Cancioneiro alegre de poetas portuguezes e brazileiros - Volume I/Guerra Junqueiro
Lisboa faz e desfaz, com a mesma sem-ceremonia, os grandes poetas. É a moderna Jerusalem dos judeus antigos. Recebe em Santa Apolonia com hossanas e fados os pregoeiros da Idéa Nova em prosa e verso. Depois enfastia-se d'elles, cae em si, chama-se tola, e crucifica-os. E elles, os crucificados, chamam-lhe Lourinhã; e, se não receassem ferir conveniencias pessoalmente topographicas, chamar-lhe-hiam Freixo-de-Espada-ȧ-Cinta.
Lisboa encerra entre os seus marmores e granitos grandes cabeças antigas; mas paradas como os preciosos relogios de Luiz XIV. ― monumentos em bronze com verdete, e em craneos descabellados. Uns litteratos que já foram de maço e mona estão nas secretarias, estão nas suas casas a comer o paiz, a descascar os joanetes e a envelhecer n'um egoismo sordido. Tolhe-os uma desdenhosa indifferença por cousas litterarias. A Idéa Nova de vez em quando cita-os para os enxovalhar. Mendes Leal é o vate, Latino Coelho é o rhetorico, Antonio de Serpa é o cytharista dos soláos de 34. Como que esbatidos para dentro da idade média, nem são respeitados nem temidos na sua indolente cobardia.
Ora, cada jornal tem uma cellula em que esfervilha um recheio de ignorancia hostil á auctoridade. D'estas fermentações fumegam os effluvios, que, um dia, incensaram Theophilo, e n'outro dia Guerra Junqueiro. Os escriptores sérios a quem cumpria retardar pelo menos com o cauterio da zombaria o lavrar do cancro, esses fazem da politica uma philosophia de mais e um prato a maior na sua mesa. Para não comerem favas, trocam por lentilhas a dignidade das letras. São desprezados como merecem.
O snr. Guerra Junqueiro é actualmente um poeta inspirado de si mesmo. É o pellicano que se bica e pica nos seios da sua alma e sangra de lá a seiva de syllabas com que alimenta os seus filhos queridos os alexandrinos. Ha onze annos, todavia, não era elle tão estremadamente original. Modelava-se por mestres de auctoridade e gosto muito equivocos, e não se dedignava de subscrever poesias triviaes surradas d'um rococo patriota e chôcho.
Não é mau exemplificar, quando se põe um grão de helléboro na ambula com que me proponho engrossar os vapores do incenso que o trazem endeusado em fumo desde a Casa Havaneza até ao Pote das Almas, e d'ahi pelo resto da Peninsula dentro.
Em 1867, o snr. Guerra Junqueiro deu á luz um livrinho de versos, chamado [[Vozes sem echo]]. A pag. 125 e 126 d'este opusculo ha umas quadras (improviso) intituladas Na cruz alta do Bussaco.
Agora, outra cousa:
Na Guia historia do Bussaco por Augusto Mendes Simões de Castro, pag. 220, ha umas quadras (improviso) intituladas Bussaco, datadas em 1862, e assignadas Luiz Carlos.
Confrontem-se:
Luiz Carlos, em 1862:
Foi aqui, foi aqui que o povo lusitano
O trilho da victoria achou mais uma vez ;
Foi aqui que, gemendo, as aguias do tyranno
Rojaram pelo chão ao gladio portuguez!
Parece-me inda ouvir o grito dos vencidos,
O estrepito da lucta, as vozes do canhão;
Parecem retumbar ainda a meus ouvidos
Os echos do clarim, perdidos na amplidão!
Meus olhos cuidam vêr o aspecto magestoso
D'aquelles que o pendão da patria defenderam!
O canto da floresta, um canto grandioso,
É hymno de triumpho e nenia aos que morreram!
Bravos, dormi em paz, dormi em paz agora ;
Tranquillos repousai da ingente heroicidade:
Raiou de vossa campa a deslumbrante aurora,
Que ao velho Portugal deu vida e liberdade!
Guerra Junqueiro, em 1867:
Foi aqui, foi aqui que o braço lusitano
Os livros da victoria abriu mais uma vez!
