Eneida Brazileira/I: diferenças entre revisões

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|obra=[[Eneida BrasileiraBrazileira]]
|autor=Odorico Mendes
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|seção=Livro I
|notas=[[Eneida BrasileiraBrazileira/Notas ao Livro I|Notas ao Livro I]]
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<div style="widtwidth:35em; text-align:justify; margin:0px auto;">
<poem>
Eu, que entoava na delgada avena
Fiz que as vizinhas lavras contentassem
A avidez do colono, empresa grata<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="5">5</span>
Aos aldeãos; de Marte ora as horríveishorriveis
Armas canto, e o varão que, lá de TróiaTroia
Prófugo, àá ItáliaItalia e de LavínioLavino àsás praias
Trouxe-o primeiro o fado. Em mar e em terra
Muito o agitou violenta mão suprema,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="10">10</span>
E o lembrado rancor da seva Juno;
Muito em guerras sofreusoffreu, na Ausonia quando
Funda a cidade e lhe introduz os deuses:
Donde a nação latina e albanos padres,
E os muros vem da sublimada Roma.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="15">15</span>
Musa, as causas me aponta, o ofensooffenso nume,
Ou por que mágoa a soberana déa
CompeliuCompelliu na piedade o heroe famoso
A lances taistaes passar, volver taistaes casos.
Pois tantas iras em celestes peitos!<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="20">20</span>
ColôniaColonia tíriatyria no ultramar, CártagoCarthago,
Do ítalo Tibre contraposta ás fozes,
Houve, possante empórioemporio, antigo, asperrimo
N'arteN’arte da guerra; ao qual, se conta, Juno
Até pospoz a prediletapredilecta Samos:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="25">25</span>
Lá coche, armas lá teve; e anúaannúa o fado,
No orbe entronáenthronal-laa então já traça e tenta.
PorémPorêm de Teucro ouvira que a progênieprogenie,
Dos Penos subvertendo as fortalezas,
Viria a ser, desmoronada a LíbiaLibya,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="30">30</span>
A’ larga rei belipotentebellipotente povo:
Que assim no fuso as Parcas o fiavam.
Saturnia o teme, e a pró dos seus Achivos
Recorda as lides que excitara em TróiaTroia;
Nem d’alma agravosaggravos risca, doresdôres cruas:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="35">35</span>
No íntimo impressa a decisão de Páris,
A injúria da belezabelleza em menoscabo,
E a raça detestada e as honras duram
Do rapto GanimedesGanymedes. Nestes ódiosodios
SobreSôbre-acesaaccesa, os da GréciaGrecia e imiteimmite AquilesAchilles<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="40">40</span>
Salvos Troas, do LácioLacio ia alongando,
Por todo o plaino undísono atirados;
E, em derredor vagando anosannos e anosannos,
De mar em mar a sorte os repulsava.
Tam grave era plantar de Roma a gente!<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="45">45</span>
De SicíliaSicilia, amarando, mal velejam
Ledos e o cobre rompe a salsa espuma,
Juno, dentro guardada eterna chaga:
"Eu, diz consigocomsigo, desistir vencida!
Nem vedar posso a ItáliaItalia ao rei dos Teucros!<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="50">50</span>
Ah! tolhe-me o destino. A esquadra argiva
Não queimou PalasPallas mesma, submergindo-os
Só de um Ajax Oileu por culpa e fúriasfurias?
Do Tonante o corisco elaella das nuvens
Darda, os baixéis desgarra, o ponto assanha;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="55">55</span>
Ao triste, que varado expira chamaschammas,
N’um torvelinho em rocha aguda o crava:
E eu, que rainharaínha marcho ante as deidades,
Mulher e irmã de Jove, tantos anosannos
Guerreio um povo! E a Juno ha quem adore,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="60">60</span>
Ou súplicesúpplice inda a incense, a invoque e honre?"
