Eneida Brazileira/II

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Eneida Brazileira por Odorico Mendes
Livro II


Promptos, á escuta, emmudeceram todos,

Ao passo que exordia o padre Enéas
Do excelso tóro: — Mandas-me, ó raínha,
Renove a dôr infanda; o como os Danaos
       5D’Ilio a pujança e o reino lamentavel
Derrocaram; miserias que eu vi mesmo
E em que fui grande parte. Ao relatal-as,
Dolope ou Myrmidon, de Ulysses duro
Ha soldado que as lagrimas estanque?
       10E humida a noite já do céo descamba,
E as estrellas cahindo ao somno induzem:
Mas, se he teu gôsto ouvir os nossos casos,
E em breve o extremo afã saber de Troia,
Bem que á lembrança lucto e horror me esquivam,
       15Narral-os vou. Repulsos, quebrantados,
Pós tantos annos de fataes revezes,
Os Danaos um cavallo em ar de monte,
Divina arte de Pallas, edificam,
Lavram de abeto as intecidas costas:
       20Ser da tornada um voto á surda espalham.
No cego lado, os bravos sorteando,
A escolha incluem, de hoste armada enchendo
O antro profundo e lobregas entranhas.
  Jaz Tenedos á vista, ilha famosa,
       25Próspera á sombra do priameo sceptro;
Hoje ermo pôrto, ás quilhas mal seguro:
N’uma abra alli se escondem. Nós os cremos
Velejando na róta de Mycenas.
Teucria do largo nojo emfim respira:

       30Abrem-se as portas, vai-se ao dorio campo;
Grato he vêl-o deserto e a praia nua:

«Os Dolopes aqui, Pelides fero
Se abarracava; aqui das naus a estancia;
Combatia-se aqui.» Mirando a turba
       35A offerta exicial da innupta deusa,
A mole a espanta: e lembra-nos Thymetes,
Ou fôsse dolo ou sina já de Troia,
Dos muros pôl-o dentro e no castello;
Mas Capys aconselha, e os de mais tino,
       40Que ao pégo o dom suspeito e grega insídia
Se atire ou queime em sotopostas chammas,
Ou se broque e tentêe o bôjo escuro.
  Emquanto incerto e vário alterca o vulgo,
Ardendo Laocoon da cidadella
       45Corre com basto sequito, e de longe:
«Miseros cidadãos, que tanta insania!
De vólta os Gregos ou de engano exemptos
Seus dons julgais? desconheceis Ulysses?
Ou este lenho he couto de inimigos,
       50Ou máchina que, armada contra os muros,
Vem cimeira espiar e acommetter-nos.
Teucros, seja o que fôr, ha damno occulto:
No bruto não fieis. Mesmo em seus brindes
Temo os Danaos.» De esguelha, assim fallando,
       55A’ curva liação do ventre equino
Com braço válido hasta ingente arroja:
Pregada está tremendo, e ao rijo encontro
Longo geme e retumba a atra caverna.
E, a não ser o destino e a mente avessa,
       60Nos movera os argolicos recantos
Com ferro a devassar: e inda em pé Troia,
Inda, alcaçar de Priamo, estarias.
Eis atrás maniatado alguns pastores
Ao rei com vozeria um moço trazem;

       65Que arteiro, ignoto, adrede os encontrara,

De animo firme em dar aos Gregos Troia,
Ou na empresa acabar. Curiosa acode,
E ávida se atropela e o cérca e apupa
A rapazia. Agora ouve a tramoia,
       70Por um crime avalia os Danaos todos.
Perante a multidão, turbado, inerme,
Pára, e olhando circumda as phrygias turmas:
«Que mar, grita, ou que terra ha de acolher-me?
Ai! que me resta? A patria proscreveu-me,
       75E os Dardanos meu sangue infensos pedem!»
Tal pranto nos demove e o furor quebra:
Sua estirpe o exhortamos a contar-nos;
Que intento o conduziu, que fé mereça.
Perde o susto o captivo, e assim responde:
       80«Toda a verdade, ó rei, sincero expendo.
D’antemão que sou Grego não t’o nego:
Tornar pode a Sinon fortuna escassa
Misero sim, mas embusteiro nunca.
Talvez já te soasse o nome e a glória
       85Do afamado Belídes Palamedes;
Que, sendo opposto á guerra, atroz calúmnia
O accusou de traição, e hoje os Pelasgos
Com tardio pezar extincto o choram:
Pobre meu pae, com elle seu parente,
       90Mandou-me inda novel seguir as armas.
Quando o reino o attendia e assim medrava,
De algum nome e esplendor tambem gozámos:
Depois que a inveja do manhoso Ulysses,
Deste mundo o tirou, como he notorio,
       95Mesto arrastando a vida em treva e lucto,
O supplício traguei do insonte amigo;
Té que, insano a bramir, vingal-o juro,
Se vencedor voltasse ao gremio de Argos,
E asperos odios imprudente afio.
       100Daqui mana meu mal; daqui terrivel

