Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Exemplo do Philosopho

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
130. Exemplo do Philosopho


130. EXEMPLO DO PHILOSOPHO

E destes taaes (sc. um philosopho) diz hum exemplo e põoe semelhãça de huma arvor que estava rreygada em huma pouca terra em meo de huma grande augua, e era bem basta de rrama e bem carregada de pomas. E em cima della estava um homem deleitandose muito em tomar ora de humas ora doutras. E em no pee darvor rroyam dous vermens, hum branco e outro preto e tiinhãlhe rroyda a rraiz pera cando daryã com ella em terra. E a huma parte estava hum lyom bravo cõ a gargãta aberta, tendo mentes quando el cayria, pera o arrebatar e comello. E a outra parte estava hum alicornyo muy espantoso, aguardando quando cayria a arvore, pollo debrotir e lastimar. E o mizquinho do homem tãto se deleitava em as pomas que nom parava mentes que nemhumas destas cousas nem curava dello.

Esta arvor senifica este mundo em que se o homem deleyta, tanto que lhe esqueece o feito de sua alma e nõ se nembra da hora da morte. E a terra sinifica a vida do homem que he breve e pouca, e que nom avera em que se asconda. A agua sinifica o medo e o grande espanto que o homem averá em a hora da morte. E os vermens, hum branco e outro preto, sinifica o dia e a noite que rroe em na vida do homem e lhe tolhem cada dia huma jornada. E o leom senifica o inferno, e o olicornio sinifica o purgatorio que está prestes com fogo e cõ fryo e com graves tormẽtos pera os homẽs pera sempre.


(Ms. de Alcobaça, n.º 266, fl. 145, v. (Na Bib. publica.) Mr. J. Cornu fez d'elle varios extractos na Romania, XI, publicando-os depois sob o titulo Anciens textes portugais.)




Notas[editar]

130. Exemplo do philosopho. — No Violier des Histoires romaines (Gesta Romanorum, cap. 137), tem o sentido allegorico. Vem como apologo na Historia de Barlaam e Josaphat, a qual tambem foi traduzida em portuguez no seculo XIV e se acha na Torre do Tombo. A extensão de este apologo na Edade media foi vastissima; Jubinal publicou uma redacção do seculo XIII no Nouveau Recueil de Fabliaux, t. II, p. 113; e em inglez ha uma redacção do seculo XII de Odo de Ceriton; acha-se na Legenda Aurea, de Voragine, e no Speculum Historiale, de Vicent de Beauvais, e na Vies des Péres. Mone, publicando um texto latino, «aproxima este apologo vindo da Asia com a tradição scandinava da arvore sagrada, o carvalho Yggdrasil, cuja cima toca no céo e cuja raiz é continuamente roida por Nidhogger, a serpente infernal.» (Violier, p. 389, nota.) Esta mesma tradição acha-se nos preliminares da traducção pehlvi de Calita et Dimna, do começo do seculo VI, nas traducções arabe, hebraica e grega, e no Directorium humanae vitae.