De Port Said a Suez/II

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De Port Said a Suez
por Eça de Queirós
Diário de Notícias de 19 de Janeiro de 1870


Dizia-se que o Lafite, pequeno vapor que na véspera tinha partido como explorador, encalhara; que os navios reais e imperais, os vapores egípcios com os convidados não podiam passar na estreiteza do canal, e que apesar de alijados da sua artilharia, e sem lastro, pediam mais água do que o canal tinha de profundidade; que o vice-rei e Mr. De Lesseps tinham partido para ver o Lafite; que se resolvera, em último caso, fazê-lo saltar; que as festas cessavam, e tudo regressava a Alexandria, como no tempo das derrotas de Actium.

Em Port Said e a bordo dos navios havia inquietações: os comissários, as oficialidades, os engenheiros, interrogados, calavam-se discretamente, esperavam ordens de Ismailia - e receavam. Com efeito o Lafite estava encalhado. Isto, em primeiro lugar, demonstrava a impraticabilidade do canal - o Lafite é um pequeno vapor, estreito, calando pouco, quase um rebocador. Além disso, era um obstáculo material, brutal, a que os outros navios fizessem uma tentativa corajosa.

Dizia-se que o vice-rei estava desolado, que Mr. De Lesseps perdera a sua habitual e impassível firmeza de espírito, e que se telegrafara para Paris anunciando o resultado desastroso. Realmente, depois de dez anos de tantos esforços e tantas lutas, tantos combates, com o deserto, e tantos combates com a intriga, depois de tantos milhões sorvidos pelas areias, de tantas vidas aniquiladas, de tantos créditos fundados, de tantas festas anunciadas, depois das bênçãos de Mr. Bauer e das ovações a Mr. De Lesseps, era doloroso ver tudo aquilo findar repentina e vergonhosamente, ver-se que num canal feito para a navegação não cabiam navios, que aquilo era uma obra ridiculamente grandiosa, e que em lugar de tudo terminar em triunfos, tudo terminava em gargalhadas! Estivemos nestas incertezas parte do dia. Esperava-se o vice-rei, que fora num pequeno escaler ao canal ver o desastre do Lafite. Enfim, pelo começo da tarde, os navios começaram a mover-se, as inquietações findaram, o vice-rei voltava, o Lafite estava desencalhado, a Águia seguia, e a obra de Mr. De Lesseps começava a justificar-se.

O Fayoum, então, penetrou corajosamente no canal. O Fayoum era o maior navio do cortejo. Caminhava-se com grande cuidado; no meio do canal bandeiras brancas marcavam precisamente a linha que deviam seguir os navios, para acharem a necessária profundidade de água. Conservavam-se minuciosamente em distância; ia-se devagar, sondando; havia mais cuidados e escrupulosos receios, do que na navegação de um labirinto de rochas. Na realidade, o canal aparecia-nos estreito, baixo, e a cada momento receávamos ver a proa do navio ir atufar-se nas areias das margens elevadas. O canal, ao sair de Port Said, atravessa o Mensaleh, antigo lago lamacento. Nós víamos de ambos os lados do canal reluzir ao sol aquela água morta, pesada, esverdeada.

Foi esta a primeira grande dificuldade dos trabalhos. Era necessário, no meio daquele largo lodaçal, abrir um canal navegável e construir margens. As dificuldades cresciam com a insalubridade daqueles lugares miasmáticos. Felizmente, ao violento sol do Egipto, o lodo extraído e deposto, a fim de formar as margens, secava rapidamente. Houve ali esforços heróicos. Os operários da Europa desertaram daquele trabalho perigoso. Era necessário empregar os habitantes das margens daquele lago de lamas: estas entravam até à cintura na água espessa, tiravam com as mãos a maior quantidade de lodo possível, apertavam-no ao calor do peito até secar, e iam-no enfileirando em pequenos montículos, formando assim o começo das margens. As dragas vinham por fim, e aprofundavam e aperfeiçoavam aquele trabalho elementar.

