Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A mão do finado

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
42. A mão do finado



42. A MÃO DO FINADO

Havia um mercador, que tinha trez filhas, e tinha por costume ir buscar fóra da cidade uma renda todos os annos. Aconteceu fallecer a sua mulher, e tendo de ir receber a renda custava-lhe deixar as filhas sósinhas. Disse então o mercador:

— Minhas filhas, eu preciso de ir receber a renda do costume, mas está-me custando ir, para as não deixar sós.

As filhas responderam:

— Vá, meu pae, que não nos hade acontecer nada; nós havemo-nos de fechar por dentro, e não se consente que ninguem entre cá.

O mercador foi-se, fiado na palavra das filhas. Havia fóra da cidade uma quadrilha de ladrões, e o capitão d’elles andava á espera da occasião da partida do mercador. Assim que soube do dia em que o mercador sahiu da cidade, vestiu-se em trajos de velho pedinte, e quando anoiteceu estava e toda a sua quadrilha no canto da rua onde moravam as trez meninas. Veiu o capitão bater-lhes á porta, e como estivesse chovendo, pediu pousada do ár da noite. As meninas mais velhas compadeceram-se d’elle, e queriam-no agasalhar; a mais moça disse:

— Não! lembrem-se da palavra que deram ao pae; dê-se-lhe uma esmola, e elle que vá com Deus.

Respondeu a mais velha:

— A menina como mais criança não determina nada aqui!

E o velhinho sempre entrou para dentro; deram-lhe na cosinha uma enxerga e cordas para elle estender a roupa, e puzeram-lhe a ceia diante. As meninas depois de terem arranjado o velho, foram tambem ceiar; eis senão quando o velho abriu a porta da cosinha e veiu ter com as meninas á meza e deu-lhes trez maçãs dormideiras, uma para cada uma comer á sobremeza. Ficou vendo se as meninas as comiam; as mais velhas comeram as suas, mas a mais moça não comeu e escondeu-a para o velho a não vêr e não desconfiar. Foram-se as meninas deitar e as mais velhas pegaram no somno muito depressa; mas a mais nova não dormiu com medo, mas fingia tambem que dormia. Quando o ladrão viu que estavam já dormindo, levantou-se e foi ao quarto das meninas, puxou um alfinete real, chegou ao pé da menina mais velha e deu-lhe uma picada a vêr se estremecia. Ella não sentiu a picada. Fez o mesmo á segunda; não sentiu. A mais nova com medo do ladrão a matar, fez-se dormindo, elle fez-lhe o mesmo e ella não sentiu.

O ladrão trazia comsigo uma espada, uma pistola e uma mão de finado e pôz n’uma banca estas coisas todas. A menina mais nova abriu os olhos para vêr a determinação do ladrão, e tornou-os a fechar. O ladrão accendeu o lume á mão do finado para as meninas ficarem mais pesadas no somno, e correu as casas para arrumar o que tinha que roubar. Abriu o alçapão que dava para a loja das fazendas, entrouxou o que quiz, e abriu a porta da loja, e sahiu a chamar a sua quadrilha. A menina mais moça levantou-se ao mesmo tempo que o ladrão sahiu, viu as trouxas das fazendas promptas, e a toda a pressa trancou a porta da loja. O ladrão que já vinha com a quadrilha, ainda se pôz aos empurrões á porta, e dizia:

— Foi a mais mocinha que me enganou, e que não comeu a maçã dormideira.

E começou a dizer que ella lhe havia de pagar tudo. Teve ainda a confiança de tornar a bater á porta, pedindo á menina que lhe desse a sua mão de finado. Ella respondeu de dentro, que a mão estava em labareda, e que não sabia como a apagar. Disse o ladrão, que a deitasse n’uma tigella de vinagre, que ella se apagava. A menina veiu cá acima buscar a espada que o ladrão tinha deixado, e disse-lhe:

— Aqui está a mão do finado.

Ora na porta havia um buraco em cima em que cabia uma mão; e disse-lhe o ladrão:

— Metta a menina a mão pelo buraco.

— Se quer, metta a sua, que eu lhe darei a mão do finado.

Vae o ladrão cáe em metter a mão e a menina traçou-a com a espada. Os ladrões foram-se embora, e o capitão com a mão quebrada. A menina foi para o quarto onde as irmãs estavam dormindo, apagou no vinagre a mão do finado, e ao mesmo tempo as irmãs começaram a estremecer, e acordaram. A boa da menina fel-as levantar, contou-lhes tudo, e levou-as a vêr os signaes da desgraça em que estavam. Ellas ficaram muito assustadas, e choraram muito lembrando-se do que o pae diria quando chegasse e soubesse que lhe tinham desobedecido.

