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Suspiros poéticos e saudades (1865)/Deos, e o Homem

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IV.
 
DEOS, E O HOMEM.
 

Nos Alpes, 14 de outubro 1834.

Quando se arrouba o pensamento humano,E todo no infinito se concentra,De milhões de prodigios povoadо;Quando sobre o fastigio de alto monte,Como um colibre sobre altivo robre,Na vastidão sidérea a vista espraia;E vê o sol, que no Oriente assoma,Como n’um lago em propria luz nadando,E a noite, que se abysma no occidente,Arrastando seu manto tenebroso, De pallidas estrellas semeado;Quando dos gelos, que alcantis corôam,Vê a enchente rolar em cataractas,Por cem partes abrindo largo leito,Fragas, e pinheiraes desmoronando;Quando vê as cidades enterradasA seus pés na planice, e negros pontosAqui, e alli, moverem-se sem ordem,Como abelhas em torno da colmeia;O homem então se abate; um suor frio,Qual o suor que o moribundo côa,Rega-lhe o corpo extatico; sua alma,Como um subtil vapor, que o lirio exhala,Ferido pelo raio matutino,Da terra se levanta; e o corpo algenteQual um combro de pó morto parece…Ella está no infinito! — Então lhe trôaUma voz, como o echo das cavernas,Quando os ventos nos ares se debatem;Como um ronco do Oceano repellidoPor estavel penedo; como um gritoDas entranhas da terra, quando accesasDe sua profundez lavas borbotam; Como o rouco bramido das tormentas;É a voz do Universo! — voz terrivel,Porêm harmoniosa, que proclamaA existencia de um Ser, que de sí mesmo,De sua omnisciencia, e eterna força,Tudo tirou, quanto o Universo encerra.
Os céos, os mundos, o Oceano, a terraÉ um vasto hieroglyphico, é a fórmaSymbolica do Ser aos olhos do homem.O movimento harmonico dos orbesÉ o hymno eterno e mystico, que narraAltamente de um Deos a omnipotencia.Tudo revela Deos, — e Deos é tudo.
De tal grandeza sotoposto ao peso,Como si o esmagasse ingente mole,O homem se aniquila, e desparece,Qual no profundo pégo um grão de areia.
É aqui, oh meu Deos, calcando nuvens,Parecendo tocar o céo co’ a fronte,Que eu reconheço a immensidade tua. Existe este Universo, existe o homem,Porque de todo o Ser tu és a origem.
Aqui, para louvar teu sancto Nome,É fraco o peito humano, é fraca a lingua,É fraca a voz, que titubante hesitaTão alto remontar, e no ar perder-se,Antes que de astro em astro repetida,De um céo a outro céo, de um Anjo a outro,Vá retinir, Senhor, em teus ouvidos,Como discorde som de rota lyra.
Alva nuvem, que toucas este monte,Desce um pouco, e recebe-me em teu dorço;Asinha ala-me ao céo; na etherea plaga,Vendo o sol de mais perto, talvez possa,Com sua luz benefica animado,Altísono entoar um hymno excelso,Digno de Jehová, que eterno escutaDos angelicos córos a harmonia.Abre-te, oh céo azul, que a mortaes olhosA mansão do Senhor zeloso occultas!Abre-te, oh céo azul; deixa minha alma Saciar-se co’ a luz da Sião sancta.Sóbe, meu pensamento, vôa, rompeOs turbilhões dos Cherubins, e Thronos,Mais bellos que mil soes, mais coruscantes,Que em vortice perenne estão ladeandoDo Eterno Padre o luminoso solio.
Oh arrojado pensamento humano,Por mais que em teu soccorro os astros chames,Por mais que sua luz o sol te empreste,Seu ouro a terra, o céo a immensidade,Os ríos a corrente, os campos flores,Suas azas a raio, os sons a lyra,E a noite seu mysterio, alfim si tudoInvocado por ti, a ti se unisse,Não poderás ainda em teus transportesOs louvores tecer do Omnipotente!
