteves passando a cabeça pela escotilha, disse e repetiu em voz alta:

— Dona, seu pai a está chamando!

Raquel, depois de um instante tomado para despedir-se de seus caros pensamentos e entrar na realidade, percorreu com os olhos a vasta superfície dos mares a ver se a chalupa já aparecia, e com passo lento desceu a escada.

Samuel e os dois holandeses estavam encerrados no camarim de estado próximo à sala d’armas. O velho rabino esperava a filha encostado à grade:

— Estamos fundeados, Raquel?

— Sim, pai.

— Em que paragem? A terra fica próxima?

— A terra nos está a pequena distância pela direita, e é da Baía de São Sebastião, à entrada da qual nos achamos.

O velho voltou-se para os flamengos com um sorriso, ao qual Hugo respondeu:

— Bem vos dizia eu!...

Samuel tomou entre as suas uma das mãos da judia, e acenou-lhe para que se encostasse mais à grade:

— Raquel, filha minha, o Deus de Israel pôs em tuas mãos, como outrora nas mãos de Ester, a salvação de teu povo. Tu podes restituir a vida a teu pai e evitar a ruína de todos os teus irmãos da Bahia, bem como a morte destes dois infelizes que se sacrificaram para nosso bem comum.

— Que é preciso que faça tua filha, Samuel, para o conseguir?

— Basta que tu nos passes um ferro de que necessitamos.

— Que pretendes fazer com ele?

— Quebrar o cadeado das algemas de Hugo e Dick; eles livres, arrombaremos a porta da sala d'armas, cairemos sobre a gente descuidada e ficaremos senhores do navio.

— Vós unicamente?... Três pessoas!...

— Três pessoas resolvidas a morrer ou resgatar sua vida... Não sabes o que valem. Demais, tu nos auxiliarás, distraindo alguns deles, enquanto de surpresa e silenciosamente iremos acabando os outros.

— Supondo mesmo que sejais bem sucedidos e vos apodereis do navio, que tereis ganho com isto? Falta batel para vos transportar à terra, onde aliás só achareis inimigos; a chalupa chegará, e podereis resistir a doze homens destemidos e valentes como leões?

— Far-nos-emos de vela, de modo que a chalupa já nos não encontrará! acudiu Hugo.

— Para onde? Para a Europa? Com uma tripulação de dois homens, um velho e uma donzela? disse Raquel escarnecendo.

— Vede se tinha eu razão! disse Dick. Meu plano é melhor! Arrombamos a sala d'armas e tomamos conta do paiol sem que nos percebam. Acendemos a mecha e esperamos que volte a chalupa; quando estiverem todos a bordo, um fica de sentinela com a mecha, e os outros sobem ao convés para intimar ao inimigo que se renda, ou se disponha a saltar pelos ares. Não há quem resista a isto! Entregam-se à discrição; enforcaremos os chefes para exemplo, e nos serviremos da maruja para navegar rumo da Holanda, tendo o cuidado de um de nós conservar sempre a mecha acesa e pronta para o que der e vier.

Raquel abriu o lábio crespo de cólera e desprezo:

— Pensais que o mancebo, que comanda este navio e o tomou à mão armada, se renderá com essa ameaça? Pois então sabei, que duas vezes já estivestes para voar, uma por sua própria mão, e outra por ordem dele! Perdei a esperança, Sr. Dick; vosso plano é pior que o de vosso amigo, pois com ele caminhais a uma morte certa e horrível.

— Raquel avisa bem. O melhor parecer estou que é o primeiro. Falta-nos, é certo, batel para ganhar a terra, mas estes irmãos sabem nadar, e por esse modo se poderão salvar e a vós também, filha. Quanto a mim, sacrifico-me de bom grado; como Moisés, não entrarei na terra santa; porém meu espírito acompanhará o povo de Israel.