Chegou o mercador da renda, e viu as filhas apparecerem muito tristes. Pediu a menina mais nova a seu pae que a escutasse; contou o que era passado e como se tinha livrado dos ladrões. O mercador chamou então as filhas e disse:

— D’aqui por diante daremos obediencia a sua irmã mais moça; eu com ser seu pae, farei o que ella determinar, porque venho a conhecer que vos livrou da morte e de ficarmos desgraçados.

Quando, por fim de muitos annos, o capitão dos ladrões, que tinha mandado fazer uma mão de ferro com engonços e andava de luvas, vestido como qualquer senhor, estabeleceu um armazem defronte da casa do mercador. Ora um dia o mercador, por lhe parecer boa pessoa convidou-o para elle ir lá jantar. Elle acceitou de boa vontade, e as meninas ficaram satisfeitas do pae convidar tão bom visinho. A mais nova é que ficou muito triste, e o pae lhe perguntou o que era. A menina respondeu que não gostava que o pae convidasse o tal senhor para vir a sua casa. Chegou a hora do jantar e foram para a meza; as duas outras irmãs, já se sabe, muito contentes. Houve uma conversa, e n’este mesmo tempo o visinho pediu em casamento a menina mais nova ao pae. O mercador ficou muito satisfeito e disse que sim; mas a menina respondeu:

— Aqui o desengano, pae, que com elle não quero casar.

O visinho ficou aborrecido, e pediu a mais velha, que ficou muito contente, e elle começou a dizer os bens que tinha, e que morava em uns palacios longe da cidade. Chegou o dia do casamento, despediu-se a menina mais velha, e montou no carro mais o marido para fóra da cidade. Lá no meio da estrada elle apeou-se, mais a mulher, pagou ao bolieiro para não saber onde elle morava. Foram andando até que chegaram a umas casas mettidas n’uns mattos. Assim que a sua companhia o avistou, vieram com seus oiros e joias offerecer á senhora, dizendo elle que era a sua mulher. Entrou com ella para um quarto, e lhe deu um papel para escrever uma carta a seu pae, que elle notou, dizendo que estava muito satisfeita com vêr tanta riqueza e que mandava buscar uma de suas irmãs para estar uns dias em sua companhia. Acabada a carta, que elle arrumou, tirou então a luva e a mão de ferro e mostrou-lhe o braço maneta, dizendo:

— Conheces quem me fez isto?

Ella respondeu-lhe que não.

— Bem sei que não tens culpa, mas o pagarás e tuas irmãs tambem.

Acabado isto pegou na espada e degolou-a. No fim de uns dias levou a carta ao sogro, que a sua mulher lhe mandava, e o pae leu-a, e disse á filha do meio que fosse. O ladrão levou-a comsigo, fez com que ella escrevesse uma carta para vir a mais moça, e depois de a degolar, veiu com a carta. O pae mandou a ultima filha que tinha em casa; ella não queria ir, mas para não desobedecer sempre se resolveu. Foi com o cunhado, que no meio da estrada a fez apear, e depois de irem a pé por muito tempo, descalçou a luva e mostrou-lhe a mão, dizendo:

— Tuas manas já pagaram; agora é a tua vez.

Chegaram a casa; os ladrões appareceram-lhe todos, e elle disse:

— Façam de conta que é minha irmã.

Pôz ao pescoço da menina uma pêra de oiro, e disse:

— Podes ir a todos os quartos d’este palacio, menos a este.

Partiu com a quadrilha, mas assim que voltou costas, a menina tirou a pêra do pescoço e foi ao quarto dos mortos. Viu lá um menino principe todo esfaqueado, que lhe disse:

— Esta casa é um covil de ladrões; o que faz a menina por aqui? Olhe que elles estão ahi a chegar.

A menina fechou outra vez tudo; botou a pêra ao pescoço, e n’isto chega o cunhado.

— Fez o que lhe mandei?

— Fiz.

Elle olhou para a pêra sem malha, ficou muito contente; destinou-lhe serviços para ella fazer, e foi-se outra vez embora para uma viagem de outo dias.

A menina tirou a pêra, e foi ao quarto dos mortos levar um caldo ao menino principe, que ficou são. Sentiram uns carros do rei que levavam esterco e elles fugiram e foram ter com os carreiros para os levarem para o palacio. Chegaram aos carreiros e perguntaram:

— Que novidades ha n’essa cidade?