Foi aqui, foi aqui que as aguias do tyranno
Rojaram pelo chão ao gladio portuguez.
Parece-me inda ouvir o grito dos vencidos,
O estrondo da batalha, os roncos do canhão!
Parecem reboar ainda aos meus ouvidos
Os echos do clarim, perdidos na amplidão.
Nos robles estou vendo o vulto valoroso
Dos nossos que o pendão das Quinas defenderam!
O canto da floresta, altivo, rumoroso,
É hymno de triumpho, é nenia aos que morreram!
Bravos, dormi em paz, dormi em paz agora;
Das lides descançai na santa eternidade:
Raiou de vossa campa uma sublime aurora,
Que ao velho Portugal deu vida e liberdade!
Á primeira vista, figurou-se-me que o snr. Guerra Junqueiro, ainda verde, escrevesse em 1862 com o pseudonymo Luiz Carlos; e cinco annos depois, inscrevendo-se com o seu já maduro e genuino nome, emendasse a poesia, substituindo as palavras que sublinhei.
Sendo assim, é de notar que as emendas peoraram as quadras; mas assim não foi. Luiz Carlos não é pseudonymo: é o snr. bacharel Luiz Carlos Simões Ferreira, redactor que foi do Instituto de Coimbra, e auctor de alguns poemas bons, impressos n'aquelle semanario desde 1862 até 1864.
Vê-se pois que ha dez annos ainda o snr. Junqueiro se acingia á auctoridade, tinha predilecções por certos exemplares, perfilhava dezeseis rimas de quatro quadras feitas por Luiz Carlos e improvisadas por elle, snr. Guerra, porque as rimas são de toda a gente; e Miguel do Couto Guerreiro, quando fez um Diccionario de consoantes, não disse que era dono das consoantes como das suas botas e do seu nariz. Pelo que respeita á analogia das idéas dos dous improvisos, o reparo seria uma niquice. Guerra Junqueiro servia-se então dos pensamentos communs e encontradiços; o thesouro das cousas originaes abriu-o mais tarde, quando as Flores do mal de Baudelaire se desabotoaram no bom guano que lhe offereciam os espiritos tábidos da juventude patria.
A Morte de D. João é uma desova de toda a sua originalidade franceza. Tem cousas de tanto chiste que bem se está revendo n'ellas uma graça estrangeira. O que mais realça n'este livro é o que nos faz rir á custa das desgraças sociaes, á custa da lepra do vicio, por conta do diabo «a quem quebraram os cornos», e á custa do Padre Eterno, que morreu primeiro que o «diabo derrabado».
Este geito de poesia tem d'olho regenerar os costumes nacionaes ― pondo o velho lyrismo fóra das alcôvas corrompidas pelo madrigal. A maneira de virginisar os corações das mulheres cancerados pelo sentimentalismo de Vidal e d'outros eroticos é dar-lhes Imperia, como escarmento, leprosa e hydropica, com chagas na cabeça e pustulas vermelhas, porque
Este quadro deve fazer arripiar carreira a muita menina incauta que está ouvindo a guitarra de D. João á porta das tabernas do Borratem: e não é para admirar que as excoriações que mancham as epidermes do Bêco da Agua de Flôr venham a desvanecer-se com o uso d'este poema e do sublimado corrosivo.
