Dante (Machado de Assis)

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Dante
por Machado de Assis
Pertence a coletânea Ocidentais, publicada em Poesias Completas (1901), páginas 334-340.

DANTE


(Purgatorio, canto XXV.)


Acabára o ladrão, e, ao ar erguendo
As mãos em figas, deste modo brada:
«Olha, Deus, para ti o estou fazendo!»

E desde então me foi a serpe amada,
Pois uma vi que o collo lhe prendia,
Como a dizer: «não falarás mais nada!»

Outra os braços na frente lhe cingia
Com tantas voltas e de tal maneira
Que elle fazer um gesto não podia.

Ah! Pistoia, por que n’uma fogueira
Não ardes tu, se a mais e mais impuros,
Teus filhos vão nessa mortal carreira?


Eu, em todos os circulos escuros
Do inferno, alma não vi tão rebellada,
Nem a que em Thebas resvalou dos muros.

E elle fugiu sem proferir mais nada.
Logo um centauro furioso assoma
A bradar: « Onde, aonde a alma damnada? »

Maremma não terá tamanha somma
De reptis quanta vi que lhe ouriçava
O dorso inteiro desde a humana coma.

Junto á nuca do monstro se elevava
De azas abertas um dragão que enchia
De rogo a quanto alli se approximava.

« Aquelle é Caco, — o Mestre me dizia, —
Que, sob as rochas do Aventino, ousado
Lagos de sangue tanta vez abria

« Não vae de seus irmãos acompanhado
Porque roubou malicioso o armento
Que alli pascia na campanha ao lado,

« Hercules com a maça e golpes cento,
Sem lhe doer um decimo ao nefando,
Poz remate a tamanho atrevimento. »

Elle falava, e o outro foi andando.
Na emtanto embaixo vinham para nos
Trez espíritos que só vimos quando

Atroára este grito: « Quem sois vós? »
Nisto a conversa nossa interrompendo
Elle, como eu, no grupo os olhos pôz.

Eu não os conheci, mas succedendo,
Como outras vezes succeder é certo,
Que o nome de um estava outro dizendo,

« Cianfa aonde ficou? » Eu, por que esperto
E attento fosse o Mestre em escutal-o,
Puz sobra a minha boca o dedo aberto.

Leitor, não maravilha que acceital-o
Ora te custe o que vás ter presente,
Pois eu, que o vi, mal ouso acredital-o.

Eu contemplava-os, quando uma serpente
De seis pés temerosa se lhe atira
A um dos tres e o colhe de repente.

Co’ os pés do meio o ventre lhe cingira,
Com os os da frente os braços lhe peava,
E ambas as faces lhe mordeu com ira.

Os outros dous ás coxas lhe alongava,
E entre ellas insinua a cauda que ia
Tocar-lhe os rins e dura os apertava.

A hera não se enrosca nem se enfia
Pela arvore, como a horrivel féra
Ao peccador os membros envolvia.

Como se fossem derretida cera,
Uma só vulto, uma côr iam tomando,
Quaes tinham sido nenhum delles era.

Tal o papel, se o fogo o vae queimando,
Antes de negro estar, e já depois
Que o branco perde, fusco vae ficando.

Os outros dous bradavam: « Ora pois,
Agnel, ai triste, que mudança é essa?
Olha que ja não és nem um nem dois! »

Faziam ambas uma só cabeça,
E na unica face um rosto mixto,
Onde eram dois, a apparecer começa.

Dos quatro braços dous restavam, e isto,
Pernas, coxas e o mais ia mudado
N’um tal composto que jamais foi visto.

Todo o primeiro aspecto era acabado;
Dous e nenhum era a cruel figura,
E tal se foi a passo demorado.

Qual cameleão, que variar procura
De sebe ás horas em que o sol esquenta,
E correndo parece que fulgura,

Tal uma curta serpe se apresenta,
Para o ventre dos dous corre accendida,
Lívida e côr de um bago de pimenta.

E essa parte por onde foi nutrida
Tenra creança antes que á luz saisse,
N’um delles morde, e cae toda estendida.

O ferido a encarou, mas nada disse;
Firme nos pés, apenas bocejava,
Qual se de febre ou somno alli caisse.

Frente a frente, um ao outro contemplava,
E á chaga de um, e á boca de outro, forte
Fumo saia e no ar se misturava.

Cale agora Lucano a triste morte
De Sabello e Nasidio, e attento esteja
Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.

Cale-se Ovidio e neste quadro veja
Que, se Arethusa em fonte nos ha posto
E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.

Pois duas naturezas rosto a rosto
Não transmudou, com que ellas de repente
Trocassem a materia e o ser opposto.

Tal era o accordo entre ambas que a serpente
A cauda em duas caudas fez partidas,
E a alma os pés ajuntáva estreitamente.

Pernas e coxas vi-as tão unidas
Que nem leve signal dava a juntura
De que tivessem sido divididas.

Imita a cauda bifida a figura
Que alli se perde, e a pelle abranda, ao passo
Que a pelle do homem se tornava dura.

Em cada axilla vi entrar em braço,
A tempo que iam esticando á fera
Os dous pés que eram de tamanho escasso.

Os pés de traz a serpe os retorcêra
Até formarem-lhe a encoberta parte,
Que no infeliz em pés se convertêra.

Emquanto o fumo os cobre, e de tal arte
A côr lhes muda e põe á serpe o vello
Que já da pelle do homem se lhe parte,

Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcel-o
Aquelle torvo olhar com que ambos iam
A trocar entre si o rosto e o vel-o.

Ao que era em pé as carnes lhe fugiam
Para as fontes, e alli do que abundava
Duas orelhas de homem lhe saíam.

E o que de sobra ainda lhe ficava
O nariz lhe compõe e lhe perfaz
E o labio lhe engrossou quanto bastava.

A boca estende o que por terra jaz
E as orelhas recolhe na cabeça,
Bem como o caracol ás pontas faz.

A lingua, que era então de uma só peça,
E prestes a falar, fendida vi-a,
Emquanto a do outro se une, e o fumo cessa.

A alma, que assim tornado em serpe havia,
Pelo valle fugiu assobiando,
E esta lhe ia falando e lhe cuspia.

Logo a recente espadua lhe foi dando
E á outra disse : « Ora com Buoso mudo ;
Rasteje, como eu vinha rastejando! »

Assim na cova setima vi tudo
Mudar e transmudar; a novidade
Me absolva o estylo desornado e rudo.

Mas que um tanto perdesse a claridade
Dos olhos meus, e turva a mente houvesse,
Não fugiram com tanta brevidade,

Nem tão occultos, que eu não conhecesse
Puccio Sciancato, unica alli vinda
Alma que a fórma propria não perdesse;
O outro chóral-o tu, Gaville, ainda.