Eneida Brazileira/I: diferenças entre revisões

Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
221 bytes removidos ,  3 de outubro de 2007
m
sem resumo de edição
[edição não verificada][edição não verificada]
m (Bot: Mudança automática (-Eneida Brasileira +Eneida Brazileira))
mSem resumo de edição
{{navegar
|obra=[[Eneida BrazileiraBrasileira]]
|autor=Odorico Mendes
|anterior=[[Eneida BrazileiraBrasileira/Advertência|Advertência]]
|posterior=[[Eneida BrazileiraBrasileira/II|Livro II]]
|seção=Livro I
|notas=[[Eneida BrazileiraBrasileira/Notas ao Livro I|Notas ao Livro I]]
}}
<div style="widthwidt:35em; text-align:justify; margin:0px auto;">
<poem>
Eu, que entoava na delgada avena
Fiz que as vizinhas lavras contentassem
A avidez do colono, empresa grata<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="5">5</span>
Aos aldeãos; de Marte ora as horriveishorríveis
Armas canto, e o varão que, lá de TroiaTróia
Prófugo, áà ItaliaItália e de LavinoLavínio ásàs praias
Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra
Muito o agitou violenta mão suprema,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="10">10</span>
E o lembrado rancor da seva Juno;
Muito em guerras soffreusofreu, na Ausonia quando
Funda a cidade e lhe introduz os deuses:
Donde a nação latina e albanos padres,
E os muros vem da sublimada Roma.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="15">15</span>
Musa, as causas me aponta, o offensoofenso nume,
Ou por que mágoa a soberana déa
CompelliuCompeliu na piedade o heroe famoso
A lances taestais passar, volver taestais casos.
Pois tantas iras em celestes peitos!<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="20">20</span>
ColoniaColônia tyriatíria no ultramar, CarthagoCártago,
Do ítalo Tibre contraposta ás fozes,
Houve, possante emporioempório, antigo, asperrimo
N’arteN'arte da guerra; ao qual, se conta, Juno
Até pospoz a predilectapredileta Samos:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="25">25</span>
Lá coche, armas lá teve; e annúaanúa o fado,
No orbe enthronalentroná-ala então já traça e tenta.
PorêmPorém de Teucro ouvira que a progenieprogênie,
Dos Penos subvertendo as fortalezas,
Viria a ser, desmoronada a LibyaLíbia,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="30">30</span>
A’ larga rei bellipotentebelipotente povo:
Que assim no fuso as Parcas o fiavam.
Saturnia o teme, e a pró dos seus Achivos
Recorda as lides que excitara em TroiaTróia;
Nem d’alma aggravosagravos risca, dôresdores cruas:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="35">35</span>
No íntimo impressa a decisão de Páris,
A injúria da bellezabeleza em menoscabo,
E a raça detestada e as honras duram
Do rapto GanymedesGanimedes. Nestes odiosódios
SôbreSobre-accesaacesa, os da GreciaGrécia e immiteimite AchillesAquiles<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="40">40</span>
Salvos Troas, do LacioLácio ia alongando,
Por todo o plaino undísono atirados;
E, em derredor vagando annosanos e annosanos,
De mar em mar a sorte os repulsava.
Tam grave era plantar de Roma a gente!<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="45">45</span>
De SiciliaSicília, amarando, mal velejam
Ledos e o cobre rompe a salsa espuma,
Juno, dentro guardada eterna chaga:
"Eu, diz comsigoconsigo, desistir vencida!
Nem vedar posso a ItaliaItália ao rei dos Teucros!<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="50">50</span>
Ah! tolhe-me o destino. A esquadra argiva
Não queimou PallasPalas mesma, submergindo-os
Só de um Ajax Oileu por culpa e furiasfúrias?
Do Tonante o corisco ellaela das nuvens
Darda, os baixéis desgarra, o ponto assanha;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="55">55</span>
Ao triste, que varado expira chammaschamas,
N’um torvelinho em rocha aguda o crava:
E eu, que raínharainha marcho ante as deidades,
Mulher e irmã de Jove, tantos annosanos
Guerreio um povo! E a Juno ha quem adore,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="60">60</span>
Ou súpplicesúplice inda a incense, a invoque e honre?"
No âmago isto fermenta, e a deusa áà patriapátria
De austros furentes, de chuveiros prenhe,
A’ EoliaEólia parte. Aqui n’um antro immensoimenso
O rei preme, encarcera, algema, enfreia<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="65">65</span>
Luctantes ventos, roncas tempestades.
Sentado Eolo, arvora o sceptro, e as iras
Tempera e os amacia. Que o não faça,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="70">70</span>
Varridos mar e terra e o céocéu profundo
Lá se vamvão pelos ares. Cauto, em negras
Furnas o omnipotenteonipotente os aferrolha,
E, um cargo de montanhas sobrepondo,
Lhes deu rei, que mandado a ponto as bridas<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="75">75</span>
Suster saiba ou laxar. Dest’arte Juno
O exora humilde: "EoloEo-lo, o paepai dos divos
E rei dos homens te concede as ondas
Sublevar e amainalamainá-aslas; gente imiga
Me sulca as do Tyrrheno, Ilio e os domados<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="80">80</span>
Penates para ItaliaItália transportando:
Ventos açula, as pôpaspopas mettemete a pique,
Ou dispersas no ponto as espedaça.