Sempre a assacar-me Ulysses novos crimes,
A espargir pelo vulgo ambiguas vozes;
Sempre em remorsos e a tecer meu damno.
Não descansou, sem que o ministro Calchas...
       105Mas que importuna historia em vão recórdo?
Porque detêr-me? Se os Achivos todos
Tendes na mesma conta, assás ouvistes,
Em mim puni-os: o Ithaco o deseja,
Pagal-o-ão por bom preço os dous Atridas.»
       110Do ardil pelasgo e infamia tanta ignaros,
Com ardor á porfia o interrogámos.
Pavido o gesto, o perfido prosegue:
«Lassos da guerra, o assedio erguer tentaram...
Oxalá que os Argivos o acabassem!
       115Mas, no abalar, os retiveram sempre
Crespas tormentas, carrancudos austros.
Prompta essa mole de tecidos lenhos,
Mais borrascoso trovejou. Perplexos,
Ao delio templo Eurypilo enviámos;
       120Que este oraculo triste annunciou-nos:
«Com sangue, ó Danaos, de immolada virgem,
Ao vir a Troia, os ventos aplacastes;
Sangue requer a vólta, e de hostia grega.
Divulgada a sentença, o espanto cala,
       125Gêlo os ossos traspassa, e tremem todos
Sôbre a quem busque a Parca e o deus condemne.
Então com grande estrondo ao campo Ulysses
Traz Calchas, e insta que o mysterio aclare:
Muitos, já do perverso lendo n’alma,
       130Em silencio o porvir me adivinhavam.
Dez dias encerrado, o vate abstêm-se
De delatar alguem e á morte expôl-o.
Do Laercio ao clamor, como por fôrça,
A voz desata emfim, me fada ás aras.
       135O assenso foi geral: cada um tolera

Que a sorte que temia em mim recaia.
Negreja o dia infausto: o rito encetam,
Cingem-me a venda, o salso farro aprestam.
Rompo as cordas, confesso, a morte evito;
       140Nos juncos de um paul me abriga a noite,
Emquanto ás vélas davam, se he que as deram.
Nem mais espero vêr meu ninho antigo,
Nem meu querido pae, meus doces filhos,
Que víctimas quiçá por mim padeçam,
       145Esta fuga expiando. Pelos deuses
Que attesto, exoro, se entre humanos inda
Ha limpa fé, tem mágoa de ancias tantas,
Perseguida innocencia te commova.»
De puro dó a vida lhe outorgámos;
       150E o mesmo rei, mandando allivial-o
De algemas e prisões, lhe dice affavel:
«Qual sejas, serás nosso, os teus deslembra.
Quem, falla-me a verdade, o immano vulto
Fabricou desse monstro? a que o destinam?
       155He religião? he máchina de guerra?»
Imbuído o falsario em dolo argivo,
Sôltas palmas levanta, e aos astros clama:
«Eternos fogos, inviolavel nume,
Aras, cutellos, que evadi, nefandos,
       160Mortal banda que a fronte me adornavas,
Testemunhas me sêde: os meus renego;
Trahido eu possa ao claro descobril-os:
Juramento nem lei me liga á patria.
Se alto arcano revelo, em ti fiado,
       165Tu, salvada por mim, salva-me ó Troia.
Sempre a Grecia no auxílio de Tritonia
Estribou seu triumpho, até que ousaram
Impio Tydides, sceleroso Ulysses,
Matando os guardas, o fatal palladio
       170Roubar do santuario, e á deusa as fitas

Virgineas profanar com mão cruenta.
Os Danaos, da esperança decahidos,
Afrouxam de energia. Bem mostraram
Varios prodigios a aversão de Pallas:
       175Posta a effigie entre nós, dos hirtos lumes
Fuzis desprega, em salso humor escorre,
Do chão tres vezes, oh milagre! pula,
E a rodela desfere e a lança trémula.
Que o mar se tente asinha o canta o vate:
       180Que em vão dardejam Troia, se indo em Argos
O auspicio renovar, não reconduzem
O em curvos bojos transportado nume.
E, se á patria Mycenas já navegam,
Vam refazer-se e grangear os deuses;
       185Mas, repassando o pelago, improvisos
Serão comvosco: a profecia he esta.
Da diva em desaggravo[1], amoesta-o Calchas,
De ligneas traves, em lugar da estatua,
Esta mole estupenda construíram;
       190Que pelas portas, altaneira ás nuvens,
Nem possa entrar na praça, nem do povo,
Segundo a crença antiga, ser custodia:
Pois, se braço troiano o dom violasse...
(Antes ao vate o agouro os céos convertam)
       195Raso iria este imperio; e, se vós mesmos
Dentro o mettesseis, desceria armada
Asia em pêso ás muralhas pelopéas,
Fado que abarcaria os nossos netos.
Do perjuro Sinon foi crido o engano;
       200E aos que Tydides, nem o Larysseu,
Dez annos, quilhas mil, nunca domaram,
Vencem dolos e lagrimas traidoras.
Nisto, o monstro maior, mais formidavel,
Impróvidos nos turba. Á sorte eleito,
       205O antiste Laocoon com sacra pompa

