Cahetés/Capítulo VII
VII
Sabbado pela manhã Evaristo Barroca partiu para a capital. Ia furar, cavar, politicar. Depois que sahira deputado, andava sempre por lá, farejando. Bem diz o Pinheiro, aquelle vai longe. Ao meio dia Clementina teve um ataque, metteu as unhas na cara do pae, fez um alarido que attrahiu os vizinhos, bateu com a cabeça nas paredes, gritou, espumou, ficou estatelada na cama. De sorte que no domingo era provavel haver poucas pessoas em casa de Adrião.
Como me sentisse inquieto, resolvi distrahir-me aproveitando parte da noite a trabalhar no meu romance. Fui á sala de jantar:
— Oh d. Maria, dê-me uma chicara de café, por favor.
Bebi o café, tranquei-me no quarto, tirei o manuscripto da gaveta:
— Vamos a isto.
E descrevi um cemiterio indigena, que havia imaginado no escriptorio, emquanto Victorino folheava o caixa.
Desviando-me de pormenores compromettedores, construi uma cerca de troncos, enterrei aqui e ali camocins com esqueletos, espetei em estacas um numero razoavel de caveiras e, prudentemente, dei a descripção por terminada. Julgo que não me afastei muito da verdade. Vi coisa parecida quando os trabalhadores da estrada de ferro encontraram no caminho do Tanque uns vasos que rebentaram. Havia dentro ossos esfarelados, cachimbos, pontas de frechas e pedras talhadas á feição de meia lua. O meu fito realmente era empregar uma palavra de grande effeito: tibicoara. Se alguem me lesse, pensaria talvez que entendo de tupy, e isto me seria agradavel.
Continuei. Suando, escrevi dez tiras salpicadas de maracás, igaçabas, pennas de arara, cestos, redes de caroá, giraus, cabaças, arcos e tacapes. Dei pedaços de Adrião Teixeira ao pagé: o beiço cahido, a perna claudicante, os olhos embaçados; para completal-o, emprestei-lhe as orelhas de padre Athanasio. Fiz do morubixaba um bicho feroz, pintei-lhe o corpo e enfeitei-o. Mas aqui surgiu uma duvida: fiquei sem saber se devia amarrar-lhe na cintura o enduape ou o kanitar. Vacillei alguns minutos e afinal me resolvi a pôr-lhe o enduape na cabeça e o kanitar entre parenthesis.
— Está muito occupado, seu Valerio?
Abotoei a camisa, vesti um jaquetão e fui abrir:
— Não, D. Maria José. Ora essa!
Ella entrou de manso, com uns modos acanhados, acercou-se da mesa, os olhos baixos.
— Alguma novidade, D. Maria?
— E’ que... O senhor poderá tirar-me dum aperto? Não falei lá dentro porque tive vergonha. Já lhe devo tantas obrigações...
Ora sebo!
— Vergonha? E porque? Não ha razão, fiz eu com um sorriso amarello, esperando o golpe.
— Tenho precisão de cento e cincoenta mil réis. Venho importunal-o ainda...
— Cento e cincoenta mil réis, D. Maria? Agora é impossivel, e amanhã não se abre o armazem. Só lá para segunda-feira...
— Eu queria hoje. E’ até o mez vindouro.
— Perfeitamente. Mas onde vou buscar? Talvez na segunda-feira... E nem sei se poderei arranjar. Tenho quarenta. Servem-lhe quarenta?
Ella acceitou, com um gesto de resignação desalentada.
Retirei a Biblia da gaveta e procurei dinheiro entre as paginas do Ecclesiastes que é o meu cofre.
— Muito agradecida, suspirou D. Maria, recebendo as duas notas, meio desapontada. E’ por pouco tempo.
— Não se preoccupe, respondi acompanhando-a. Se não puder pagar, fica ahi como adiantamento, não tem duvida.
