Dom Quixote/II/XXXVIII

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Dom Quixote por Miguel de Cervantes
Capítulo XXXVIII — Onde se conta o que disse das suas desventuras a Dona Dolorida.


Atrás dos tristes músicos principiaram a entrar pelo jardim não menos de doze donas repartidas em duas fileiras, todas com largos vestidos negros, e uns véus brancos tão compridos, que só deixavam ver a fímbria do vestido. Seguia-se-lhes a condessa Trifaldi, que vinha pela mão do seu escudeiro Trifaldino da barba branca, vestida de finíssima e negra baeta; a cauda era de três pontas, em que pegavam três pajens também vestidos de preto, fazendo uma figura vistosa e matemática com aqueles três ângulos agudos que formavam as três caudas, donde provinha de certo o apelido de condessa Trifaldi; e diz Benengeli que assim era, efetivamente, e que o verdadeiro nome da condessa era Lobuna, por se criarem no seu condado muitos lobos, e ser costume naquelas partes tomarem os senhores os seus nomes das coisas em que os seus estados mais abundam. Vinham as doze donas e a senhora em passo de procissão, com os rostos cobertos com uns véus negros, e não transparentes como o de Trifaldino, mas tão apertados, que não deixavam ver coisa alguma. Assim que acabou de passar o esquadrão das donas, o duque, a duquesa, D. Quixote e todos os mais que contemplavam a procissão puseram-se de pé. Pararam as doze donas e fizeram alas, por entre as quais passou a Dolorida, sem Trifaldino lhe largar a mão. Vendo isto, o duque, a duquesa e D. Quixote adiantaram-se obra de doze passos a recebê-la. Ela, ajoelhada, com voz antes grossa e rouca do que sutil e delicada, disse:

— Sejam servidos Vossas Senhorias de não fazer tantas cortesias a este seu criado, digo, a esta sua criada, porque tão dolorida sou, que não atinarei com o que devo responder, pois que esta minha estranha e nunca vista desdita me levou o entendimento não sei para onde, mas decerto para muito longe, porque quanto mais o procuro, menos o encontro.

— Sem ele estaria — respondeu o duque — quem não descobrisse pela vossa pessoa, senhora condessa, o vosso valor, e não é necessário pôr mais, para se saber que sois merecedora de toda a nata da cortesia, de toda a flor das bem-criadas cerimônias.

E, levantando-a pela sua mão, levou-a a sentar-se numa cadeira ao pé da duquesa, que também a recebeu com muito cumprimento.

D. Quixote calava-se e Sancho andava morto por ver o rosto da Trifaldi e de alguma das suas muitas donas; mas não pôde, enquanto elas se não descobriram por sua vontade. Sossegados todos e em silêncio, estavam esperando quem o havia de romper, e foi a Dona Dolorida, com estas palavras:

— Confiada estou, senhor poderosíssimo, formosíssima senhora e discretíssimos circunstantes, em que há-de encontrar a minha angustiíssima em vossos valorosíssimos peitos acolhimento não menos plácido do que generoso e doloroso, porque é tal, que basta para enternecer os mármores, abrandar os diamantes e amolecer os aços dos mais endurecidos corações deste mundo; mas, antes de sair para a praça dos vossos ouvidos, para não dizer orelhas, quisera que me fizessem saber se estão no grêmio desta companhia o acendradíssimo cavaleiro D. Quixote de la Mancha e seu escudeiríssimo Pança.

— O Pança aqui está — acudiu logo Sancho — e D. Quixotíssimo também, e podereis, portanto, dolorosíssima doníssima, dizer o que quiserdíssimos, porque todos estamos prontos e preparadíssimos para ser vossos servidoríssimos.

Nisto, levantou-se D. Quixote, e disse, dirigindo-se à Dolorida Dona:

— Se as vossas aflições, angustiada senhora, podem esperar algum remédio do valor ou das forças de um cavaleiro andante, aqui estou eu, que todo me empregarei no vosso serviço. Sou D. Quixote de la Mancha, cujo ofício é acudir a toda a casta de necessitados; e, sendo assim como é, senhora, não haveis mister de captar benevolências, nem de procurar preâmbulos, e podeis dizer chãmente e sem rodeios os vossos males, que vos escutam ouvidos que saberão, senão remediá-los, pelo menos compadecer-se deles.

