As Minas de Prata/III/XIV

Wikisource, a biblioteca livre
< As Minas de Prata
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
As Minas de Prata por José de Alencar
A boca na botija


O P. Gusmão de Molina, depois de ter em vão buscado o roteiro das minas em casa de Caminha, convencera-se de que o manuscrito ou estava sobre o corpo do próprio Estácio, ou em algum esconderijo impenetrável.

Desta base partiu ele para as novas investigações. Preso o mancebo, viu-se já, como o fez revistar pelo carcereiro. Não se verificara pois a primeira suposição: restava unicamente a última, que desde princípio lhe parecera a mais provável. Nela pois concentrou-se o espírito do jesuíta.

Formulou então seu plano, admirável pela sagacidade e profundeza.

Era este salvar o mancebo da morte iminente e restituí-lo à liberdade. Realizada essa obra, ou o mancebo reconhecido ao benefício cedia à Companhia o roteiro mediante os aumentos que lhe prometera e a felicidade de obter a mão de Inesita; ou incrédulo e soberbo recusava, e apenas escapo, trataria logo de arredar-se da Bahia e pôr-se fora do alcance do governador.

Ora o mancebo, deixando a terra sem esperança de tornar a ela breve, devia levar consigo o roteiro, e portanto retirá-lo do esconderijo onde o ocultara. Essa era a ocasião de apanhá-lo com a boca na botija, como diz o anexim popular.

Foi em virtude desta combinação que o P. Molina mandou chamar João Fogaça, com quem teve uma prática secreta:

— O serviço que de vós exige a Companhia é o seguinte. Trata-se de descobrir um segredo importante para ela, do qual está de posse uma pessoa, que pode fazer muito mal a si e à religião.

— Conte V. Paternidade comigo, pois se estou sempre disposto e é ofício meu destruir as ruindades dos maus contra seus semelhantes, muito mais contra Deus.

— Tendes sem dúvida em vossa tropa alguns índios mansos, bons caçadores do gentio, e capazes de seguirem uma pessoa dia e noite sem nunca lhe perderem a pista?

— Tenho justamente o de que V. Paternidade fala, mas tal como não imagina.

O capitão de mato ofereceu ao padre os seus três sentidos suplementares, de quem fez os maiores prólogos de louvor.

— Bem, disse Molina, servem-me perfeitamente; mas é preciso que não busqueis saber deles qual a incumbência que lhes vou dar, e nem mesmo lhes faleis durante que permanecerem às minhas ordens!...

João Fogaça rugou o sobrolho:

— V. Paternidade desconfia de mim?... E pede meu auxílio?

O P. Molina esperava pelo assomo:

— Desconfio tanto que tudo fio de vossa lealdade e palavra de homem de bem.

— Mas por que devo eu ignorar aquilo em prol de que trabalho com os meus índios?

— Porque se trata de negócio de honra, no qual sabeis que a divulgação do segredo traz infâmia.

— Bem; dou-vos minha palavra.

— Por que não vosso juramento?

— Vale o mesmo; jurarei, se quereis.

— Não; nem da vossa palavra careço já. Basta vossa lealdade.

Postos os três índios à disposição do P. Molina, ele os industriou convenientemente; disse-lhes que no dia seguinte, às 6 horas da manhã, um moço disfarçado em jesuíta sairia da Fortaleza de Santa Luzia; o qual havia de ir em busca de um papel escondido algures, e depois tratar de se evadir da terra. A esse homem deviam os índios seguir até que tivesse em si o papel, que lhe tomariam por força ou cilada para lho trazer logo a ele Molina.

— Como é o papel? disse Olho.

— Que cheiro tem? perguntou Faro.

— Que som dá? interrogou Ouvido.

O P. Molina começou a explicar a forma do roteiro a Olho; mas a cada palavra o índio abanava a cabeça respondendo:

— Eu não vejo!...

Afinal o visitador compreendeu que o único meio de penetrar naquela inteligência era fazer-lhe entender pelos olhos; arranjou um folheto idêntico ao do roteiro que já tivera em suas mãos, e mostrou-o ao índio. Este o tomou, examinando em todos os sentidos, de face, de lado, de quina, até que pareceu ter gravado aquela forma em sua memória. Então Ouvido tomou-o por sua vez e amarrotando-o, escutou o som produzido pelo caderno com uma atenção profunda; depois deixou o papel cair no chão para ouvir a pancada e mostrou-se satisfeito.

— Tem o mesmo cheiro? perguntou Faro.