Quatorze esbeltas nymphasninfas me cortejam,
Das quaesquais a mais formosa, DeiopeiaDeiopéia,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="85">85</span>
PromettoPrometo unir comtigocontigo em jugo estavelestável;
Que em paga para sempre a ti se vote,
Meiga te procreandoprocriando egregiaegrégia prole."
A quem Eolo: "Que o desejes basta;
Meu, raínharainha, helhe servir-te. Quanto valho<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="90">90</span>
Tu m’o grangêasgrangeas, e este sceptrocetro e Jove;
Tu dás-me áà diva mesa o recostar-me,
Ser em tufões potente e em tempestades."
DiceDisse; e um revez do conto a cava serra
A um lado impelleimpele: em turbilhão, cerrados<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="95">95</span>
N’um grupo os ventos, dada a porta, ruem,
As terras varejando. Ao mar carregam,
E horrísonos revolvem-lhe as entranhas
NôtoNoto mais Euro, e de borrascas fertilfértil
AfricoÁfrico; ásàs praias vastas ondas rolam.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="100">100</span>
Homens gritam, zunindo a enxarcia ringe.
Some-se ao nauta o céocéu, tolda-se o dia;
Pousa no pelago atra noite; os polos
Toam, o etheréter fuzila em crebros raios:
Tudo ameaça aos varões presente a morte.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="105">105</span>
Frígido, arripiado, Enéas geme,
E alça as palmas e exclama: "Afortunados
Oh! trestrês e quatro vezes, d’Ilio ás abas,
Os que aos olhos paternos feneceram!
O’ dos Danaos fortissimofortíssimo TydidesTidides,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="110">110</span>
A alma em TroiaTróia vertendo-me essa dextradestra,
Não ficar eu nos campos, onde o bravo
Heitor d’Eacide ás lançadas, onde
Sarpédon jaz magnanimomagnânimo, onde o Simois
Corpos e elmos de heroesheróis e escudos tantos<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="115">115</span>
Arrebatados na corrente volve!"
Bradava; e a sibilar ponteiro Bóreas
Rasga o pannopano, e a mareta aos astros joga.
Remos estalam; cruza a proa, e o bórdobordo
Rende; escarpado fluido monte empina-se.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="120">120</span>
As naus já no escarcéoescarcéu pendem, já descem
N’um sorvedouro áà terra entre marouços:
Remoínha o esto na revôlta arêa.
TresTrês rouba NôtoNoto e avexa n’uns abrolhos,
Abrolhos sob o mar, que Italos aras<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="125">125</span>
Nomêam, dorso horrendo ao lume d’agua;
Torce-a, revira, um vortice a devora.
Raros no vasto pégo a nadar surdem;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="135">135</span>
TaboasTábuas e armas viris e alfaias troicas,
PrêaPrea das ondas. A tormenta escala
A nau robusta de Ilioneu, de Abante,
As de AlethesAletes grandevo e Achates forte:
Todas, frouxadas as junturas, sorvem<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="140">140</span>
A inimiga torrente, e em fendas gretam.
Mugir seu reino e o temporal desfeito,
Caixões do imo a brotar, sentiu NeptunoNetuno,
Torvo, abalado, e acode acima e exalta
A placidaplácida cabeça. A frota esparsa<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="145">145</span>
Vê sossobrando, oppressosopressos os TroianosTróianos
Da marejada e do ruído ethereoetéreo.
De Juno irosa o dolo o irmão percebe;
Euro e ZephyroZéfiro chama: "Herdastes, ventos,
Tal presumpção, que sem meu nume, ousados,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="150">150</span>
Terra e céocéu confundis e equoreas brenhas?
Eu vos... Mas insta abonançar as vagas:
Caro m’o pagareis, guardo o castigo.
Ao rei vosso intimai, já já, que em sorte
Não lhe coube este imperioimpério, que o tridente<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="155">155</span>
Fero he só meu. Tem elleele enormes fragas,
Euro, vossas mansões: nessa aula ufano
Sôbre enclaustrados ventos reine Eolo."
Nem cessa, e o mar se lança, o tempo alimpa
E abre o Sol. Finca a espadoa, e com CymóthoeCimotoe<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="160">160</span>
As naus Tritão do escolho dsengasga;
Mesmo o padre as allivaaliva com seu sceptro,
Amplas syrtessirtes afunda, aplaca os mares,
Por cima em rodas se deslisa leves.
Como, enraivado em popular tumulto,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="165">165</span>
Mas, se um pio ancião preclaro assoma,
Calam, para escutar o ouvido afiam;
ElleEle os convence e os animos abranda:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="170">170</span>
Assim baixa o fragor e o pégo amansa,
Quando olha o deus, que os brutos no ar sereno
Dobra, e dá loros ao ligeiro carro.
