Em que estás tu a pensar?

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Em que estás tu a pensar?
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


Anjo d’olhos negros, negros,
Tão da côr da noite escura,
Tu que sabes meus segredos,
Tu que lès minh’amargura;
Porque buscas nessas ondas
Da furia o rebramar?
Porque foges de mim sempre,
Em que estás tu a pensar?

Porque queres brancas velas
Sobre as aguas a soprar,
Quando o oiro das strellas
Brilha, brilha sobre o mar?
Porque triste estás scismando,
No d’outrora o meu scismar?
Se o teu coração palpita,
Em que estás tu a pensar?

Não reparas nesses ares
Essa pomba a perpassar —
Qual será o seu pressagio —
Vem — oh! vem-m’o revelar.
Se nos diz qu’é desventura
Algum dia ha de findar,
Porque queres qu’eu repita
Em que estás tu a pensar?

Mas eu vejo a longe em trevas
Sobrevir a tempestade
Porque esperas? — Foge, foge,
Teme a sua potestade —
Mas tu ficas triste e muda —
Dize, oh dize o teu pena r—
Porque tranquilla só tremes?
Por quem pódes recear? —

Nada disse — e ainda triste —
Mais que nunca assim fico —
Os seus olhos me disseram
O que su’alma me jurou.
Estreitando então seus braços
Revelar-me o seu scismar —
Era a certeza da morte —
Que o fazia assim pensar!


Loanda 22 de Outubro de 1849.