Ouvindo isto, a Dona Dolorida deu mostras de se querer arrojar aos pés de D. Quixote, e ainda se arrojou, e, querendo por força abraçar-lhe as pernas, dizia:

— Diante destes pés e destas pernas me arrojo, ó cavaleiro invicto, por serem bases e colunas da cavalaria andante; quero beijar estes pés, de cujo passo está pendente todo o remédio da minha desgraça, ó valoroso cavaleiro, cujas verdadeiras façanhas deixam bem longe e escurecem as fabulosas dos Amadises, Esplandianes e Belianises!

E, largando D. Quixote, volveu a Sancho Pança, e, agarrando-lhe nas mãos, disse:

— Ó tu, o mais leal escudeiro que nunca serviu a um cavaleiro andante, nem nos presentes, nem nos passados séculos, mais longo em bondade do que a barba de Trifaldino, meu companheiro, que presente se acha! bem podes gabar-te de que, servindo o senhor D. Quixote, serves em resumo toda a caterva de cavaleiros que trataram as armas neste mundo. Suplico-te, pelo que deves à tua bondade fidelíssima, que sejas meu bom protetor junto de teu amo, para que favoreça esta humildíssima e desgraçadíssima condessa.

— O ser a minha bondade tão comprida como a barba do vosso escudeiro — respondeu Sancho — pouco se me dá; barbada e com bigodes tenha eu a minha alma quando me for embora desta vida, que é o que eu quero; com as barbas de cá pouco ou nada me importo; mas sem todas essas moquenquices e súplicas, eu pedirei a meu amo (que sei que me quer bem, e agora ainda mais, que precisa de mim para certo negócio) que favoreça e ajude a Vossa Mercê em tudo o que puder; Vossa Mercê desembuche a sua aflição, conte-a, e deixe, que nos entenderemos.

Rebentavam de riso com estas coisas os duques e os outros que tinham penetrado o segredo da aventura.

Todos louvavam de si para si a agudeza e a dissimulação da Trifaldi, que disse, tornando-se a sentar:

— Do famoso reino de Candaia, que fica entre a grande Taprobana e o mar do Sul, a duas léguas para além do Cabo Comorim, foi senhora a rainha D. Magúncia, viúva do rei Arquipélago; e desse matrimônio nascera a infanta Antonomásia, herdeira do reino, a qual se criou e cresceu debaixo da minha tutela e doutrina, por ser eu a mais antiga e a mais principal dona de sua mãe. Sucedeu, pois, que com o decorrer dos tempos, a menina Antonomásia chegou à idade de catorze anos, com tamanha perfeição, que a não podia fazer maior a natureza. A sua discrição era de uma extraordinária precocidade, igualava a sua formosura, e era a mais formosa dama deste mundo, e ainda o será, se os fados invejosos e as Parcas endurecidas lhe não cortaram o fio da vida; mas não fizeram tal, decerto, porque não hão-de permitir os céus que se faça tanto mal à terra, como seria cortar os racimos verdes da mais formosa vide dos vinhedos. Desta formosura, que a minha língua não pode assaz encarecer, se enamorou um infinito número de príncipes, tanto naturais como estrangeiros, entre os quais ousou levantar os seus pensamentos ao céu de tanta beleza um cavalheiro particular que na corte vivia, confiado na sua mocidade, na sua bizarria e nas suas muitas prendas e encantos, facilidade e felicidade de engenho; porque, devo dizer a vossas grandezas, se os não enfado, que tocava guitarra de modo tal, que não parecia senão que a fazia falar, e além disso era poeta e grande bailarino, e sabia fazer uma gaiola de pássaros, que só com essa prenda podia ganhar a vida, quando se visse em extrema necessidade; todos estes predicados e prendas bastam para derrubar uma montanha, quanto mais uma delicada donzela. Mas toda a sua gentileza, todo o seu donaire, todas as suas graças e prendas, de nada lhe serviriam para render a fortaleza da minha menina, se o grande patife e roubador não usasse do remédio de me render primeiro a mim. Primeiro quis o malandrino e desalmado vagabundo ganhar-me a vontade e enfeitiçar-me, para que eu, mau alcaide, lhe entregasse as chaves da fortaleza que guardava. Em conclusão, adulou-me e rendeu-me com não sei que diches e jóias que me deu; mas o que mais me prostrou, o que sobretudo me seduziu, foram umas coplas que lhe ouvia cantar uma noite das reixas de uma janela, que deitava para um beco onde ele estava, e que, se bem me recordo ainda, diziam assim:

Da minha doce inimiga
nasce a dor que a alma aflige,
e por mais tormento exige
que se sinta e não se diga.

