Dicionário de Cultura Básica/Narrador

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Narrador


NARRADOR (personagem de uma obra) → DiscursoNarrativaTexto

Quem fala (o narrador) não é quem escreve (o autor)
e "quem escreve não é quem vive os fatos (o personagem).

Um problema crucial que se apresenta ao estudioso de uma obra ficcional é perceber quem narra o que se passa num romance ou conto, pois o "narrador" não é o "autor". Na arte da narrativa, o narrador nunca é o autor, mas um papel por este inventado: é uma personagem de ficção em que o autor se metamorfoseia. O narrador é um ser fantasioso autônomo, independente do ser real do autor que o criou. As idéias, os sentimentos, a cosmovisão do narrador de um texto literário não coincidem necessariamente com o ponto de vista do autor. Este pode ocultar sua axiologia atrás do narrador ou de outra personagem, como também pode não compartilhar as opiniões de nenhum personagem. O romancista francês Flaubert (→ Realismo) defendeu-se da acusação judicial de incentivador do adultério, demonstrando que as ações e as idéias da personagem Emma, protagonista do seu romance Madame Bovary, não deviam ser confundidas com o posicionamento ideológico do autor da obra. Em todo caso, não cabe ao analista de um texto literário julgar os critérios de valores do escritor só com base em elementos intratextuais, pois, como afirma Roland Barthes , "quem fala (na narrativa) não é quem escreve (na vida) e quem escreve não é quem é (na sua autenticidade)". O autor pertence ao mundo da realidade histórica, obrigado a carregar a máscara do seu status social; o narrador, diferentemente, é um ser de um universo imaginário, livre de qualquer constrangimento: entre os dois mundos pode haver analogias, mas nunca identidades. "Toda a confusão, escreve outro semioticista francês, A.J.Greimas, provém do fato de que o sujeito da enunciação, que é um sujeito lógico, é considerado, pelos lingüistas e sobretudo pelos literatos e filósofos, como um sujeito ontológico". Com efeito, a literariedade do romance é estabelecida principalmente pelo fato de que o eu do narrador não é o eu do escritor. Mesmo nos casos-limite do uso da própria vida para fins artísticos, num poema ou num romance escrito em primeira pessoa e com a utilização de dados biográficos do autor, quem nos dirige a palavra só pode ser uma entidade ficcional. Quando dizemos que o narrador dos romances de Proust é o próprio Marcel, afirmamos algo que, a rigor, não tem sentido. Um exemplo extraído da nossa literatura ajuda a entender a diferença em questão: o autor de Dom Casmurro é Machado de Assis, enquanto o narrador do romance é Bentinho. O primeiro, o autor, é um ser do mundo real que exerceu a profissão de escritor de contos e romances; o segundo, o narrador Bentinho, é um personagem inventado pela fantasia do Machado para que fosse o contador da história de seu relacionamento amoroso com Capitu. O que se passa no romance deve ser percebido pelo prisma do personagem Bentinho, narrador da fábula, e não pela perspectiva do autor, elemento externo à obra. E isso porque qualquer produção artística (um romance, um filme, um quadro, uma escultura), uma vez criada, adquire sua autonomia, podendo ser analisada e apreciada independentemente de conhecer-se o autor, a obra podendo ser até anônima. Falamos em "plano" da enunciação ou do discurso porque, além do narrador, existe outra entidade a ele correlata: o narratário ou destinatário. A estrutura mínima da comunicação humana está fundamentada sobre três elementos principais: EmissorMensagemReceptor.

Essa tríade deve ser verificada externa e internamente ao texto literário, no plano da realidade e no plano da fantasia, pois um é sempre reflexo do outro. No mundo da existência física, o emissor é o autor que destina sua obra (um livro, que é uma mensagem) a um leitor virtual (receptor). No texto artístico, o emissor é um personagem (o narrador) que comunica a outro personagem (receptor) fatos, idéias e sentimentos (mensagem). É de se ressaltar que o personagem de ficção pode exercer um duplo papel: o de agente de ações, ligado ao plano do enunciado (→ Mito) e o de sujeito ou destinatário da enunciação, ligado ao plano do Discurso. Numa narrativa-ocorrência, é de fundamental importância a percepção de quando uma personagem está atuando como ser que participa dos fatos ou quando está exercendo apenas a função de narrador dos acontecimentos. Tomemos, por exemplo, o início do conto Léah, de José Rodrigues Miguéis:

"Lembro perfeitamente a tarde quieta em que parei à porta da pensão..."