— Em caso algum, pai, eu te abandonarei. Nossa sorte há de ser comum na adversidade, como foi na ventura.

— Também nenhum de nós consentiria em deixar-vos no poder do inimigo. Podemos salvar-vos a ambos juntamente.

— E que fareis em terra de inimigos?

— Esqueces que temos irmãos em São Sebastião, Raquel, e que deles devemos esperar todo o auxílio. Podemos aí aguardar ocultos a oportunidade de passar à Europa!

A judia não replicou; com os olhos baixos e a fronte pensativa conservou-se junto à grade.

— Não há tempo a perder! disse Hugo.

— Certo! Vai, Raquel, e traz-nos o ferro necessário.

— Como o posso eu trazer que o não percebam?

— Envolto nas roupas; ninguém suspeita de ti. Enquanto voltas, nós acabaremos de concertar o melhor modo de salvar nossa vida e liberdade.

Raquel ergueu a cabeça e fitou no pai um olhar brilhante.

— Não, pai; tua filha Raquel não pode ajudar-te nesse intento.

— Por que motivo, Raquel? perguntou o judeu surpreso.

— Porque trairia aquele a quem agradece a tua vida, pois a tendo em suas mãos, bem como a desses homens ingratos, generosamente a poupou.

— E queres tu, filha desnaturada, trair aquele que te deu o ser, sacrificar teus irmãos e renegar da religião de teus pais?

— A religião de meus pais, que de ti aprendi, me ordena que respeite como coisa sagrada a fé do juramento. Jurei a Estácio que não praticaria ato algum que lhe pudesse ser nocivo; e cumprirei meu juramento.

— Não hás de cumpri-lo, porque um juramento dado a um cristão é falso e nulo, de nada vale!...

— Quando o dei não me lembrei qual era a sua religião, e somente que o dava a um nobre e leal cavalheiro, em troca da extrema delicadeza com que por ele fui tratada. Se ele depositou bastante confiança em mim para acreditar-me sob a fé e respeito de uma religião que não comunga, não serei eu que lhe dê o exemplo de desprezo ao Deus de Abraão, quebrando a palavra selada com sua invocação. E quando não tivesse jurado... Que ideia farias tu, pai, de uma donzela prisioneira que se aproveitasse da liberdade consentida por quem respeitou seu recato e fragilidade, para promover a morte e ruína do benfeitor?

O velho rabino estava absorto em seu espanto e indignação.

— Sinto não ter aqui um ferro para te imolar.

— Terás tempo para o sacrifício.

— Retira-te de minha presença!

— Eu obedecerei, pai; mas quero levar a promessa de que abandonarás teu intento.

— Mais do que nunca insistirei nele, para vingar em ti a religião de meus pais que traíste, e em teu amante a minha honra que profanaste.

— Insultas tua filha? Eu te perdoo, porque a cólera te cega; senão havias de te lembrar que não podes tu, pai, me pedir contas de tua honra!

O velho vergou a fronte encanecida. Tal é o poder da virtude que aquela fronte respeitável, ornada de uma tríplice coroa, de paternidade, sacerdócio e velhice, se humilhava subjugada ao olhar límpido de uma virgem.

— Espero tua promessa, pai!

— Deixa-me!

— Se ma recusas, serei obrigada a avisar de teus intentos aquele contra quem tramas!

— Completa a tua obra! Denuncia teu pai, fruto perverso de meu sangue!...

— Te denunciarei, sim, pois que é esta a palavra; te denunciarei para ter o direito de aceitar a vida e liberdade tua que me foi por ele concedida.

Acentuando estas palavras enérgicas, a donzela retirou-se com dignidade, pondo termo à cena desagradável.

Chegada que foi à tolda avistou uma vela dobrando a ponta do costão; à medida que se aproximava, as conjeturas de que fosse a chalupa se tornavam mais fortes, até que afinal não houve mais dúvida. Estácio à popa, com o pé regia o leme, e tinha na mão as escotas das velas; os índios se deitavam sobre os remos com furor, excitados por Antão que também remava. O batel, carregado com o pano que o vento enfunava, trazia uma borda a raso da onda e a outra levantada até a quilha.