No âmago isto fermenta, e a deusa àá pátriapatria
De austros furentes, de chuveiros prenhe,
A’ EóliaEolia parte. Aqui n’um antro imensoimmenso
O rei preme, encarcera, algema, enfreia<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="65">65</span>
Luctantes ventos, roncas tempestades.
Sentado Eolo, arvora o sceptro, e as iras
Tempera e os amacia. Que o não faça,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="70">70</span>
Varridos mar e terra e o céucéo profundo
Lá se vãovam pelos ares. Cauto, em negras
Furnas o onipotenteomnipotente os aferrolha,
E, um cargo de montanhas sobrepondo,
Lhes deu rei, que mandado a ponto as bridas<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="75">75</span>
Suster saiba ou laxar. Dest’arte Juno
O exora humilde: "Eo-loEolo, o paipae dos divos
E rei dos homens te concede as ondas
Sublevar e amaináamainal-lasas; gente imiga
Me sulca as do Tyrrheno, Ilio e os domados<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="80">80</span>
Penates para ItáliaItalia transportando:
Ventos açula, as popaspôpas metemette a pique,
Ou dispersas no ponto as espedaça.
Quatorze esbeltas ninfasnymphas me cortejam,
Das quaisquaes a mais formosa, DeiopéiaDeiopeia,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="85">85</span>
PrometoPrometto unir contigocomtigo em jugo estávelestavel;
Que em paga para sempre a ti se vote,
Meiga te procriandoprocreando egrégiaegregia prole."
A quem Eolo: "Que o desejes basta;
Meu, rainharaínha, lhehe servir-te. Quanto valho<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="90">90</span>
Tu m’o grangeasgrangêas, e este cetrosceptro e Jove;
Tu dás-me àá diva mesa o recostar-me,
Ser em tufões potente e em tempestades."
DisseDice; e um revez do conto a cava serra
A um lado impeleimpelle: em turbilhão, cerrados<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="95">95</span>
N’um grupo os ventos, dada a porta, ruem,
As terras varejando. Ao mar carregam,
E horrísonos revolvem-lhe as entranhas
NotoNôto mais Euro, e de borrascas fértilfertil
ÁfricoAfrico; àsás praias vastas ondas rolam.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="100">100</span>
Homens gritam, zunindo a enxarcia ringe.
Some-se ao nauta o céucéo, tolda-se o dia;
Pousa no pelago atra noite; os polos
Toam, o éterether fuzila em crebros raios:
Tudo ameaça aos varões presente a morte.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="105">105</span>
Frígido, arripiado, Enéas geme,
E alça as palmas e exclama: "Afortunados
Oh! trêstres e quatro vezes, d’Ilio ás abas,
Os que aos olhos paternos feneceram!
O’ dos Danaos fortíssimofortissimo TididesTydides,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="110">110</span>
A alma em TróiaTroia vertendo-me essa destradextra,
Não ficar eu nos campos, onde o bravo
Heitor d’Eacide ás lançadas, onde
Sarpédon jaz magnânimomagnanimo, onde o Simois
Corpos e elmos de heróisheroes e escudos tantos<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="115">115</span>
Arrebatados na corrente volve!"
Bradava; e a sibilar ponteiro Bóreas
Rasga o panopanno, e a mareta aos astros joga.
Remos estalam; cruza a proa, e o bordobórdo
Rende; escarpado fluido monte empina-se.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="120">120</span>
As naus já no escarcéuescarcéo pendem, já descem
N’um sorvedouro àá terra entre marouços:
Remoínha o esto na revôlta arêa.
TrêsTres rouba NotoNôto e avexa n’uns abrolhos,
Abrolhos sob o mar, que Italos aras<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="125">125</span>
Nomêam, dorso horrendo ao lume d’agua;
Torce-a, revira, um vortice a devora.