Da costa proxima em demanda, áà Libya
Os cansados Eneadas aproam.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="175">175</span>
N’um golpho alliali secreto, com seus braços
Faz barra ilha fronteira, onde a mareta
Quebra e se escoa em sinuosas rugas:
Penedia em redondo, e ao céocéu minazes
Ha dous picos irmãos, a cujo abrigo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="180">180</span>
Dorme diffusodifuso o mar; de coruscantes
Selvas prolonga-se eminente scena,
Descahe de atra espessura horrida sombra;
No tôpo ha gruta em pêndulos cachopos,
Com doce fonte, e em viva rocha bancos<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="185">185</span>
Das nymphasninfas séde: aqui não prende amarra
Nem mordaz ferro adunco as lassas quilhas.
Com sete naus ao todo arriba Enéas;
Saltando os seus, do sal tabidos membros<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="190">190</span>
Na arêa espraiam. Lume eis fere Achates,
Toma em folhas, e em roda as accendalhasacendalhas,
Nutre a faisca, e em lenha a chammachama atêa.
Mareados pães e cereaescereais aprestos
Já desembarca a trabalhada chusma,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="195">195</span>
E os grãos põe-se a torrar e em pedra os pisa.
Trepa emtanto um penhasco, e ao largo Enéas
Regyra, a vêr se undívagos alcança
AntheuAnteu ou Capys, as biremes phrygias,
Ou armas de Caíco em altas pôpas.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="200">200</span>
Baixel nenhum; avista só tres cervos
Na praia errantes; segue atrás o armento,
E enfileirado pelos vallesvales pasta.
Retem-se, e o arco aferra e as settas ageis
Que armam Achates fido, e os guias logo,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="205">205</span>
Embrenha a demais turba e acossa a tiros,
Té que derriba sete ingentes corpos,
E iguala as naus. De vólta, elleele os divide.
E os barris que, áà partida, o heroe trinacrio<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="210">210</span>
Bom de vinho atestara, aos seus larguêa;
Dulcíloquo os mitiga: "Os males, socios,
Nada estranhamos; oh! mais agros foram:
Deus porá termo a estes. Vós de ScyllaScyla
De perto a raiva e escolhos resonantes,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="215">215</span>
Vós cyclopeos rochedos affrontastesafrontastes:
Animo! esse temor bani tristonho;
Talvez isto com gôsto inda nos lembre.
Por varios casos, transes mil, nos vamos
Ao LacioLácio onde o repouso os fados mostram:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="220">220</span>
Resurgir deve alliali de TroiaTróia o reino.
Tende-vos duros, da bonança áà espera."
Tal discursa, e affectandoafectando um ar seguro,
N’alma inferma suffocasufoca a dôr profunda.
Lestos áà presa atiram-se: este esfola,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="225">225</span>
Aquele desentranha, outro esposteja;
Qual trementes no espeto enrosca os lombos,
Qual fogo atiça aos caldeirões na praia.
Fartos, na relva espalham-se, refeitos
De velho bacchobacho e veação opíma.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="230">230</span>
Repleta a fome, e as mesas removidas,
Dubios indagam, sôbre os seus praticam
Mormente o pio rei de Amyco chora<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="235">235</span>
Ou de Lyco o desastre, o ardido Oronte,
E o forte Gyas e CloanthoCloanto forte.
Das alturas, no fim, Jove esguardando
O mar velívolo e as jacentes plagas
E amplas nações, no vertice do Olympo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="240">240</span>
Quedo, os olhos fitou nos lybios reinos.
Quando o absorviam taestais cuidados, Venus
Triste, os gentis luzeiros orvalhando:
"O’ tu, queixou-se, que os mortaesmortais e os deuses
Reges eterno e horrísono fulminas,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="245">245</span>
O que te fez meu filho, o que os TroianosTróianos,
Que após tragos lethaesletaes, não só d’Italiad’Itália,
Do universo os cancelloscancelos se lhes fecham?
Roma dellesdeles tirar, dellesdeles os cabos
Que, eras volvendo, restaurado o sangue<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="250">250</span>
De Teucro, o mar e a terra sofreiassem,
Nos prometteste: quem mudou-te, ó padre?
Do occasoocaso ao menos e desgraças d’Ilio
Isto, uns fados com outros compensando,
Me consolava. Igual fortuna arrasta<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="255">255</span>
Ora os varões a riscos e a trabalhos:
Quando os findas, gran’rei? De Acheus escapo,
Entrar salvo Antenor d’Illyriad’Ilyria o seio
E internar-se em Liburnia, e a fonte obteve
De Timavo transpôr, donde por bôcas<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="260">260</span>
Ruidoso mar que empola e o campo alaga.
Sentou Patavio aqui, deu casa a Teucros,
Nome áà gente, e os brasões fixou de TroiaTróia;
Descansa em doce paz. Nós tua estirpe,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="265">265</span>
Nós da celeste côrte, as naus submersas,
Ah! de uma por furor, victimas somos,
Longe expulsos d’Italiad’Itália? Deste modo
Se honra a piedade, os sceptros nos reservas?"