O eu, sujeito de "lembro", e o eu, sujeito de "parei", identificam o mesmo personagem Carlos co-protagonista do conto. Só que o primeiro eu, sendo sujeito do discurso, está relacionado com o plano da enunciação, enquanto o segundo eu pertence ao plano do enunciado, pois se refere à relação amorosa de Carlos e Léah. Entre os dois "eus" existe uma profunda diferença. O Carlos narrador é o personagem quando, já velho, relembra um episódio marcante de sua vida passada, dirigindo-se, imaginariamente, à própria Léah, colocada como destinatária da enunciação. Já o Carlos jovem, diferentemente, é o personagem colhido no ato de viver a aventura amorosa com Léah. Ao longo do conto, portanto, os dois protagonistas são apresentados como elementos integrantes ora do plano do enunciado ora do plano da enunciação. Da diferença temporal entre o presente da narração e o passado da história decorre a fragmentação do eu da personagem: psicologicamente, o eu que narra agora não é o mesmo eu que viveu os fatos no passado. Marcel Proust nos ensina que o tempo é "perdido", porque o passado não é mais recuperado na sua integridade. No momento da lembrança, os fatos passados são revisados pela nossa mente à luz das experiências posteriores aos acontecimentos. Mas o processo da enunciação, dentro do texto literário, na maioria das narrativas, está camuflado, pois o narrador raras vezes se apresenta corno tal, identificando-se numa personagem. A função do narrador é revelada por índices específicos e procedimentos acessórios. O que os estudiosos chamam de "aparelho formal da enunciação", constituído por todos os elementos que estabelecem uma relação de mostração entre o emissor, o discurso e seu destinatário. Os lingüistas chamam esses elementos de "indicadores da instância do discurso", shifters ou dêiticos. Vejamos os principais componentes do aparelho formal da enunciação:

1) Os pronomes de primeira e segunda pessoa: a relação eu-tu é substancial no processo da enunciação, pois estabelece o contato entre locutor e ouvinte, entre narrador e destinatário. A enunciação caracteriza-se pela relação discursiva entre dois termos, possuindo a mesma estrutura do diálogo (→ Dialética). Ao emissor deve necessariamente corresponder um receptor, seja ele presente ou oculto, real ou imaginário, coletivo ou individual. O próprio "monólogo" não deixa de ser um diálogo interiorizado, em que o eu, centro da enunciação, funciona ora como locutor ora como ouvinte. O monólogo interior transforma em narrador a personagem cuja consciência nos é revelada. Em suma, a palavra "eu" representa todos os possíveis emissores da comunicação humana e a palavra "tu", a classe de todos os receptores.
2) Os demonstrativos (adjetivos e advérbios): "este", "aqui", etc. são formas que, além de apontarem para um objeto ou um lugar, ostentam a instância da enunciação pela proximidade imaginária com quem fala ou com quem ouve.
3) Os adjetivos qualificativos: bom/mau, belo/feio etc., expressando um juízo de valor ético ou estético, revelam os predicados semânticos atribuídos a personagens ou a eventos pelo narrador.
4) A categoria do presente: o presente verbal e adverbial é uma noção instituída pelo ato da enunciação. O presente formal nada mais é que a explicitação do presente inerente à enunciação, que se renova a cada produção do discurso e, a partir desse presente contínuo, co-extensivo a nossa própria presença, se imprime na consciência o sentimento de uma continuidade, que chamamos "tempo" (→ Cronos). A continuidade e a temporalidade engendram-se no presente incessante da enunciação, que é o presente do mesmo ser, e delimitam-se, por referência interna, entre o que vai tornar-se presente e o que deixou de sê-lo. Sendo a enunciação a manifestação do ato da fala ou da escrita, só se pode exprimir no tempo presente, tornando-se, assim, o parâmetro dos outros tempos verbais. Quanto aos advérbios de tempo, o ontem e o amanhã só têm sentido temporal se relacionados com o "agora" do discurso enunciante.
5) Certas formas modais de verbos e de advérbios: o imperativo ou o subjuntivo indicando ordem, desejo, temor; o imperfeito, enquanto sugere dúvidas sobre a continuidade da ação, criando ambigüidade na percepção do leitor; os termos modalizantes "talvez", "provavelmente" etc. As formas, acima alinhadas, pertencem ao plano da enunciação por sugerirem atitudes particulares de quem fala. Partindo do principio incontestável de que qualquer fato contado exige a existência de um narrador e uma vez demonstrado que, num texto literário, o narrador não é o autor, mas uma personagem que assume tal papel, resta agora verificar a tipologia dos narradores, assunto principal do plano da enunciação, intrinsecamente relacionado com o problema do foco narrativo, a perspectiva ou o ponto de vista através do qual ocorrem a transmissão e a recepção da mensagem contida na obra. As formas de o narrador se fazer presente numa narrativa literária são múltiplas e variam de texto para texto. Mas, como a função precípua da teoria da literatura é encontrar os elementos comuns dentro da imensidade das espécies, vejamos os principais modos da presença do narrador num texto literário.