Raros no vasto pégo a nadar surdem;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="135">135</span>
TábuasTaboas e armas viris e alfaias troicas,
PreaPrêa das ondas. A tormenta escala
A nau robusta de Ilioneu, de Abante,
As de AletesAlethes grandevo e Achates forte:
Todas, frouxadas as junturas, sorvem<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="140">140</span>
A inimiga torrente, e em fendas gretam.
Mugir seu reino e o temporal desfeito,
Caixões do imo a brotar, sentiu NetunoNeptuno,
Torvo, abalado, e acode acima e exalta
A plácidaplacida cabeça. A frota esparsa<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="145">145</span>
Vê sossobrando, opressosoppressos os TróianosTroianos
Da marejada e do ruído etéreoethereo.
De Juno irosa o dolo o irmão percebe;
Euro e ZéfiroZephyro chama: "Herdastes, ventos,
Tal presumpção, que sem meu nume, ousados,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="150">150</span>
Terra e céucéo confundis e equoreas brenhas?
Eu vos... Mas insta abonançar as vagas:
Caro m’o pagareis, guardo o castigo.
Ao rei vosso intimai, já já, que em sorte
Não lhe coube este impérioimperio, que o tridente<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="155">155</span>
Fero he só meu. Tem eleelle enormes fragas,
Euro, vossas mansões: nessa aula ufano
Sôbre enclaustrados ventos reine Eolo."
Nem cessa, e o mar se lança, o tempo alimpa
E abre o Sol. Finca a espadoa, e com CimotoeCymóthoe<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="160">160</span>
As naus Tritão do escolho dsengasga;
Mesmo o padre as alivaalliva com seu sceptro,
Amplas sirtessyrtes afunda, aplaca os mares,
Por cima em rodas se deslisa leves.
Como, enraivado em popular tumulto,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="165">165</span>
Mas, se um pio ancião preclaro assoma,
Calam, para escutar o ouvido afiam;
EleElle os convence e os animos abranda:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="170">170</span>
Assim baixa o fragor e o pégo amansa,
Quando olha o deus, que os brutos no ar sereno
Dobra, e dá loros ao ligeiro carro.
Da costa proxima em demanda, àá Libya
Os cansados Eneadas aproam.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="175">175</span>
N’um golpho alialli secreto, com seus braços
Faz barra ilha fronteira, onde a mareta
Quebra e se escoa em sinuosas rugas:
Penedia em redondo, e ao céucéo minazes
Ha dous picos irmãos, a cujo abrigo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="180">180</span>
Dorme difusodiffuso o mar; de coruscantes
Selvas prolonga-se eminente scena,
Descahe de atra espessura horrida sombra;
No tôpo ha gruta em pêndulos cachopos,
Com doce fonte, e em viva rocha bancos<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="185">185</span>
Das ninfasnymphas séde: aqui não prende amarra
Nem mordaz ferro adunco as lassas quilhas.
Com sete naus ao todo arriba Enéas;
Saltando os seus, do sal tabidos membros<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="190">190</span>
Na arêa espraiam. Lume eis fere Achates,
Toma em folhas, e em roda as acendalhasaccendalhas,
Nutre a faisca, e em lenha a chamachamma atêa.
Mareados pães e cereaiscereaes aprestos
Já desembarca a trabalhada chusma,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="195">195</span>
E os grãos põe-se a torrar e em pedra os pisa.
Trepa emtanto um penhasco, e ao largo Enéas
Regyra, a vêr se undívagos alcança
AnteuAntheu ou Capys, as biremes phrygias,
Ou armas de Caíco em altas pôpas.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="200">200</span>
Baixel nenhum; avista só tres cervos
Na praia errantes; segue atrás o armento,
E enfileirado pelos valesvalles pasta.
Retem-se, e o arco aferra e as settas ageis
Que armam Achates fido, e os guias logo,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="205">205</span>
Embrenha a demais turba e acossa a tiros,
Té que derriba sete ingentes corpos,
E iguala as naus. De vólta, eleelle os divide.
