Dicionário de Cultura Básica/Ícaro

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ÍCARO (filho de Dédalo, o arquiteto da liberdade: o sonho de voar) → Argonautas

E volava, volava nel cielo infinito...
Nel blù, dipinto di blù!
Felice di stare lassù...
(canção italiana)

O mito de Ícaro é inseparável das lendas que envolvem a figura de seu pai Dédalo, o primeiro grande inventor da humanidade. Três são as maiores façanhas relacionadas a Dédalo e Ícaro, centradas na corte do rei Minos, em Creta: 1) a construção de uma "Vaca" de madeira, revestida de couro, onde a rainha Pasífae, apaixonada pelo touro de Posêidon (→ Netuno), se ocultou para seduzir o volumoso animal: desta medonha união nascera o "Minotauro", monstro com corpo de homem e cabeça de touro, que se alimentava de carne humana; 2) o rei Minos, para esconder o vergonhoso parto de sua esposa, obrigou Dédalo a mudar de profissão: de carpinteiro passou a ser engenheiro para construir o "Labirinto", onde foi abrigado o Minotauro; 3) quando o herói Teseu conseguiu sair do Labirinto pela ajuda de Ariadne, a filha de Minos que lhe forneceu o fio fabricado por Dédalo, o rei de Creta puniu o arquiteto e seu filho Ícaro, aprisionando-os no Labirinto. Dédalo, então, construiu duas asas de madeira, fixando-as com cera nos ombros do filho. Ícaro alçou vôo por cima do mar, mas, desobedecendo à ordem paterna, quis voar muito alto, chegando perto do Sol (→ Hélios). O calor fez derreter a cera e ele caiu no mar, sendo castigado pela sua ambição.

Ao redor desse mito, os artistas da palavra, do pincel e do escalpelo criaram obras maravilhosas, ao longo da cultura ocidental, ora exaltando a figura do artesão-escultor (Dédalo), ora representando o homem-pássaro (Ícaro). Enquanto o pai representa o princípio racional da vida criativa, o filho simboliza o princípio heróico, o sonho, a aventura desmedida. O inglês Michael Ayrton compõe várias obras importantes para reviver, na era moderna, o antigo mito cretense: O Testamento de Dédalo (1962: coletânea de desenhos, contos e poemas), The Maze-Maker (1968: "O Construtor do Labirinto"); além de uma estátua e de um filme sobre Dédalo. O romance do irlandês James Joyce, Retrato do Artista quando Jovem (1917), é traduzido para o francês com o título Dédalo, sobrenome do pai do protagonista Stephen. O poeta grego Ángelos Sikelianós (1884–1951), na tragédia Dédalo em Creta, representa o personagem mítico como o arquiteto da liberdade, pois ajuda a rainha Pasífae e o herói Teseu a derrubar a tirania de Minos. Ícaro, o primeiro homem a se levantar da terra usando asas, foi o grande inspirador da aviação moderna. O brasileiro Alberto Santos Dumont (1873–1932), após encantar os franceses com uma série de 14 balões dirigíveis, em 1906, do campo de Bagatelle em Paris, alçou vôo (do chão!), com uma máquina mais pesada que o ar, o aeroplano chamado 14-Bis. Por bem da verdade, é preciso dizer que uma experiência semelhante já tinha sido feita, três anos antes, pelos irmãos Wright nos USA, mas com a grande diferença de que eles utilizaram uma plataforma de lançamento para catapultar o avião do solo. Tal diferença faz com que os brasileiros, com razão, possam considerar Santos Dumont o pai da navegação aérea. Depois do avião, veio a conquista do espaço sideral. "A terra é azul" dizia Gagarin, em 1957, quando a antiga União Soviética lançou ao espaço o primeiro satélite artificial com o nome de Sputnik. O esforço da outra potência mundial, os EUA, para superar a façanha soviética deu origem à corrida espacial, propiciando um grande progresso para as telecomunicações no mundo pela colocação em órbita de satélites cada vez mais sofisticados. Quatro anos após o lançamento do Sputnik, a antiga URSS coloca um homem no espaço, pela primeira vez. Yuri Gagarin, a bordo da nave especial Vostok, deu uma volta completa ao redor da Terra em 108 minutos, demonstrando que o homem podia superar a lei da gravidade. Em 1965, chegamos à era do satélite: o lançamento de Intelstat I, poeticamente chamado de "Pássaro da madrugada", inaugura uma nova fase nas comunicações a longa distância, que se sucede à invenção do rádio por Marconi. Em 1969, Neil Armstrong é o primeiro homem a pisar na Lua. E o sonho de Ícaro não cessa de se realizar: o ser humano, insatisfeito com sua condição de mortal, aspira á conquista daquilo que jamais poderá alcançar: o Infinito! As aventuras dos modernos "Astronautas" são replicas das aspirações dos antigos Argonautas.