Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Os dois irmãos e a mulher morta

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
109. Os dois irmãos e a mulher morta



109. OS DOIS IRMÃOS
E A MULHER MORTA

Eram dois irmãos, um rico, e o outro pobre; casaram, mas o pobre tinha muitos filhos, e o rico nenhum. Estavam de mal um com o outro, por intrigas da mulher do que era rico, que se envergonhava d'aquelles cunhados, e demais a mais compadres. Vae de uma vez o rico trazia umas manadas no campo, e uma rez transviou-se e foi cahir n'um barrocal e lá ficou morta. Os filhos do pobre quando vieram do matto foram contar o caso á mãe:

— Pois ide lá ao barrocal buscar o novilho, porque assim sempre teremos que comer.

Os rapazes foram, fizeram-no em postas e trouxeram tudo para casa. A mulher do rico desconfiou, e disse ao marido que fosse a casa do irmão saber como aquillo era.

— Como é que heide ir lá? Bem sabes que estou de mal com meu irmão, desde as partilhas. E de mais como é que se póde saber se foram os meus sobrinhos que espostejaram o novilho?

— Pois juro que foram os teus sobrinhos que roubaram a carne; foram, e sou eu que heide pôr tudo em pratos limpos.

— Não sei de que feitio.

— Não sabes? Pois mette-me n'este caixão, deixa-lhe um buraco para eu espreitar, e vae a casa de teu irmão pedir para o guardar.

— Com essa me rio eu. Pois com que pé heide ir pedir a meu irmão para me guardar a caixa, estando nós desavindos?

— Tu não sabes da missa a metade. Vae ao compadre e dize-lhe que chegou tropa, e temos aquartelados em casa, e com medo do que dér e vier lhe pedes para te guardar a caixa.

Dito e feito. O irmão pobre esteve por tudo e ficou muito glorioso de guardar a caixa das riquezas do irmão que sempre o desprezára; puzeram-a junto da lareira. Como era já de noite, o rico despediu-se, e n'isto começam os rapazes seus sobrinhos a fazer-lhe figas nas costas, e a gritar:

— Hoje ha carne assada! hoje ha carne assada! O novilho chega para todos tomarem uma barrigada.

A mulher do irmão rico deu um estremeção dentro da caixa, com raiva. Os rapazes callaram-se e disseram uns para os outros:

— Estão ratos na caixa.

— Deixal-os, vamos nós comendo; a estas horas a mulher de meu irmão está roendo as unhas de pêrra que ella é.

N'isto a comadre deu outro estremeção de furiosa.

— A caixa está cheia de ratos, com certeza.

— Bota-se-lhe agua a ferver.

— Mas por onde?

— Aqui está um buraco. Foi por onde elles entraram.

Vão á panella da agua para os pés e despejaram-na para dentro da caixa. A comadre e tia, que estava dentro d'ella, morreu sem tugir nem mugir.

O irmão rico estava com curiosidade de saber da experiencia e foi buscar a caixa; o irmão pobre entregou-lha logo. Pelo caminho já lhe perguntava:

— Sempre foram elles que roubaram a carne?

Nada. Chegou a casa e quando abriu o caixão deu com a mulher morta, e negra com as escaldaduras.

— Ai, que ella morreu excommungada! Foi castigo de levantar esse aleive a meu irmão.

Tratou-se do enterro, e a mulher foi depositada na egreja para se lhe fazerem os officios no outro dia. Disse então o irmão pobre para a mulher:

— Se eu fosse de noite á egreja, tirava as joias que a excommungada leva para a cova.

— Lá isso faz penna vêr estragar dinheiro.

O homem lá se introduziu conforme pôde na egreja, e fez uma trouxa de tudo o que pôde tirar á comadre excommungada. Não contente pegou no corpo e foi encostal-o no altar-mór com o missal aberto diante. Quando o sacristão veiu de manhã, ficou de queixo cahido e correu a dar parte ao parocho da freguezia. Este foi entender-se com o marido da defunta que pagou bem os exorcismos, e o corpo enterrou-se logo depois de vestido e enfeitado com mais joias. O compadre pobre lembrou-se de ir furtar tudo isto ao cemiterio. De noite, quando estava desenterrando a excommungada, ouviu vozes ao pé do cemiterio. Pôz-se a escutar, e pelo que pescou, viu que eram uns estudantes que vinham de furtar um porco, e o tinham pousado em cima do muro do cemiterio. Diz agora um d'elles:

— Falta-me o relogio! E esta? vou por elle.

— Eu vou comtigo. Não ha perigo que ninguem nos venha aqui tirar o porco.

O pobre assim que não sentiu ninguem foi ao logar onde pousaram o porco, e tirou-o de dentro de um sacco, onde estava, metteu dentro a excommungada, deixou-a ficar e safou-se com o porco para casa. Quando os estudantes vieram, pegaram no sacco, e foram ter a casa de uma taberneira para lhes arranjar uma ceia; vão para abrir o sacco e dão com a mulher morta. A estalajadeira berrou logo:

— Ai, que ella é a excommungada!

— E agora? como nos havemos de livrar d'esta? É a excommungada que se enterrou esta manhã.

— Vamos pôl-a ahi á porta de qualquer figurão da terra.

Pegaram n'ella e foram pôl-a inteiriçada a uma porta; o corpo foi escorregando, escorregando, até que embarrou na aldraba da porta e fez barulho. Fanaram de dentro, mas como ninguem respondia vieram á janella. Viram um vulto, e pensando que estava a gazuar a porta, abriram-a de repente e deram-lhe muita pancada. O corpo cahiu. O dono da casa pensou que o tinha matado, e para se vêr livre da justiça, montou o corpo em cima de um burro e pôl-o a caminho para a feira. Ao passar pela porta do compadre pobre, diz elle para a mulher:

— Ainda aqui me apparece a excommungada. D'esta vez sempre se ganha um burro.

E pegou no corpo e foi pôl-o n'um cerrado do padre. Quando o padre o soube foi exorcismal-o montado na burra do sacristão, porque este o tinha avisado de que a excommungada andava no cavallo que pastava no cerrado. Assim que o cavallo viu a burra, correu atraz d'ella; o padre foge, a burra segue o caminho de casa, e ao entrar pela estrebaria dentro, o padre bate com a cabeça na padieira ao tempo que o cavallo chega com o corpo da excommungada. O padre quebrou a cabeça e morreu, e todos disseram que tinha sido a excommungada que lhe cahiu em cima. O irmão rico pensou que a alma da mulher andava penada, e para a despenar foi ter com o irmão e deu-lhe os bens que lhe tinha roubado e ainda muito dinheiro.

( Alemtejo.)




Notas[editar]

109. Os dois irmãos e a mulher morta. — Acha-se publicado no Elvense, n.os 202, 205 e 206, III anno, com uma redacção litteraria que prejudica o seu valor tradicional. Pertence ao cyclo do Frade morto, aqui substituido por uma cunhada, o que é uma circumstancia accidental. Ha cinco versões portuguezas do Frade morto; na tradição peninsular acha-se no Patrañuelo de Timoneda, n.º III; no Fabliau du Prêtre qu'on porte (Hist. litteraire de la France, t. XXIII, p. 141); na antiga tradição italiana: Cinquante Novelle de Masuccio, n.º 1; e modernamente acha-se colligido por Pittré, nos Fiabe e Racconti, n.º 165: Fra Ghinipera. Na collecção dos Contos russos, de Erlenwein, n.º 17, acha-se a tradição do frade morto. (Gubernatis, Myth. zoologique, t. II, p. 214.)