E os barris que, àá partida, o heroe trinacrio<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="210">210</span>
Bom de vinho atestara, aos seus larguêa;
Dulcíloquo os mitiga: "Os males, socios,
Nada estranhamos; oh! mais agros foram:
Deus porá termo a estes. Vós de ScylaScylla
De perto a raiva e escolhos resonantes,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="215">215</span>
Vós cyclopeos rochedos afrontastesaffrontastes:
Animo! esse temor bani tristonho;
Talvez isto com gôsto inda nos lembre.
Por varios casos, transes mil, nos vamos
Ao LácioLacio onde o repouso os fados mostram:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="220">220</span>
Resurgir deve alialli de TróiaTroia o reino.
Tende-vos duros, da bonança àá espera."
Tal discursa, e afectandoaffectando um ar seguro,
N’alma inferma sufocasuffoca a dôr profunda.
Lestos àá presa atiram-se: este esfola,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="225">225</span>
Aquele desentranha, outro esposteja;
Qual trementes no espeto enrosca os lombos,
Qual fogo atiça aos caldeirões na praia.
Fartos, na relva espalham-se, refeitos
De velho bachobaccho e veação opíma.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="230">230</span>
Repleta a fome, e as mesas removidas,
Dubios indagam, sôbre os seus praticam
Mormente o pio rei de Amyco chora<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="235">235</span>
Ou de Lyco o desastre, o ardido Oronte,
E o forte Gyas e CloantoCloantho forte.
Das alturas, no fim, Jove esguardando
O mar velívolo e as jacentes plagas
E amplas nações, no vertice do Olympo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="240">240</span>
Quedo, os olhos fitou nos lybios reinos.
Quando o absorviam taistaes cuidados, Venus
Triste, os gentis luzeiros orvalhando:
"O’ tu, queixou-se, que os mortaismortaes e os deuses
Reges eterno e horrísono fulminas,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="245">245</span>
O que te fez meu filho, o que os TróianosTroianos,
Que após tragos letaeslethaes, não só d’Itáliad’Italia,
Do universo os canceloscancellos se lhes fecham?
Roma delesdelles tirar, delesdelles os cabos
Que, eras volvendo, restaurado o sangue<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="250">250</span>
De Teucro, o mar e a terra sofreiassem,
Nos prometteste: quem mudou-te, ó padre?
Do ocasooccaso ao menos e desgraças d’Ilio
Isto, uns fados com outros compensando,
Me consolava. Igual fortuna arrasta<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="255">255</span>
Ora os varões a riscos e a trabalhos:
Quando os findas, gran’rei? De Acheus escapo,
Entrar salvo Antenor d’Ilyriad’Illyria o seio
E internar-se em Liburnia, e a fonte obteve
De Timavo transpôr, donde por bôcas<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="260">260</span>
Ruidoso mar que empola e o campo alaga.
Sentou Patavio aqui, deu casa a Teucros,
Nome àá gente, e os brasões fixou de TróiaTroia;
Descansa em doce paz. Nós tua estirpe,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="265">265</span>
Nós da celeste côrte, as naus submersas,
Ah! de uma por furor, victimas somos,
Longe expulsos d’Itáliad’Italia? Deste modo
Se honra a piedade, os sceptros nos reservas?"
Sorrindo-se o autor de homens e numes,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="270">270</span>
C’um gesto que a tormenta e o céucéo serena,
Da filha osculos liba, e assim pondera:
"Poupa esse medo, Cypria; imotosimmotos jazem
Dos teus os fados: nas lavinias tôrres
Has de revêr-te, e alar sôbre as estrelasestrellas<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="275">275</span>
Teu grande Enéas. Jupiter não muda.
O heroe na ItáliaItalia (esta ancia te remorde,
Vou rasgar-te os arcanos do futuro)
Guerras tem de mover e amansar povos,
E instituir cidades e costumes,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="280">280</span>
Ao passo que reinando o vir no LácioLacio
Terceiro estio, e os Rutulos domados,
Forem-se tres invernos. Posto ao leme
Cerrando os mezes trinta largos gyros,
Ha-de, a séde lavinia trasladada,
Alba longa munir e abasteceabastecel-laa.
