Cinco de Maio/De F. A. de Varnhagen

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Á MORTE DE NAPOLEÃO
(5 DE MAIO)
(DE FRANCISCO A. DE VARNHAGEN)
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ORREU. E, como estátua,

Desde o lethal suspiro,
O corpo jaz inanime,
Sem mais soltar respiro.
Assim, percussa, attonita,
Co'a nova, a terra está,
Muda, a pensar na última
Humana hora fatal;
Crê que jamais tão sólida
Planta de pé mortal
Seu pó cruento, impavida,
A recalcar virá.

Calado o viu meu genio
C'o sceptro refulgido. (1) [1]
Logo, com sorte vária,
Cai; recai, mal surgido;
E que ao clamor unanime
Se uniu ninguem dirá.
Virgem de abjecto encómio
E de ultrage covarde,
Agora surge, ao subito
Cessar de tanto alarde;
E á tumba off'rece um cantico
Que ha de viver, quissá.

Dos Alpes ás Pyramides,
Do Rheno ao Manzanares,
Qual rapido relampago,
Qual raio, fende os ares,
De Scylla até ao Tanais,
Desde um a outro mar.

Foi véra glória ? Os posteros
Que sentenceiem. Nós
Saudemos o Altissimo,
Que a este mundo o impôz.
Seu creador espirito
Quiz tal prodigio obrar.



O procelloso e trépido
Gosar de vastos planos,
Do nobre peito as âncias
A um reino entre os humanos
Logrou feliz, com premios
Insanos de idear. (2)
Teve de tudo : a glória,
Maior sôbre o perigo ;
A fuga e a victória ;
O solio e o triste abrigo; (3)
Duas vezes ver-se infimo ;
Duas vezes sôbre o altar.

Assoma. Eis dous seculos,
Um contra o outro armado,
Prostram-se perante o inclyto,
Aguardando-lhe o fado. (4)
Silencio impôz, e, árbitro,
Entre ambos se sentou.
Cahiu. E o fórçado ócio
Em apertada scena,
De invejas seio próvido,
De piedade e de pena,
De inextinguivel ódio,
E duro amor, passou.

Qual sôbre o corpo ao náufrago
Se involve e pesa a vaga,
Vaga em que ha pouco o misero,
(Que ella ja todo alaga)
Abria os olhos, avidos
De avistar terra em vão,

Assim sôbre a alma o cúmulo
Lhe pesa dos seus actos.
Oh ! quanta vez aos posthumos
Tentou narrar os factos,
E sôbre a eterna página
Tombou-lhe ignava a mão !

Oh! quanta vez, ao tacito
Morrer de inerte dia,
Baixando o olhar fulmineo,
Os braços cruzaria,
E seus dias preteritos
Viria a recorrer !
Lembram-lhe as tendas bellicas,
E os valles retumbando.
O trotar dos quadrupedes,
E os ferros scintillando,
E o provocado imperio,
E o presto obedecer.

Ai! que talvez o ânimo,
Fallecido de alento,
Desespera. Eis válido
Braço do ceu, com tento, (5)
A auras mais placidas
Piedoso o transportou.
Guiou-o ás flóridas
Sendas da esperança,
Ao campo eterno, ao prêmio
Que os humanos avança, (8)
Onde ha silencio funebre
Da glória que findou.

Bella, immortal, benéfica
Fé triumphante e viva,
Tens mais um louro : alegra-te ;
Que cerviz tão altiva
Em deshonra do Golgotha
Jamais se subjugou.

Longe, eia, pois, do túmulo
A detracção ignara!
O Deus que humilha os rígidos,
Nos consola e ampara, (7)
Do humilde leito tetrico
Para si o chamou.

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  1. (*) Os versos que levam algarismos são aquelles para que ha as variantes transcriptas no fim da nota C deste opusculo.