A Neptuno immolava um touro ingente.
De Tenedos (refiro horrorisado)
Juntas, direito á praia, eis duas serpes
Des espiras cento ao pelago se deitam:
       210Acima os peitos e as sanguineas cristas
Entonam; sulca o resto o mar tranquillo,
E se encurva engrossando o immenso tergo.
Soa espumoso o páramo salgado:
Já tomam terra; e, em sangue e fogo tintos
       215Fulmineos olhos, com vibradas linguas
Vinham lambendo as sibilantes bôcas.
Tudo exsangue se espalha. O par medonho
Marchando a Laocoon, primeiro os corpos
Dos dous filhinhos seus abrange e enreda,
       220Morde-os e come as descosidas carnes:
E ao pae, que armado occorre, eil-as saltando
Atam-no em largas vóltas; e enroscadas
Duas vezes á cintura, ao collo duas,
O enlaçam todo os escamosos dorsos,
       225E por cima os pescoços lhes sobejam.
De baba e atro veneno untada a faxa,
Elle em trincar os nós co’as mãos forceja,
E de horrendo bramido aturde os ares:
Qual muge a rez ferida ao fugir d’ara,
       230Da cerviz sacudindo o golpe incerto.
Vam-se os dragões serpeando ao santuario,
E aos pés da seva deusa, ennovelados,
Sob a egide rotunda ambos se asylam.
Cresce o pavor, os corações retremem:
       235Pregoam justa a pena ao temerario
Que a ponta de impia lança no costado
Fincou do sacro roble; e o simulacro
Bradam que se recolha e se ore a Pallas.
Ferve a gente; a muralha e as portas rasga,
       240Leves rodas por baixo e ao collo ageita

Cabos tendidos. Prenhe de armas, sobe
A máchina fatal: em tôrno a coros
Cantam meninos e devotas virgens,
De tocarem na corda mui contentes.
       245Atravez da cidade ella suberba
Vai minaz resvalando. Ó patria! ó Ilio!
Invictos muros, divinal estancia!
Berço de heroes! Á entrada quatro vezes
Pára, e quatro restruge um rumor de armas.
       250Surdos, cegos instando, o monstro infausto
Ah! no augusto recinto o collocamos.
Fadada a não ser crida, então Cassandra
Abre o futuro; e os templos nós dementes
Naquelle de Dardania último dia,
       255De virentes festões velando fomos.
Vira o céo, no oceano a noite cahe,
E em basta sombra involve a terra e o pólo
E a myrmidonia astucia: ante as muralhas
Derramada em silencio, a troica gente
       260Em modorra ensopava os lassos membros.
Já, da tacita Lua ao mudo amparo,
De Tenedos partia ás notas praias
A instructa armada, e a capitânea régia
Sinal flammeo iça á ré. De iniquos deuses
       265Sinon valído, a furto os pineos claustros
Laxa; e o cavallo, devassado, ás auras
Rende as phalanges que no ventre aloja.
Por um calabre escorregando, alegres
Baixam do cavo seio os cabos Thoas,
       270Tissandro e Sthenelo, o maldito Ulysses,
Athamante e Pelídes Neoptolemo,
E Macaon primeiro e Menelao,
E autor da máchina o engenheiro Epeu.
Troia invadem sepulta em somno e vinho:
       275Matam a guarda, os seus na brecha esperam,

E os batalhões de accôrdo se encorporam.
Era quando aos mortaes começa e côa,
Divino dom, gratissimo descanso:
Tetrico Heitor em sonhos se me antolha,
       280Debulhando-se em pranto; como outrora,
Negro do pó cruento a biga o arrasta,
Os loros arrochando os pés tumentes.
Ai quam mudado! Aquelle Heitor não era
Que no espólio volveu do proprio Achilles,
       285E lançou teucra flamma ás pôpas graias.
Pegada a grenha em sangue, a barba esquálida,
Crivam-no golpes cem, que junto aos muros
Paternos recebeu. Chorando eu mesmo
Parecia arguíl-o em mesto accento:
       290«Ó luz dardania, segurança e apoio!
Donde vens? que detença! Em tal estado
Só te avistámos, caro Heitor, agora
Que a cidade agoniza e os teus perecem?
Que acto indigno afeiou teu rosto ameno?
       295Que feridas sam essas?» Elle nada,
De vãs queixas não cura, e grave arranca
Fundo suspiro: «Hui! foge, o incendio medra,
Foge, filho da deusa: em prêa aos Danaos
Rue do fastigio Troia. Assás fizemos
       300Pelo rei, pela patria. Esta só dextra,
A haver defensa, defendera Pérgamo.
Seu culto Ilio te fia e seus penates:
Toma-os comtigo; o pelago discorram,
Té que lhes fundes majestoso alcaçar.»
       305Dice, e tirou dos penetraes as fitas
E a poderosa Vesta e o fogo eterno.
A cidade se afunde em grita e pranto;
E, indaque n’um retiro entre arvoredos
Meu pae habite, mais clarêa o estrondo,
       310Recresce mais e mais o horror das armas.