Sorrindo-se o autor de homens e numes,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="270">270</span>
C’um gesto que a tormenta e o céocéu serena,
Da filha osculos liba, e assim pondera:
"Poupa esse medo, Cypria; immotosimotos jazem
Dos teus os fados: nas lavinias tôrres
Has de revêr-te, e alar sôbre as estrellasestrelas<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="275">275</span>
Teu grande Enéas. Jupiter não muda.
O heroe na ItaliaItália (esta ancia te remorde,
Vou rasgar-te os arcanos do futuro)
Guerras tem de mover e amansar povos,
E instituir cidades e costumes,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="280">280</span>
Ao passo que reinando o vir no LacioLácio
Terceiro estio, e os Rutulos domados,
Forem-se tres invernos. Posto ao leme
Cerrando os mezes trinta largos gyros,
Ha-de, a séde lavinia trasladada,
Alba longa munir e abastecelabastece-ala.
Os Hectoreos aqui trezentos annosanos
Já reinarão, quando a vestal princeza<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="290">290</span>
Ilia parir a Marte gemea prole.
Da nutriz loba em fulva pellepele ovante,
Romulo ha de erigir mavorcios muros,
E áà recebida gente impôr seu nome.
Métas nem tempos aos de Roma assino;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="295">295</span>
O imperioimpério dei sem fim. Té Juno acerba,
Que o mar ciosa e a terra e o céocéu fatiga,
Transmudada em melhor, tem de amparar-me
Do orbe os senhores e a nação togada.
Praz-me assim. Manem lustros, que inda a casa<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="300">300</span>
De Assaraco ha de ser de PhthiaPhtia e de Argos
Senhora, e agrilhoar MycenasMecenas clara.
D’Iulo garfo egregio, em nome e glória
SuccedendoSucedendo, as conquistas no oceano
Cesar teminará, nos céoscéus a fama.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="305">305</span>
Nos astros sim, de espolios do oriente
Onusto, o acolherás; e humanas preces
Hediondo ruja com sanguinea bôca."<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="315">315</span>
Não mais; e expede o génito de Maia,
Porque a recem CarthagoCartago hospiciohospício aos Teucros
Franquêe, nem, do fado inscia, a raínharainha
Os extermine. O deus pelo ar patente
De azas remando, em Libya o vôo abate;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="320">320</span>
Fiel ás ordens, a fereza aos Penos
Despe; e Dido primeira em pró dos Phrygios
Brandos affectosafectos placidos concebe.
Toda a noite pensoso o heroe velando,
A alma luz mal branqueja, onde arribara<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="325">325</span>
N’abra de uns bosques sob cavada penha,
Entre verde espessura e negras sombras,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="330">330</span>
ElleEle só, mais Achates, sahe brandindo
Duas hastes que empunha de ancho ferro.
Da selva em meio a mãe se lhe apresenta,
Virgem no trajo e aspecto, em armas virgem
Lacena; ou qual Harpálice a threíciatreícia<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="335">335</span>
Cansa os corseis e o Euro vence alífugo: 325
Pois do hombro o arco destro, áà caçadora,
Pendura, e ás auras a madeixa entrega,
Dos joelhos nua e a falda em nó colhida.
Irmã minha, a gritar quiçá no encalço 340
De javali sanhudo? A cinta aljava
Tem sobre a pellepele de um manchado lyncelince."
Isto Venus; e o filho assim responde:
"Nenhuma ouvi nem vi das irmãs tuas,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="345">345</span>
O’... quem direi? Não tens mortal semblante 345
Nem voz de humano som; es deusa, ó virgem:
Irmã de Phebo ou nymphaninfa? As nossas penas
Tu, por quem es, minora: e nos ensina,
Pois vagueâmos sem saber por onde,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="350">350</span>
O paiz, clima ou povo, a que arrojou-nos 350
Vento e escarcéoescarcéu medonho. Hostias sem conto
Havemos de immolarimolar nas aras tuas."
"Não mereço honras taes, replíca Venus;
Usam de aljava, e ao bucho as virgens tyrias<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="355">355</span>
Punicos reinos e agenorios muros
Vês, nos confins da indomita e guerreira
Libyca raça. O imperioimpério atêm-se a Dido,
Que, por fugir do irmão, fugiu de Tyro.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="360">360</span>
He longa a injúria, tem rodeios longos; 360
Mas traçarei seu curso em breve summasuma.
Sicheu, Phenicio em lavras opulento,
Foi da misera espôso, e müitomuito amado:
Com bom preságio o pae lha dera intacta.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="365">365</span>
Pygmalion, façanhoso entre os malvados, 365
Barbaro irmão, do estado se empossara.
