Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O velho Querecas

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
2. O velho Querecas


2. O VELHO QUERECAS

Eram tres irmãs, muito pobres, que viviam do seu trabalho aturado. N’aquella terra havia uma casa em que ninguem queria morar porque lá dentro ouviam-se de noite grandes gritos e terrores; as raparigas, para pouparem o aluguel, foram pedir para as deixarem morar n’aquella casa. A mais nova, como mais animosa, foi morar para o ultimo andar.

Uma noite, mal ella se tinha acabado de deitar, ouviu uma voz gritar:

— Eu caio!

— Pois cae! – respondeu-lhe a rapariga. De um buraco do tecto caiu uma perna. Depois soou de novo o mesmo grito:

— Eu caio!

— Pois cae! – repetiu a rapariga; e assim foram caindo os braços, o tronco, até que ella achou diante de si um homem já muito velho e calvo. O velho chegou-se proximo da rapariga, e perguntou-lhe:

— Não tens medo de mim?

— Não.

— Fazes muito bem; és a primeira e unica pessoa que resiste ao medo de me vêr. Em paga da tua coragem toma lá esta bolsa, e quando te vires n’alguma afflicção diz sempre: Valha-me aqui o velho Querecas.

O dinheiro da bolsa nunca se acabava, e as tres irmãs começaram a viver com largueza. No entretanto a mais nova começou a sentir que por mais que se fechasse no seu quarto parecia-lhe que sentia metter-se alguem na cama com ella. Lembrou-se se seria o velho Querecas, e teve uma certa repugnancia; mas para certificar-se, uma noite accendeu de repente a luz, e viu deitado ao pé d’ella um mancebo formoso, que estava adormecido. Estava tão embebida a olhar para elle, que lhe caiu um pingo de cera na cara. O mancebo acordou de repente, e disse:

— Ah! Desgraçada, o que fizeste; dobraste-me o encantamento, que estava quasi no fim! Agora não me tornas mais a ver.

A menina chorou muito, e ainda mais quando conheceu o estado em que se achava. Lembrou-se então do segundo dom, e disse:

— Valha-me aqui o velho Querecas.

— Aqui estou já, e bem sei porque me chamas. Ha só um modo de remediar o mal que a ti mesma fizeste. Toma lá estes tres novellos, e vae andando sempre, sempre até onde elles se acabarem; onde quer que seja pede que te dêm ahi pousada do ár da noite.

A rapariga chorou por ter de deixar as irmãs, mas o que ella queria era quebrar o encantamento d’aquelle moço; foi andando, andando até ir dar ao fim de muito tempo a um palacio cercado de um rico jardim. Espreitou pelo buraco da chave, e viu lá dentro uma sala com muitas mulheres trabalhando em lindos vestidos de noivado, e fazendo as roupinhas de uma criança. Teve receio de bater áquella porta, e foi rodeando o palacio, até que encontrou o hortelão, a quem pediu pousada. O hortelão respondeu-lhe:

— Você sabe em casa de quem está para vir assim pedir pousada?

— O que sei é que já me não tenho de cançada; e é por uma esmola.

O hortelão teve dó da rapariga e deu-lhe um canto no palheiro; ella deitou-se mais morta que viva, e ali mesmo deu um menino á luz. Tudo aquillo se transformou n’um quarto muito aceiado e rico. Quando o hortelão veiu ao outro dia, ficou pasmado com o que viu. Foi dar logo parte á rainha, que tambem quiz certificar-se da maravilha.

Quando chegou ao lugar em que estava a menina deu um grito ao vêr a criança:

— Oh senhora! Quem é o pae d’este menino?

A rapariga ficou muito envergonhada por não poder logo dizel-o; no meio da sua confusão contou o caso do velho Querecas. Foi então que a rainha se lembrou:

— Esse menino é o retrato de meu filho, que me desappareceu, sem nunca mais saber d’elle nova má nem boa.

A rainha levou a rapariga para o palacio, tratou de lavar a criança, e quando a despiu achou-lhe nas costas um grande signal. Reparou, e viu que era um pequeno cadeado com uma chavinha. Quiz vêr se o abria, mas com receio disse á mãe que experimentasse a vêr se dava volta áquella chavinha. Logo que a mãe pegou na chave abriu o cadeado, e immediatamente se quebrou o encantamento do principe que deveu a sua liberdade ao animo d’aquella rapariga com quem casou logo.

