Emblema de amor mais puro

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Soliloquio de Me. Violante do Ceo ao Divinissimo Sacramento: glozado pelo poeta, para testemunho de sua devoção, e credito da veneravel religiosa. por Gregório de Matos
III
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsPessoas Muito Principais
Mote

Emblema de amor mais puro,
enigma de amor mais raro,
que sendo à vista tão clarom

sois também à vista escuro.


1Depois de crucificado
vos admirei, bom Senhor,
fino retrato do amor,
quando vos vi retratado:
então de um iluminado
sanguinosamente escuro,
se bem que estou mui seguro
das finezas do Calvário,
vos contemplei no sudário
Emblema de amor mais puro

2E suposto o pensamento
se pasma do escuro enigma,
mais o mistério sublima
vendo-vos no Sacramento:
ali meu entendimento
conhecendo-vos tão claro,
melhor esforça o reparo
de que estais tão luzido,
quando melhor comprendido
Enigma de amor mais raro

3Que no Sacramento estais
todo, e toda a divindade,
conheço com realidade,
suposto que o disfarçais:
para que vos ocultais
nesse mistério tão raro,
se a maravilha reparo,
penetrando-vos atento,
mais claroao entendimento,
Que sendo à vista tão claro?

4Que se de neve coberto
fica o divino admirado,
bem se pode um disfarçado
conhecer melhor ao perto:
porém vós andais tão certo,
e tanto em recatos puro,
que se ver-vos me asseguro
nesse disfarce, em que andais,
inda que patente estais,
Sois também à vista escuro.