Os Hectoreos aqui trezentos anosannos
Já reinarão, quando a vestal princeza<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="290">290</span>
Ilia parir a Marte gemea prole.
Da nutriz loba em fulva pelepelle ovante,
Romulo ha de erigir mavorcios muros,
E àá recebida gente impôr seu nome.
Métas nem tempos aos de Roma assino;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="295">295</span>
O impérioimperio dei sem fim. Té Juno acerba,
Que o mar ciosa e a terra e o céucéo fatiga,
Transmudada em melhor, tem de amparar-me
Do orbe os senhores e a nação togada.
Praz-me assim. Manem lustros, que inda a casa<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="300">300</span>
De Assaraco ha de ser de PhtiaPhthia e de Argos
Senhora, e agrilhoar MecenasMycenas clara.
D’Iulo garfo egregio, em nome e glória
SucedendoSuccedendo, as conquistas no oceano
Cesar teminará, nos céuscéos a fama.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="305">305</span>
Nos astros sim, de espolios do oriente
Onusto, o acolherás; e humanas preces
Hediondo ruja com sanguinea bôca."<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="315">315</span>
Não mais; e expede o génito de Maia,
Porque a recem CartagoCarthago hospíciohospicio aos Teucros
Franquêe, nem, do fado inscia, a rainharaínha
Os extermine. O deus pelo ar patente
De azas remando, em Libya o vôo abate;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="320">320</span>
Fiel ás ordens, a fereza aos Penos
Despe; e Dido primeira em pró dos Phrygios
Brandos afectosaffectos placidos concebe.
Toda a noite pensoso o heroe velando,
A alma luz mal branqueja, onde arribara<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="325">325</span>
N’abra de uns bosques sob cavada penha,
Entre verde espessura e negras sombras,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="330">330</span>
EleElle só, mais Achates, sahe brandindo
Duas hastes que empunha de ancho ferro.
Da selva em meio a mãe se lhe apresenta,
Virgem no trajo e aspecto, em armas virgem
Lacena; ou qual Harpálice a treíciathreícia<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="335">335</span>
Cansa os corseis e o Euro vence alífugo: 325
Pois do hombro o arco destro, àá caçadora,
Pendura, e ás auras a madeixa entrega,
Dos joelhos nua e a falda em nó colhida.
Irmã minha, a gritar quiçá no encalço 340
De javali sanhudo? A cinta aljava
Tem sobre a pelepelle de um manchado lincelynce."
Isto Venus; e o filho assim responde:
"Nenhuma ouvi nem vi das irmãs tuas,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="345">345</span>
O’... quem direi? Não tens mortal semblante 345
Nem voz de humano som; es deusa, ó virgem:
Irmã de Phebo ou ninfanympha? As nossas penas
Tu, por quem es, minora: e nos ensina,
Pois vagueâmos sem saber por onde,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="350">350</span>
O paiz, clima ou povo, a que arrojou-nos 350
Vento e escarcéuescarcéo medonho. Hostias sem conto
Havemos de imolarimmolar nas aras tuas."
"Não mereço honras taes, replíca Venus;
Usam de aljava, e ao bucho as virgens tyrias<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="355">355</span>
Punicos reinos e agenorios muros
Vês, nos confins da indomita e guerreira
Libyca raça. O impérioimperio atêm-se a Dido,
Que, por fugir do irmão, fugiu de Tyro.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="360">360</span>
He longa a injúria, tem rodeios longos; 360
Mas traçarei seu curso em breve sumasumma.
Sicheu, Phenicio em lavras opulento,
Foi da misera espôso, e muitomüito amado:
Com bom preságio o pae lha dera intacta.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="365">365</span>
Pygmalion, façanhoso entre os malvados, 365
Barbaro irmão, do estado se empossara.