Mas, oh Deos, que missão tens confiadoA este fraco ser, que sobre a terraEntre os mais seres como um rei se ostenta,E unico para ti erguendo os olhos,Parece teu rival?… Missão augusta É sem dúvida a sua; e o seu destinoNão é o d’alimaria!… A NaturezaObedece a seu mando, como si elleEntre Deos e a terra collocado,Orgam fosse das leis da Providencia.
Quem a elle se oppõe? — Embalde o OceanoCom cem braços separa os continentes.O homem desthrona os robres, e os pinheirosDas fragas da montanha, ousado os lançaSobre a cerviz do Oceano, enfreia os ventos,E assoberbando as vagas furibundas,Que ante seu genio quebram-se gemendo,Domina, e calca o tumido elemento,E atravessa de um pólo a outro pólo,Como atravessa os ares veloz aguia.Aqui bramando, um río se devolve,Qual serpente feroz medo incutindo;Co’ uma arcada de pedra o homem cobre-o;Elle a derruba? — Nova arcada o doma.
Como gigantes firmes, alinhados,Para impedir-lhe a marcha, as frontes erguem Enormes Alpes, açoutando as nuvensCo’ a corôa de gelo, e co’ os pennachosDe branca carambina, e verdes selvas;Não retrograda o homem, não desmaia!Quando sobre a cimeira o sol se encosta,E a vista estende á profundez do valle,O sol já no arduo afan vencendo o enxerga.Quando transmonta o sol, o homem dá tregoas,E descança na já vencida estrada!De dia em dia assim prosegue ovante;Ora esbrôa um cabeço mais supino,E co’ as ruinas desse outro nivela;Ora sóbe, ora desce, ora torneia,Ora penetra a rigidez do monte,Como a setta do Indio os ares rompe,E a noite das abóbadas varando,D’ outro lado vai ver o céo, e o dia!Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Tu convertes os bosques em cidades;Marcas do sol o gyro, e o dos cometas;Do povo alado as regiões exploras;Nem no mar a baleia está segura, Nem nas espessas selvas o elephante!Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Toda a terra está cheia com teu nome;Um seculo transmitte a outro seculoDos teus feitos a historia portentosa;Tu só marchas, tu só te desenvolves,E inda não recuaste de fadiga!Com que signal sellou a tua fronteA mão do Criador? — Donde descendes?Quem tu és? Quem tu és, que podes tanto?
Não, não és para mim mais um enigma!Conheço a origem tua, e o teu destino,Tua missão conheço sobre a terra.A Natureza toda te respeitaPorque és do Criador a obra prima,Porque transluz em ti o seu transumpto.
Não é á força tua que se curvaA terra, que si á força se curvasse,Seria o elephante o rei da terra.É á tua sublime intelligencia, E a Deos, só a Deos, que tu reflectes,Como do sol a luz reflecte a lua.
Nas barreiras da morte tudo esbarra;Menos o homem, que atravessa airoso,Ahi o mortal corpo abandonando,Para no seio entrar da Eternidade;Assim o viajor o pó sacode,E deixa o companheiro da viagem,Manto todo coberto de poeira,Quando á cidade desejada chega.A alma não morre, porque Deos não morre.
Assás, oh Deos, o homem sobre a terraRevela teu poder, tua grandeza.A Razão, és tu mesmo; — a liberdade,Com que prendaste o homem, não, não pódeDominar a Razão, que te proclama!Si muda para mim fosse a Natura,Na Razão que me aclara, e não é minha,Senhor, tua existencia eu descobriria.
Eu te venero, oh Deos da Humanidade!Meu amor o que tem para offertar-te? Digno de ti só tem minha alma um hymno,E esse hymno, oh meu Senhor, é o teu Nome!
Que póde o homem dar a quem dá tudo?Só em meu coração suspiros tenho,Suspiros para todos os momentos.De ti, Senhor, minha alma necessita,Como de luz meus olhos, de ar meu peito.E si me é dado a ti subir meus votos,Si é dado pela mãe pedir um filho,Vôem meus votos sobre as igneas azasDo sol, e tu, Senhor, propicio atende;Nada por mim, por minha Patria tudo;Fados brilhantes ao Brasil concede.