Curiosidade/III

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Curiosidade por Machado de Assis
Capítulo III


— Mas que tem ela, que veio calada durante a viagem toda? perguntava a si mesmo o Conceição, quando entrava em casa.

Tinha razão o noivo. Recostada no fundo do carro, ao lado da mãe, Carlota nada disse, desde que saiu do teatro até que se apeou. Minto; disse duas palavras únicas: e foi a primeira a afirmar que estava com sono, quando a mãe lhe perguntou o que tinha. A segunda foi quando o noivo se despediu dela.

— Até amanhã.

— Até amanhã.

Afora isto, não abriu os lábios a noiva do Conceição; e sendo longa distância do teatro à casa, e indo no mesmo carro o noivo, força é confessar que tamanha parcimônia de palavras era, pelo menos, esquisita. Foi o que o Conceição devia pensar, e foi o que não pensou.

— Foi realmente sono, disse ele respondendo a si próprio; era tarde, e a viagem fatiga muito.

Logo de manhã, tornou ele a pensar no incidente da véspera; mas não durou mais de cinco minutos a preocupação.

— Pareço tolo! disse ele consigo.

Conceição era um espírito reto, honesto, íntegro; podia ter uma suspeita absurda, mas não a acalentaria muito tempo. Supor que Carlota daria atenção às pretensões do outro, quando o casamento estava prestes a ser realizado, era coisa que o espírito dele não admitia; facilmente varreu a sombra da suspeita; e se o não fizesse então, fá-lo-ia nessa mesma noite, porque jamais a moça lhe pareceu tão afável, tão exclusivamente dele.

E contudo, leitora amiga, a noite que ela passou não foi a mais quieta nem a mais descuidada. Carlota dormiu tarde e mal — um pesadelo de pince-nez e bigodes. Acordou cedo e quis sacudir, com os lençóis da cama, aquela preocupação singular. Não pôde; a preocupação era mais forte que o desejo; dominou-a durante o dia todo.

Tal foi o motivo da afabilidade da moça, à noite, quando lá apareceu o Conceição. Era um modo de agarrar-se a alguma coisa, que a desviasse de uma complicação nova, e sabe Deus se fecunda em males. Infelizmente o espírito de Carlota tinha o mau jeito da frivolidade, sobre ter o da curiosidade. Três dias depois perseguia-a de novo a idéia do pretendente.

Um dia, de manhã, indo abrir uma gavetinha do toucador, deu com uma carta sem sobrescrito. Hesitou um instante curtíssimo, e abriu-a com ansiedade.

Dizia a carta:

Alguém que a ama muito, e há longo tempo, acaba de saber que a senhora está prestes a casar. Não podendo, não devendo, nem querendo obstar ao casamento, resta-lhe só dizer que, por muito que seu marido a ame, por muito que a amem seus pais e seus filhos, ninguém jamais a amará como este alguém, que não morre, porque as paixões não matam, mas cuja vida vai ser a perpétua e profunda solidão da morte.

Carlota ficou estupefacta com o achado da carta, em semelhante lugar, onde provavelmente a pusera a mão de algum fâmulo. Quis ir dali mostrá-la à mãe; depois, refletiu que era dar publicidade ao caso, e resolveu indagar por si mesma, como se a sua pesquisa singular, entre servos, não tornasse o caso notório. Nesse mudar de resoluções, ia amarrotando o papel, cheia de uma comoção, que não era de raiva, nem de indignação.

— Que atrevimento! dizia ela.

E esta palavra, murmurada com os lábios, não vinha do coração, vinha da cabeça.

Pouco a pouco foram os olhos voltando à carta, e de novo a leram, pesando-lhe desta vez cada palavra. A carta não tinha data nem assinatura; não tinha pontos de admiração, não tinha chamas, não lhe elogiava a beleza, como tantas outras, que Carlota recebera, antes de se cartear com o homem finalmente escolhido para seu noivo. Acrescia o tom do correspondente, a maneira dócil e tranqüila com que ele respeitava a afeição da moça, prestes a ser legalizada. O misterioso não lhe pedia nada; contentava-se em noticiar-lhe o seu amor.

— Mas quem será ele? perguntava Carlota.

E o pensamento ia ter com o pince-nez e os olhos negros do Teatro de S. Januário. Seria esse? Podia ser que sim, podia ser que não. Como sabê-lo? Quem lho diria? Nesse momento, ouviu passos na sala contígua: era a mãe. Carlota escondeu vivamente a carta no seio...

Pobre Conceição!