Apenas chegou à fala do bergantim, ouviu-se o grito do mancebo:

— Suspendei o ferro!...

Esteves e os outros atiraram-se ao cabrestante; como já a amarra estivesse a pique, em pouco a âncora soltou-se da vasa e pendeu aos flancos do navio. Atracou a chalupa, que foi num momento içada aos cachorros. Os índios espalharam-se pelas enxárcias; as velas desfraldadas ao vento, como brancas asas, imprimiram ao navio o suave deslize de um cisne.

Estácio explorou de novo o horizonte a ver se era perseguido, e nada descobrindo de suspeito, retirou a um canto para guardar na cinta de malhas o papel lacrado, que lhe entregara o frade. Bem desejos tinha ele de devorar o manuscrito, única fatal herança, que tantas fadigas, perigos e dissabores lhe tinha já custado, e quem sabe quantas desgraças ainda lhe reservava. Mas antes de tudo a situação crítica e melindrosa em que se achava exigia toda sua atenção; ele contava com certeza que havia de ser perseguido, e admirava-se muito de não ter já à vista os que lhe deviam dar caça.

Singrava o bergantim ligeiramente à bolina, quando Raquel, que assistira de parte a toda a cena anterior, sem tirar os olhos do mancebo, achegou-se dele, pensando que já sua presença não lhe causaria estorvo:

— Careço falar-vos, disse ela.

— Estou sempre pronto a escutar-vos, senhora.

— Devo avisar-vos de que tramam contra vós.

— Quem?... A minha gente?...

— Não: os flamengos.

— Ah!

— Seu plano é quebrar o cadeado das algemas, arrombarem a sala d'armas, e vos ameaçarem com a explosão do navio!

— Mas como podem levar essa empresa ao cabo sem auxílio de alguém! Para quebrar o cadeado das algemas era preciso que vosso pai os ajudasse! Entrava ele na conspiração?...

— Não sei; aprecatai-vos!...

— Bem! Menos vos agradeço, senhora, que me lisonjeio de ter formado tão justa ideia de vosso nobre caráter e ânimo grande. Não me quisestes ficar em dívida de generosidade; em paga da liberdade que vos dei, me salvais a vida e os graves interesses que me estão confiados!...

— Julgais que somente esta razão fosse bastante para dar-me a força de desobedecer a meu pai? perguntou Raquel com ardente vivacidade. Não; essa força, só vós me inspirastes!

Conhecendo pelo olhar interrogador de Estácio que se havia excedido, continuou mais calma:

— A gratidão pelos vossos benefícios me cativou. Vos devo a salvação de meu pai, e uma coisa que uma donzela não esquece nunca, o respeito à sua virtude e recato.

— Isso não o fiz a vós, senão a mim e aos meus próprios sentimentos.

— Embora!

Estácio distraiu um instante a atenção para examinar um ponto branco que alvejava ao longe pela popa do navio sobre a linha azulada dos mares. O receio logo se desvanece; é a vela isolada de algum pescador, que segue rumo oposto. A judia acompanhara com ansiedade os movimentos do mancebo, enquanto ele examinava a canoa.

— A mesma causa que me impôs o dever imperioso de prevenir-vos contra os meus, a gratidão, creio eu que dá também o direito de me interessar pela fortuna vossa. Não atribuí pois a receio a pergunta que desejo fazer-vos.

— Tantas provas já destes de coragem, que não poderia nunca supor esse motivo.

— Dizei-me: correis ainda algum perigo?

— E grande!... Vou ser perseguido por forças superiores, se já não o sou!

— Mas não são eles vossos irmãos? Não tendes o mesmo Deus e o mesmo rei? Como se tornaram vossos inimigos?...