Sacudo o somno, ao pincaro da tôrre
Trepo, ouvidos apuro. Tal, se a queima
Soprando o bravo sul cahe na seara;
Tal, se grossa torrente despenhada
       315Arrasa o campo e as ledas sementeiras,
Prostra o lavor dos bois, aluídas selvas
Arrebatando; lá do saxeo cume
Pasma nescio o pastor que o ruído escuta.
Eil-a a fé grega manifesta, e nua
       320A traição: de Vulcano ao vivo impulso
A ampla casa a Deiphóbo já desaba;
Já proximo arde Ucalegon; ao largo
Nos fretos do Sigeu reluz a flamma:
Clangor de tubas e alaridos soam.
       325Das armas ferro, desatino, e em armas
Doudo onde vá não sei; mas na ancia fervo
De soccorrer com gente a fortaleza:
A ira me precipita; e quanto he bello
O morrer pelejando á mente occorre.
       330Eis Pantho escapo d’entre achivas lanças,
Pantho, filho de Otreu, de Phebo antiste,
Com sacro espólio, com vencidos numes,
Do alcaçar pela mão traz um netinho,
Fóra de si vem vindo á estancia minha.
       335«Ah! Pantho, que he da patria? onde o conflicto?
A que posto acudir?» E elle em soluços:
«O termo veio, o ineluctavel dia;
Já fomos, Troia foi-se e a gloria sua:
A Argos transferiu tudo o fero Jove;
       340Na cidade combusta a Grecia impera.
Assuberbando a praça, o monstro equino
Batalhões verte; e ufano atêa incendios
O insultante Sinon: da gran’ Mycenas
Quantos jamais vieram, se apinhoam
       345Nas bipatentes portas, e aos milhares

As gargantas e ruas pejam de armas:
O gume do aço agudo a ferir prestes
Nu lampeja: o combate apenas tentam
Das portas as primeiras sentinellas,
       350E em cego marte resistir se atrevem[2]
O Otriades me instiga e ethereo influxo:
Vôo, entre o ferro e o fogo, onde a sinistra
Erynnis por mim chama, onde o bramido,
Onde o clamor nos astros retroando.
       355Com Ripheu se me aggrega o extrenuo Iphito,
E em refôrço ao luar Dymas e Hypanis
Reconheço, e o Mygdonides Corebo;
Joven que, por Cassandra insano ardendo,
A Ilion pouco havia era chegado
       360Em auxílio do sogro e do seu povo:
Ai! que a presaga voz descreu da espôsa.
Ao vêr tam nobre audacia: «Ó peitos, brado,
Fortissimos em vão, se a todo o extremo
Vosso anhêlo he seguir-me, o torvo aspecto
       365Olhai das cousas. Deste imperio esteios,
Os deuses, desertando aras e templos,
Foram-se todos: á cidade accesa
Tarde accorreis: morramos, pelas armas
Rompamos. Salvação para os vencidos
       370Uma, esperarem salvação nenhuma.»
Isto os provoca e atiça. Quaes rapaces
Lobos que, cegos de faminta raiva,
Sahem por nevoa escura, ávidas crias
De guelas sêccas nos covis deixando;
       375De morrer certos, por dardos, por hostes,
Troia, abrindo caminho, atravessamos:
Circumvoa atra noite em ouca sombra.
Quem poderá contar o estrago horrendo,
Quem dessa noite as funebres tragedias,
       380Ou lagrimas terá que a pena igualem?

A soberana antiga das cidades
Baquêa; e de cadaveres sem conto
Ruas, casas, vestibulos sagrados
Se alastram. Nem só mana o teucro sangue;
       385Brio innato os vigora: a terra mordem
Os vencidos de involta e os vencedores:
Tudo he lucto e pavor, crueza he tudo;
Multiplica-se a morte em vária fórma.
Cópia a guiar de Acheus, primeiro Andrógeos,
       390Do seu bando nos crendo: «Avante, amigos,
Avante ó bravos; que molleza e inercia!
Outros saquêam Pergamo abrazada;
Vós de alterosas naus desceis agora?»
Dice, e a resposta ambigua o desengana;
       395Em laço hostil sentiu-se: estupefacto
Reprime o passo e a lingua. O viandante,
Que entre aspero sarçal em cobra occulta
Senta o pesado pé, trépido salta,
Foge ao reptil, que desenrola as iras
       400E incha o ceruleo collo: assim tremendo
Recúa Andrógeos. Pela ferrea mata
Arremettemos, e aos montões prostramos
Gente ignara do sítio e espavorida.
Deste ensaio e bafejo da fortuna
       405Animado Corebo, exulta e grita:
«Por onde, ó socios, fado amigo aponta,
Eia, sigamos. Os broquéis mudemos,
E insignias graias adaptemos. Vença
Manha ou valor, quem do inimigo o exige?
       410Elles armas nos dem.» Logo o de Andrógeos
Luzido escudo enfia, e o elmo enlaça
Comante, e ajusta ao lado argiva espada.
Ripheu, Dymas, o imita; os moços folgam;
Do recente despôjo armam-se todos.
       415Entre a caterva hostil, sem fausto nume,