Interveio o furor: de fome de ouro
Cego, e áà paixão fraterna sem respeito,
Perfido, impio, a Sicheu nas aras mata;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="370">370</span>
O facto encobre, e a credula esperança 370
Da amante afflictaaflicta largo espaço illudeilude
Com mil simulações. Mas do inhumado
Consorte, com esgares espantosos,
PallidaPalida em sonhos lhe appareceaparece a imagem:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="375">375</span>
Da casa o crime e trama desenleia; 375
A ara homecida, os retalhados peitos
Desnuda, e áà patriapátria intíma-lhe que fuja:
Prata immensaimensa e ouro velho, soterrados,
Para o exilio descobre. EllaEla, inquieta,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="380">380</span>
Apressa a fuga, e attrahe os descontentes 380
Que ou rancor ao tyrannotyrano ou medo instiga;
Acaso prestes naus, manda assaltal-as;
Dos thesourostesouros do avaro carregadas
Empégam-se: a mulher conduz a empresa!<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="385">385</span>
Chegam d’alta CarthagoCartago onde o castellocastelo 385
Verás medrando agora e ingentes muros:
Mercam solo (do feito o alcunham Byrsa)
Quanto um coiro taurino abranja em tiras.
Mas vós-outros quem sois? donde he que vindes?<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="390">390</span>
Que regiões buscais?" ElleEle ás perguntas 390
Esta resposta suspirando arranca:
"O’ déa, se recorro áà prima origem,
E annaesanais de angústias não te pejam, Vesper
No Olympo encerra o dia antesque eu finde.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="395">395</span>
Da antiga TroiaTróia (se has notícia delladela), 395
Vagos no equoreo campo, arremessou-nos
Casual tempestade ás libyas costas.
Enéas sou, com fama alèm dos astros,
Que livrei de hostil garra os meus penates,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="400">400</span>
E piedoso os transporto áà patriapátria Ausonia; 400
Do summosumo Jove a geração procuro.
Por guia a deusa mãe, submisso aos fados,
Em vinte naus commettocometto o phrygio ponto;
Rôtas do Euro e das ondas, restam sete.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="405">405</span>
Pobre, ignoto, percorro africos ermos, 405
D’Asia e d’Europa excluso..." Nem mais Venus
Lamentos comportou, na dôr o atalha:
"Quem sejas, creio, não do céocéu malquisto,
Gozas d’aura vital, que a TyroTiro aportas.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="410">410</span>
Eia, ao regiorégio palaciopaLácio te encaminha. 410
Sem risco os socios, ancorada a frota,
Com o rondar dos áquilos, te auguro,
Se em arte vã meus paespais não me instruiram.
Attenta cysnes doze em bando alegres:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="415">415</span>
No espaço, o ethereter fendendo, os perseguia 415
A ave de Jove; n’um cordão agora
Ou tem no pouso a mira, ou vam pousando;
Bem como os teus as pôpas atracaram, 420
Ou de véla enfunada a foz embocam.
Sus, alliali te dirige, a estrada he esta."
Dá costas, e a cerviz rosada fulge,
De ambrosia odor celeste a coma expira;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="425">425</span>
A veste escoa aos pés; no andar se ostenta 425
Vera deusa. ElleEle atrás da mãe fuginte,
Reconhecendo-a, brada: "Porque o filho
Com taestais ficções, cruel, enganas tanto?
Ligar dextra com dextra, ouvir-te ás claras,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="430">430</span>
Conversar-te em pessoa me he defeso?" 430
Tal a argúe, e ás muralhas se endereça.
EllaEla porêm de ar fusco os viandantes
Tapa e os embuça em nevoa, que enxergal-os
Ou tocar ninguem possa, nem detel-os<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="435">435</span>
E recentes festões seu templo aromam.
Eis da azinhaga pela trilha cortam,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="440">440</span>
E um teso galgam já, que olha imminenteiminente 440
A fronteira torrígera cidade.
PalhaesPalhais d’antes, a mole admira Enéas,
Admira o estrondo e as portas e as calçadas.
Tyro aferventa-se, a lançar os muros,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="445">445</span>
A avultar o castellocastelo, e a rolar pedras. 445
Parte com sulcos marca os edificios;
Santo augusto senado, e o foro e a curia,
Se cria e elege: aqui se escavam portos;
Fundam-se alliali magnificos theatrosteatros,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="450">450</span>
De marmor collossaescolossais talham columnascolunas, 450
Pompa e decoro das futuras scenas.
QuaesQuais abelhas ao sol por floreos prados
Lidam na primavera, quando ensaiam
O adulto enxame; ou doce fluido espessam,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="455">455</span>
Do nectar flavo retesando as cellascelas; 455
Ou quando a carga das que vem recebem;
Ou em batalha expulsam da colmêa
Exclama o heroe, e os coruchéos contempla.
Na cidade não visto, oh maravilha!
