Contos de Grimm/O pescador e a sua esposa

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Contos de Grimm
por Irmãos Grimm
19 – O pescador e a sua esposa


O Pescador e a sua Esposa
Projeto Gutenberg
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ra uma vez um pescador que vivia com a sua esposa num casebre muito pobre que ficava perto do mar, e todos os dias ele ia pescar.

E um dia ele pegou a vara de pescar, e estava sentado, olhando para as águas claras do oceano, quando subitamente sentiu que a vara era puxada, num lugar que era bem profundo, e quando ele puxou a linha novamente, e encontrou um belo Linguado. Então, o linguado disse para ele:

— “Ei, pescador, eu te imploro, me deixe viver, na verdade, eu não sou um linguado, mas um príncipe encantado. De que vai adiantar você me matar? Eu não fui feito para ser comido, coloque-me na água novamente, e me solte, por favor."

— “Ora," disse o pescador, — “não é preciso muitas explicações a esse respeito — um peixe que pode falar certamente eu deixaria ir de qualquer maneira", e o Linguado nadou para o fundo, deixando uma grande listra de sangue para trás. Então, o pescador se levantou e voltou para onde estava a sua esposa no casebre.

O pescador e a sua esposa
ilustração de Alexander Zick (1845 - 1907)

— “Querido," disse a mulher, "você não pescou nada hoje?"

— “Não," disse o homem, "eu pesquei um linguado, que disse que ele era um príncipe encantado, então, eu o soltei novamente."

— “Você não fez nenhum desejo antes de soltá-lo?, disse a mulher.

— “Não," disse o homem, "o que mais eu poderia desejar?"

— “Ah," disse a mulher, "Não é fácil ter de viver eternamente neste casebre imundo; você deveria ter pedido para nós uma pequena cabana, certamente ele teria atendido a esse desejo."

— “Ah, disse o homem, "por quê eu deveria voltar lá novamente?"

— “Porque," disse a mulher, você o pegou, e você o deixou ir, é lógico que ele vai ouvir você. Vá já lá."

O homem não gostou da ideia de ir, mas, não gostava de contrariar sua esposa, e voltou ao mar.

Quando ele chegou lá o mar estava todo verde e amarelo e as águas estavam muito agitadas, então, ele pensou e disse:

— “Linguado, linguado do mar.
Te imploro, com meus punhos ferrenhos.
Porque a minha esposa Isabel,
Tem sonhos que eu não tenho."

Então, o linguado veio correndo para ele e disse:

— “Bem, o que é que ela quer então?

— “Ah," disse o homem, "eu pesquei você e a minha esposa diz que eu deveria ter feito um desejo antes de soltá-lo. Ela não quer viver mais numa casa toda destruída, ela gostaria de morar numa cabana melhor."

— “Volte pra casa," então, "disse o linguado, e diga a sua esposa que o desejo dela será atendido."

Quando o pescador voltou pra casa, sua esposa não estava mais no casebre pobre, mas no lugar dele havia uma pequena cabana, e ela estava sentada num banco na porta da frente. Então, ela o pegou pela mão e lhe disse:

— “Entre só dentro, e olhe, não ficou muito melhor?" Então, eles entraram, e havia uma pequena varanda, e uma linda e pequena sala de estar e um dormitório, e uma cozinha e uma copa, com as melhores mobílias, e equipados com os mais lindos utensílios de cozinha feitos de estanho e bronze, e tudo o que eles mais precisavam.

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atrás da cabana havia um pequeno quintal, com galinhas e patos, e um pequeno jardim com flores e frutas.

— “Olhe," disse a esposa, "não é tudo muito lindo?"

— “Sim," disse o marido, "e isso é tudo o que precisamos — agora vamos viver completamente felizes."

— “Pensaremos nisso," disse a esposa, E assim eles comeram alguma coisa e foram dormir. Durante uma semana ou quinze dias tudo ia bem, e então, a esposa disse:

— “Ouça, querido, esta cabana é pequena demais para nós, e o jardim e o quintal também são muito pequenos; o linguado bem que poderia ter-nos dado uma casa maior. Eu gostaria de morar num grande castelo de pedra; procure o linguado agora, e diga-lhe para nos dar um castelo."

— “Ah, querida, disse o pescador, "a cabana já nos é suficientemente boa, porque deveríamos morar num castelo?"

— “O quê?" disse a mulher, "Volte já até o linguado e ele irá nos atender."

— “Não, querida, disse o homem, "o linguado já nos deu a cabana, Eu não gostaria de voltar lá agora, ele poderia ficar bravo."

— “Vá", disse a mulher, "é fácil para ele fazer isso, e ele ficará muito contente, vá já lá."

