Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Desanda cacheira

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
49. Desanda cacheira



49. DESANDA CACHEIRA

Um pae tinha trez filhos, que foram pelo mundo correr sua ventura; tomou cada um para sua banda. O mais velho encontrou-se com um viandante, e foi conversando com elle; chegados lá muito longe o viandante disse:

— Paremos aqui para comer.

E desenrolou uma toalha que levava á cinta, dizendo: «Põe-te, meza!»

Logo ali appareceram muitos manjares e vinhos e coisas boas, e comeram ambos. Como era já lusco com fusco, a toalha fez-se em uma barraca, e ali passaram tambem a noite abrigados. Ao outro dia cortou cada um para o seu lado e não se tornaram a vêr. Ora o rapaz perdeu-se no caminho, e foi dar a um grande barrôco, e aconteceu ir encontrar o companheiro, dono da toalha, cercado de lobos, que trabalhavam para lhe chegar. Pôz os lobos em debandada com um pandeiro, e o viandante em paga de o ter salvado deu-lhe a toalha do encanto.

O rapaz voltou para casa, sem ter mais necessidade de trabalhar para comer.

O filho segundo não foi menos feliz; encontrou um velhinho, que ia tangendo uma burra e foi conversando com elle; chegando lá a uma encruzilhada separaram-se, e foi cada um para a sua banda. Mas ouvindo lá pela noite adiante uns gritos de afflicção foi-se chegando, e acertou de ir dar a um sitio onde estavam uns salteadores a maltratarem o velho para lhes dizer onde é que levava o dinheiro. O rapaz, que era valente, cahiu em cima dos ladrões, que fugiram, e assim livrou o velho. Este, agradecido, deu-lhe em paga a sua burra, dizendo:

— Quando tu lhe disseres: «Mija dinheiro», essa burra dá-te todo o dinheiro que quizeres.

Assim voltou para casa tanto ou mais rico do que o irmão.

O filho mais moço tambem era esperto; encontrou no seu caminho um homem que levava ás costas uma cacheira. N’isto vieram uns ladrões sahir-lhe â estrada, e elle disse:

— Desanda, cacheira!

O páo começou logo no ár a despedir pancadas para a direrta e para a esquerda, e os ladrões ficaram estendidos com pernas, cabeças, braços quebrados, que era um louvar a Deus. Os dois companheiros foram andando; vae o rapaz, e diz-lhe:

— Quer você vender-me a sua cacheira?

— Só se me deres todo o dinheiro que levas.

O rapaz deu-lhe tudo quanto o pae lhe tinha dado para arranjar a sua felicidade. Voltou para casa muito contente com a cacheira ás costas. O pae assim que o viu, perguntou-lhe:

— Então o que é que trazes, que sejas tão feliz como teus irmãos?

— Comprei esta cacheira com o dinheiro que levei.

E contou o poder que tinha a cacheira. O pae pôz-se a rir, e disse que não admirava que elle se deixasse enganar porque era muito criança; e que a cacheira não servia para nada. O rapaz andava triste.

Havia uma grande festa na egreja da terra, e o irmão mais velho foi lá; como andava sempre com a toalha, temendo que ella perdesse o encanto, deixou-a á porta a uma velha que lh’a guardasse, recommendando-lhe que não dissesse: «Põe-te, meza!»

Se bem o disse, peior o fez a velha; e vendo logo apparecer uma rica meza pósta, foi a toda a pressa esconder a toalha. Veiu tambem á festa o irmão do meio, e trazia comsigo a burra, e deu-a a guardar á velha, recommendando-lhe que tivesse mão n’ella, e que não dissesse: «Mija dinheiro!» Mal virou as costas, a velha disse as palavras, e começou a correr da burra dinheirama a rôdo. A velha safou-se com a burra.

Quando os dois irmãos sahiram da egreja não acharam a velha, e vieram para casa muito tristes com o roubo de toda a sua fortuna. Disse o mais novo:

— É tempo de saber para que serve esta cacheira.

Foi ter á porta da egreja, e fingiu que queria dar a guardar a cacheira; vem a velha ter com elle. Deu-lhe a cacheira:

— Guarda-m’a até já, e não digas: «Desanda cacheira!»