Se mistura ennubladoenublado. Em meio havia
Luco umbroso e fresquissimo, onde os Penos,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="465">465</span>
De ondas jogados e tufões, cavaram 465
O tésto de um corsel, de Juno régia
Mostra e penhor que o povo, asado áà glória,
Pugnaz e duro, insultaria os evos:
Lá punha Dido a Juno insigne templo,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="470">470</span>
Que dons e a rica effigieefigie realçavam: 470
No bronzeo limiar da<ref>No original, consta ''dá''.</ref> bronzea escada,
Craveja o bronze as traves, e a couceira
N’este bosque a lenir entra os receios;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="475">475</span>
Aqui primeiro ousou fiar-se Enéas 475
E prometter-se allívioalívio em seus pezares:
Pois quando, áà espera da raínharainha, o templo
Nota peça por peça, quando o enlevam
De CarthagoCartago a fortuna, o gôsto fino,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="480">480</span>
O artificio, o primor, acha em pintura 480
A fio as guerras d’Ilion, pelo orbe
Já soadas; o Atrida, o rei troianoTróiano,
E terror de ambos sebresahe<ref>'Sebresahe'' está por ''sobresahe'', erro tipográfico corrigido na segunda edição.</ref> Achilles Aquiles.
Pára, e em lagrimas diz: "Que sítio ou clima<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="485">485</span>
Cheio, Achates, não he dos nossos males? 485
Vê de Pérgamo em roda a hoste graia
Do phrygio ardor fugir, fugir a teucra
Do instante carro do emplumado Achilles Aquiles.
Ai! perto a Rheso por traição Tydides,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="495">495</span>
No primo somnosono, arrasa as niveas tendas, 495
De carnagem cruento; e os acres brutos
Volve ao seu campo, sem gostado haverem
De TroiaTróia os pastos, nem bebido o XanthoXanto.
Triste! as armas perdendo, alêm, Troílo,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="500">500</span>
Que arrostou-se menino ao proprio Achilles Aquiles, 500
He dos corséis tirado, e resupino,
Mas tendo os loros, do vazio carro
Pende; e a cerviz no pó, de rojo a coma,
Virada a lança hostil na arêa escreve.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="505">505</span>
Em cabellocabelo, as Iliades afflictasaflictas 505
Ao templo iam tambem da iniqua PallasPalas,
O peplo humildes offertandoofertando, e os peitos
Com punhadas ferindo: aversa a déa
Olhos no chão pregava. A Heitor Pelides<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="510">510</span>
Do negro rei do eôo a turma e as armas
A’ testa de milhares de Amazonas
Com lunados broquéis, PenthesiléaPentesiléa
Se abraza em furia, bellicosabelicosa atando<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="520">520</span>
Sob a despida mama um cinto de ouro, 520
E virgem com varões brigar se atreve.
Quando extatico o heroe se embebe e enleia,
Ao templo a formosissima raínharainha
Marcha, de jovens com loução cortejo.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="525">525</span>
Qual nas ribas do Eurotas ou do CynthoCynto 525
Pelos serros Diana exerce os coros,
E, de infindas Oreadas seguida,
Regra ou sortêa os publicos trabalhos. 535
Subito Enéas no tropel devisa
A CloanthoCloanto brioso, AntheuAnteu, Sergesto,
E os mais que atra borrasca a longes costas
Remessara dispersos. ElleEle e Achates<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="540">540</span>
Varados ficam de alegria e susto, 540
Avidos ardem por travar as dextras;
Introduzidos, quando a vez tiveram,
Rompe o idoso Ilioneu, facundo e grave:
"RaínhaRainha, ó tu que por favor supremo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="550">550</span>
Ergues nova cidade, e justa enfreias 550
Suberbas gentes, os TroianosTróianos ouve,
Que, dos ventos ludíbrio, os mares cruzam:
Livra do infando incendio a pia armada,
Poupa innocentesinocentes, nossa causa attende.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="555">555</span>
Nem vimos nós talar com ferro e fogo, 555
Nem saquear os lybicos penates:
Armipotente e uberrimo, colonia<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="560">560</span>
Já de enotrios varões; agora he fama 560
Que, de um seu capitão, se diz ItaliaItália:
Esta era a nossa róta; eis que em vaos cegos
Deu comnoscoconosco de salto Orion chuvoso,
E, em sanha o pelago e os protervos austros,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="565">565</span>
Nos derramou por ondas e ínvias fragas: 565
Da arêa o asylo a náufragos prohibem.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="570">570</span>
Se as armas desprezais e as leis humanas, 570
O céocéu mede as acções, premeia e pune.
Rei nosso Enéas he, que a ninguem cede,
Pio e inteiro, valente e bellicosobelicoso:
Se aura ethéreaetérea o sustenta e o guarda o fado,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="575">575</span>
Se os manes o não tem, sem medo somos, 575
De o penhorar primeira não te pezes.
Cidades em Sicilia e campos temos,
E do sangue troianoTróiano o claro Acestes.
Amarrar nos permitte a lassa frota,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="580">580</span>
Mastros, remos cortar, falcar antenas; 580
Com que ledos, se ItaliaItália nos espera,
Os socios e o rei salvo, ao LacioLácio vamos:
Mas, se te ha consumido o lybio pégo,
Optimo pae dos Teucros, nem d’Iulo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="585">585</span>
A apercebida sicula hospedagem,
E o regio amparo." O Dárdano termina:
Lavra entre os seus approvadoraprovador sussurro.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="590">590</span>
O rosto abaixa Dido, e foi succintasucinta: 590
"Sus, Teucros, esforçai. Recente o estado
Ao rigor me constrange, e a defender-nos
Seu valor, seus heroes, seu vasto incendio? 595
Nem somos nós tam broncos, nem de Tyro
Tam desviado o Sol junge os cavalloscavalos.
