Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Os corcundas

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
82. Os corcundas



82. OS CORCUNDAS

Havia n'uma terra dois corcundas que se conheciam e eram amigos; de uma vez um d'elles perdeu-se n'uma estrada e foi ter ao meio de uma floresta onde umas bruxas estavam fazendo as suas dansas, e diziam:

— Entre quintas e sextas e sabbados.

O corcunda foi-se aproximando, e viu ali muito de comer, e começou tambem a dizer:

— Entre quintas e sextas e sabbados.

As feiticeiras vieram ter com o corcunda e deram-lhe muito de comer e fizeram-no dançar; como estava para dar meia noite, disseram:

— O que se hade fazer a este homem, quando nos formos embora?

— Dê-se-lhe muito dinheiro.

Outras disseram:

— Tire-se-lhe a corcunda.

Elle apanhou as duas coisas, e foi-se embora; quando chegou á sua terra o outro corcunda perguntou-lhe quem é que o tinha endireitado. O amigo contou-lhe tudo e disse-lhe onde era a floresta; o outro corcunda avistou as mesmas luzes e viu a mesma dansa das bruxas; e assim que ouviu ellas estarem cantando:

— «Entre quintas e sextas e sabbados», começou a dizer as mesmas palavras, e accrescentou:

— E os domingos, se fôr necessario.

As bruxas desesperadas por lhe fallarem no domingo, foram ter com elle, deram-lhe muitos repellões e disseram:

— O que havemos de fazer a este homem?

— Ponha-se a corcunda que o outro aqui deixou.

E assim elle se foi embora com uma giba atraz e outra adiante.

(Porto.)

Notas[editar]

82. Os corcundas. — Apparece tambem na tradição popular italiana, colligida pelo prof. Gubernatis, na Botanique zoologique, t. II, p. 249, extrahida do livro do medico Pedro Piperno, do sec. XVII, que se intitula De Nuce maga beneventana. A troca das corcundas é explicada por Gubernatis: «é evidentemente o jogo das sombras; a corcunda por detraz é a escuridão da noite, a corcunda por diante, é a sombra na alvorada.» Ha uma outra versão portugueza, de Coimbra, publicada na Revista de Ethnologia e Glottologia, p. 200. — A tradição tem certa universalidade. Vide tambem Brueyre, Contes de la Grande Bretagne, p. 206, tradição da Irlanda, e Emile Souvestre, Foyer Breton, Les Korils de Plauden, ou Presente dos Gnomos.

Nos Contes populaires lorrains, de Emm. Cosquin, vem com o titulo Les Fées et les deux bossous.