O P. Molina hesitou na resposta:

— Deve ter cheiro de paroba, porque estava guardado em uma arca dessa madeira! disse ele inspirado por uma repentina recordação.

Os índios ao sair travaram do folheto em branco para o levar; inquiriu do motivo o frade. Podia acontecer que fosse necessário para obter o roteiro fazer uma substituição rápida e sutil desse corpo por outro semelhante.

O jesuíta sorriu da astúcia dos selvagens, e tomando a pena escreveu no frontispício do caderno: Hodie mihi, cras tibi.

Na manhã seguinte, à hora aprazada, estavam os selvagens em seu posto, junto do presídio.

O moço disfarçado em frade era Estácio, cuja fuga fora, além de prevista, concertada pelo visitador. O estudante cuidara ter embaçado o jesuíta, ligando-lhe os pulsos no instante em que ele se amordaçara com sua própria mão; e bem longe estava de supor que todos esses incidentes entravam na trama urdida por Molina.

Quando pois ele transpôs o limiar do portão da fortaleza, os três índios postados em conveniente posição, separados em distância, puseram-se no seu encalço, e chegaram após ao quintal de Dulce, de onde examinaram o que passava dentro da casa, até que o mancebo partiu a cavalo e armado para palácio. Apesar do incógnito, nenhum deles duvidou da identidade da pessoa. Assim de ponto em ponto acompanharam Estácio até a casa de Cristóvão, em frente da qual e durante o jantar dos amigos, tiveram a primeira conferência. Resultou dela que o mancebo ainda não tinha consigo o papel. Olho não tinha visto o esgar cuidadoso e gesto disfarçado que denunciam o oculto portador de um objeto precioso. Ouvido não percebera ainda o ranger do papel durante que o sujeito andava. Faro enfim não sentira o aroma da paroba, de que estava o roteiro impregnado.

Esperaram portanto.

Por volta de nove horas da noite saíra Estácio de casa de Cristóvão, e tomara em direção à ribeira pela descida dos Padres. Os três índios resvalaram após como a sombra tríplice do mesmo corpo, projetada por vários raios luminosos. Todos eles iam convencidos de que chegara o momento esperado. Olho descobrira na atitude do mancebo os indícios da sutil vigilância do caçador. Ouvido notou que o passo do homem produzia sobre o chão da rua som mais leve e rápido; Faro aspirou certas emanações que lhe anunciaram o abalo de uma emoção no organismo do indivíduo.

Não se enganaram.

de João Fogaça conheceram que a caça lhes escapara, entreolharam-se com uma cara de abóbora, chata de espanto. Ouvido estendeu-se logo na rua e colou o ouvido ao chão; assim permaneceu muito tempo, até que se ergueu de chofre e deitou a correr; os outros o acompanharam. Adiante repetiu a auscultação, mas sem resultado algum. Paravam de novo.

— Estou sentindo! disse Faro.

E com as ventas insufladas, aspirando o ar como um cão de caça, foi trotando até a ribeira junto à palhoça de Esteves.

— Entrou aí!...

— Não, disse Olho mostrando o rasto: parou.

Faro cheirou a porta e a parede da cabana até o teto.

— Parou para bulir aqui no teto.

— E tirou o remo! disse Ouvido estirado no chão. Estou ouvindo a canoa.

Olho circulou a baía com um olhar de águia.

— Lá! murmurou apontando o quer que era de invisível que só ele descobria.

Os três índios caíram n'água, e nadaram para a canoa; ao chegar viram que estava deserta boiando à discrição; mas Faro confirmou, pe

las emanações que aí achou, a recente estada do mancebo.

O que distinguia os três índios era unicamente o instinto físico; havia neles, como no animal, completa ausência de raciocínio. Chegados àquele ponto, onde acharam o último vestígio de quem procuravam, não se deitaram a conjeturar sobre a direção que tomara; isso era uma função da inteligência, que não exercitavam. À semelhança do cão que perdeu o rastro à caça, começaram a nadar em roda da canoa descrevendo uma elipse e sondando os circuitos.

Essa evolução levou-os à praia que distava da canoa cerca de cinquenta braças. Aí percorrendo a orla de areia em busca de pegadas, viu Olho uma pedra solta junto do pequeno arrecife que entrava no mar; e examinando o álveo, conheceu que a sua jazida era muito recente, pois apenas alisara a flor da areia.

— Hem!... murmurou ele... Foi por aqui!...

— Foi! repetiu Faro que cheirava as pedras.