Quer da saturnia Hesperia, quer as margens
D’Erix opteis, em que domina Acestes,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="600">600</span>
Contai com meu auxílio e salvaguarda. 600
Folgais de aqui ficar? Esta cidade
Que erijo, he vossa; as naus que se approximemaproximem:
Não farei destincção de Phrygio a Peno.
Fôsse o rei vosso áà Libya compellidocompelido<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="605">605</span>
Do mesmo Nôto! O litoral já mando 605
E os sertões perlustrar; se he que o naufragio
Em povoado ou brenha o traz perdido."
Ambos álerta, o padre e o companheiro
Ha müitomuito almejam por quebrar a nuvem.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="610">610</span>
A Enéas se antecipa o forte Achates: 610
"Nado de Venus, que tenção meditas?
Mal acabava, a nuvem circumfusa 615
Se rompe e funde nos delgados ares.
Um deus na espalda e vulto, áà claridade
Resplende Enéas; que n’um sôpro a deusa
Ao filho a cabelleiracabeleira em fulgor banha,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="620">620</span>
Em luz purpúrea o juvenil semblante, 620
Em vivo terno agrado os olhos bellosbelos:
Qual, pela indústria, com entalhos de ouro
Pário marmore, ou prata, ou marfim brilha.
De improviso áà raínharainha e a todos clama:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="625">625</span>
"Eis quem buscais, dos libyos vaos escapo, 625
Enéas sou. O’ tu que só tens mágoa
De tanto horror, que a nós de TroiaTróia restos,
Da Grecia escarneo, em terra e mar batidos,
Falhos de tudo, exhaustos, em teu reino,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="630">630</span>
Quantos pelo universo peregrinam.
Se para os bons ha numes, he justiça,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="635">635</span>
Pague-te o céocéu e a propria consciencia. 635
Que seculo feliz, que paespais ditosos
Te houveram filha? Em quanto os vagos rios
Forem-se ao mar, em quanto em gyro a sombra
Vier do monte ao vallevale, em quanto o pólo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="640">640</span>
Pascer os astros, onde quer que eu viva 640
Vivirá com louvor teu nome e fama."
Dice; a dextra offereceoferece ao velho amigo,
A sinistra a Seresto, e uns após outros,
A Gyas, a CloanthoCloanto, e aos mais guerreiros.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="645">645</span>
Da presença do heroe pasma a Phenissa, 645
Tal successosucesso a commovecomove, e assim se exprime:
"Que fado te urge, ó filho da alma Venus,
A arduos perigos e a bravias plagas?
Es o Enéas que a deusa ao nobre Anchises<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="650">650</span>
Gerou de Simoente ás phrygias margens? 650
Bem me lembra que Teucro, expatriadoexpátriado,
Veio a Sidonia, para um novo assento,
Pedir a Belo ajuda: a opima Chypre
Já vencedor meu pae vastara e tinha.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="655">655</span>
De TroiaTróia os casos desde então conheço, 655
Teu nome, e os rêis pelasgos. Sempre ufano
Da anciã linhagem teucra, elleele ofendido
Com enthusiasmoentusiasmo elogiava os Teucros.
Eia, áà minha morada, ó moços, vinde.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="660">660</span>
Por transes mil trazida, iguaesiguais destinos 660
Cá me fixaram. Não do mal ignara
A socorrer os miseros aprendo."
Isto a Enéas memora, e o guia aos paços,
E em solemnesolene festejo occupaocupa as aras.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="665">665</span>
Nem de enviar aos nautas se descuida 665
Touros vinte, co’as mães cem gordos anhos,
Primoroso o tapiz, de ostro suberbo;
Nas mesas prataria; em ouro a historia
Patria esculpida, successãosucessão longuissima
De uns a outros varões desde alta origem.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="675">675</span>
Saudoso, impaciente, o pae de Ascanio 675
Venham tambem: de escamas de ouro um manto<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="680">680</span>
Brocado, um véo com orlas e recamos 680
De croceo acanthoacanto, ornatos peregrinos.
Dons maternos de Leda áà bellabela Argiva,
Que a Pérgamo os trouxera de Mycenas
A’ incasta boda; e o sceptro que Ilione,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="685">685</span>
Filha a maior de Priamo, hastiava, 685
E engranzado collarcolar de perlas finas,
E aurea coroa de engastadas gemmasgemas.
Executivo ás naus caminha Achates.
Nova traça urde a Cypria, alvitres novos;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="690">690</span>
Que Amor, no meigo Iulo transformado, 690
Com os dons nos ossos áà raínharainha infiltre
Insano fogo. A estancia ambigua, os Tyrios
Bilingues teme; Juno atroz a inflammainflama;
Tresnoitada a pensar, por fim conjura<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="695">695</span>
O alígero Cupido: "O’ filho, esteio 695
Dos junonios hospicios mal enxergo:
O ensejo he de tental-a. Eu receosa<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="705">705</span>
Previno os dolos, accenderacender projecto 705
A raínharainha; que um nume a não trastorne,
Mas firme, quanto eu mesma, a Enéas ame.
