Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/As trez fadas

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
5. As trez fadas


5. AS TRES FADAS

Era uma vez uns casados que não tinham filhos, e viviam por isso muito descontentes. A mulher foi-se confessar ao Padre Santo Antonio, e contou-lhe o seu desgosto. O santo deu-lhe tres maçãs, para que as comesse em jejum. A mulher chegou a casa, pôz as trez maçãs sobre uma commoda, e foi arranjar o almoço. O marido vindo de fóra encontrou as tres maçãs e comeu-as.

Ao almoço a mulher contou o succedido na confissão, e o marido ficou todo assustado. A mulher foi outra vez fallar com o santo, que lhe disse:

— Pois os trabalhos por que tínhas de passar, o teu marido que os passe.

Chegado o tempo o homem começou a gritar, chamou-se pessoa entendida, e abriram-no para o alliviar. O homem desesperado mandou deitar a criança no monte. Uma aguia desceu do ár e levou a criança no bico e lá a creou com o leite que ia tirar ás vaccas que andavam pastando, e agasalhava-a com a roupa que pilhava pelos estendedouros. Fez-lhe uma casinha de palha, e ali se creou a pobre criança, que se tornou uma menina formosa.

Um dia passou por aquellas montanhas um principe que andava á caça; viu aquella menina tão linda, e perguntou-lhe se ella queria ir com elle. Respondeu que sim. Quando a metteu na carruagem, acudiu a aguia para lh’a tirar, mas não podendo ainda lhe vasou um olho. A menina ficou com aquelle grande defeito, mas o principe não deixou de a amar. Levou-a comsigo, e escondeu-a no seu quarto no palacio. A rainha desconfiada de vêr o filho sempre fechado no seu quarto, quiz saber o que seria, e combinou uma grande caçada, que durava dias. Foram todos e por lá andaram, e a rainha pôde entrar no quarto do filho por uma porta que só ella sabia. Assim que entrou viu a menina:

— Ah! és tu, torta zarôlha, que tanto encantas o meu filho? Anda d’ahi vêr estes palacios e o jardim.

A menina foi com a rainha; assim que chegaram ao jardim, levou-a para o pé de um poço muito fundo, e deitou-a lá dentro. Quando veiu o filho da caça, foi logo ter com elle:

— Aquella torta zarôlha que tinhas fechada no teu quarto, assim que se lhe abriu a porta, botou a correr por ahi fóra, e ninguem foi capaz de a apanhar.

De noite passaram trez fadas pelo pé do poço e sentiram uns gemidos:

— Que será? que não será?

— São vozes de mulher.

Chegaram á borda do poço para escutarem melhor, e disse uma das fadas:

— Eu te fado que saias d’esse poço cá para fóra, e que sejas da maior perfeição do mundo.

— Pois eu te fado que tenhas uma tezourinha de prata, para cortares a lingua a quem te perguntar as cousas duas vezes.

— E eu te fado que tenhas um palacio defronte do palacio da rainha, que seja velho por fóra, mas por dentro chapeado de ouro e prata.

Ao outro dia, ficaram todos espantados no paço por verem um grande palacio antigo defronte, sem se lembrarem como e quando é que o ali edificaram. A rainha ainda ficou mais pasmada com aquillo, e mandou o seu velho camareiro saber o que era, e quem morava ali.

O camareiro entrou no velho palacio mas ficou assombrado com o que viu por dentro; appareceu-lhe uma menina muito ricamente vestida, a quem fez as perguntas de mandado da rainha. Ella respondeu:


Diga a sua magestade

Que minha mãe me desejou,

Que foi meu pae que me teve

E nas silvas me deitou;

Uma aguia me creou,

Na caça o principe me achou,

A rainha ao poço me deitou,

Mas tres fadas me fadaram,

Para aqui me trouxeram

E eu d’aqui me não vou.


O camareiro não ficou logo com o recado na cabeça, e pediu á menina para o repetir; e ella disse então:

— Desanda tezourinha.

Caiu-lhe a lingua n’um instante; o camareiro voltou para o palacio, e só podia dizer: ló-ló-ró, ló-ló-ró. A rainha mandou lá outro fidalgo, mas tambem lhe succedeu o mesmo. Por fim foi lá o principe, e quando ouviu aquelles versos que a menina dizia, veiu dar parte á rainha, que se quiz certificar com os seus olhos, e depois deu licença para o filho casar com ella.

(Algarve.)


Notas[editar]

5. As tres fadas. — No conto hindu de Sonrya-Bai, a menina tambem nasce de um fructo de manga, e tendo anteriormente sido roubada, depois que volta á sua casa desposa um principe. Sobre o rapto por uma aguia, diz Husson: «Os contos populares gregos mais ou menos conservados pelos poetas ou reproduzidos nos vasos pintados, fazem-nos conhecer muitas nymphas encantadoras, Thalia, Egina, Ganymeda, Asteria, egualmente arrebatadas por uma aguia divina.» Em uma versão popular de Abrantes, ha o estribilho:

Tesourinha, tesoureta,
Corta aquella lingueta.