Por cega noite prelios mil travamos;
Remettemos ao Orco infindos Gregos.
Uns ás praias fiéis e ás naus se acolhem;
Parte com torpe medo o bruto escalam,
       420E entram de novo o conhecido bôjo.
Ah! sem querer divino o que he seguro?
Do adyto de Minerva eis desgrenhada
Cassandra arrastam priameia virgem,
De balde ao céo levando ardentes olhos;
       425Olhos, que as tenras mãos lhe atavam cordas.
Não o soffreu Corebo, e em fogo e sanha
Perecedouro aos esquadrões se atira;
E após vamos forçando um bosque de armas.
Do summo templo os nossos, enganados
       430Pela armadura e argolicos pennachos,
Nos despedem chuveiros de arremessos,
E miserrima clade se origina.
N’um corpo os Danaos, retomada a virgem,
De ira a gemer, daqui dalli carregam;
       435Acerrimo insta Ajax e os dous Atridas,
E a hoste dolopeia. Assim contendem
Sôltos n’um turbilhão Zephyro e Nôto,
E o Euro ovante nos frisões da Aurora:
Zune a selva; Nereu braveja e espuma,
       440De tridente remexe o equoreo seio.
Quantos pela cidade afugentámos
Entre a nocturna treva, outravez surdem;
Por nosso estranho accento o embuste e as armas
Descobrem. Turba immensa nos esmaga:
       445Primeiro, ás mãos de Peneleu, Corebo
De bruços ante a deusa armipotente
Tomba, e succumbe o espelho dos Troianos,
O unico justo, equissimo Ripheu:
Divino alto juizo! O mortal trago
       450Bebe a golpes dos seus Dymas e Hypanis:

Nem singular piedade, nem te vale
Na quéda, ó Pantho, a infula de Apollo.
Dos meus última flamma e patrias cinzas,
Testemunhai que nunca em vosso occaso
       455Dardo ou risco evadi; que, a ser meu fado
Morrer então, meu braço o merecia.
Eu dalli me desprendo, e Iphito e Pelias,
Pesado e annoso Iphito, e Pelias tardo
De Ulysses vulnerado. Á estancia régia
       460Nos tira o ruído: a guerra se encruece,
Qual se, o restante em paz, lá só reinasse
Toda a matança e horror: o infrene Marte
Compelle os Danaos, que o palacio atacam
E a testudem cerrando as portas cercam.
       465Arduas escadas fixam nas paredes,
E junto aos postes nos degraus se estribam;
A sinistra no escudo apara os tiros,
Cimalha e capitéis a dextra aferra.
Os Dardanos de cima, as cumieiras
       470E as tôrres demolindo, com taes armas,
Vendo-se já no extremo, se defendem;
E aureas traves, de avós decoro e pompa,
Devolvem; densa intrepida cohorte
Dentro a fios de espada o ingresso embarga.
       475De soccorrer o paço o ardor nos toma,
De esforçar os vencidos e ajudal-os.
Atrás communicava os edificios
Postigo innóto e corredor escuso,
Por onde, ai della! aos sogros vir sohia,
       480Durante o reino, Andrómacha sózinha,
Seu Astianaz ao caro avô trazendo.
Lá monto ao cimo, e estavam pobres Teucros
Sem fructo a dardejar. Tôrre em declive
Pendente, ás nuvens sôbre o tecto alçada,
       485Troia estendida, a frota e arraial grego

Descortinava: em cêrco das junturas,
Onde as vigas do solho a enfraqueciam,
A investimos a ferro, e do alto assento
Destroncada impellimol-a. De chofre
       490O baque estronda: a ruína ao longe abafa
Turmas de Argivos; mas succedem outras:
Nem dardo ou pedra cessa, he tudo tiros.
Pyrrho á entrada no portico ufanêa,
Com aço e brilho aheneo relumbrando:
       495Tal, cevada em má grama, á luz a cobra,
Que prenhe o brumal frio a soterrava,
Nova a pelle, se empina, e môça e nedia,
Lúbrico dorso enrola, ardua o Sol mira,
Fulge e vibra a trisulca ardente lingua.
       500Com Periphas membrudo e a flor dos Scyrios,
Assalta o paço Automedonte o pagem,
Que os de Achilles picava ardegos brutos;
Lançam fachos ao cume. Á frente Pyrrho
A machadadas racha os umbraes duros,
       505E ereos portões descrava da couceira;
Traves descose, firmes robles fende,
E cava ampla abertura. O interno centro
Apparece, e atrios longos patentêa;
Apparecem de Priamo os retretes,
       510Mansões de priscos rêis; e um corpo em armas
Cobre o limiar. Invôlta a casa em prantos
Longo ecchoa; as abobadas ululam
Com femineo gemer, triste alarido,
Que aureas estrellas fere. Apavoradas
       515Andam mães pelas vastas galerias,
E osculos pregam nos portaes que abraçam.
Pyrrho, emulando o pae, no ataque insiste;
Nem ha barreira ou guardas que o sustenham.
Do crebro ariete abolada a porta,
       520Rue dos gonzos rendida. Á fôrça rompem;

