Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O guardador de porcos

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
77. O guardador de porcos



77. O GUARDADOR DOS PORCOS

Era um homem casado, que tinha um rapaz que lhe guardava os porcos. Indo o rapaz uma vez para o pasto, chegou-se um homem a elle dizendo:

— Vendes-me esses sete porcos?

— Não vendo senão seis; mas o tio hade dar-me já os rabos e orelhas d'elles.

Ficou o contracto feito; o rapaz recebeu o dinheiro, e logo ali cortou as orelhas e os rabos dos seis porcos. Chegando a um charco, espetou no lodo as orelhas e os rabos dos seis porcos, e enterrou o septimo porco até meio do corpo. E foi logo a gritar ter com o amo, para o vir ajudar a tirar os porcos, que tinham cahido no charco. Veiu o amo, e assim que puchou vieram-lhe os rabos na mão; com medo de perder os porcos todos, disse ao criado:

— Vae a casa e diz á minha mulher que te dê duas pás, para pucharmos os porcos cá para fóra.

O criado que sabia que o amo tinha duas saccas de dinheiro, chegou a casa e disse á mulher:

— O patrão manda dizer que me entregue as duas saccas de dinheiro.

A mulher desconfiou; mas o criado disse que ella chegasse ao balcão, e perguntasse se eram ou não as duas. Pergunta a mulher de cá:

— Ambas de duas?

— Sim, dá-lhe ambas de duas.

A mulher não sabia que eram as pás, e entregou-lhe as saccas do dinheiro.

O rapaz agarrou-as e foi-se por outro caminho, e encontrando um veado, matou-o e tirou-lhe as tripas, que metteu por dentro da camisa. Chegando perto de um homem que conhecia o patrão d'elle, começou a dizer:

— Deixa-me retalhar as tripas.

E pôz-se a cortar as que tinha do veado; o patrão quando chegou a casa e soube da ladroeira do criado, correu atraz d'elle, e encontrou no caminho o seu conhecido, a quem perguntou se tinha visto passar por ali o moço.

Elle respondeu:

— Vi, e elle fez uma cousa; tirou as tripas e cortou-as para correr mais depressa.

— Tambem eu vou fazer o mesmo para o apanhar.

E cortando as tripas caiu morto. O moço quando soube isto voltou para traz e foi ter com a patrôa, que estava viuva, e casou com ella.

(Ilha de S. Miguel — Açores.)





Notas[editar]

77. O guardador de porcos. — Apparece nos Contos populares da Russia, na Colleção de Afanasieff, liv. V, n.º 8. Além da traducção de alguns contos russos por G. Ralston, Gubernatis vulgarisou mais uns cem, para elemento dos estudos comparativos. Na tradição italiana do Piemonte tambem se repete esta facecia: «Um rapaz que guardava porcos, corta-lhes os rabos, lança-os n'um lameiro, e foge com elles. O patrão, vendo os rabos, cuida que os porcos se enterraram na lama. Pucha-os, mas só lhe vem na mão os rabos sem os corpos a que andavam pegados.» (Mythologie zoologique, t. I, p. 252.) O illustre critico liga este conto a outros elementos tradicionaes para a reconstrucção popular do mytho de Hercules e Caco.