Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O principe que foi correr sua ventura

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
32. O principe que foi correr sua ventura



32. O PRINCIPE QUE FOI CORRER SUA VENTURA

Havia n’uma terra um rei que tinha um filho, que não fazia senão pedir-lhe para ir correr o mundo; o rei por fim não pôde mais ter mão, e deu-lhe um grande sacco de dinheiro para a partida. Depois de ter andado muito, foi dar a uma estalagem onde encontrou um outro viajante. Conversaram, mas o viajante perguntou ao principe se não gostava de jogar; d’ahi a instante já estavam ferrados ao jogo. O viajante ganhou-lhe o sacco de dinheiro, e não tendo mais que lhe ganhar, propôz-lbe que jogassem mais uma vez, e no caso do principe ganhar tornava a dar-lhe o sacco de dinheiro, e no caso de perder o principe ficaria preso por trez annos n’aque1la casa, e o serviria como criado por mais outros trez. O principe aceitou a proposta, jogou e perdeu. O viajante tomou conta d’elle, prendeu-o em uma loja, e deu-lhe pão e agua de um dia para trez annos.

O principe chorava a sua má cabeça; ao fim de trez annos vieram soltal-o, e elle pôz-se a caminho para ir para casa do viajante, que era rei, servil-o como criado. Depois de ter andado muito, encontrou uma mulher com uma criancinha ao collo a chorar com fome. O principe ainda levava o resto de uma codinha de pão e um escorropicho de agua e deu tudo á mulher. Ella em agradecimento disse-lhe:

— Olhe, santinho, vá você sempre andando, e quando lhe vier um cheiro muito grande, é porque está perto de um jardim que está no caminho; entre para dentro, e vá-se esconder ao pé do tanque. Então hãode vir trez pombas tomar banho, e á ultima que se despir tire-lhe o vestido de pennas e não lh’o torne a dar senão em troca de trez cousas que ella lhe der. Aconteceu tudo como a mulher lhe tinha dito; apanhou o vestido de pennas da pombinha, e ella para o tornar a ter deu-lhe um annel, um collar e uma penna, dizendo-lhe:

— Quando te vires em alguma afflicção e disseres: — «Valha-me aqui a pomba», heide-te acudir; eu sou a filha do rei que vás servir, que tem uma grande raiva a teu pae; e que te ganhou tudo ao jogo para dar cabo de ti.

O principe apresentou-se em casa do rei, que lhe deu logo esta ordem:

— Toma este trigo, este milho e esta cevada para semeares, comtanto que eu ámanhã coma pão d’estas trez qualidades.

O principe ficou espantado, mas o rei não quiz saber de explicações; foi elle para o seu quarto todo atrapalhado da sua vida, e pega na penna dizendo:

— Valha-me aqui a pomba!

A pomba appareceu, e ficou sabendo tudo; e ao outro dia trouxe-lhe as trez qualidades de pão para o principe ir entregar ao rei. Quando o rei viu cumpridas as suas ordens, disse-lhe:

— Pois bem; já que foste capaz d’isto, vae agora ao fundo do mar buscar o annel que a minha filha mais velha lá perdeu.

Voltou o principe para o quarto e tornou a chamar pela pombinha; ella acudiu:

— Olha, ámanhã vae para a praia e leva uma bacia e uma faca e mette-te n’um barco.

Assim fez; a pomba metteu-se com elle no barco e foi por esses mares fóra. Já tinham andado muito, quando ella disse que lhe cortasse a cabeça, de modo que não cahisse uma gota de sangue no chão, e a atirasse para o mar. Seguiu tudo á risca. Passado pouco tempo sahiu do mar uma pomba com um annel no bico, largou-o na mão do principe e foi lavar-se no sangue que estava na bacia; tornou-se na cabeça de uma bella donzella e depois tornou a desapparecer. O principe foi entregar o annel ao rei, que ficou mais desesperado, e lembrou-se de lhe dar um maior trabalho:

— Hoje de tarde hasde sahir no meu poldro, para o ensinares.

O principe foi para o seu quarto e tornou a chamar pela pombinha, que lhe respondeu:

— Olha, o meu pae quer vêr se te mata por algum feitio; porque o poldro é elle mesmo, o selim é minha mãe, minhas irmãs são os estribos, e eu sou o freio. Não te esqueças de levar um bom cacete porque pódes consolar-te com uma carga de pau n’elles.

O principe montou no poldro, moeu-o com pancadas, e taes coisas fez que quando recolheu a casa e foi dar parte ao rei que o poldro estava manso, achou o rei de cama todo em pannos de vinagre, a rainha feita n’uma salada, as filhas derreadas, menos a mais nova. N’essa noite foi ella ter com o principe e disse-lhe:

— Agora, que estão todos doentes é que é boa occasião de fugirmos; vae á cavalhariça e aprompta o cavallo mais magro que lá achares.