— Não vos posso contar a minha história. Asseguro-vos porém que sigo o caminho direito, e defendo uma causa justa. Aos outros, o Senhor os julgará.

As previsões de Estácio eram exatas. Àquela hora já ele era perseguido por forças muito superiores.

É de lembrar que o P. Molina ficara em pé na Praia do Boqueirão, quando a chalupa se afastara. Longe de sucumbir, a queda era para o jesuíta, como para Anteu, o recobro do vigor. Naquele instante mesmo, em que seu plano, combinado de há tantos anos, acabava de ser aniquilado, ele formulara rapidamente outro tão audaz e engenhoso como o primeiro.

Quando Estácio surgira de repente na casa de D. Diogo de Mariz, o visitador que o deixara, além de pobre e baldo de recursos, preso no Castelo do Mar, ficou atordoado com a súbita aparição. Como pudera ele tão depressa livrar-se da prisão e fazer a viagem de São Sebastião, naquela época, longa e penosa? Habituado a não deixar que fato algum passasse, sem lhe investigar a causa, estivera desde aquele instante a cogitar sobre o acidente. Aquela vinda repentina, coincidindo com a chegada do governador, só tinha uma explicação: D. Francisco de Sousa passara pela Bahia e trouxera consigo o herdeiro de Robério Dias para facilitar a empresa.

A fuga de Estácio na chalupa, com direção à barra, acabava de derrocar a sua primeira suposição. O mancebo não era instrumento do governador, mas servia aos seus próprios interesses; fora da barra estava naturalmente fundeado algum navio, que o esperava para fazer-se à vela, rumo da Bahia.

Sem demorar-se desta vez em buscar a explicação dos estranhos acontecimentos, compreendeu o P. Molina que o essencial era salvar Estácio, e por conseguinte o roteiro, das garras de D. Francisco de Sousa; depois trataria de conquistá-lo do inimigo mais fraco. O visitador dirigiu-se pois apressado à Rua de São José, onde o povo estava ainda em comoção por causa do arrojo de Estácio. A gente da rua falava da evasão; os guardas, a quem já o governador transmitira os sinais do mancebo, interrogavam os vários grupos.

Molina volteou por entre estes como uma vespa; em pouco não se ouvia senão este ruge-ruge: “Foi para as bandas do Campo dos Ciganos. Viram-no montar a cavalo nos ranchos de Mataporcos! Levava uma bandeira de vinte homens bem armados”.

O frade buscava assim derrotar a vigilância do governador, fazendo-o perder o rastro à caça. Com efeito o rumor foi crescendo; com pouco já ninguém duvidava que o fugitivo houvesse tomado o caminho de São Vicente; e neste sentido foram dirigidas todas as pesquisas.

Então o visitador recolheu ao Colégio, e deu suas ordens para que o galeão Santo Inácio, da Companhia, se fizesse à vela imediatamente. Quando suspendiam o ferro, o sol marcava no quadrante do Castelo meio-dia em ponto. Molina, devorando com os olhos os horizontes acanhados para a impaciência de seu audaz pensamento, exclamava:

— Ele tem quatro horas de avanço sobre mim nesta viagem; mas eu tenho sobre ele vinte anos de experiência na viagem da vida.

Passando o Forte do Leme, descobriram de bordo do galeão quatro embarcações que viravam de amuras na altura da Rasa e se faziam no bordo do norte. Seria essa conserva mandada à caça de Estácio pelo governador? Foi a primeira suspeita do frade; e bem fundada. Molina ignorava a circunstância do encontro no mar de D. Francisco de Sousa com Estácio, a qual fez abortar seu plano. Perdida a esperança de prender o mancebo na cidade, o governador se lembrara do bergantim, e pensou que devia estar fundeado em algum lugar fora da baía, à espera de seu arrojado comandante. Enquanto pois a guarda perseguia o fugitivo por terra, ordens prontas eram dadas para a partida da esquadra que já sulcava os mares sob as ordens do próprio D. Francisco.