No fim das pedras pararam ainda.

— Adiante! disse Ouvido. Estou ouvindo as gotas d’água que ele deixou nas folhas.

Assim chegaram à Cruz da Expiação, onde viram na areia os sinais deixados pelas mãos de Estácio quando apagara as suas pegadas. Ouvido, auscultando o chão, ouviu ainda o passo do mancebo que se afastava, não mais pelo lado do mar, mas pelo Monte Calvário.

— Lá! disse ele erguendo-se.

Olho disparou após ele; mas Faro não se mexeu.

Com o nariz ao vento, desde que entrara na clareira, corria ele em todos os sentidos aquele pequeno espaço procurando a fonte de uma leve exalação que lhe pruria o olfato. Afinal escasseando a brisa, pôde ele conhecer a direção da veia odorífera e remontá-la ainda que lenta e incertamente; os companheiros vendo aquilo estacaram: eles formavam um corpo de três cabeças.

— Está cheirando a paroba!...

— Huh!... fizeram os outros.

Já Faro metia o nariz entre os interstícios da pilastra; Olho chegando-se viu que o cimento estava despregado; Ouvido calcou o tijolo solto:

— O papel está falando dentro.

O cossolete de malhas d'aço foi tirado do esconderijo; dentro dele acharam os índios o roteiro e o substituíram pelo rolo que dera o P. Molina.

Estácio não podia adivinhar as particulari des do fato; mas repassando na memória as circunstâncias da noite anterior, ele atinou imediatamente com o ponto onde sua prudência e vigilância foram mal avisadas:

— Não devia ter entrado na canoa!

Nisto abicaram à praia; Estácio correu à casa de Vaz Caminha e narrou-lhe o acontecido. O velho advogado o escutou impassível: nessa alma encarquilhada pela desgraça já não havia espaço para mais uma ruga.

— Que contais fazer agora? perguntou ele.

— Lembrai-vos que tenho de cor o roteiro. Acabo de o repetir em vindo aqui.

— O P. Molina a esta hora já fez o mesmo.

— Sem dúvida. Mas se eu puder ganhar-lhe a dianteira, ele não achará as indicações e balizas do roteiro, pois eu as terei destruído.

— E depois como voltareis ao lugar?

— Deus proverá e a minha memória fará o resto.

— Não é melhor, em apagando os rumos e sinais, substituí-los por outros só de vós conhecidos, de modo que perdido o roteiro de vosso pai, tenhais o vosso?

— Vosso alvitre é sempre o melhor, mestre; partirei nesta hora.

— De pouco vos servirá partir assim escoteiro. Careceis de gente e decidida, que deveis ir desse passo assoldadar. Para a paga contai comigo.

— Então amanhã por cedo.

— Amanhã, sim; mas uma coisa já vos recomendo. O novo roteiro escrevei-o em cifra só de vós sabida; evitareis assim o erro de vosso pai, causa inocente de tantas tropelias.

— E o governador?... Bem sabeis que estou alferes!

— Não vos deu três dias de folga? alcançaremos maior prazo.

Estácio, deixando o advogado, correu à casa de Cristóvão.

Seriam oito horas da noite, se tanto.

Cristóvão, sentado em frente a uma janela, com os olhos engolfados no azul, cismava. Ali naquela posição, imóvel e abatido, passava agora o alegre e prazenteiro mancebo de outrora as noites silencioso e pensativo.

Elvira!

Este era o nome que lhe adejava constantemente nos lábios entreabertos, esta a imagem que desenhava sua imaginação febricitante; mas quanto mudada daquela que antes sorria nos seus devaneios de namorado.

Desde a manhã em que saíra estouvadamente da casa de D. Luísa, Cristóvão ficara alheio de si e surpreso da realidade, como um homem que de repente e no meio do sono fosse transportado do seu a estranho país; ele podia comparar-se a um dos sete dormentes da lenda oriental. Se lembrava-se daquela noite cruel, lhe parecia ter sofrido um pesadelo, que deixara em seu espírito vaga, mas terrível impressão.

Sentia-se cheio ainda do amor mais puro e casto; porém esquecera já por qual mulher sentira na véspera ainda semelhante amor. Seria por Elvira?... Não! exclamava sua alma indignada e velando-se ao aspecto dessa imagem evocada. Sim! murmurava seu coração triste e pesaroso, desfazendo-se em lágrimas ao recordar-se da mísera desconsolada.