No ádito em postas aos primeiros talham,
E tudo enchem de tropas e de estragos.
Bem menos, quando inchado o espumeo rio
Marachões quebra e vallos sobrepuja,
       525Agros furioso inunda, e na torrente
Roja armento e curraes de campo em campo.
Eu vi Pyrrho na brecha encarniçado
E os dous Atridas; Hecuba e as cem noras,
E o rei no altar vi mesmo com seu sangue
       530Maculando os que alli sagrara fogos.
Os thalamos cincoenta, em que esperava
Tantos netos, magnificas portadas
De ouro e espólio barbarico, arruínam:
Possue o Danao quanto poupa a chamma.
       535Talvez de Priamo o destino inquiras.
Troia em destroço, o paço contemplando
Derruído e hostilmente profanado,
De ociosa armadura o velho os hombros
Tremulos veste, inutil ferro á cinta,
       540Entre basto inimigo a morrer parte.
N’um pateo, exposto ao eixo nu celeste,
Louro antigo os penates obumbrava,
Sôbre ara ingente os ramos espalmando.
Qual da borrasca fugitivas pombas,
       545N’um grupo alli pousando, Hecuba e as filhas
Comsigo em vão seus divos apertavam.
Sob armas juvenis ao rei que assoma:
«Que dira insania! diz; misero espôso!
Onde em bellico apresto assim caminhas?
       550Tal defensa não basta e humano auxílio;
Nem que o meu proprio Heitor surgisse agora.
Vem nesta ara abrigar-te, ou vem comnosco
Morrer.» Nisto, ao longevo a mão pegando,
Em sagrada cadeira a par o assenta.
       555Fugindo á morte um filho seu, Polites,

Eis ferido, entre lanças, entre imigos,
Por atrios longos, porticos desertos,
Gyra: de golpe feito, o acossa, o apanha
Já já Pyrrho feroz, de um bote o aterra:
       560Ao tempo que ante os paes ia chegando
Baquêa, e dessangrado a vida exhala.
A sua o rei sentiu no extremo fio,
Mas reprimir não poude a voz e a ira:
«Pelo attentado, exclama, e audacia tanta,
       565Se ha no céo providencia e piedade,
Pague-te o céo com merecido premio,
A ti que o matas ás paternas barbas,
E estas cãs me funestas e enxovalhas!
Não, tal não se houve Achilles, meu contrario,
       570De quem te finges prole: ao supplicar-lhe
Enrubeceu, direito e fé guardou-me;
Sepultar permittiu-me Heitor exsangue,
Revêr meus reinos.» Dice, e arroja o velho
Dardo imbelle sem gume, que repulso
       575Pelo rouco metal, á superficie
Do embigo do broquel frustrado pende.
«Pois vai contal-o ao genitor Pelides;
Nuncio narrar te lembre estas baixezas,
E o quanto o degenero. He tempo, morre.»
       580Fallando Neoptolemo o arrasta ás aras
Tremebundo, e do filho em quente sangue
A resvalar: na esquerda a coma enleia;
Com a dextra saca a lamina fulgente,
No vasio lh’a embebe até aos copos.
       585De Priamo este o fado, assim finou-se
Troia arder vendo e Pergamo assolar-se:
Quem d’Asia em povos cem reinou suberbo
He cadaver; na praia o tronco informe
Jaz sem nome, e a cabeça decepada.
       590Pasmei de horror, confesso: o pae querido,

No equevo rei que derramava o alento
Pela crua estocada, eu me figuro;
Figuro ao desamparo o tenro Ascanio,
Creusa em pranto, os lares saqueados.
       595Olho atrás, e procuro os companheiros,
Todos lassos e em dôr me abandonaram,
Despenhando-se em terra ou sôbre as chammas.
Já só de amigos, ao clarão do incendio
Érro, e em tôrno espreitando a cada passo,
       600No santuario escondida e taciturna
A Tyndarida enxergo aos pés de Vesta:
Dos nossos pela quéda exasperados,
Dos seus medrosa, do offendido espôso,
Essa Erynnis commum de Grecia e Troia,
       605Execrada, entre as aras se acoutava.
A alma abrazou-se-me; iracundo anceio
Vingar na infame a patria agonizante.
«Que! soberana ir esta á sua Espartha?
Incolume, em triumpho, entrar Mycenas?
       610Vêr a casa, o marido, e os paes e os filhos?...
E ornem-lhe a pompa iliacas escravas!
E a ferro acabe o rei, queime-se Troia,
E suem teucro sangue as teucras praias!...
Não: se he nulla a victoria, se he desdouro
       615Punir de morte a feminil fraqueza,
Louvor seja extinguir este impio aborto;
Farto ao menos a sanha e ardente sêde,
Saciarei de prazer dos meus as cinzas.»
De furias transportado isto profiro,
       620Quando a meus olhos, como nunca, pura
A alma Venus, a noite alumiando,
Em divindade manifesta brilha,
Tal qual sohe aos celícolas mostrar-se;
E segurando em mim, com rosea bôca
       625Me atalha a genitriz: «Que mágoa, ó filho,