D. Fausta não viu o gesto da filha, que, aliás, lhe falou como se nada lhe trabalhasse o cérebro. A dissimulação, porém, durou pouco. Durante o resto daquele dia e nos dias seguintes, Carlota pareceu abster-se de toda a intervenção nas coisas e palestras da família. Vivia no ar, tão absorta que não raro era preciso falarem-lhe duas e três vezes para que ela chegasse a responder alguma coisa, e ainda assim respondia mal. Não gostando muito do piano, Carlota passou a despender longas horas diante dele, a decifrar os melhores pedaços de Verdi e Rossini. Lia romances em quantidade, e quando os não lia, fabricava-os com a imaginação e a memória, porque inventava sempre alguma coisa já inventada, não falando nos bigodes do Borges, que ocupavam a melhor parte de seus sonhos.

Uma semana depois da carta, meteu-se o diabo de permeio neste negócio, que bem podia ser acabado pelos anjos. O diabo protege as rivalidades amorosas; a árvore que lhe dá mais frutos é a árvore das paixões. Mas ou fosse o diabo, ou outra qualquer pessoa menos conspícua, o certo é que Carlota e Borges encontraram-se numa reunião familiar, dada em casa de um amigo do dr. Cordeiro. Para que a trama diabólica fosse melhor urdida, o Conceição não compareceu ao sarau; não se dava com a família.

— Que tem isso? disse o dr. Cordeiro quando dois dias antes lhe ouviu a declaração; eu o apresento lá hoje, trocam dois cartões...

— Não, não, disse o futuro genro; não é preciso isso; eu aproveito a noite para pôr em ordem alguns papéis.

Duas quadrilhas, duas valsas, meia hora de passeio, cinco minutos de conversa a uma janela, tais foram os preliminares das relações entre o Borges e a filha do dr. Cordeiro. Carlota escolhera o seu melhor vestido, e pusera as mais belas jóias — e se não havia muito gosto na toilette, havia certo aparato, justamente o que mais podia fascinar o novo pretendente. Quanto a este, estava no trinque; e nunca o pince-nez lhe brincou melhor sobre o nariz. Havia nele um arzinho atrevido e dominador, uma expressão de vaidade, que o tornavam insuportável aos homens, mas que era justamente o segredo da influência que desde logo exerceu no espírito de Carlota. Como ele lhe pedisse mais uma valsa, Carlota recusou com uma palavra indiscreta.

— Não, disse ela sorrindo; podem reparar que é a terceira.

Borges aceitou esta recusa com igual contentamento ao que lhe daria uma simples sucessão. Talvez maior. Fitou-lhe uns olhos muito compridos e muito magoados, a que ela respondeu com outros não menos magoados e não menos compridos.

— Será ele o autor da carta? dizia a moça, já na alcova, sem poder conciliar o sono.

E no pendor em que o coração lhe ia para o Borges, começava a lastimar-se se a carta não fosse dele, porque esta lhe parecia o natural complemento do rapaz...

No dia seguinte, Carlota ergueu-se um pouco envergonhada e irritada contra si própria. Acusava-se de ter sido indiscreta, de haver dado ao Borges esperanças que não podia realizar, lembrou-se que era noiva, e que amava... ou devia amar o marido. O Conceição almoçou lá nesse dia; era domingo. Carlota fez-se muito amável com ele, mais amável do que nunca. Verdade é que, se comparava os dois, não dava a palma ao noivo. Não havia neste nem a preocupação elegante, nem a graça das maneiras, nem sequer a regularidade das feições, acrescendo que o Conceição era uma fisionomia um tanto austera, com uns longes de apático, ao passo que o Borges tinha aquele arzinho, de que acima se falou. Não obstante, Carlota procurava esquecer o Borges, entregando-se toda ao Conceição, e fazia-o com muita sinceridade, e algum estrépito, como se quisera aturdir-se.

— Ainda hoje me não tocou um bocadinho de piano, disse o Conceição.

— Quer?

— Peço.

— Vou cumprir suas ordens, redargüiu a moça com infinita graça.

O noivo acompanhou-a e sentou-se ao pé dela. No outro lado da sala ficava o pai, lendo o Jornal do Commercio. A mãe estava à porta do corredor, dando ordens a um escravo. Foi nessa ocasião que soou a campainha da escada, e outro escravo veio trazer um cartão de visita ao dr. Cordeiro.

— Que entre! disse este.

— Quem é? perguntou a moça erguendo-se e olhando por cima do piano.

Disse isto, e subitamente empalideceu; o Borges estava à porta da sala.