Contra os poetas sentimentalistas articula galantemente o snr. Guerra Junqueiro no prefacio da segunda edição do seu poema: «Os poetas sentimentalistas cantam trezentas meninas n'um livro de duzentas paginas, menina e meia por pagina, e sendo essas meninas as vossas irmãs, as vossas filhas e as vossas esposas (porque eu não posso acreditar que taes declarações sejam feitas a meretrizes), os bardos dizem-lhes cousas de tal modo indecentes que se fossem pronunciadas no meio da rua, seriam presos pela policia, e, apesar d'isso, vós admittis esses trovadores nas vossas salas, o Estado condecora-os e a sociedade applaude-os. Ora de duas uma: as confissões amorosas que constam d'esses livros ou são verdadeiras ou falsas. Se são verdadeiras, isso equivale a uma confissão de réo, e portanto o poder judicial que proceda: levem Apollo á policia correccional; se são falsas, então n'esse caso revelam uma especie de nymphomania platonica e litteraria que vós deveis expulsar para sempre das vossas memorias, das vossas estantes e dos vossos pianos»
Nymphomania, diz o poeta. Mas quem é que escreveu essas declarações amorosas e indecentes ás filhas e ás esposas dos leitores? Foi a snr.a D. Maria José da Silva Canuto? Seria acaso a snr.a D. Maria Adelaide Fernandes Prata? Praticou tal excesso a snr.a D. Maria Rita Chiappe Cadet? Se foram ellas que deram o escandalo d'esse delirio erotico, é anatomica e criticamente justo accusal-as de nymphomania platonica e sujeital-as a um tratamento lacteo e vegetal, banhos frescos, infusão de alface para bebida com sementes emulsivas de melancia e pepino. Porém, se os poetas sentimentalistas são homens, o dotal-os de nymphas o snr. Junqueiro é um hermaphroditismo que excede a alçada do seu poder creador, porque vai de encontro a todos os anatomicos desde Galeno até Bichat. Pela mesma razão, se aquellas tres referidas senhoras, na escandecencia do seu estro e paixão, começassem a enviar poemas fescenninos e lubricos ao snr. Guerra Junqueiro, s. exc.a não poderia correctmente dizer que as tres damas soffriam priapismo platonico, nem aconselhal-as ao uso de clysteres camphorados e sanguesugas nas regiões circumvisinhas.
Em a Nota final da Morte de D. João, escreve o auctor com penna copiosa: «Em geral, o poeta moderno não comprehende o seu tempo. Ignora os resultados assombrosos da chimica, da geologia, da ethnographia, da linguistica. » O snr. Guerra Junqueiro, poeta modernissimo, diz modestamente que ignora cousas que tomára eu sabel-as, como s. exc.a, excepto a anatomia que elle descura, fazendo as nymphas communs de dous.
Quanto á linguistica, este seu poema dá testemunho de que o philologo é muito superior ao anatomico. Não está bojudo de vernaculidades rançosas nem impertigado nos espartilhos de uma severa grammatica; mas, em geral, quem tiver alguma leitura de livros francezes, percebe-o. Elle conhece os gallicismos ― dil-o na Carta que precede as Caricaturas em prosa de Luiz de Andrade ― conhece-os; mas gasta-os no uso das suas idéas, porque as «palavras do seculo XV não servem para exprimir os pensamentos do seculo XIX.»
O auctor da Morte de D. João, se o forçassem a fallar com palavras de Luiz de Sousa, de Antonio Vieira e de Bernardes, calava-se, porque os pensamentos do seculo de Guerra Junqueiro não podem exprimir-se com palavras do seculo de D. Manoel. Por exemplo: quer s. exc.a pedir n'um restaurante uma omelette. Decerto a não póde pedir como a Maria Parda de Gil Vicente pediria ovos fritos na taberna de Martim Alho. Claro é portanto que a palavra do seculo XV não exprime o pensamento do seculo XIX.
Então era ovos fritos, hoje é omelette. E assim por diante em tudo que intende com o paladar e com os quatro restantes sentidos corporaes. Já agora a gente só poderá expressar-se em portuguez castiço e fazer-se intender, se acertar de encontrarse nas explanadas infinitas das Ilhas Beatas do poeta Alceu com o historiador Fernão Lopes e com as poetisas Luiza Sigêa e Paula Vicente.
Mas o snr. Guerra Junqueiro n'um escripto mais recente inclina-se a julgar que a antiga lingua portugueza é necessaria a quem escreve no seculo XIX. Na apreciação dos romances do snr. Eça de Queiroz escreve judicioso: «Infelizmente Eça de Queiroz não conhece ainda todos os recursos brilhantes de que póde dispôr, manejada por um espirito moderno, a antiga lingua portugueza.» (Occidente, n.° 7). Parece, todavia, segundo estes dizeres, que esses recursos só póde dispôr d'elles um espirito moderno. Ha espiritos antigos que não sabem manejar os referidos recursos. Lucena e Camões escreveram para subsidiar os espiritos que bordam os matizes da idéa em bastidor francez; os espiritos antigos, se escrevem, esses, os jarretas, consultam Amaro Mendes Gaveta e o Allivio de tristes do padre Matheus Ribeiro. O snr. Eça de Queiroz é mais bizarramente generoso com o seu amigo que o acoima de escasso na prosodia: «O grande poeta moderno da Peninsula» (Renascença, pag. 18), escreve com a maior liberalidade geographica o auctor d'O Primo Bazilio ― o romance mais doutrinal que ainda sahiu dos prelos portuguezes.