(Algarve.)


Notas[editar]

2. O velho Querecas. — Áparte os episodios communs a muitos contos, é este uma das fórmas do mytho de Psyche. Gubernatis, na Mythologie zoologique (t. I, p. 437), traz uma variante d'este conto colligida em Fucecchio, na Toscana, em que o desencantamento do principe é devido á coragem da donzella. As circumstancias episodicas divergem e pertencem a outro cyclo novellesco. Um conto colligido em Cosenza, na Calabria, por Greco, traz o episodio do ruido nocturno, do pingo de cêra que acorda o mancebo, e do novello que deve guiar a menina á busca do amante. (Gubernatis, op. cit., t. II, p. 301, nota 2.) Estas uniões mysteriosas acham-se ainda com caracter mythico, no Harivansa, entre Urvasi e Pururavas, e no Mahâbahratta, entre Çantana e a nympha das aguas; na lenda grega de Psyche, Eros desapparece, quando acorda por causa do pingo de azeite que cahiu da lampada a cuja luz foi visto. Brueyre, nos Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 183, cita contos pertencentes a este cyclo na collecção sueca de Cavallius e Stephens, Svenska Folk-Sagor och Afventyr, traduzida por Thorpe, e na collecção noruegueza de Asbjörnsen e Moe, traduzida por George Webbe Dasent, apparece o episodio do pingo de cêra.

Sobre o evidente caracter mythico d'estas tradições, accrescenta Brueyre: «Em todas estas narrativas a felicidade dos amantes não é de longa duração, porque, apesar da fé jurada, a promessa é sempre violada, e aquelle dos amantes a quem o outro faltou á palavra, é forçado a desapparecer, apesar do ardente amor que o consomme. M. Cox demonstra que as lendas d'esta natureza são a representação do mytho celeste do Sol seguindo a Aurora, ou reciprocamente. Muitas vezes depois da violação da promessa e da separação dos amantes o mytho continúa.» (Op. cit., p. 184.) Em um artigo sobre a Historia do Japão, cita-se tambem a lenda analoga á de Psyche: «Uma parenta do imperador era a esposa do Deus Omonomichi. Elle jámais apparecia aos olhos da princeza, pois não se encontrava com ella senão nas trevas. Uma noite ella lhe disse: — Ainda me não foi dado olhar para a tua face; rogo-te que fiques commigo até pela manhã, para eu ter a felicidade de te contemplar.

«Tanto lhe rogou, com tal ternura e taes carinhos, que o esposo cedeu e prometeu-lhe que ficava. Por fim, as primeiras claridades da Aurora entraram no aposento da impaciente princeza, mas qual foi o seu espanto quando ella descobriu, no leito, uma serpente enroscada! Soltou um grito de pavor, e a serpente transformou-se logo n'um joven formosissimo , que lhe disse com expressão de dolorosa melancholia: — Nunca mais, agora, hei-de poder estar comtigo. E desappareceu. Abatida por tristeza incuravel a esposa solitaria a foi pouco a pouco decahindo até fallecer de paixão.» (Do viajante portuguez Mesnier, Actualidade, n.º 241, do IX anno.) O despertar por meio de um raio de luz é frequente, como na Bella Aurora (Spoleto) e La Bella Rosalinda dai capelli d'ori, e na novella dinamarqueza de Grandtovig. (Stanisláo Prato. Quattro novelline, p. 156 e 157.) Sobre as origens mythicas indo-europeias d'este Conto, vide Gubernatis, Piccola Enciclopedia indiana, p. 175, em que discute a simultaneidade da representação da Aurora e da Nuvem que desapparecem quando o Sol se mostra. Este cyclo do Amor e Psyche foi estudado por F. Liebrecht, Zur Volkskunde (Amor und Psyche). Na versão do Algarve ha o episodio do corpo que cae aos pedaços, para experimentar a coragem da menina; é commum a varios contos, e acha-se na lenda de Athenedoro (ap. Alexander ab Alexandro, lib. III, cap. 12), que o padre Manuel Consciencia traduziu na sua Academia Universal de Erudição, p. 545.