Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O mestre das artes

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
10. O mestre das artes


10. O MESTRE DAS ARTES

Havia um pae, que tinha tres filhos, e emquanto dois d’elles andavam a trabalhar nos campos, o mais moço começou a aprender todas as artes e industrias. Disseram os irmãos ao pae:

— Nós trabalhamos até aqui para meu pae poder viver, e o nosso irmão mais novo sem fazer nada; agora d’aqui em diante elle deve puxar pelo que aprendeu.

O filho mais novo pediu ao pae que lhe desse um açaimo de cão de caça, e disse-lhe:

— Vou-me tornar em cão de caça; meu pae hade trazer uma correia e um pau para virem cheios de coelhos, e hade passar pela porta do mercador, que se dá por grande chibante de caça.

O pae pôz o açaimo ao rapaz que se tinha tornado em cão, e foi com elle para a caça. Apanhou muitos coelhos, trazia-os dependurados no pau e o cão atraz d’elle. O mercador quando o viu passar pela porta perguntou:

— Oh homem! só com esse cão apanhaste tanta caça?

— Sim senhor.

— Hasde-me vender o cão.

— Só se o senhor me der cem mil reis.

— Pois sim; está vendido o cão.

Contou o dinheiro; lá ficou o cão e o homem foi-se embora. Vae o mercador caçar com o seu cão por uns cerrados; correndo atraz de um coelho, o cão metteu-se por um vallado de silvas, e foi sair por outra banda; tirou com as unhas o açaimo, e ficou outra vez gente. O mercador fartou-se de chamar e de esperar pelo cão. O rapaz veiu passar pelo pé d’elle, que lhe perguntou:

— Viu você por ahi um cão de caça?

— Não vi, mas senti mecher no vallado que é muito fundo; talvez seja o bicho, que não póde de lá sair.

O certo foi que o mercador perdeu o cão e o dinheiro, e foi-se embora sem nada. O rapaz disse ao pae:

— Agora hade-me comprar um freio para eu me tornar em cavallo.

O pae assim fez; correu com o cavallo todas as ruas. O Mestre das Artes de Paris, que o tinha tido em casa logo conheceu o cavallo e fez com que o homem lh’o vendesse por todo o preço. Não olhou a dinheiro, e tomou conta do cavallo, e metteu-o na cavalheiriça sem lhe tirar o freio, a ponto de elle não poder comer nada.

O Mestre das Artes tinha tres filhas e recommendou-lhes que não fossem á cavalheiriça. Logo que o pae saiu ellas disseram umas para as outras:

— Vamos vêr o que tem a cavalheiriça.

Foram e viram um cavallo lindo, muito bem feito, e viram que elle não podia comer nada.

— Coitadinho! tira-se-lhe o freio a ver se come.

Tiraram-lhe o freio, e assim que elle disse: — Ai de mim, passaro! — vôa logo pela janella fóra. Encontrou o Mestre das Artes no caminho, que o conheceu e disse: — Ai de mim milhafre! — que era para matar o passaro.

Ficou elle muito alcançado de vêr o milhafre atraz de si, e disse:

— Ai de mim annel! — E caiu nas ondas do mar, e uma garoupa enguliu-o. A garoupa foi ter a outro paiz; um pescador pescou-a e foi vendel-a a palacio. A princeza foi vêr concertar o peixe; viu no buxo um annel. A criada lavou o annel e deu-o á princeza; ella estimava o annel mais que todas as outras joias que tinha. A princeza ao deitar-se tirava o annel e punha-o sobre uma banca. O annel de noite, tornava-se em homem, e punha-se a conversar com a princeza, que cheia de medo chamava o rei seu pae. N’este ponto o homem tornava-se formiga, e o rei vinha e não via nada. Succedeu isto tres noites; na ultima elle disse á princeza:

— Eu sou a prenda que trazeis no dedo; tenho de dizer a sua alteza, que o rei seu pae está muito doente; os medicos não lhe dão cura. Só o Mestre das Artes de Paris é que lhe dará cura; mas elle não hade querer dinheiro, nem prenda, nem joia nenhuma. Só hade pedir ao rei o annel que traz a princeza; não lh’o dê vossa alteza na mão, mas deixe-o cair ao chão.

Ella fez como o rapaz lhe tinha pedido. Soube-se da doença do rei, até que foi chamado o Mestre das Artes, que teimava em querer o annel. A princeza zangada da teima, atirou com o annel ao chão. O annel disse: — Ai de mim, painço!

E derramou-se em painço pelo chão. O Mestre das Artes tornou-se em gallinha para apanhal-o, e o rapaz tornou-se em comadrinha (doninha), pegou ás dentadas na gallinha e matou-a.

Mal acabou, tornou-se em homem e explicou tudo ao rei, e como elle é que tinha ensinado a cura do rei casou-o com a princeza e foram muito felizes.

(Ilha de S. Miguel — Açores.)


Notas[editar]

9, 10 e 11. O Magico. O Mestre das Artes. O aprendiz do Mago. — Versões nos Contos Populares da Russia, de Afanasieff, livro VI, n.º 46; em Gubernatis, Noveline di Santo Stephano, n.º 22 e 26. (Ap. Myth. zool., I, 365.) Nos Contes populaires de la Grande Bretagne, de Brueyre, p. 289. — Nas Notte piaccevoli, de Straparola, Nott. VIII, fábula 5.ª, vem este mesmo conto. O freio magico é um episodio commum a muitos outros contos mythicos, como o prova Brueyre, Op. cit., p. 253, e Gubernatis, Mythologie zoologique, t. I, p. 77.

Nos Contos populares portuguezes, n.º XV, o Criado do Estrujeitante, versão de Ourilhe, pertence a esta mesma tradição. Nos Contos populares do Brazil, de Sylvio Romero, ha uma variante sob o n.º VIII, com o titulo O passaro preto.