Interveio o furor: de fome de ouro
Cego, e àá paixão fraterna sem respeito,
Perfido, impio, a Sicheu nas aras mata;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="370">370</span>
O facto encobre, e a credula esperança 370
Da amante aflictaafflicta largo espaço iludeillude
Com mil simulações. Mas do inhumado
Consorte, com esgares espantosos,
PalidaPallida em sonhos lhe apareceapparece a imagem:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="375">375</span>
Da casa o crime e trama desenleia; 375
A ara homecida, os retalhados peitos
Desnuda, e àá pátriapatria intíma-lhe que fuja:
Prata imensaimmensa e ouro velho, soterrados,
Para o exilio descobre. ElaElla, inquieta,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="380">380</span>
Apressa a fuga, e attrahe os descontentes 380
Que ou rancor ao tyranotyranno ou medo instiga;
Acaso prestes naus, manda assaltal-as;
Dos tesourosthesouros do avaro carregadas
Empégam-se: a mulher conduz a empresa!<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="385">385</span>
Chegam d’alta CartagoCarthago onde o castelocastello 385
Verás medrando agora e ingentes muros:
Mercam solo (do feito o alcunham Byrsa)
Quanto um coiro taurino abranja em tiras.
Mas vós-outros quem sois? donde he que vindes?<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="390">390</span>
Que regiões buscais?" EleElle ás perguntas 390
Esta resposta suspirando arranca:
"O’ déa, se recorro àá prima origem,
E anaisannaes de angústias não te pejam, Vesper
No Olympo encerra o dia antesque eu finde.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="395">395</span>
Da antiga TróiaTroia (se has notícia deladella), 395
Vagos no equoreo campo, arremessou-nos
Casual tempestade ás libyas costas.
Enéas sou, com fama alèm dos astros,
Que livrei de hostil garra os meus penates,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="400">400</span>
E piedoso os transporto àá pátriapatria Ausonia; 400
Do sumosummo Jove a geração procuro.
Por guia a deusa mãe, submisso aos fados,
Em vinte naus comettocommetto o phrygio ponto;
Rôtas do Euro e das ondas, restam sete.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="405">405</span>
Pobre, ignoto, percorro africos ermos, 405
D’Asia e d’Europa excluso..." Nem mais Venus
Lamentos comportou, na dôr o atalha:
"Quem sejas, creio, não do céucéo malquisto,
Gozas d’aura vital, que a TiroTyro aportas.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="410">410</span>
Eia, ao régioregio paLáciopalacio te encaminha. 410
Sem risco os socios, ancorada a frota,
Com o rondar dos áquilos, te auguro,
Se em arte vã meus paispaes não me instruiram.
Attenta cysnes doze em bando alegres:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="415">415</span>
No espaço, o eterether fendendo, os perseguia 415
A ave de Jove; n’um cordão agora
Ou tem no pouso a mira, ou vam pousando;
Bem como os teus as pôpas atracaram, 420
Ou de véla enfunada a foz embocam.
Sus, alialli te dirige, a estrada he esta."
Dá costas, e a cerviz rosada fulge,
De ambrosia odor celeste a coma expira;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="425">425</span>
A veste escoa aos pés; no andar se ostenta 425
Vera deusa. EleElle atrás da mãe fuginte,
Reconhecendo-a, brada: "Porque o filho
Com taistaes ficções, cruel, enganas tanto?
Ligar dextra com dextra, ouvir-te ás claras,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="430">430</span>
Conversar-te em pessoa me he defeso?" 430
Tal a argúe, e ás muralhas se endereça.
ElaElla porêm de ar fusco os viandantes
Tapa e os embuça em nevoa, que enxergal-os
Ou tocar ninguem possa, nem detel-os<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="435">435</span>
E recentes festões seu templo aromam.