Que indomita paixão te desatina?
Que he dos nossos penhores? onde o idoso
Cansado pae largaste? onde o filhinho?
Vive ainda Creusa? Atroz caterva
       630Lhes voltêa em redor; sem meus desvelos
Já tragado os houvera ou gladio ou fogo.
Páris não culpes e a Lacena odiosa;
Dos deuses sim, dos deuses a inclemencia
He que abate e subverte a excelsa Troia.
       635Repara: a nuvem que ora os mortaes visos
Te embota humida e baça, eu vou tirar-t’a:
Sem temor obedece á voz materna.
Lá onde esparsas moles e arrancadas
Rochas e rochas vês, e undante fumo
       640E ennovelado pó, Neptuno a golpes
Do gran’tridente os muros e alisserces
Alue, e do orbe desarreiga Troia.
Sevissima e em furor, de aceiro e malha,
Convoca Juno, alli nas portas Scéas,
       645Das naus os batalhões. Já sôbre as tôrres,
Nota, sentada em lampejante nuvem,
Tritonia agita a Gorgona terrivel.
Jove mesmo acorçoa e esforça os Gregos,
Suscita os immortaes contra Dardania.
       650Foge, anda, filho meu, põe termo ás lidas.
Em salvo ao pae te guio, eu não me aparto.»
Dice, e na sombra involve-se. Apparecem
De infensos numes cataduras torvas:
Ilio esboroar em cinzas se me antolha,
       655Fundir-se toda a neptunina Troia.
Assim nos altos montes orno antigo,
Se extirpal-o a machado em crebro assalto
Lenhadores porfiam, nuta, ameaça,
Trémula a coma, sacudido o cume,
       660Té que aos poucos cerceado, alfim gemendo,

Cahe dos cabeços com ruidoso estrago.
Côo entre o ferro e o fogo, a par de Venus;
Recúa o fogo e se desvia o ferro.
Chego á patria morada, ao velho corro,
       665No Ida amparal-o mais que tudo anhélo;
Nega-se elle ao destêrro, a vida enjeita
Sem Troia: «Ó vós, nos clama, a quem robora
Viçoso inteiro sangue, afervorai-vos,
Parti. Se os deuses me quizessem vivo,
       670Conservavam-me agora o avito assento.
Sobra uma vez remanecido termos
Da captiva cidade após o excidio.
Dizei-me o adeus supremo, ah! despedi-vos
De um cadaver. A morte eu mesmo a apresso,
       675Ou dê-m’a compassivo e me despoje
Qualquer Danao: que importa a sepultura?
Pêso inutil, ha muito o céo me odeia,
Dês que o divino padre, o rei dos homens,
Assombrou-me e tocou-me com seu raio.»
       680Com tal dicurso, pertinaz resiste
Ás lagrimas de Ascanio e de Creusa,
Ás da familia inteira, que lhe instamos
Pae não ajude a sorte a aniquilar-nos:
Quedo á tenção se amarra. Eu tórno ás armas,
       685Meu desejo he morrer. Que mais conselho,
Que alternativa ha mais? «Oh! crime... e cuidas
Que eu possa arredar pé, que te abandone?
Tu blasfemas, senhor? Se he lei superna
Que d’Ilio nada fique, e os teus pretendes
       690Juntar comtigo á moribunda Troia,
A estrada franca tens: não tarda Pyrrho,
Que, o sangue regio gottejando, á face
Do pae degole o filho e o pae nas aras.
Que? de lanças, de incendios me resguardas,
       695Porque, ó madre, em meus lares o inimigo

Ante mim proprio immole a espôsa minha,
E um no sangue do outro Iulo e Anchises?
Armas, armas, varões: para os vencidos
Acena o último dia: ah! consenti-me
       700Que volte aos Danaos, que a peleja instaure:
Nem todos hoje inultos morreremos.»
De novo empunho a espada, embraço o escudo,
E no acto de sahir se me atravessa
Á soleira Creusa, os pés me abraça,
       705E o meu tenrinho Ascanio me apresenta:
«Vais perecer? a transe igual nos leva;
Se inda em pericia e esfôrço te confias,
O que primeiro cumpre he defender-nos.
A quem teu pae, a quem teu filho entregas,
       710E esta que nomeavas tua espôsa?»
Quando esturgia o tecto em ais desfeita,
Oh prodigio estupendo! estando Iulo
De afflictos paes entre osculos e abraços,
Um resplendor subtil, igneo turbante,
       715Lhe coroa a cabeça, e em molle tacto
Ás fontes se apascenta e lambe as comas
A innocua flamma. Trepidos de medo,
O flagrante cabello sacudimos,
Jorros d’agua a deitar no sacro lume.
       720Mas ledo o genitor na etherea côrte
Fita os olhos, e orando as palmas tende:
«Jupiter summo, se te abrandam preces,
Attende ao menos; se á piedade es grato,
Auxilia-nos, padre, o agouro assella.»
       725Com subito fragor, mal finda o velho,
Toa á esquerda, e nas sombras deslisando
Pelo céo alva estrella accende a cauda;
Vemol-a escorregar pelos telhados,
Na selva idéa, a esteira assinalando,
       730Sumir-se: longo sulco abre em centelhas,