Assim decorreram muitos dias, durante os quais não fez Cristóvão maiores esforços para tornar a ver a infeliz donzela. De resto a sua imprudência de sair da casa estouvadamente, e a confissão desesperada de Elvira, tinham redobrado o furor da viúva, e por conseguinte aumentado ainda mais, se era possível, a guarda da casa. Por esse tempo notou João Fogaça a tristeza de seu colaço, mas a atribuiu à impossibilidade de ver a amante.

Conseguiu Cristóvão saber, graças à perspicácia dos selvagens do capitão de mato, que Elvira estava enferma; e isso, avivando o amor no seu coração, o atraía de novo com veemência para a donzela.

Então aparecera em sua casa o P. Molina, que desejoso de sondá-lo a respeito de Estácio, aproveitou a ocasião para cumprir a promessa feita a Elvira, aproximando-a de quem tanto a estremecia. O mancebo correu à casa de D. Luísa de Paiva, que o recebeu com um olhar repassado de ódio, e cheio de ameaças. Mas a recomendação do P. Molina era terminante; e a viúva, tomando uns ares de vítima resignada, tolerou que o cavalheiro visse a enferma.

Cristóvão ajoelhara à borda do leito, e tomando a mão emagrecida da donzela, que pendia inanimada, beijou-a longa e tristemente. Despertando da modorra, a donzela abriu os olhos, soltou um grito, e tornou a cerrar as pálpebras com as mãos, como se fora vítima de uma alucinação.

— Cristóvão!... murmuraram seus lábios em tênue sopro.

— Elvira minha! Olhai-me por quem sois!... Não me quereis olhar?... Causo-vos eu horror porventura?...

— Horror, meu Deus!... Alegria que me sufoca e me mata!... exclamou ela esforçando por erguer-se no leito onde caiu desmaiada.

Quando a donzela voltou a si, engolfando os olhos nos de Cristóvão, empalideceu horrivelmente, e perguntou-lhe com a voz trêmula:

— É verdade, Cristóvão, o que me prometeu ontem esse bom padre? Que ainda seremos felizes?...

— Muito felizes, Elvira! Vossa mãe deu seu consentimento à nossa união; que nos falta para a felicidade, se não for gozá-la?...

Elvira fez-se horrivelmente pálida e murmurou que ninguém a ouvisse:

— O perdão!

Desde então, afora os instantes que passava junto de sua amada, cuja convalescença era longa e vagarosa, Cristóvão buscava os lugares ermos e solitários, fugindo à companhia dos amigos e sócios de seus antigos prazeres. As noites, até desoras, passava-as ali, defronte daquela janela; o aposento permanecia na escuridão; a luz viva magoava as melancolias de sua alma; ele preferia o trêmulo rutilo das estrelas, que bruxuleavam a afogar-se no azul profundo da atmosfera. Havia também em sua alma lampejos fugazes e crebros que se imergiam em um céu de sombrias recordações.

Naquele momento acabava ele de chegar de casa de D. Luísa de Paiva.

Inesita, sabedora da enfermidade de sua amiga, fora nessa tarde visitá-la acompanhada de D. Francisco. Enquanto o fidalgo praticava na sala com a viúva, a donzela correu à câmera da enferma pensando encontrá-la só. Ao entrar não teve olhos senão para ver sua querida Elvira, magra e abatida, mas sempre formosa.

Correu a abraçá-la; sentindo em sua face ardente os frescos e macios lábios da gentil menina, Elvira exclamou com um tom pungente:

— Inesita!

— Que foi? Magoei-te?

— Não me toques!

— Perdão!

— Foge de mim!

Esta palavra caíra n'alma de Cristóvão como uma gota corrosiva; e estava desde então a gastar-lhe a alma.

A cisma do mancebo fora perturbada pelo passo rápido e forte que soou à porta; o vulto, que ali apareceu, pronunciou seu nome, mas com a voz tão agitada que não pôde ele no primeiro instante reconhecê-la:

— Cristóvão? Estais aí, amigo?

— Quem me chama?

A pessoa, que era, avançou pronto. Cristóvão então a reconheceu perfeitamente.

— Ah! sois vós, Estácio?

— Careço de falar-vos sem detença, Cristóvão. Uma desgraça acabo de sofrer, que me rouba toda a esperança. Sim, amigo, a justa reparação à memória de meu pai e à felicidade de meu amor, as duas coisas que juntas à vossa amizade faziam a vida para mim, perdi-as. O objeto de que ambas dependiam foi-me roubado por gente infame!...

— Que objeto era esse, Estácio?...