Eu abundo nas dimensões que o romancista marca ao poeta no mappa da Europa. Vingo-me assim da onça do Escurial que nos mostra os velhos gryphos nos sorrisos de Fernandez de los Rios e Castelar. Os hespanhoes póde ser que venham a desnacionalisar-nos; mas, em materia de poetas e prelados, a primazia ha de ser sempre do snr. Guerra Junqueiro e do arcebispo de Braga.
Emquanto se fallar a lingua de Portugal, Algarves e d'além-mar em Africa, fusca Ethiopia e Guiné, dir-se-ha sempre:
D. Frei Bartholomeu dos Martyres, arcebispo primaz;
Guerra Junqueiro, poeta primaz;
Ambos das Hespanhas.
N'este Cancioneiro alegre frizaria todo o poema do triumphante filho de Freixo-de-Espada-á-Cinta, porque não ha ahi pagina refractaria aos sorrisos discretos ou ás rinchadas dos risos que dão elasticidade á pleura e sacodem de sobre a alma o cisco das chimeras. Bom livro e bons livros quantos o snr. Guerra Junqueiro florejar n'esta sazão das suas primaveras felizes, com a carne alegre, o espirito funambulesco e os ossos sem rheumatismo! Laissez-les donc! c'est bien plus rigolboche! é o estigma do estandarte que nos vai levando á treva inferior do utilitarismo e do asco infernal da Arte.
Com medo do snr. Junqueiro já ninguem ousa consagrar á mulher amada duas redondilhas.Os amantes que sentem um Petrarcha a vibrar-lhes a protuberancia da amatividade, abafam e morrem ineditos. Escassamente se remettem da provincia ás gazetas as dôres da alma com estampilha de vinte e cinco.
O snr. Guerra, flôr das Hespanhas, ― o Musagete da occidental praia ― fez calar todos os seus dominios intellectuaes ― a Peninsula, incluindo Belem. Jayme, ultimamente, não nos ha dito o que lhe vai na alma. Como a poesia não póde espumejar do seio em trovas mais ou menos côxas, mas pudícas, os trovadores amordaçados, em vez de enroscarem as meninas nos alexandrinos, requestam-nas á unha; e pois que a alma não póde guindar-se pelas estrophes aos terceiros andares, iça-se pelos degraus de sêda. Quem tiver genio e tres francos para um Baudelaire senta-se na esteira dos prostibulos, e harpeja na guitarra a canção das chagas de Imperia e do nariz purpureo de D. João. E quem não puder tomar pé n'esta angra de lama, contente-se em reatar na sua memoria o ramal de perolas que eu ao acaso tirei do guarda-joias do nosso «Christo da poesia», como lhe chama um tal snr. Oliveira Martins. ― Que Martins este e que Christo aquelle!
Agora, e finalmente, sério:
O snr. Guerra Junqueiro tem legitimo direito a que os seus admiradores sensatos o denominem um brilhante paradoxo; porém, como arde em luz por demasia intensa e artificial á custa de espelhos ustorios, receio que se carbonise depressa e descambe de paradoxal a semsabor. Precisa de ter genio muito fecundo para equilibrar-se na maroma litteraria que escolheu. A poesia actual é uma bizarra peccadora: é a Cora Pearl um pouco já desbotada e com dous dentes postiços. Entrou em Portugal, onde tudo entra vinte annos depois que sae de França. Cora Pearl trazia um cravo encarnado no decote sujo: este cravo é o snr. Guerra Junqueiro. Ora eu, por mim, receio que elle perca o aroma, porque as flôres, em contacto com os seios calcinados d'essas mulheres, murcham depressa.
