Dicionário de Cultura Básica/Ironia

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Ironia


IRONIA (humor, cinismo, peripécia) → RetóricaMachado

"O humor é a quintessência da verdade"
(Millôr Fernandes)

Do grego eiróneia, "interrogação", a ironia é uma figura retórica, referente ao modo de expressar um pensamento, dizendo o contrário do que se pensa, ou uma forma de argumentar pela qual se põe em dúvida alguma afirmação do interlocutor, fazendo perguntas que demonstrem sua ignorância sobre o assunto em discussão. Enfim, trata-se de "uma ignorância simulada". Machado de Assis, no conto Teoria do Medalhão, assim define a ironia: "Esse movimento ao canto da boca, cheio de mistérios, inventado por algum grego da decadência, contraído por Luciano, transmitido a Swift e Voltaire, feição própria dos céticos e desabusados". Uma breve análise da definição acima revela as seguintes características desta figura de estilo:

1) a atitude física do homem irônico que, pelo seu sorriso enigmático, expressa a descrença nos valores ideológicos, questionando, com sutileza e humor, as regras que regem o comportamento social e os critérios que determinam o certo e o errado, o bem e o mal, a razão e a loucura, o normal e o anormal, o licito e o ilícito;

2) o espaço e o tempo das primeiras manifestações da ironia: a Grécia da época da decadência. Segundo a tese sustentada por Vianna Moog (Os heróis da decadência), a ironia tem seus principais cultores nas épocas de decadência política, religiosa, social e moral, quando o homem, perante o fracasso dos ideais, é colhido pelo desencanto da vida, caindo num relativismo que lhe impede de acreditar em qualquer valor absoluto. Evidentemente, o ficcionista Machado de Assis e o crítico Vianna Moog se limitam a tratar da ironia no plano estético e moral, porque, como postura dialética do espírito em busca da verdade, a ironia já fora praticada pelos sofistas e pelo filósofo Sócrates, principalmente, inclusive como método didático: a famosa "ironia socrática";

3) a figura de estilo é usada por vários autores, citando alguns escritores irônicos: Luciano de Samosata, retor e sofista grego do séc. II d.C., através de suas conferências e de seus escritos (Diálogos dos Deuses, Diálogos dos Mortos, Lúcio ou O Asno), satirizou os costumes da época, ridicularizando os preconceitos socio-morais; Jonathan Swift, escritor irlandês do começo do séc. XVIII, autor da famosa obra As Viagens de Gulliver, ridicularizou as várias seitas do cristianismo e atacou violentamente a vida pública da Inglaterra; Voltaire, o patriarca da cultura francesa do séc. XVIII, liberal e anticlerical, foi considerado "o mestre da ironia", especialmente pelas suas obras satíricas Zadig e Micromégas (contos), A Donzela (poema herói-cômico), Cândido, O Ingênuo, O Homem de Quarenta Escudos (romances);

4) o fundamento filosófico da ironia: o Ceticismo, escola fundada pelo grego Pirrão de Élida no séc. III a.C. e divulgada no mundo helenizado por Sexto Empírico. A doutrina cética ensina que é impossível conhecer a verdade (ceticismo gnoseológico), a origem primeira das coisas (ceticismo metafísico), Deus (ceticismo religioso), a distinção do bem e do mal (ceticismo ético). O ceticismo está fundamentado sobre dois pressupostos basilares: a contradição dos dados do conhecimento e a equivalência das razões contrárias. Na literatura brasileira, o que melhor cultivo o estilo irônico de escrever ficções foi, sem dúvida, Machado de Assis, para quem a ironia é uma disposição de espírito provocada pela reflexão sobre as contradições da alma humana e do convívio social. Na base da ironia machadiana podemos encontrar um pessimismo radical, derivado da concepção do mundo como dor e maldade. A crítica externa, sobre as obras de Machado de Assis, tem apontado vários fatores biopsíquicos e socio-culturais para explicar o motivo do seu pessimismo: o complexo de inferioridade por causa da cor; origem humilde; a epilepsia, doença neurológica humilhante ; a influência da teoria determinista de sua época, segundo a qual o homem já nasce com o seu destino traçado por taras hereditárias e lhe é impossível qualquer melhoramento; o pessimismo filosófico de Schopenhauer; a teoria luterana da corrupção fundamental do homem pelo pecado original; o jansenismo pascaliano que nega a liberdade humana, sendo a salvação possível apenas pela predestinação e pela graça divina. Mas pouco importa indagar qual seja o fator ou o conjunto de fatores que subjazem ao pessimismo de Machado de Assis, pois nos interessa estudar a obra e não o homem. Mais importante do que determinar o motivo dos complexos machadianos, é tentar verificar como as suas contradições existenciais se tornaram formas e temas literários, adquirindo um parâmetro de universalidade. Verdadeiro gênio é quem consegue sublimar em motivos artísticos suas inquietações espirituais. A visão negativista do mundo e do homem, pela qual tudo é maldade e sofrimento (postura pessimista), e a conseqüente descrença numa possibilidade de melhoramento (postura cética) se transformam, no Machado da maturidade artística, em duas atitudes estéticas: a forma irônica e o conteúdo humorístico. A ironia, como figura de estilo, é um "metassemema" (→ Retórica), figura de sentido, que consiste em dizer o contrário daquilo que se está pensando. Machado faz da ironia uma técnica narrativa constante: sua estrutura fabular preferida apresenta a frustração de uma expectativa, pois os acontecimentos tomam um rumo contrário ao esperado, surpreendendo continuamente as conjeturas do leitor. A esta forma irônica está ligado, indissoluvelmente, um conteúdo humorístico, porque, como sabemos, a essência do cômico reside no desvio da normalidade. Os contrastes fortuitos, característicos do enredo machadiano, constituem a expressão artística da ironia do destino: o homem consegue, quase sempre, o contrário do que espera. Os atos humanos são dirigidos pelo acaso e, portanto, é inútil qualquer programa de vida ou o recurso a qualquer tipo de adivinhação porque o destino é indevassável e imutável. Neste sentido, a ironia machadiana se aproxima do conceito de peripécia, figura peculiar da narrativa dramática, assim definida por Aristóteles: "a peripécia é a súbita mutação dos sucessos, no contrário; e esta inversão deve produzir-se de modo verossímil e necessário". A ironia, quando está no poder ou com o poder, se torna cinismo: o tirano esclarecido pode dizer que é o que não é, que existe o que não existe, que é bom o que é mal. Além da ironia "trágica" de cunho machadiano, há, na Literatura Brasileira, vários cultores da ironia "cômica", os chamados "humoristas". Entre eles, na atualidade, sobressai o escritor carioca Millôr Fernandes que, além de humorista, é também jornalista e dramaturgo. Sua peça mais significativa se intitula É, encenada pela primeira vez em 1977, onde trata do relacionamento conjugal. A protagonista, perguntada por uma amiga sobre o segredo do sucesso matrimonial, responde que basta tratar o marido como se cuida de um cachorro: dar-lhe comida, carinho e a liberdade de levantar a perna ao pé da árvore que ele escolher.