O coração do pescador ficou pesado, e ele não queria ir. Então, ele disse para si mesmo: — “Isso não é certo." Mas, foi. E quando ele chegou perto do mar as águas estavam completamente púrpuras e azuis-escuras, e ficavam cinzentas e densas, e não ficavam mais verdes e amarelas como antes, mas eram ainda calmas. Então, ele parou e disse:

— “Linguado, linguado do mar.
Te imploro, com meus punhos ferrenhos.
Porque a minha esposa Isabel,
Tem sonhos que eu não tenho."

— “Bem, o que ela quer, então?" disse o linguado.

— “Ai," disse o homem, meio assustado, "ela quer viver num grande castelo de pedra."

— “Volte agora, então, ela o estará esperando na frente da porta," disse o linguado.

Então, o homem foi embora, pretendendo ir para casa, mas quando ele chegou lá, ele encontrou um grande palácio de pedra, e sua esposa o estava esperando na porta, e ela o pegou pela mão e disse:

— “Venha, querido." Então, ele entrou com ela, e dentro do castelo havia uma sala de recepção com piso de mármore, e muitos criados, que abriam as portas imensas, e as paredes brilhavam e eram adornadas com belíssimos tapetes, e nas salas haviam cadeiras e mesas feitas de ouro puro, e lustres de cristais pendiam do teto, e comida e vinho da melhor qualidade estavam postos em todas as mesas que elas mal suportavam o peso.

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trás do castelo, também, havia um pátio imenso com estábulos para cavalos e vacas, e as carruagens mais luxuosas; havia um jardim enorme e magnífico, também, com as mais belas flores e árvores frutíferas, e um parque com quase um quilômetro de comprimento, onde haviam cervos, veados, e lebres, e tudo o que se pudesse imaginar.

— “Venha." disse a mulher, "não é tudo muito lindo?"

— “Sim, de fato," disse o homem, "agora está tudo ótimo, e nós viveremos neste lindo castelo e seremos muito felizes."

— “Depois pensaremos nisso," disse a mulher "vamos dormir," e foram para a cama.

Na manhã seguinte a esposa acordou primeiro, e o sol já havia nascido, e do seu quarto ela via a belíssima paisagem que se estendia diante de seus olhos. Seu marido ainda estava se esticando, então, ela o cutucou de lado com a ponta do seu cotovelo, e disse:

— “Levante, marido, e dê só uma olhadinha na janela. Veja só, será que nós não poderíamos ser o rei e a rainha de todas aquelas terras? Procure o linguado, e nós seremos rei e rainha."

— “Ah, mulher," disse o homem, "porquê precisamos de tudo isso? Eu não quero ser rei."

— “Bem," disse a esposa, "se você não quer ser rei, eu quero ser rainha; vá procurar o linguado porque eu serei a rainha.

— “Ah, mulher," disse o pescador, porque você quer ser rainha? Eu não quero dizer isso a ele."

— “Porque não?," disse a mulher, "vá até ele agora mesmo, eu preciso ser rainha!"

Então, o homem foi, e estava muito triste porque a sua esposa queria ser rainha. — “Isso não está certo, isso não está certo", pensava ele. Ele não queria ir, mas, foi.

E quando ele chegou perto do mar, ele estava totalmente cinzento-escuro e as águas vinham de baixo e tinham um cheiro de podre. Então, ele foi e estando perto das águas, pensou:

— “Linguado, linguado do mar.
Te imploro, com meus punhos ferrenhos.
Porque a minha esposa Isabel,
Tem sonhos que eu não tenho."

— “Bem, o que ela deseja agora?" disse o linguado.

— “Oh," disse o homem, "ela quer ser rainha." Pode voltar, pois ela será rainha."

Então, o homem foi, e quando ele chegou ao palácio, o castelo havia se tornado muito maior, e tinha uma grande torre, e enfeites maravilhosos, e havia sentinelas diante da porta, e havia inúmeros soldados com tímbares e clarinetes. E quando ele entrou dentro do palácio, tudo era feito de mármore e ouro, com estofados de veludo e enorme pendões de ouro.

Então, as portas da sala de entrada foram abertas, e lá estava a corte com todo seu esplendor, e a sua esposa estava sentada num trono alto feito de ouro e diamantes, e tinha uma coroa de ouro em sua cabeça, e um cetro de ouro puro e joias em suas mãos, e de ambos os lados dela havia filas com as damas de espera, todas elas organizadas por tamanho, desde a mais alta até a mais baixa.

Então, ele foi e ficou diante dela, e disse:

— “Ah, querida, agora tu és a rainha."