Depois do lago Mensaleh o canal entra definitivamente no deserto, até ao lado Timsah, à beira do qual está Ismailia. A meio do caminho de Ismailia, o Fayoum encalhou na areia da margem direita, desembaraçou-se com grandes esforços, seguiu, mas, como a pouco espaço encontrasse o caminho obstruído por outro navio que estava encalhado, lançou âncoras durante a noite. Havia uma lua admirável, que iluminava de um lado e de outro a extensão branca do seserto. Aquele lugar onde estávamos parados tinha sido precisamente um dos mais difíceis do trabalho. Chamava-se El-Guisrh. Havia ali enormes dunas de areia, que era necessário remover. O vento do deserto incomodava e impedia os trabalhos. Viviam ali, em trabalho incessante, dezoito mil operários. Da terra que se tirava para fazer o leito do canal formaram-se, de um lado e de outro, parapeitos enormes: à maneira que os parapeitos cresciam, mais difícil era conduzir-lhes acima a terra que se tirava; os árabes levavam-na, resvalando, rolando, caindo, em cestos chamados couffins; recusavam-se obstinadamente a empregar outro qualquer meio moderno e eficaz, para conduzir a terra, que não fosse o couffin. Calculou-se que todos os cestos empregados, sendo colocados em linha, dariam três vezes a volta ao globo. Todavia os parapeitos ainda não eram obstáculos bastantes contra o vento do deserto e contra a invasão crescente das areias: fixavam-se ali paliçadas, elevavam-se muralhas de lama seca, faziam-se plantações numerosas e vivazes para impedir a flutuação das areias. Naquela multidão de operários havia a mais absoluta ordem: ali, e em todo o percurso dos trabalhos havia hospitais, ambulâncias, armazéns: incessantes caravanas percorriam o deserto trazendo víveres. O europeus, logo ao princípio, esmagados pela imensidade e estranheza do trabalho, desertaram. Vinham então gregos, dálmatas, arménios, árabes. Todas as raças, todas as línguas, todas as religiões ali se reuniam. Do interior do deserto corriam as tribos de beduínos a pedir trabalho. Havia enormes acampamentos.

Mr. De Lesseps andava sempre no caminho dos trabalhos, no seu belo dromedário branco, envolto num burnu árabe, aclamado pelos operários. Aquelas pobres raças da planície e do deserto estavam fascinadas por duas coisas novas para elas - o ganho pelo trabalho, e a água abundante!

Nada restava agora daquele grande movimento, senão, a grandes espaços, algum abarracamento levantado à beira do canal, donde os operários vinham saudar com grande ruído a passagem dos navios.

Ao outro dia pela manhã entrávamos, ao ruído das salvas, no lago Timsah. No fundo víamos a cidade de Ismailia. Era ali o centro das festas. Ismailia é a capital do canal.

É um porto admirável, inacessível às tempestades, À simples agitação da água; não porto de passagem como Port Said ou Suez, mas perfeita estação de descanso para a navegação do Oriente. Comunica com o Egipto pelo caminho de ferro e pelo canal de água doce. tem praças, largos, ruas de futura capital. Não é cidade rude e trabalhadora como Port Said, cheia de oficinas e de operários. É uma cidade cheia de chalets, de esboços de palácios, de passeios arborizados, de cais largamente construídos. Tem já os refinamentos civilizados de uma capital; tem mesmo já uns pequenos ares de corrupção; as almeias exiladas do Cairo, refugiadas em Esneh no Alto Egipto, têm-se vindo aproximando de Ismailia. Tudo aquilo assenta, é verdade, sobre a areia, e para os lados do deserto vive uma população árabe em toda a sua pitoresca miséria. Mas a sua colocação é excelente: confinada entre um deserto e um lago tem para se abastecer o baixo vle do Nilo, a seis horas de distância, e para comunicar com o mundo a navegação do canal. Pela sua posição é um porto forçado, e o melhor do Oriente. Todos os paxás do Egipto têm tido, como os antigos tiranos, o desejo de ligar a sua memória à edificação de uma cidade: Mehemet-Ali, Said-Paxá, Abas-Paxá, todos. A cidade que este último original fundou, Abasíade, ainda hoje está acabando de se desmoronar perto do Cairo, no caminho da antiga Heliópolis, numa vasta planície deserta.

Ismail-Paxá será talvez mais feliz, e Ismailia poderá vir a ser a capital europeia do velho Egipto, como Alexandria é a sua capital comercial, e o Cairo a sua capital histórica.