Casos do Romualdo/VIII

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Casos do Romualdo por João Simões Lopes Neto
Caçar com velas


Poucas, as pessoas cuja vida tenha deslizado serena sempre, como um dia de sol sem nuvens; raros, aqueles que Viveram sempre ao abrigo da luta pela existência; e se esses, assim postos ao abrigo, por uma circunstância toda especial da fortuna ganha pelos seus progenitores, se esses, digo, fossem de momento lançados àquela luta, provavelmente nela sucumbiriam, por entrarem na liça muito tarde, sem preparo algum nem o hábito da peleja e dos seus rigores nem da utilização das próprias faculdades.

A necessidade é uma grande mestra, e é sempre preferível que os homens moços aprendam com ela.

Houve um tempo em que eu cacei - não como amador, por simples recreio - mas por necessidade, para ganhar a vida, como negócio, em suma.

É claro que não ia perder as minhas horas a espera de preás nem tuto-tucos, nem tampouco a levantar bem-te-vis ou pica-paus. Nada: procurava caça redonda, de poder até fazer fortuna com da, pois já não podia atender às encomendas que de toda parte me chegavam.

Cada dia mais avultavam os pedidos: os compradores pagavam à vista e sem rega-tear, por vezes, para ver-me livre deles, pedia preços loucos.., nem assim!

É que eu tinha uma especialidade! -mas que especialidade! - só, somente vendia peles de onças, muito bem tiradas com rabo, cabeça e garras — tudo perfeito, sem um talho, sem um furo, sem um buraco!

Todos podem matar - e alguns, matam - onças a tiro, como eu; mas por melhor que seja esse atirador, ele estragara - sempre - o couro da presa, porque usa balas ou balins ou, pelo menos, chumbo grosso.

Eu, não: só empregava... Esperem um pouco.

Parece até que tomava a minha caça em urupuca, inteirinha, sem um arranhão, e esfolava-a tranqüilamente, como se depenasse um perdigão.

Era isso o que encantava os compradores dos meus couros... de onças.

Vários bisbilhoteiros acompanharam-me ao mato para verem o meu sistema; deixava-os ir, convidava-os mesmo, porém dispistava-os facilmente.

Como conhecia os paradouros das onças, encaminhava-me para lá.

Afoutamente.

Assobiando.

Mal os bichos pressentiam a aproximação de gente, principiavam a urrar, já assustados, mas para assustar'...

Eu, então, para fingir medo, punha-me em altos brados, a chamar pelos tais fulanos... e quanto maior a gritaria, mais urravam as onças e... mais fugiam os bisbilhoteiros! Então ficava só em campo, ou antes, no mato, muito a meu gosto.

Outros, invejosos, diziam que eu tinha um - breve - contra onça; outros, que rezava a oração de São Cogominho, que é muito forte contra os perigos do mato.

Diziam, porém tudo pura invenção.

O meu segredo era simplíssimo.

Como se sabe, é o homem o único animal capaz de respirar pela boca; todos os demais bichos respiram unicamente pelas ventas: quem lhas tapar, mata-os. Fiz centenas de verificações, por isso afirmo.

E mais, todo o bicho preso pelo focinho é bicho dominado. Veja-se o touro, por bravo que seja, uma vez tendo uma argola passada nas ventas, já está dominado, o potro, com um cachimbo bem passado, está entregue; e assim outros.

Foi partindo desta certeza que pus em prática o meu processe, mesmo porque naquela época eu não tinha ainda descoberto minha futura famosa essência - de cachorro - que tão notáveis vitórias granjeou-me. Quando ia para o mato levava duas espingardas - das marrequeiras — de carregar pela boca, e de munição de guerra apenas espoletas, pólvoras e buchas.

E em vez de ...... espere um pouco!

No que descobria a onça, fazia barulho, assanhava-a!

Ela pulava, encastelava-se numa forquilha de qualquer árvore, agitando a cauda lambendo as barbas, miando rouco, afiando as unhas...

Eu, parava-me bem em frente - que e a regra - porque se você dá costas, a onça pula-lhe em cima, e, adeus! era um dia...

Carregava a marrequeira com a sua espoleta, sua carga de pólvora e uma bucha, de sabugo de milho; depois então é que metia a... Espere um pouco!

Mas não despregava os olhos da fera. De tal forma a gente acostuma-se a estes perigos que chega a carregar a arma simplesmente pelo tato e pelo ouvido.

Quando estava preparado enfiava na mira a racha do fochinho da onça, e pum!

O bicho recebia a carga bem nas fuças; roncava, sufocado, e vinha ao chão, tonto, inconsciente, mortalmente batido, com as ventas entupidas e com o atilho pendurado no focinho.

Lestamente coma, por ele amarrava a fera a qualquer ramo e já carregava a segunda espingarda - pra dar à primeira o tempo de esfriar - e assim, ia-me à segunda. terceira, sétima onça, etc.

Caçado o número marcado, sangrava cada uma e tirava-lhe o couro, sem um talho, sem um furo, um buraco: perfeito, sem avaria!

Em lugar de balas eu comprava velas de sebo, já preparadas pelo calibre das armas em cada ponta do pavio ia preso um forte anzol.

Com o calor da póvora, no tiro o sebo saia derretido, e dando bem pela frente nas ventas da onça, entrava por elas a dentro, enchendo-as e entupindo-as; a fera mesmo espirrando não mais podia expelir aqueles batoques, que, endurecendo, asfixiavam-na.

O pavio também seguia o seu caminho: um dos anzóis fisgava certo, no focinho; o outro quase sempre pegava na língua, outra vez numa das beiçolas ou no céu da boca... e cravava-se fortemente. Assim, firmado pelas duas pontes, o pavio formava uma alça.

O..........

A..........

Nem é preciso explicar.

As cousas mais simples são sempre as que parecem mais difíceis.

Desvendado, o meu segredo é como o ovo de Colombo; agora todos dizem:

— Ora, que milagre!... Assim, Romualdo, assim, eu também faço!