Mas conta-nos o poeta, no prefacio da segunda edição da Morte de D. João, que da primeira se venderam rapidamente 1:200 exemplares.
Quanto a isso, contarei ao snr. Guerra Junqueiro uma cousa de ranço antigo: Um grande poeta comico de Athenas, chamado Menandro, sabendo que o publico applaudira delirantemente uma comedia muito ordinaria e obscena de um versista chamado Philemon, procurou o versista applaudido, e perguntou-lhe: «Não te envergonhas dos teus triumphos?»
Que vejo eu, Senhor!
O archangelico príncipe das trevas,
O velho tentador
Das innocentes Evas;
O espirito orgulhoso,
O espirito revel
Que atirou para o céo esplendoroso
A ameaça da torre de Babel;
O heroe que andava em noites tenebrosas
A levantar cidades monstruosas,
Babylonias cyclopicas, estranhas,
Onde os gigantes ruivos, indomáveis
Construíam palácios formidáveis
No ventre das montanhas ;
Elle, o chefe dos trágicos guerreiros,
O negro salteador
Que ia lançar o fogo nos mosteiros
Para roubar as filhas do Senhor;
E que entrava nas velhas abbadias
Despedaçando os tumulos reaes
E vertendo o falerno das orgias
Sobre as letras dos gothicos missaes;
O alegre tentador de fórmas várias
Que com lascivias morbidas, secretas
Ia tentar os pallidos ascetas
Á boca das cavernas solitarias;
Elle, o pagem que em noites luminosas
Ás castellãs dormentes, vaporosas
Ia cantar as languidas balladas;
E que ás vezes parava em seu caminho
Seduzindo as crianças virtuosas,
Que estavam descuidadas,
Fiando o alvo linho
Á beira das estradas;
Elle, o filho da treva e do peccado,
O orgulhoso da raça de Caim,
Até me custa a crêr que o veja assim
Repellente, grotesco, desdentado.
E que vida sombria, aventurosa
No seu nariz gigante,
Que parece uma tromba de elephante
Pintada com a cor da caparosa!
N'aquelle olhar cançado, metaphysico,
N'essas pupillas baças
Revelam-se as desgraças,
A hypocondria d'um macaco tysico.
É como um infeliz pelotiqueiro
Esguio, frouxo, velho, quasi nú,
D'esses que a gente encontra pelas praças
Vestidos em janeiro
Com um manto real de panno crú.
Por te vêr sujo, escalavrado e roto,
Não me enganas, maroto,
Bem te conheço a ti;
Não me causas nem odio, nem horror;
Dize-me, pois que vens fazer aqui?
Vens a buscar a alma do doutor?
Eu venho trazer a minha.
Ando já mesmo na espinha,
Sou como um figo maduro,
Um cão tinhoso, nojento
Que vai buscar o alimento
Ás podridões do monturo.
Os philosophos modernos
Foram lá baixo aos infernos,
Destruiram-me os telhados,
Deixaram-me a casa núa
E puzeram-me na rua
A pontapés. Que malvados!
Fui o exemplo dos reinantes;
Tive trezentas amantes
Mettidas no meu harem,
Como um illustre varão,
O frascario Salomão,
Que eu conheci muito bem.
Fui catholico-romano:
Tambem tinha um Vaticano
Onde os bons dos cardeaes,
Com theologia excellente,
Discutiam sabiamente
Peccados originaes.
Quando cheguei a este mundo
Vinha roto, vinha immundo,
Cabeça núa e pés nús;
Que martyrio inda não visto !
Para o diabo ser Christo
Faltou-me apenas a cruz.
Fui a Roma. O padre santo
Mal me viu, banhado em pranto,
Logo me fez cardeal:
Vesti saiotes vermelhos,
E encobriram-me os chavelhos
Com a mitra episcopal.
Era eu quem dirigia
A sagrada mercearia
Do velho mundo christão;
E o pontifice entrevado
(Que bello homem! coitado!)
Chamava-me seu irmão.
Afinal, oh coisa incrivel!
Tornei o papa infallivel,
Tornei-o santo tres vezes;