O principe cahiu na asneira de apromptar o mais gordo. Quando se pozeram a caminho, e ella viu o cavallo gordo ficou muito contrariada, porque este cavallo andava como o vento, e o magro andava como o pensamento. Mas sempre fugiram. De noite o rei precisou da filha para o virar, e chamou por ella; nada. A rainha, que era refinada bruxa, pescou logo que a filha tinha fugido com o principe, e disse ao marido que saltasse já fóra da cama e que os fosse apanhar. O rei levantou-se a gemer com dôres, foi á cavalhariça e quando viu o cavallo magro ficou seguro de pilhal-os. Montou e partiu. A filha, que ia sempre desconfiada que déssem pela falta d’ella, avistou de longe o pae, e de repente transformou o cavallo em uma ermida, a si em uma santa e o principe em um ermitão.

Chegou o rei ao pé da capellinha, e perguntou se não tinha visto passar por ali uma menina com um cavalleiro. O ermitão levantou os olhos do chão e disse que por ali não passára viva alma. O rei foi-se embora aborrecido, e foi dizer á mulher que só tinha encontrado uma ermida com uma santa e um ermitão.

— Pois eram elles, disse a velha desesperada; se me tivesses trazido um bocadinho do vestido da santa ou um bocadinho de caliça da parede, tinha-os agora aqui em meu poder.

E tornou a fazer partir o velho no cavallo mais ligeiro que o pensamento. O velho foi avistado ainda de longe pela filha, que fez do cavallo um terreno, de si uma roseira carregadinha de rosas, e do principe o hortelão. Repetiu-se a mesma coisa; o velho virou para traz, mas a velha bruxa azoinava-o:

— Se me tivesses trazido uma rosa d’essa roseira, ou um punhadinho de terra, já cá os tinha em meu poder. Mas deixa estar, que d’esta vez vou eu tambem.

Quando a menina avistou a mãe sentiu um grande medo, porque sabia o poder que tinha; apenas teve tempo de fazer do cavallo um poço fundo, de si fez uma eiró, e do principe um cágado. A velha chegou á borda do poço, e conheceu-os logo. Perguntou á filha se não estava arrependida, e se quizesse voltar para casa que lhe perdoava. A eiró dizia com o rabo que não. A velha disse ao marido que atirasse uma bota ao poço para trazer uma gota d’agua, porque só com isso ficava com poder para agarrar a filha. Quando o rei tirava a bota cheia de agua, o cágado saltou para dentro d’ella e entornou-a toda; com a outra bota deu-se o mesmo caso.

Então a rainha muito zangada rogou ao cágado a praga que elle se esquecesse da princeza. Continuaram o seu caminho, mas a menina sempre muito triste. E quando o principe lhe perguntava o motivo da sua tristeza, ella respondia:

— É porque tenho a certeza de que me hasde esquecer.

Chegaram por fim á terra d’onde o principe era natural; deixou a menina em uma estalagem, e foi pedir ao pae licença para lhe apresentar a sua noiva. Com a alegria que teve de vêr a familia esqueceu-se da menina. O pae tratou de lhe fazer o casamento; quando a menina soube d’isto teve uma grande afflicção e gritou:

— Valham-me aqui minhas irmãs.

Appareceram-lhe. A mais velha disse:

— Não te afflijas; tudo se hade arranjar. — E deu ordem á estalajadeira que quando passasse algum criado do rei a comprar aves, que fosse ao quarto da irmã e vendesse trez pombinhas que estariam lá. Assim foi; o criado do rei comprou as trez pombinhas, e como eram muito lindas foi mostral-as ao principe.

O principe estava admirado, e quando ia pegar n’ellas uma saltou para cima da janella, e disse:

— Quando nos ouvir fallar, ainda mais admirado hade ficar.

Outra saltou para cima de uma mesa, e disse:

— Vae fallando, vae fallando, que elle se irá recordando.

A pombinha que lhe tinha ficado na mão saltou-lhe para cima do hombro e perguntou-lhe:

— Veja, principe, se este annel lhe serve.

O principe viu que sim. Depois deu-lhe um collar, e tambem servia. Por fim deu-lhe a penna, e só quando leu o nome da pomba é que se tornou a lembrar, e então casou com ella.


(Algarve.)


Notas[editar]

32. O principe que foi correr sua ventura. — Nos Contos populares portuguezes, n.º XIV, ha uma variante de Coimbra com o titulo Branca-Flôr. Nos Contos populares brazileiros, n.º XXII, vem uma variante com o titulo Cova da Linda-Flôr. Este conto acha-se em quasi todos os seus detalhes com o titulo As trez pombas, nos Contos e tradições do tyrol italiano, de Schneller, n.º 27. O mesmo na collecção dos Contos populares e infantis, de Pröhle, n.º 8. Nos Rondallayres ou quentos populares catalans, de Maspons y Labros, apparece com o nome de Lo Castell del Sol. Vide Stanislao Prato, Una novellina popolare monferrina, p. 56. Sobre as donzellas-passaros, Reinhold Köhler, annotando os contos esthonianos, n.os 14 e 16, e os contos sicilianos, n.º 10, desenvolve largamente todos os paradigmas tradicionaes. Guichot y Sierra colligiu uma outra versão em Sevilha, El Marqués del Sol, publicada na Biblioteca de las Tradiciones populares españolas, t. I, p. 187.