Compunha-se ela de um só vaso de alto bordo para o caso de combate; os mais eram três galés de vinte e quatro ou dezoito bancos. O governador, previdente, escolhera de preferência os navios de remo, como mais próprios para a caça do veleiro bergantim. Quando a armada achou-se completamente alagada, só descobriu na extrema do horizonte o velame de um navio que sumia-se como um branco alcíone, adejando para os confins do mundo.

À tarde, porém, com as sombras, aquele ponto branco desvaneceu-se. Os navios, por ordem do governador, se distanciaram uns dos outros, seguindo rumos paralelos; era uma precaução para o caso de que o bergantim por estratégia mudasse a rota durante a noite, ou amarando-se ou demandando a terra. Ao romper d'alva a vigia do cesto de gávea assinalou ainda a mesma vela sempre à proa direita; mas nenhum avanço tinha a esquadra ganho sobre a caça.

Três dias passaram sem maior alteração; a caça prosseguia com igual afinco; mas o bergantim conservava sempre a mesma distância; a rapidez da singradura zombava dos esforços dos remos. Estácio já se considerava salvo, quando uma circunstância lhe fez perder toda a esperança. Gonçalo desde pela manhã que tinha o nariz ao faro e a mão sobre os olhos, explorando a extrema dos horizontes e as nuvens que se erguiam do oceano; até que afinal murchou e encolheu qual rã em tempo seco.

— O vento vai rondar!... disse ele a Estácio com uma voz triste.

O mancebo compreendeu o alcance da observação; mas desejou saber ao justo o que pensava o Antão.

— Que tem isto?

— Tem que daqui a uma hora estaremos bordejando, enquanto as malditas galés, que pouco se importam com o vento, virão sobre nós direitas como uma bala.

— E quando pensais que nos alcançarão?

— Hum!... Pela noite adiante, ou no mais tardar pela madrugada.

Eram sete horas da manhã. Nesse instante Raquel subia à tolda, e aproximou-se do mancebo para saudá-lo; ela conheceu logo em sua fronte carregada e na atitude do contramestre, que a situação piorava, e inquiriu com empenho do que era passado.

— Não vos assusteis, senhora! É um pequeno acidente que já tinha previsto, respondeu Estácio com um sorriso.

Voltando-se então para mestre Gonçalo, falou-lhe com serena firmeza:

— A minha resolução está tomada, Antão. O combate com forças tão superiores fora uma loucura. Além do mais, toda esta perseguição nada tem convosco e só comigo; eu cometeria um crime sacrificando tantas vidas a meu interesse individual. Portanto desde este momento vos entrego o comando do navio com as seguintes determinações, que haveis de jurar-me cumprir à risca. Esta dama e seu pai são livres, e os confio de vossa honra. Os prisioneiros, entregareis a D. Diogo de Menezes, se vos deixarem ir em liberdade, senão ao próprio D. Francisco de Sousa com esta declaração, que trate de guardar o Brasil contra os flamengos...

— Mas vós?... exclamou Raquel em ânsia.

— Sim, vós, Sr. Estácio, que contais fazer? perguntou Antão.

Fazendo-lhe um gesto de espera, o mancebo respondeu primeiro à interrogação da moça:

— Ficai tranquila. Levo comigo o único documento que podia comprometer vosso pai.

— É a segunda vez que me supondes movida por um receio!... Que me importa tudo isso? exclamou a judia arrebatada pela paixão. É de vós, do que pretendeis fazer, que me aflijo e inquieto. Ouvides, senhor?

Estácio fitou a donzela surpreso; pela primeira vez uma suspeita atravessou-lhe o espírito.

— Também eu, acudiu o contramestre; preciso saber para meu governo quais são vossas intenções.

