Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O compadre diabo

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
81. O compadre diabo



81. O COMPADRE DIABO

Um pobre jornaleiro tinha um compadre que era o diabo, mas elle não o sabia; veiu elle e disse-lhe:

— Tu és tão pobre! sabes que mais? lembra-me de te dar um grande campo para o trabalhares de meias commigo, com a condição que o que crescer para debaixo da terra hade ser para mim, e o que crescer para cima da terra hade ser para ti.

O jornaleiro acceitou o contracto, e foi trabalhar o campo e semeou-o de trigo. Nasceu muito trigo, que elle colheu no seu tempo, e disse ao compadre que fosse apanhar o que tinha crescido para debaixo da terra. O diabo só achou as raizes, e conheceu que tinha sido enganado pelo compadre. E disse:

— Já me não serve o nosso contracto, e se queres continuar hade ser ás avessas: o que crescer para cima da terra hade ser para mim, e o que crescer para baixo é que hade ser para ti.

O lavrador acceitou a condição e semeou o campo todo de batatas; deu uma novidade que era um regalo. Disse ao compadre que fosse apanhar o que tinha crescido para cima da terra, que era a rama da batata, e elle tirou muitos e muitos alqueires de batatas, com que fez muito dinheiro. O diabo viu que perdia sempre no jogo, e quiz-se vingar do compadre:

— Ah velhaco, que me enganaste; mas eu é que te não deixo ficar assim; havemos de bater-nos e hade ser ás unhadas, que ao menos d'esta vez heide ficar de melhor partido.

O lavrador bem sabia que o diabo tinha umas garras temiveis, mas como não podia escolher as armas já dava ao diabo a cardada, e foi ter com a mulher, sem saber como se veria livre d'aquella alhada. Vae a mulher e diz-lhe:

— Deixa-o vir para cá, que eu o arranjo. No dia em que te vier procurar para brigar comtigo, esconde-te, que eu é que vou fallar com elle.

Chegado o dia, vem o diabo muito furioso e bate á porta do compadre:

— Aqui estou para irmos brigar.

Vem a mulher e diz:

— Entre para aqui compadre, e espere pelo meu homem, que foi amolar as unhas; olhe que elle sempre dá cada unhada! Aqui está a primeira que elle me deu…

O diabo tal cousa viu, que botou a fugir com medo de ficar cheio d'aquellas arranhaduras, e nunca mais voltou lá.

(Ilha de S. Miguel — Açores.)



Notas[editar]

81. O compadre Diabo. — Sobre esta facecia, Gubernatis apresenta um conto russo em que o Diabo é representado pelo urso com um caracter demoniaco: «O aldeão logra duas vezes o seu companheiro urso; primeiro quando semeam juntamente nabos, e que o aldeão reserva para si o que cresce debaixo da terra, deixando ao urso o que sae e se levanta acima do chão; depois, quando elles semeam trigo, e que o urso, julgando-se agora mais esperto toma para si o que cresce debaixo da terra e cede ao aldeão o que se produz para fóra d'ella. O aldeão está a ponto de ser devorado pelo urso, quando a raposa o vem soccorrer.» (Myth. zoologique, t. II, p. 119.) D'este conto da collecção de Afanasieff, acha-se uma variante na Noruega, n.º 74, da collecção de Asbjörnsen, e na Allemanha, na collecção de Grimm, n.º 189. Em um conto caucasico, publicado no Magazin für die Litter. des Auslands, n.º 134, de 1834, figura o Diabo, que tambem é enganado. Sobre este conto Liebrecht escreveu um estudo comparativo na Academy, de 1873, n.º 74, resumido por Gubernatis, loc. cit. No Conde de Lucanor, de D. João Manuel, cap. 41: De lo que contescio al Bien y al Mal, vem este mesmo conto, em que tambem ha os nabos da partilha. (Ed. 1642, fl. 111.) Nos West Highlanders popular Tales, de Campbell, acha-se este conto em que figuram a raposa e o lobo, e a cultura é de aveia e depois de batatas. Ap. Contes populaires de la grande Bretagne, de Brueyre, p. 363, que traz mais estas fontes similares: Rabelais, Pentagruel, liv. IV, cap. 45 e 46. Lafontaine, conto de Le Diable et Papefiguiere. Na tradição oral franceza o conflicto dá-se entre S. Martinho e o Diabo. Nos Contes populaires agenais, de Bladé, figura sob o titulo de La Chèvre et le Loup. Gubernatis, na Mythologie des Plantes, t. II, p. 31, cita este conto mostrando «como os mythos se deslocam e se multiplicam infinitamente, tendo muitas vezes o mesmo ponto de partida.»