— “Sim," disse a mulher, "agora eu sou rainha." Então, ele parou e olhou para ela, e quando ele ficou olhando para ela durante algum tempo, ele disse:

— “E agora que sois a rainha, vamos deixar tudo como está, pois, agora, não precisamos de mais nada."

— “Não, meu marido," disse a mulher, bastante agitada, — “eu acho que o tempo passa muito pesado para mim, não suporto mais isso, vá procurar o linguado. — "Eu sou a rainha, mas eu quero ser imperatriz também."

— “Querido," disse ela, vá até o linguado e peça para eu ser a imperatriz."

— “Oh, minha querida," disse o pescador, — “ele não pode te fazer imperatriz. Eu não posso dizer isso ao peixe. Há somente um imperador no país. Imperatriz certamente o linguado não te fará! Garanto que não!"

— “O quê!, disse a mulher, “eu sou a rainha e você não passa de meu marido, você irá agora mesmo? Vá imediatamente! Se ele conseguiu me tornar rainha, ele pode me fazer imperatriz . Eu serei a imperatriz, vai já."

Então, ele foi obrigado a ir, E enquanto ele ia, todavia, ele estava muito nervoso, e pensava consigo mesmo: — “Isso não vai acabar bem, isso não vai acabar bem! O império seria muito vergonhoso! O linguado vai ficar furioso com isso."

Com isso ele alcançou o mar, e o mar estava todo negro e denso, e as águas começaram a fervilhar desde baixo, de modo que ele soltava bolhas, e um vento tão cortante soprava que as ondas borbulhavam, e o pescador ficou com medo. Então, ele foi e ficou a beira do mar e disse:

— “Linguado, linguado do mar.
Te imploro, com meus punhos ferrenhos.
Porque a minha esposa Isabel,
Tem sonhos que eu não tenho."

— “O que ela quer agora?" disse o linguado.

— “Oh, linguado," disse ele, "minha esposa quer ser imperatriz."

— “Vá até ela," disse o linguado, "ela já é imperatriz."

Então, o homem foi, e quando ele chegou lá todo o palácio era feito de mármore polido com figuras de alabastro e ornamentos de ouro, e soldados estavam marchando diante da porta do palácio e tocando clarinetes, e ouvia os sons de címbalos e tambores, e no palácio, barões e condes e duques andavam para lá e para cá como se fossem criados.

Então, eles abriram as portas para ele, as quais eram feitas de ouro puro. E, depois que ele entrou, a sua esposa estava sentada ali no trono, que era feito de uma só peça de ouro, e tinha quase três quilômetros de altura, e ela usava uma grande coroa de ouro com três metros de altura, e enfeitado com diamantes e pedras preciosas, e em uma mão ela empunhava o cetro, e na outra o globo imperial, e de ambos os lados dela ficavam os homens da cavalaria em duas fileiras, organizados por altura, desde o gigante mais alto com três mil metros de altura até o anão mais baixo, tão pequeno quanto meu dedo mínimo. E diante do trono havia um grande número de príncipes e duques.

Então, o homem foi e estando no meio deles, disse:

— “Querida, você é a imperatriz agora?”

— “Sim,” disse ela, “agora eu sou a imperatriz.” Então, ele foi e olhou bem para ela, e ele ficou olhando durante algum tempo para sua esposa, e disse:

— “Ah, minha esposa, seja feliz, agora que você é a imperatriz.”

— “Querido,” disse ela, “porquê você está parado aí? Agora, eu sou a imperatriz, mas eu quero ser papa também. Vá procurar o linguado.”

— “Mas, querida,” disse o pescador, “o que você não quer ser? Você não pode ser papa, só pode existir um no Cristianismo, ele não pode te fazer papa.”

— “Meu marido,” disse ela, “Eu serei papa, vá imediatamente, eu quero ser papa ainda hoje.”

— “Não, minha querida,” disse o homem, “eu não gostaria de dizer isto a ele, não sendo isso possível, isso é demais, o linguado não pode fazê-la papa.”

— “Meu marido,” disse ela, “que tolice! Se ele pode me fazer imperatriz, ele pode me fazer papa. Vá já até ele. Eu sou a imperatriz, e você não passa de meu marido, você vai procurá-lo imediatamente?”

Então, ele ficou com medo e foi, e ele quase desmaiou, e tremia todo, e os seus joelhos e as suas pernas bambeavam. E um vento forte soprava em toda aquela região, e as nuvens sopravam forte, e por volta do anoitecer tudo ficou escuro, e as folhas caiam das árvores, e as águas se agitavam e bramiam como se estivessem borbulhando, e se estendiam pela praia, e a distância ele viu navios, que eram como canhões poderosos em seu despero premente, se movimentando e avançando sobre as ondas. E no entanto, no meio do céu havia ainda um pouquinho do azul, embora por todos os lados ele estivesse vermelho como durante uma tempestade pesada. Então, totalmente desesperado, foi e ficou com muito medo e disse:

— “Linguado, linguado do mar.
Te imploro, com meus punhos ferrenhos.
Porque a minha esposa Isabel,
Tem sonhos que eu não tenho."