— A ocasião de revelar-vos esse segredo de minha família não se tinha ainda apresentado, Cristóvão; o roteiro das minas de prata, que meu avô descobriu, não era uma fábula como se pensou.

— Que dizeis?

— Não, pois o tive até ontem em meu poder.

— E vo-lo roubaram, dizeis?... Mas, Estácio, sem dúvida que não ides ficar sucumbido com o golpe?... Deveis castigar o infame e reaver o vosso bem!

— A isso parto amanhã, Cristóvão!

— Muito bem; e me tereis ao lado.

— Não, amigo! Para mor empenho fostes reservado. Eu me vou longe em busca de um tesouro; mas é preciso que também aqui fiques como guarda do outro e mais precioso. Irei na minha pessoa ao sertão, ficarei na vossa junto de Inesita.

Estácio contou a Cristóvão o que era passado entre ele e D. Francisco, ocultando porém a infâmia de D. José; referiu a cena da véspera com as palavras da donzela; e acabou rogando ao amigo que até a sua volta empregasse todos os esforços para obstar o casamento de Inesita.

— Ide tranquilo, irmão. Eu vos juro neste meu coração, que vivo eu, Inesita não se desposará com outro, se não fordes vós o escolhido de sua alma.

— Não aceito esse vosso juramento, nem careço de algum outro. Tudo fio de vossa amizade. Quanto à vossa vida não tendes direito de dispor dela assim, pois que pertence a Elvira.

Cristóvão disfarçou um triste sorriso.

— Ela não o levaria a mal! disse com alguma frieza.

— Cristóvão, exclamou Estácio, tendes uma corda frouxa n'alma, que desafina daquela doce harmonia de vossas palavras de outrora?... Que sopro mau a relaxou? Dizei-me, amigo, enquanto me tendes ao lado.

— Nada é nada, Estácio. Coisas que passam, e não valem a pena de com elas nos ocuparmos. Falemos de vós, e de vossas doces e risonhas esperanças!... Queira Deus que algum verme se não insinue no seio das rosas que viçam em vossa alma.

Nisto o pavimento do sobrado estremeceu com a vibração que lhe imprimia um passo robusto e pesado. Logo ouviu-se a voz de João Fogaça que chamava pelo colaço.

O capitão de mato vinha a negócio seu mui particular e de suma importância.

Eis o caso.

Desde a noite em que o azoara Cristóvão, falando a respeito da Mariquinhas dos Cachos, que o forasteiro não estava em seus eixos. Três dias passara ruminando aquela dificuldade grande de sua vida; e em todo esse tempo fugira da casa da viúva. Quando lhe acontecia passar na vizinhança, tremiam-lhe as pernas.

Afinal tomara uma resolução atrevida, e foi de pôr-se nas mãos de Cristóvão, a fim de arranjar o negócio com a Mariquinhas, a quem não tinha mais ânimo de encarar. Firme nessa resolução, foi à casa do colaço a primeira vez, mas faltou-lhe o ânimo de falar; na segunda havia ânimo, mas não soube como começar; enfim na véspera era dia de banquete e não lhe pareceu próprio. Naquela noite porém vinha decidido.

— Sois bem aparecido, João; pois careço de vossos serviços, disse Cristóvão.

— Melhor; gosto mais de ver-vos ocupado em maquinar alguma coisa, que estatalado diante de duas ou três estrelas delambidas, que passam a noite à rótula, como raparigas namoradeiras.

— Não se trata de mim; careço de vossos serviços para Estácio!

— É o mesmo! Vós e ele, ele e vós; no fim de contas sois um. Vamos ao caso.

— Estácio acaba de ser vítima de um roubo! Desapareceu-lhe um papel precioso que tinha oculto em lugar escuso; e há certeza de que isso fosse obra de um jesuíta!

— Um jesuíta?... Será um tal Molina?...

— O mesmo! acudiu Estácio.

— Pois então fui eu o culpado, sem o ser! Mas não lhe há de sair a coisa como espera! Vou atrás de vosso roteiro, Sr. Estácio; não descansarei enquanto não o restituir a seu dono.

O capitão de mato partiu-se em um daqueles raros, mas formidáveis arrancos, que ninguém fora capaz de conter.

Com pouco foi-se também Estácio assoldadar uns dez acostados para sua entrada no sertão. Naquele tempo era essa uma das profissões mais preferidas da classe necessitada; e pois fácil correu ao mancebo a tarefa.

Na seguinte manhã, depois de abraçar seu velho mestre, partiu Estácio para o sertão.