A velha, pelo vezo, faltou á promessa, e assim que disse: «Desanda cacheira!» como não estava ali em quem batesse, a cacheira começou a bater na propria velha, que foi a gritar procurar o rapaz para fazer parar aquelle castigo. O rapaz veiu de dentro da egreja, e deixou a cacheira malhar, até a velha confessar onde é que tinha escondido a toalha e a burra. Só quando ella entregou tudo, é que a cacheira parou. Se não fosse a cacheira, de que o pae fez escarneo, os outros thesouros ficariam perdidos para sempre.

(Porto.)


Notas[editar]

49. Desanda cacheira. — Nos Contos populares portuguezes, n.º XXIV, vem uma versão de Coimbra. Nos Estudos da Edade media, p. 70, publicámos pela primeira vez este conto com uma redacção artificial. Acha-se na tradição allemã: A meza, o burro e o bastão maravilhoso. (Contes choisis, de Grimm, trad. Baudry, p. 155.) Gubernatis traz uma variante italiana nas Novelline di Santo Stephano. (Rev. des deux mondes, pag. 145, Nov. de 1877.) No conto XI da collecção esthoniana, resumida por Gubernatis, a cacheira que desanda por si, é interpretada como a expressão mythica do raio. (Myth. zoologique, t. I, p. 174.) Sobre estes talismans da toalha que dá de comer, ha nos Contos dos pastores slavos, de Chodzko, O Anão e o tapete volante. Brueyre, nos Contes populaires de la Grande Bretagne, falla nos episodios fundamentaes d'este conto: A bolsa sempre cheia de dinheiro, é uma fórma do Asno mija-dinheiro, da Pata dos ovos de ouro, dos Cinco reis eternos do Judeu Errante. A toalha cheia de iguarias, é figurada na mythologia antiga pelo côrno de Amalthea, ou a Vacca da fertilidade dos Vedas, ou a taça de Graal da Tavola Redonda, ou o copo de Oberon no poema de Huon de Bordeaux. (p. 139.) A toalha do Põe-te meza, apparece nas collecções bretã, slava e noruegueza; em Luzel, no Corpo sem alma; em Chodzko, na Toalha que alimenta; em Asbjornsen, O homem que vae ao vento do norte, Mestre Tabaco, o Rei Valemond e o Urso branco. — Nos Contos populares do Brazil, de Sylvio Romero, acha-se com o titulo O priguiçoso. Este thema acha-se largamente desenvolvido pelo prof. Stanisláo Prato, no opusculo Una Novellina popolare monferrina, Como, 1882. Aproveitamos as suas indicações. Acha-se este thema no II conto kalmuco, da traducção de Bernhard Jülg; no conto indiano do Rei Patraka, no Kathasâritsâgara, de Somadeva Bhattra. Cita uma outra historia na collecção indiana do Bahar Danusch, e uma traducção do industanico de Garcin de Tassy. Nos Avadanas chinezes, traduzidos por Stanisláo Julien, t. II, p. 8, vem sob o titulo A disputa dos dois demonios. Ha uma variante arabe Aventuras de Mazen do Khorassan. Na collecção do Touti Nameh (vol. II, p. 28, da trad. allemã de Iken), ha outra variante; na collecção polaca de Glinski, traduzida por Chodzko, e por Prato, (op. cit., p . 21) e em outro conto (Glinski, t. III, p. 81) apparece a toalha magica. Nos contos XI e XXIII da collecção esthoniana figura a cacheira, ou o páo que bate por si mesmo. O thema do Asno faz-dinheiro acha-se nos Old Deccan Days, de Miss Frère, p. 166. O sentido mythico é evidente na toalha, que figura a nuvem, e na cacheira que é o raio. Vide Brueyre, p. 48, notas, p. 58, dos Contos da Gram Bretanha. Nas Fiabe, Novelle e Racconti popolari siciliani, n.º XXIX, vem este conto do qual Consiglieri Pedroso colligiu outra variante portugueza com o titulo A Velhinha e Sam Pedro.