NARRADOR PRESSUPOSTO

A essa primeira categoria pertencem as narrativas que não fazem referência explícita ao narrador e ao destinatário. Trata-se de contos ou romances com registro da fala em terceira pessoa, onde predomina a função referencial ou cognitiva que está orientada para o contexto: visa apenas a transmissão da substância factual, sem preocupar-se com emissor e receptor. Essa categoria apresenta várias modalidades de narrador:

1) Onisciente neutro: Norman Friedman assim nomeia o foco narrativo de textos nos quais a história parece contar-se a si própria, prescindindo da figura do narrador. Este, oculto, pressuposto, confundido com o que Waine Booth chama de "autor implícito", é dotado do poder da onipresença: ele sabe o que se passa no céu e na terra, no presente e no passado, no íntimo de cada personagem. Tal perspectiva é chamada por Jean Pouillon de "visão-por-detrás": o narrador se coloca atrás e acima das personagens, sabendo mais do que elas pelo simples motivo de que sabe tudo. A narração de acontecimentos e a descrição de ambientes procedem de um modo neutro, impessoal, sem que o narrador tome partido ou defenda algum ponto de vista. Mas será que tal imparcialidade é absoluta? Tomemos, por exemplo, o conto infantil universal Chapeuzinho Vermelho. Quando o narrador onisciente diz "o lobo malvado" está emitindo um julgamento de valor, acusando seu posicionamento ideológico. Por que o lobo é malvado? Ao comer a menina, está apenas atendendo ao instinto de conservação da própria vida que o leva a satisfazer sua fome. O homem que mata animais para se alimentar ou simplesmente para se divertir, praticando os esportes da caça e da pesca, por que não é considerado malvado? A resposta está na postura ideológica do autor implícito que, sendo um humano, defende a superioridade do homem em relação ao mundo animal. É apenas uma questão de ponto de vista! A neutralidade do narrador onisciente é, portanto, apenas aparente, pois, através dos elementos do aparelho formal da enunciação, são detectáveis os critérios de valor do enunciador. Essa focalização centrada sobre um narrador onisciente neutro predomina na ficção tradicional (narrativas primordiais, míticas, cavaleirescas), na literatura de massa (conto popular, romance de amor e de aventura, de capa e espada, de terror, de ficção cientifica) e, de um modo geral, nas obras românticas ou realistas que seguem o princípio clássico da verossimilhança (→ Mimese).
2) Onisciente intruso: esse ponto de vista é muito semelhante à focalização anterior, com a diferença de que o narrador volta e meia interrompe a narração dos fatos ou a descrição de personagens e ambientes para tecer considerações e emitir julgamentos de valor. A técnica da intervenção do narrador é praticada pelos autores que têm um pendor moralizante, satírico ou irônico. Honoré de Balzac e Machado de Assis são mestres nesse tipo de focalização.
3) Onisciente seletivo: tal focalização dá-se quando o narrador, mesmo sendo o sujeito do discurso, apresenta o ponto de vista de uma ou de várias personagens, não a posteriori, através do resumo, mas diretamente, no momento presente, entrando na mente da personagem. A diferença estilística entre a onisciência neutra ou intervencionista e a onisciência seletiva está na forma do discurso indireto: nesse caso, é utilizado o chamado "discurso indireto livre", pelo qual o narrador interpreta com palavras suas as idéias e os sentimentos das personagens. Caso interessante esse: quem diz não é quem pensa e quem pensa não é quem diz: o narrador funciona apenas como transmissor e intérprete da visão de mundo da personagem. Tal perspectiva às vezes se confunde com a do narrador-personagem, que veremos a seguir. Em certos trechos de algumas narrativas de fluxo de consciência fica difícil discernir se o sujeito da enunciação é o narrador ou a personagem.
4) Narrador-câmara: atingindo o extremo oposto da onisciência, tal foco narrativo, que Pouillon chama de "visão-de-fora", anula quase completamente o saber do narrador. Este é como um camera-man que, colocado atrás da máquina cinematográfica, só pode mostrar o que a objetiva é capaz de ver. Ele não pode falar do passado, não pode estar em vários lugares simultaneamente, não pode penetrar na consciência da personagem. O narrador exerce o papel de um observador imparcial que analisa realisticamente a conduta e o meio enquanto materialmente observáveis. Influenciado pela técnica do cinema, esse tipo de foco narrativo foi cultivado especialmente pelos autores ligados à "escola do olhar" do nouveau roman, cujo teórico, Alain Robbe-Grillet, afirma que o narrador de seus romances, diferentemente do deus onisciente balzaquiano, é um homem com suas limitações, que "vê, sente, imagina, um homem situado no espaço e no tempo, condicionado pelas suas paixões, um homem como você e eu. E o livro só relata a sua experiência, limitada, incerta".