— “Bem, o que ela quer agora?” disse o linguado.

— “Ai, meu Deus,” disse o homem, “ela quer ser papa.”

— “Volte já”, disse o linguado, “ela já é papa.”

Então, ele foi, e quando ele chegou em casa, ele viu o que parecia ser uma grande igreja cercada por palácios. Ele enfiou-se por entre a multidão. Dentro, entretanto, tudo estava iluminado com milhares e milhares de velas, e sua esposa estava vestida de ouro, e ela estava sentada num trono muito mais alto, e tinha três coroas de ouro na cabeça, e em torno dela havia muito esplendor eclesiástico, e dos dois lados dela havia fileiras de velas sendo a maior delas mais alta do que a torre mais alta, até as velas mais minúsculas possível, e todos os imperadores e reis se ajoelhavam diante dela, e beijavam o sapato dela.

— “Querida,” disse o homem, e olhou demoradamente para ela. — “És papa agora?”

— “Sim,” disse ela, “agora sou papa.”

Então, ele parou e olhou para ela, e era como se ele estivesse olhando diretamente para o sol brilhante. E depois que ele olhou demoradamente para ela, ele disse:

— “Ah, querida mulher, se és papa agora, agora está tudo bem! Mas ela ficou parada como um poste, e não se mexia nem mostrava nenhum sinal de vida. Então, ele disse:

— “Querida, agora que tu és papa, fique satisfeita, e não deseja nada mais agora.”

— “Vou pensar sobre isso,” disse a esposa. E assim os dois foram dormir, mas ela não estava satisfeita, e a ambição não deixava que ela dormisse, pois ela continuava pensando no que ela ainda poderia ser.

O homem dormiu bem e profundamente, já que ele teve um dia muito agitado, mas a mulher não conseguia pegar no sono de jeito nenhum, e ficava se mexendo na cama de um lado para outro, a noite toda, pensando sempre no que mais ela podia desejar, mas, não conseguia se lembrar que qualquer outra coisa. Finalmente o sol começou a nascer, e quando a mulher viu o despontar do amanhecer, ela sentou-se na cama e ficou olhando para ela. E quando, pela janela, ela viu o sol subindo dessa maneira, ela disse:

— “Será que eu não posso mandar para que o sol e a lua nasçam? Querido,” disse ela, cutucando as costelas dele com o cotovelo, “acorde, vá até o linguado, pois eu ser assim como Deus é.” O homem ainda estava meio dormindo, mas ele ficou tão assustado que ele caiu da cama. Ele pensou ter ouvido errado, e esfregou os olhos, e disse:

— “Oh, minha esposa, o que você está dizendo?”

— “Meu marido,” disse ela, “se eu não puder mandar que o sol a a lua nasçam, e ter de olhar para o sol e a lua nascendo, não vou suportar. Eu não saberei o que é ter uma outra hora feliz, a menos que eu mesma possa fazê-los nascer.” Então, ela olhou para ele de uma maneira tão assustadora que ele ficou arrepiado, e disse:

— “Vá já até o linguado, porque eu quero ser como Deus.”

— “Oh, minha querida,” disse o homem, caindo de joelhos diante dela, “o linguado não vai fazer isso, ele pode fazer você imperatriz ou papa; portanto, te imploro, fique como você está sendo papa.”

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ntão, ela ficou toda furiosa, e o seus cabelos voavam desordenadamente sobre sua cabeça, e ela gritou:

— “Não vou tolerar mais isso, não mesmo, você vai lá!” Então, ele vestiu suas calças, e fugiu que nem louco. Mas lá fora caía uma forte tempestade, casas e árvores eram derrubadas, as montanhas tremiam, rochedos rolavam em direção ao mar, o céu estava negro que nem piche, havia relâmpagos e trovões por toda parte, e o mar avançava com ondas tão negras e altas como as torres das igrejas e das montanhas, e todas elas cobertas com cristas de espumas brancas. Então, ele gritou, mas não conseguia ouvir suas próprias palavras:

— “Linguado, linguado do mar.
Te imploro, com meus punhos ferrenhos.
Porque a minha esposa Isabel,
Tem sonhos que eu não tenho."

— “Bem, o que ela quer agora?” disse o linguado.

— “Oh,” disse ele, “ela quer ser como Deus.”

— “Vá até lá, e você a encontrará de volta dentro do casebre imundo.”

E lá estão eles morando até os dias de hoje.