Pareceu-me a trova de pérolas, e a voz de mel, e desde então, vendo o mal em que caí por estes e por outros versos, tenho considerado que das repúblicas bem governadas se devem desterrar os poetas, como Platão aconselhava, pelo menos os lascivos, porque escrevem umas coplas, não como as do marquês de Mântua, que entretêm e fazem chorar as crianças e as mulheres, mas umas agudezas, que, como brandos espinhos, nos atravessam a alma, e como raios a ferem, deixando incólume o vestido. E outra vez cantou:

Morte, vem tão escondida
que eu não te sinta apar’cer,
p’ra que o gosto de morrer
me não torne a dar a vida.

E deste jaez outras coplas que, cantadas, encantam, em escritas, suspendem. E então, quando descia a compor um gênero de versos que em Candaia se usava, e a que chamavam seguidillas, ali era o pular dos corações, o retouçar do riso, o desassossego dos corpos, e finalmente o azougue de todos os sentidos! E assim digo, senhores meus, que os tais trovadores com justo motivo se devem desterrar para as ilhas dos Lagartos; mas não têm eles culpa: quem a tem são as simples que os louvam, e as tolas que os acreditam, e, se eu fosse a boa dona que devia ser, não me moveriam os seus tresnoitados conceitos, nem acreditaria que fosse verdadeiro aquele dizer: vivo morrendo, ardo no gelo, tenho calafrios no lume, espero sem esperança, parto e fico, e outros impossíveis desta laia, de que os seus escritos estão cheios! Pois, em prometendo o fénix da Arábia, o fio de Ariadne, os cavalos do sol, as pérolas do sul, o ouro de Tibar e bálsamo de Pancaia?! Aqui é que eles alargam mais a pena, porque lhes custa pouco prometer o que nunca pensaram, nem poderiam cumprir. Mas que digressões são estas? Ai de mim! desditosa! que loucura, ou que desatino me leva a contar as culpas alheias, tendo tanto que dizer das minhas? Ai de mim! desventurada! não me renderam os versos, rendeu-me a simplicidade minha; não me abrandou a música, mas sim a minha leviandade; a minha muita ignorância e pouca advertência abriram e franquearam o caminho a D. Clavijo, que assim se chama o referido cavaleiro; e assim, sendo eu medianeira, muitas vezes entrou ele no quarto de Antonomásia, enganada por mim e não por ele, com o título de verdadeiro esposo, que, apesar de pecadora, não consentiria nunca que ele, sem ser seu marido, lhe tocasse nem na ponta do sapato. Não, não! isso não. O matrimônio há-de ir sempre adiante em quaisquer negócios destes que por mim se tratarem; houve só um mal neste negócio, que foi o da desigualdade de nascimento, por ser D. Clavijo um cavalheiro particular, e a infanta Antonomásia herdeira do reino, como já disse. Alguns dias esteve encoberto e solapado na sagacidade do meu recato este trama, até que me pareceu que ia descobrindo a pouco e pouco um certo arredondamento das formas de Antonomásia, e esse temor a todos três nos sobressaltou, e resolveu-se que, antes que o caso viesse de todo à luz, D. Clavijo pedisse perante o vigário a Antonomásia para sua mulher, apresentando uma promessa de casamento que a infanta lhe fizera por escrito, redigida por meu talento com tanta energia, que nem as forças de Sansão a poderiam romper. Fizeram-se as diligências todas, viu o vigário a promessa, ouviu de confissão a infanta, que tudo lhe disse, mandou-a depositar em casa de um honradíssimo aguazil da corte...

— Também em Candaia há aguazis da corte, poetas, e seguidillas — interrompeu Sancho — Parece-me que posso jurar que em todo o mundo é tudo a mesma coisa; mas apresse-se, senhora Trifaldi, que já é tarde, e eu morro por saber o fim desta larguíssima história.

— Isso farei — respondeu a senhora.