NARRADOR-PERSONAGEM

Nessa segunda categoria agrupamos as focalizações centradas num ente ficcional que, dentro do texto literário, assume o papel de narrador. Jean Pouillon fala de "visão com", porque é através do ponto de vista da personagem-narradora que conhecemos o que se passa no texto. A coerência interna desse tipo de relato subjetivo (o romance é geralmente narrado em primeira pessoa) exige que a personagem-narradora, vez por outra, nos explique como e quando tomou conhecimento dos fatos que está narrando e dos pensamentos das outras personagens. Para superar essa dificuldade técnica, o autor usa o recurso de atribuir o papel de narrador não a uma só personagem, mas a várias, sucessiva ou alternadamente, através do discurso direto ou indireto livre. Nesse caso, o ponto de vista é múltiplo e o processo de enunciação é posto em evidência toda vez que uma personagem toma a palavra. Aliás, a pluralidade de visões numa mesma narrativa é fato comum. O problema é distinguir a visão predominante, pois esta implica especificidade de estrutura e de significação própria de cada obra literária. O Narrador-Personagem pode ser:

1) Narrador-protagonista: o eu que narra se identifica com o eu da personagem principal que vive os fatos. Trata-se de um ator que acumula o papel de sujeito da enunciação e de sujeito do enunciado. Ele nos conta uma história por ele vivida, a história de uma parcela de sua existência. É através de seus olhos e de seus sentimentos que são apresentados os fatos, as outras personagens, os elementos espaciais e temporais, os questionamentos existenciais. Em algumas narrativas, a personagem central faz uma sondagem na profundidade de sua consciência, misturando sensações presentes com lembranças do passado. É a narrativa de "introspecção psicológica" ou de "fluxo de consciência", em que a técnica normalmente usada é o monólogo interior. Dostoievski, Virgínia Woolf, Marcel Proust, William Faulkner, James Joyce, Clarice Lispector são os mestres desse tipo de focalização.
2) Narrador-personagem secundário: há narrativas em que o narrador não é o protagonista, mas outra personagem que, embora participe dos acontecimentos, não exerce um papel de primeiro plano. Sua função é mais importante ao nível da enunciação do que ao nível do enunciado. É através dela que conhecemos o protagonista e as demais personagens. Tal perspectiva é peculiar de alguns romances policiais nos quais é o secretário do detetive que narra a história do crime e a história da investigação.
3) Narrador-testemunha: é a focalização centrada sobre uma personagem que está presente no texto só para narrar os acontecimentos, não se confundindo nem com o protagonista nem com nenhuma outra personagem da história. Podemos chamá-la de personage ad hoc (só para isso, para contar a história), pois pertence apenas ao plano do discurso, ou de "testemunha", porque ela narra o que viu, o que ouviu ou o que leu em algum lugar. Um bom exemplo desse tipo de foco narrativo encontra-se no conto de Eça de Queirós Singularidades de uma rapariga loura. Inicia assim:
"Começou por me dizer que o seu caso era simples e que se chamava Macário..."