Voltei ao trabalho interrompido. Não pagava. Já me devia mais de quinhentos mil reis, devia também ao Dr. Liberato e ao Pinheiro. Nós sabiamos que aquillo era para o italiano, que vive a enganal-a, vai aos bordeis do Pernambuco Novo, mas não tinhamos coragem de recusar. Tão boa, tão amavel! Era pena que tivesse aquella desgraçada ligação com um traste como o Paschoal.
Embrenhei-me novamente nas selvas. Li a ultima tira e balancei a cabeça, desgostoso. Catei algumas expressões infelizes e introduzi na floresta, batida pelo vento, uma quantidade consideravel de passaros a cantar, macacos e saguis em dança acrobatica pelos ramos, cotias ariscas espreitando á beira da caiçara. Mas isto veio expremido e rebuscado. Tudo culpa do Paschoal.
Demais a mais a difficuldade era grande, as idéas, minguadas, recalcitravam, agora que eu ia tentar escrever a impressão produzida no rude espirito da minha gente pelo galeão de D. Pero Sardinha. Em todo o caso apinhei os indios em alvoroço no centro da ocara, aterrorizados, gritando por Tupan, e afoguei um bando de marujos portuguezes. Mas não os achei bem afogados, nem achei a bulha dos cahetés sufficientemente desenvolvida.
Com a penna irresoluta, muito tempo contemplei destroços fluctuantes. Eu tinha confiado naquelle naufragio, idealizara um grande naufragio cheio de adjectivos energicos, e por fim me apparecia um pequenino naufragio inexpressivo, um naufragio reles. E curto: dezoito linhas de letra espichada, com emendas. Pôr no meu livro um navio que se afunda! Tolice. Onde vi eu um galeão? E quem me disse que era galeão? Talvez fosse uma caravela. Ou um bergantim. Melhor teria feito se houvesse arrumado os cahetés no interior do paiz, e deixado a embarcação escangalhar-se como Deus quizesse.
E não sei onde se deu o desastre. Para os lados de S. Miguel de Campos, ou Coruripe da Praia por ahi... Talvez o Dr. Liberato soubesse. Levantei-me, bati á porta do quarto delle. Ninguém. Atravessei o corredor, despertei D. Maria José, que dormitava encostada á mesa da sala de jantar:
— Oh D. Maria, que é do Dr. Liberato?
Tinha ido a casa do Mendonça, que era dia de annos de D. Eulalia.
— E o Pinheiro? O Pinheiro tambem foi?
O Pinheiro tambem tinha ido. Que diabo! Fugirem todos justamente na occasião em que eram necessarios! Lembrei-me de padre Athanasio. Dez horas. Bem, devia estar accordado, decidi consultal-o. Voltei ao quarto, mudei a roupa e sahi, satisfeito por ter achado um pretexto para abandonar aquella estopada.
Na redacção da Semana encontrei o reverendo sentado á banca, só, pregando um botão na batina.
— Oh padre Athanasio, diga-me cá. O senhor conhece Coruripe da Praia?
— Conheço. E’ uma boa cidade. Muito sal, muito coqueiro. E então o povo... Você tem algum negocio em Coruripe da Praia?
— Não, é outra coisa, a novella que estou escrevendo, o romance dos indios. Preciso dos baixios de D. Rodrigo. O senhor conhece os baixios de D. Rodrigo?
— Não. Onde fica isso?
— Era o que eu queria saber. Fica por essas bandas em Coruripe, em S. Miguel, não sei onde. O senhor nunca ouviu falar? Vem na historia. Coruripe... Julgo que foi em Coruripe que mataram o bispo.
Padre Athanasio soltou a agulha, assombrado, e esbugalhou os olhos:
— O bispo? que bispo?
— O Sardinha, padre Athanasio. Aquelle dos cahetés, um sujeito celebre. O D. Pero. Vem nos livros.
O director da Semana retomou a agulha, a linha e o botão:
— Ah! sim! Pensei que fosse o D. Jonas. Ou o D. Santino. Que susto! O D. Pero... Nem me lembrava.