— Officios dobrados pela falta do principe.

— O principe sou eu; e esta menina deu-me a vida, na casa onde estava esfaqueado pelos ladrões. Agora, carreiro, deita esterco fóra do carro de traz, põe meia sebe e deita em cima o esterco, que nós nos escondemos ahi.

O carreiro assim fez; eram trez carros e pozeram-se a andar. Os ladrões tinham encontrado um feiticeiro, e elle offereceu-se para ir para a sua companhia. Chegaram a casa, o capitão não encontrou a menina, mas o feiticeiro logo lhe disse que ia fugida no carro de traz.

Partiu um dos ladrões para a ir buscar; chegou ao carreiro, mandou-o parar, e cavar no carro de traz até meio, e vendo que não achava nada, foi-se. Os meninos passaram para o carro segundo. Chegando a casa, disse o ladrão:

— É mentira; não achei ninguem, pois despejei o carro até meio.

Disse o feiticeiro:

— Despeja o carro todo, que elles lá estão.

Parte o ladrão a toda a pressa, apanhou o carreiro, mandou despejar o carro todo, e como os meninos já tinham passado para o carro do meio, não achou nada. Foi-se embora furioso contra o feiticeiro. Diz o sabio:

— Vão agora no carro do meio.

Partiu o ladrão, e mandou despejar o carro do meio; mas não achou ninguem. Diz outra vez o feiticeiro:

— Vae lá, que elles passaram-se para o carro da frente.

Mas os carros chegavam já ao palacio e escaparam os meninos. O rei ficou muito contente por ter tornado a encontrar o seu filho, e soube da menina tudo desde a mão do finado até dar a vida ao principe, que quiz logo casar com ella. O rei deu o sim, e no dia das festas do casamento veiu um dos ladrões com obras de oiro, entrou para a egreja que estava preparada, e abriu uma sacca, e dizia com ár de tolo:

— Tão bonito! tão bonito!

Appareceu ali um vassallo e disse:

— Quando você se admira d’isto, que seria se visse a camera real.

Disse o que se fingia tolo:

— Eu dava todas estas obras de oiro a quem me levasse lá.

O vassallo offereceu-se, e o ladrão no meio de tanta gente sumiu-se e metteu-se debaixo da cama sem o vassallo vêr. Casaram-se os principes, e foram para a camera real; a princeza com uma grande agonia não podia dormir, e não se quiz deitar.

Diz o principe:

— Deita-te, que os ladrões não podem vir aqui matar-nos.

— O meu coração me diz que mesmo aqui me hãode vir matar.

O principe levantou-se, chamou uma sentinella para fóra da porta e um leão para a borda da cama. O leão mal entrou começou a farejar para debaixo da cama; a menina levantou-se e foi vêr aonde o leão estava dando signal. Chamou o principe para vêr um dos ladrões que os tinham querido matar. Acudiu a sentinella, que fez sahir o ladrão que ainda fingia de tolo, dizendo:

— Tão bonito! tão bonito!

Mas levaram-no d’ali para a prisão, até confessar quem o tinha ali mettido, sendo enforcado com o vassallo. O rei mandou tropa a rodear a casa dos ladrões, foram todos mortos, e encontraram muitas riquezas, que o rei deu aos noivos que foram muito felizes.

(Ilha de S. Miguel — Açores.)


Notas[editar]

42. A mão do defunto. — É uma versão popular do Barba azul. Gubernatis, na Myth. zoologica, t. I, p. 182, resume o XIV conto esthoniano, de Fred. Kreuzenwald, pertencente a este mesmo cyclo. Na mesma obra, t. II, p. 36, traz outra versão italiana d'este conto com o titulo O rei dos assassinos, não colleccionada. Nos Contes populaires de la Grande Bretagne, trad. de Brueyre, vem uma versão de Yorkshire, colligida por Gould nos Curious Myths, com uma nota interessante a pag. 407. Segundo Brueyre, a parte mythica do conto é a mão de gloria, que se liga ao mytho do fogo. No Folk-Lore andaluz, p. 308, ha uma versão do marido que mata as mulheres, até que a ultima vinga as irmãs. Este mesmo thema subsiste nos contos populares portuguezes no romance do Rico Franco. Na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 149, vem uma versão de Sevilha, intitulada Mariquilla la ministra, em que se confunde tambem o conto da Maria Sabida.