O "eu" narrador desse conto não participa da história, cujo protagonista é Macário, mas está presente na narrativa apenas para contar-nos o que o personagem principal lhe contara.
4) Narração dramática: é a técnica que o gênero narrativo usurpa do teatro, onde não existe um narrador específico, mas todas as personagens, através do diálogo, funcionam como narradoras e destinatárias da mensagem. O espectador (no teatro, no cinema ou na televisão), o leitor (de um texto literário) ou o ouvinte (do rádio) fica conhecendo a história ficcional através da fala de atores, personagens ou locutores. É difícil encontrarmos um texto ou uma fala, de qualquer gênero artístico, em que não apareçam "cenas": toda vez que ocorre um diálogo entre personagens, estamos perante o modo dramático de apresentação dos fatos. Especialmente nas short stories, esse procedimento é predominante.

Com o fim de sintetizar a tipologia de narradores acima descrita, utilizamos, agora, a terminologia proposta por Gerald Genette, esclarecendo que a palavra grega diegese é empregada para indicar a história, a fábula em movimento (→ Mito), o conjunto dos acontecimentos presentes num texto artístico.

O narrador intradiegético é o personagem que, dentro do texto, assume o papel de narrador. Ele é chamado "homodiegético", quando os fatos, idéias ou sentimentos que está expressando dizem respeito a ele próprio, ou "heterodiegético", quando a personagem conta uma história da qual não participa, sendo vivida por outra entidade.

O narrador extradiegético: o papel de narrador não é exercido por nenhuma personagem O sujeito do discurso está oculto, sendo apenas pressuposto, em que pese a presença de alguns elementos do aparelho formal da enunciação que denunciam a participação ideológica do autor implícito.

A importância de detectar o sujeito da fala em certos momentos de uma narrativa está relacionada não apenas a aspectos técnicos da estrutura da obra literária, mas à própria compreensão do texto, pois a relevância de um discurso está diretamente ligada à autoridade de seu enunciador. Examinemos, como exemplo, o plano da enunciação da conhecida obra Os Lusíadas, de Luis Vaz de Camões, na qual aparecem três tipos de narradores principais, correspondentes a perspectivas ou visões diferentes. Um deles representa o ponto de vista do "eu poemático" (As armas e os barões assinalados.....cantarei), que se encontra na parte introdutória (Proposição, Invocação e Dedicatória) e em alguns epifonemas de finais de Cantos: com o registro da fala em primeira pessoa, o sujeito da enunciação exprime idéias e sentimentos que, de uma certa forma, podem levar a uma identificação com o autor, Camões. Outro ponto de vista que se observa na obra é o do "narrador onisciente" ("Lá no largo Oceano navegavam..."), que se encontra na parte mais ampla do poema, na chamada Narração: a voz de um narrador pressuposto que, em terceira pessoa e de uma forma objetiva, descreve a gloriosa aventura do povo português. Por fim, o ponto de vista das "falas das personagens": os discursos de Vasco da Gama, de Inês de Castro, do Gigante Adamastor, do Velho do Restelo etc. Trata-se de perspectivas particulares, diferentes e até contestatórias das posições ideológicas do eu poemático ou do narrador onisciente. Camões serve-se do recurso técnico da mudança do foco narrativo para evitar incoerências e contradições em sua obra. Assim, o sujeito do discurso que exalta a viagem marítima rumo à Índia, fazendo o périplo da África (o eu poemático), é diferente do eu conservador que critica as navegações de ultramar por considerá-las causa do enfraquecimento de Portugal (o Velho do Restelo); da mesma forma, o que acontece com os portugueses após a viagem de Vasco da Gama (tempo da fábula) é dito por personagens sobrenaturais que tem o dom da profecia (o Gigante Adamastor e uma Ninfa da Ilha dos Amores). Tal variação do foco narrativo dentro da mesma obra atesta conflito de idéias e de sentimentos. Todo texto literário é polifônico, pois é o concerto de uma pluralidade de vozes. O caráter dialógico confere à obra de arte literária sua função precípua de contestar os valores ideológicos, estimulando o leitor à reflexão sobre a condição humana.