— Não vos inquieteis ambos comigo. Meu destino vai cumprir-se.

Depois espraiando os olhos pela vastidão dos mares, disse à meia voz:

— O oceano é bastante vasto e profundo para esconderme à cólera dos homens e dos reis, a quem eles servem!

Raquel pendeu ao seio a fronte abatida, como o cálice de uma flor que verga para verter o orvalho da noite; duas lágrimas brilharam nas pupilas negras, e perlaram as rosas desbotadas de suas faces.

Quanto a Antão, tinha ele empinado a cabeça como um lagarto quando se aquenta ao sol e percebe rumor suspeito:

— Visto isto pretendeis lançar-vos ao mar?

— No momento em que vierem sobre nós. Não tenho outro recurso.

— Heis de estar lembrado do que nos disse João Fogaça, quando nos mandou que vos seguíssemos? Pois então ficai sabendo que daí não nos afastamos eu e minha gente. Hemos de seguir-vos até o inferno.

— Tal não fareis, Antão. Antes disso mandou ele que me obedecêsseis, e o contrário vos ordeno eu.

— Dês que me entregastes o comando deste navio, ninguém mais, senão eu, dá ordens aqui. Sois meu prisioneiro sob palavra, e é escusado vos atirardes pela borda fora, porque atrás irá quem vos traga.

Estácio levantou os ombros. O contramestre, bufando como um boto, ganhou a proa para dar as ordens; imediatamente um índio ganhou uma ponta da mezena, e outro aproximou-se do castelo de popa, prontos a se lançarem à água atrás do mancebo. As velas começaram a arfar batendo os mastros; logo após o vento escasseou, e rondou para lés-nordeste; o receio do mestre se realizava.

Estácio ficara recostado à amurada, olhando entre admirado e triste a linda judia que tinha ainda a fronte pendida e magoada.

— Por que separais agora o vosso de nosso destino?... Mais arriscada empresa cometestes do que a de tentar a sorte do combate com os que vos perseguem.

— Engano vosso! Suas embarcações são de remo; manobram com mais rapidez que não o podemos fazer.

— Em todo o caso, esse meio extremo de que por duas vezes lançastes mão para defender-vos... Por que o não empregais agora?

— De fazer voar o navio?... Mas naquela ocasião eu servia a El-Rei e a pátria; agora serviria apenas meu interesse; e fora um crime infame sacrificar tantas vidas!

— A minha, não; porque eu a dera de bom grado para vosso bem!...

— Obrigado, senhora; conservai-a para a ventura que vos espera.

— Ventura!... a mim?... murmurou a donzela.

— Demais, toda a esperança não é perdida! disse o mancebo com um sorriso falaz.

— Julgais poder escapar ao perigo?...

— Deus ainda não me abandonou!

— Oh! salvai-vos... Em nome dela... de Inês, eu vos suplico!

— Obrigado!... disse o mancebo. Não imaginais que bem me fizestes!... Neste momento supremo de minha vida representastes aos meus olhos a imagem dela. Parece-se convosco na beleza e na bondade.

Estácio travara da mão de Raquel, e ficaram ambos presos daquele mútuo anelo; ele afagando a doce ilusão que despertara em seu espírito; ela contente de ser amada um rápido instante ainda mesmo sob a invocação de sua rival feliz.

Por esse tempo debuxava-se na linha azul do oceano um relevo escuro. Logo um murmúrio confuso percorreu os bordos do bergantim.

— Terra!... Terra!... disseram vozes esparsas.

— Onde? perguntou Estácio voltando-se.

— Pela proa!

— O Antão Gonçalo?

— Ei-lo rente! acudiu o mestre.

— Sabeis qual terra seja aquela?

— São os Abrolhos!

Os olhos de Estácio brilharam, e volveram rápidos para as velas da frota do governador, que avançava com velocidade.

A voz murmurou-lhe nos lábios:

— Se...