Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A sardinhinha

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
14. A sardinhinha



14. A SARDINHINHA

Uma mulher tinha trez filhas; foi com duas para o trabalho, e ficou em casa a mais nova para tratar da comida. Comprou dez reis de sardinhas, e foi assal-as na grêlha. Quando estavam nas brazas, saltou uma das sardinhas para o chão; a rapariga pegou n’ella e tornou a pol-a na grêlha. D’ahi a pouco tornou a dar um salto, e tambem um gemido. A rapariga meio assustada foi levantar a sardinha do chão, e ella disse-lhe:

— Não me mates! Pega em mim e leva-me á borda do mar, e segue pelo caminho que se te deparar.

A rapariga foi, e assim que deitou a sardinhinha ao mar, formou-se logo uma estrada muito larga; ella seguiu por esse caminho a dentro e foi dar a um grande palacio, onde estavam muitas mezas póstas. Ella correu todas as salas, viu muitas joias, muitas riquezas, mas o mar tinha-se tornado a fechar, e já não pôde tornar para traz. Deixou-se ficar ali, e dormiu em uma cama muito rica e muito fôfa que achou. Para se entreter despia-se e vestia-se com vestidos riquissimos que lá se guardavam.

Todos os dias lhe apparecia um homem em figura de preto, que lhe perguntava se ella estava contente.

— Eu contente? o que me faz pena é lembrar-me que minha mãe e minhas irmãs estão trabalhando todo o dia para poderem comer qualquer cousa, e eu aqui.

— Pois bem, disse-lhe o preto, leva o dinheiro que quizeres, vae vêr tua mãe e tuas irmãs, mas não te demores lá mais do que tres dias.

E tornou-se a abrir a estrada no mar. A rapariga chegou a casa, contou tudo, a mãe ficou muito contente com o dinheiro, e as irmãs fizeram-lhe mil perguntas do que havia no palacio, e se não tinha medo de ficar de noite sosinha? Ella disse que tinha o somno muito pesado. As irmãs disseram:

— É porque te botam coisa no vinho, que te faz dormir; finge que bebes, mas deita o vinho fóra, para sentires o que se passa de noite no palacio.

Acabado os tres dias ella voltou pela estrada aberta no mar, entrou no palacio; comeu, ceiou, e fingiu que bebia. Quando se deitou já não teve o somno tão pesado, e sentiu que alguem se deitava ao pé d’ella. Ficou bastante assustada, e deixou-se ficar muito quieta; quando estava tudo muito socegado, accendeu uma vella para ver o que era. Era um principe muito formoso; inclinou-se para vel-o melhor, e caiu-lhe um pingo de cera no rosto. Elle então acordou:

— Ah cruel; que só faltavam oito dias para quebrar o meu encantamento. Agora para me poder desencantar é preciso que tu soffras grandes trabalhos por mim, sem nunca te queixares. Toma lá esta carapinha; quando te vires em alguma afflicção de que te não poderes livrar, diz:

— Valha-me aqui quem me deu esta carapinha.

E n’este instante desappareceu o principe e o palacio, e a rapariga achou-se sósinha no meio de um descampado. Ia passando um rancho de pretas, que lhe disseram muitas chufas, e lhe arrepellaram os cabellos. A rapariga soffreu tudo sem dizer nada. Passou um jornaleiro e ella propoz-lhe trocar os seus vestidos cravejados de brilhantes pelas roupas do pobre homem, e assim já com outro traje foi-se offerecer para hortelão da casa do rei. A rainha começou a gostar do hortelão, porque tinha uma cara bonita, mas como elle não lhe correspondia foi fazer queixa ao rei, que era precise mandal-o matar porque tinha commettido um atrevimento muito feio. O rei mandou metter a tormentos o hortelão para confessar o que fizera, mas elle soffreu tudo negando sempre. A rainha teimava que queria que se enforcasse; ia elle já para a forca, e lembrou-se de dizer:

— Valha-me aqui quem me deu esta carapinha.

A execução interrompeu-se ao grande barulho de uma carruagem que trazia um alto figurão, que deu ordem para parar tudo. Levou o hortelão comsigo para o paço e disse ao rei que era impossivel ter elle commettido o atrevimento de que a rainha o accusava, senão que mandasse as camareiras examinar. Assim aconteceu e a rainha é que foi deitada a uma fogueira. O encantamento quebrou-se pela constancia com que a rapariga tinha soffrido todos os tratos e o principe casou com ella por agradecido.

(Algarve.)


Notas[editar]

14. A sardinhinha.Gubernatis cita differentes contos russos das collecções de Afanasieff e de Erlenwein, de Ferraro, etc., do peixe que dá fortuna. (Myth. zoolog., II, 357.) Nas Notte piacevoli, III, fabula 1.ª, vem este conto, que tambem figura no Pentamerone de Basile, Jornada III, fab. 1.ª No Catapalha Brâhmana, e no Mahâbharatha, Manu socorre um peixe, de quem recebe depois a salvação do diluvio. Vichnu tambem os transforma em peixe. Husson cita um fragmento de um conto colligido por Luzel (Chaine traditionelle, p. 60.) A menina-pagem accusada pela rainha é o thema de um conto citado por Gubernatis (Myth. zoolog., t. II, p. 405), colligido em Antignano. Nos Contos populares portuguezes, n.º XIX, vem sob o titulo A afilhada de Santo Antonio, versão de Coimbra; repete-se na ilha de Sam Jorge com o nome A afilhada de Sam João. Consiglieri Pedroso cita o conto russo da collecção de Afanasiev, n.º 162, O sapatinho de ouro (Zolotoii bachmatchola) que pertence ao cyclo do peixe encantado.