Á larga odor sulfureo exhala e estende.
Meu pae rendido se ergue, invoca os deuses,
E adora o astro santo: «Ó patrios numes,
Presto vos sigo o acêno; impulso he vosso:
       735Protegei, resalvai-me o neto e a casa:
Troia está sob a vossa potestade.
Nem mais recuso, filho, eu vou comtigo.»
Nos muros claro então crepita o fogo,
De perto volve am ala e o esto esparge.
       740«Sus, meu pae, eu te ajudo, ás nossas costas
Sobe-te, ó caro, não me aggrava o pêso:
Em successo qualquer, teremos ambos
A mesma salvação, commum perigo.
Ladêe-me o filhinho, e atrás Creusa
       745Não se afaste de mim. Sentido, ó servos:
Ao sahir, n’um outeiro está de Ceres
Velho templo deserto, ao pé de antigo
Cypreste, com respeito religioso
Dos avós longamente conservado:
       750Por diverso caminho alli seremos.
Tu, padre, o que ha sagrado e os patrios divos
Toma: tinto em matança, impio he tocal-os,
Sem que eu me expurgue em vívida corrente.»
Nisto, o vestido pelos hombros dóbro,
       755Envergo de um leão a fulva pelle,
Curvo-me e o pae carrégo: o tenro Iulo
Trava-me a dextra, amiuda os curtos passos
Por alcançar os meus; não longe, a espôsa
Nos vai na trilha por opacos sitios:
       760E eu, que ha pouco arrostava hostes e dardos,
De um sôpro agora tremo, um som me espanta,
Pela companha e carga temeroso.
Propinquo ás portas, já me conto livre;
De repente um tropel ouvir cuidamos;
       765Na treva Anchises lobrigando: «Filho!

Grita; apressa-te, filho; eil-os: deviso
Broquéis ardentes, fulgurantes malhas.»
Não sei que nume infausto hallucinou-me:
Por dévia estranha róta extraviado,
       770Ai! misero perdi minha Creusa:
Se o fado m’a roubou, se errou a estrada,
Ou lassa recostou-se, he duvidoso:
Nunca mais a avistei. Inadvertido
Pela ausencia não dou, senão no outeiro,
       775Proximo ao templo já da prisca Ceres:
Ahi feita a resenha, ella só falta,
Mallogrando o marido e o filho e os socios.
Que homem, que deus não accusei demente?
Que houve de mais cruel no excidio horrivel?
       780N’um fundo valle escondo, e aos companheiros
Os divos encommendo e Ascanio e Anchises.
Corro á cidade em refulgentes armas,
Firme em revirar Troia e em novas luctas
Pôr a cabeça na arriscada empresa.
       785Lesto ás muralhas, ao limiar escuro
Da porta vólto que me deu passagem;
Retrocedendo[3], pela noite apalpo,
Os olhos canso em busca das pégadas:
Tudo aterra, o silencio o pavor dobra.
       790Talvez, talvez regressaria á casa;
E lá me envio: os Danaos a invadiram,
Dominavam-na toda: o voraz fogo,
Dos ventos irritado, os altos ganha,
Rolando em labareda os ares cresta.
       795Prosigo; á régia e á cidadella passo:
E já nos vacuos porticos, no asylo
De Juno, eleitos a velar na presa,
Se postam Fenix e o nefando Ulysses:
Os thesouros de Troia em montões vejo,
       800De accesos tectos, saqueados templos,

Vasos de ouro massiço, alfaias, mesas,
Vestes sacerdotaes: á roda em fila
Estam pavidas mães, tenros meninos.
Ousei bradar na treva, e mesto as ruas
       805Enchi de vozes; por demais gemendo,
Chamei, chamei e rechamei Creusa.
Furente as casas lustro, e saio e tórno,
Quando a sombra da espôsa, imagem triste,
Maior que d’antes se me avulta aos olhos.
       810Pasmo, hirta a coma, a voz se apega ás fauces.
Eil-a affavel me alenta e assim me acalma:
«Que vale a dôr sobeja, ó doce expôso?
Sem nume isto não he: levar Creusa
Te veda o fado, o regedor sublime
       815Do Olympo o não consente. Em longo exilio
Tens de arar vasto pégo até á Hesperia,
Onde entre pingues populosos campos
O lydio manso Tibre inclina a vêa.
Com saudades não chores da consorte:
       820Um reino alli te espera e uma princeza.
Nem eu, Dardanida e de Venus nora,
Irei servir as Téssalas altivas,
Nem dolopeias damas: cá me impede
A grande mãe Cybele. Adeus, Enéas;
       825Todo na prenda nossa o amor emprega.»
Nisto, o fallar me corta, e ás minhas lagrimas
Se furta, e se esvaece em tenues auras.
Tres vezes fui lançar ao collo os braços;
Tres presa em balde se desfez a imagem,
       830Igual ao vento leve ou somno alado.
Os socios, gasta a noite, emfim revisto;
Dos que acho novos a affluencia admiro:
Velhos e moços, donas e donzellas,
Vulgo infeliz, concorrem para o exilio
       835Com quanto salvam, pressurosos querem

Peregrinar comigo o mar e a terra.
A Alva, dos cimos do Ida resurgindo,
Já traz o dia, e occupa o Grego as portas;
Nem ha mais de esperança um só vislumbre.
       840Cedo, e aos hombros meu pae, subo a montanha.



Notas[editar]

  1. desaggavo no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.
  2. atravem no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.
  3. retrocendo no texto original; erro tipográfico corrigido na segunda edição.