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Ensaios de sciencia (Vol. 1)/Aos que lerem

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Aos que lêrem

 

A presente publicação é um ensaio sem pretenção alguma, com o fim unico de reunir e aproveitar trabalhos feitos em horas vagas, como mero passa-tempo : muitos dentre elles nem mesmo poderão ser limados convenientemente.

Irão apparecendo sem regularidade, porque frequentemente acontecerá haver escassez de tempo para coordenar e ligar material espalhado, para completar uma ou outra cousa, até mesmo para rever o escripto.

Estes trabalhos não têm periodos certos, nada têm de obrigatorio e sahirão á luz quando houver materia para completar o folheto. Por isso mesmo não podem adimittir-se assignaturas e a publicação é supportada pelos contribuintes de combinação com os editores que os põem á disposição de quem por elles se interessar no mercado.

Nestes Ensaios póde alguma cousa haver de bom, porque são estudos de observação, descriminação de factos confundidos, ou mal interpretados, e investigação de novos. Acceitamos collaboração de outros amadores, mas recusamos tudo quanto for pura e simples reproducção de leitura.

Em taes condicções seria conveniente apresentar os estudos á um jato circulo de leitores que os podessem julgar, visto que no Brasil é ainda muito resumido o numero dos que se occupam com taes investigações ; isto, porém, obrigar-nos-ia á escrever em lingua estranha, e incorreriamos em falta grave que muitas vezes temos censurado ; poucos são aquelles que procuram enraizar sciencia no Brasil.

Sacrificamos a opportunidade de adquirir alguma nomeada fóra, ao desejo de localisar a sciencia no torrão natal, de nacionalisal·a, lembrando-nos das palavras de Agassiz :

 

« As producções intellectuaes de um cidadão não são de sua propriedade, pertencem á pattria. »

 

Ha nisso alguma vaidade, que talvez não seja proveitosa á nós, porém, aos piratas scientificos que se prevalecem da circumstancia de ser pouco conhecida a lingua portugueza, para nos defraudarem dos nossos pequenos achados.

Se por ventura encontrarmos quem nos acompanhe no terreno que pisamos, teremos até prestado um serviço em abrir caminho.

D՚entre os nossos patricios são poucos os que têm os conhecimentos fundamentaes necessarios para se entregarem ao estudo da sciencia como distracção nas horas que não são destinadas á aquisição do pão; desejamos que muitos outros a adquiram, pois só está apto á saborear o prazer da sciencia quem á ella se entrega por gosto, quem vê passarem-se horas seguidas sem enfado, occupado com algumas hervas, algumas amostras de pedras com o microscopio armado sobre um bahú, estudando alguma alga, musgo ou lichen, arranchado debaixo de uma coberta de sapê ou de guaricanga, longe da civilisação. O que ama a sciencia prefere ás palestras dos salões o mauari do sertão onde com uma pasta sobre os joelhos e um lapis pinta ou descreve os mimos da natureza.

Aos amigos da litteratura ligeira é desconhecido o prazer de conversar com os matutos e de colher do povo dos nossos sertões noticias miudas sobre usos e propriedades de plantas, indagando a significação de palavras de uma lingua prestes á esvaecer-se com os ultimos descendentes dos que a fallavam, e que nós viemos supplantar e aprendendo tantas cousas interessantes com os roceiros, esses bons observadores.

 

Todas as obras publicadas antes de 1.º de janeiro de 1931, independentemente do país de origem, se encontram em domínio público.


A informação acima será válida apenas para usos nos Estados Unidos — o que inclui a disponibilização no Wikisource. (detalhes)

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