Ouve o como ha de ser. O infante regio,
Desvelo meu, do genitor chamado,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="710">710</span>
Levar a Byrsa as dadivas propõe-se, 710
Das vagas restos e das teucras chammaschamas.
Sopito em somnosono o esconderei no idalio
Jardim sacro, ou nos bosques de CytheraCytera,
Porque os ardis não turbe inopinado.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="715">715</span>
Tu nellenele te disfarça uma só noite, 715
Do menino as feições veste menino;
E, entre o lieu licor e as reaesreais mesas,
Quando em seu gremio Dido, em cabo leda,
Amplexos te imprimir e doces beijos,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="720">720</span>
A’ voz da cara mãe depondo azas,
Finge gozoso Amor de Iulo o porte.
EllaEla em somnosono abebera o neto amado;
No collocolo amima e o sobe ao luco idalio,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="725">725</span>
Onde mollemole e suave mangerona, 725
Entre flores o abraça e fresca sombra.
E obediente os regios dons Cupido
Acha a Dido, bizarra entre os magnatas. 730
Com sequito luzido o heroe concorre;
Tomam seu posto em purpura excellenteexcelente.
Dá-se agua ás mãos, em canistréis vem Ceres,
Toalhas servem de tosada felpa.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="735">735</span>
Cincoenta moças frutas e viandas 735
Arrumam dentro, aos divos thurificamturificam;
Cem outras e iguaesiguais moços põem nas mesas
A baixellabaixela, a bebida e as iguarias.
Em mó nas salas festivaes, os Tyrios<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="740">740</span>
De ordem recostam-se em coxins lavrados. 740
O padre, o falso Ascanio, o vulto admiram
Flagrante e a voz do deus; o manto, as joias,
De croceo acanthoacanto o véo. Não farta a mente
A misera Phenissa, áà mortal peste<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="745">745</span>
Votada, e mais e mais se abraza olhando 745
O menino e seus dons. Do pae fingido
ElleEle nos braços, do pescoço appensoapenso,
Mal sacia-lhe o amor, vai-se áà raínharainha.
Com olhos e alma se lhe apega Dido,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="750">750</span>
No collocolo o assenta, sem saber, coitada! 750
Que deus afaga. O alumnoaluno de Acidalia
Sicheu aos poucos remover começa,
E intenso ardor insinuar procura
N’um coração já frio e ha müitomuito esquivo.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="755">755</span>
A primeira coberta alçada, os vinhos 755
Bolham, coroados, em bojudas copas.
Retumba o tectoteto, o estrepito por amplos
AtriosÁtrios reboa; de aureas architraves
Pendentes lustres e os brandões accesosacesos<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="760">760</span>
A noite vencem. Grave de ouro e gemmasgemas 760
Pede-a logo a raínharainha, e do mais puro
Enche a taça, que desde Belo usaram
Seus avós. Nos salões tudo em silenciosilêncio:
"JupiterJúpiter, se he que aos hóspedes legislas,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="765">765</span>
Tam fausto alegre dia aos meus e aos PhrygiosFrígios 765
Faze aos vindouros memoravelmemorável: BacchoBaco
Porta-jubilojúbilo assista, e a boa Juno;
Vós o convite celebrai-me, ó Tyrios."
Em honra então na mesa o vinho entorna,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="770">770</span>
Com seus labioslábios o toca, e o dá libado 770
A ByciasBicias provocando: elleele aguçoso
Empina a espumeaespuma taça, em transbordante
Ouro se ensopa: toda a côrtecorte o imita.
Logo entoa as lições do sabio Atlante<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="775">775</span>
Em aureaáurea citharacitara o crinito Iopas: 775
Canta a solar fadiga, a Lua instavel;
Donde homens e animaes, bulcões e raios;
Donde o nimboso Arcturo, e os Triões gemeosgêmeos
E as HyadasHíadas provêmprovém; como apressados<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="780">780</span>
Se tingem no aceano os soes hybernos, 780
Ou que demora estorva as tardas noites.
Penos e Troas áà porfia o applaudemaplaudem.
O serão entretida ia estirando
A infeliz Dido, e longo o amor bebia,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="785">785</span>
MüitoMuito de PriamoPríamo, inquirindo müitomuito 785
De Heitor; que armas da Aurora o filho tinha,
Diomedes que frisões; que jando Achilles Aquiles.
"Do princípio antes, hóspede, as insidias
Graias, dice, nos conta, e o patrio excidio,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="790">790</span>
E erroreserros teus; que já seteno estio 790
De praia em praia todo o mar voltêas."<ref>No original de Odorico, faltam estas aspas, óbvio erro tipográfico.</ref>
</poem>
</div>
==Notas==
<references/>
 
[[Categoria:Eneida Brazileira|Livro I]]

Menu de navegação