Eis da azinhaga pela trilha cortam,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="440">440</span>
E um teso galgam já, que olha iminenteimminente 440
A fronteira torrígera cidade.
PalhaisPalhaes d’antes, a mole admira Enéas,
Admira o estrondo e as portas e as calçadas.
Tyro aferventa-se, a lançar os muros,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="445">445</span>
A avultar o castelocastello, e a rolar pedras. 445
Parte com sulcos marca os edificios;
Santo augusto senado, e o foro e a curia,
Se cria e elege: aqui se escavam portos;
Fundam-se alialli magnificos teatrostheatros,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="450">450</span>
De marmor colossaiscollossaes talham colunascolumnas, 450
Pompa e decoro das futuras scenas.
QuaisQuaes abelhas ao sol por floreos prados
Lidam na primavera, quando ensaiam
O adulto enxame; ou doce fluido espessam,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="455">455</span>
Do nectar flavo retesando as celascellas; 455
Ou quando a carga das que vem recebem;
Ou em batalha expulsam da colmêa
Exclama o heroe, e os coruchéos contempla.
Na cidade não visto, oh maravilha!
Se mistura enubladoennublado. Em meio havia
Luco umbroso e fresquissimo, onde os Penos,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="465">465</span>
De ondas jogados e tufões, cavaram 465
O tésto de um corsel, de Juno régia
Mostra e penhor que o povo, asado àá glória,
Pugnaz e duro, insultaria os evos:
Lá punha Dido a Juno insigne templo,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="470">470</span>
Que dons e a rica efigieeffigie realçavam: 470
No bronzeo limiar da<ref>No original, consta ''dá''.</ref> bronzea escada,
Craveja o bronze as traves, e a couceira
N’este bosque a lenir entra os receios;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="475">475</span>
Aqui primeiro ousou fiar-se Enéas 475
E prometter-se alívioallívio em seus pezares:
Pois quando, àá espera da rainharaínha, o templo
Nota peça por peça, quando o enlevam
De CartagoCarthago a fortuna, o gôsto fino,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="480">480</span>
O artificio, o primor, acha em pintura 480
A fio as guerras d’Ilion, pelo orbe
Já soadas; o Atrida, o rei Tróianotroiano,
E terror de ambos sebresahe<ref>'Sebresahe'' está por ''sobresahe'', erro tipográfico corrigido na segunda edição.</ref> AquilesAchilles.
Pára, e em lagrimas diz: "Que sítio ou clima<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="485">485</span>
Cheio, Achates, não he dos nossos males? 485
Vê de Pérgamo em roda a hoste graia
Do phrygio ardor fugir, fugir a teucra
Do instante carro do emplumado AquilesAchilles.
Ai! perto a Rheso por traição Tydides,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="495">495</span>
No primo sonosomno, arrasa as niveas tendas, 495
De carnagem cruento; e os acres brutos
Volve ao seu campo, sem gostado haverem
De TróiaTroia os pastos, nem bebido o XantoXantho.
Triste! as armas perdendo, alêm, Troílo,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="500">500</span>
Que arrostou-se menino ao proprio AquilesAchilles, 500
He dos corséis tirado, e resupino,
Mas tendo os loros, do vazio carro
Pende; e a cerviz no pó, de rojo a coma,
Virada a lança hostil na arêa escreve.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="505">505</span>
Em cabelocabello, as Iliades aflictasafflictas 505
Ao templo iam tambem da iniqua PalasPallas,
O peplo humildes ofertandooffertando, e os peitos
Com punhadas ferindo: aversa a déa
Olhos no chão pregava. A Heitor Pelides<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="510">510</span>
Do negro rei do eôo a turma e as armas
A’ testa de milhares de Amazonas
Com lunados broquéis, PentesiléaPenthesiléa
Se abraza em furia, belicosabellicosa atando<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="520">520</span>
Sob a despida mama um cinto de ouro, 520
E virgem com varões brigar se atreve.
Quando extatico o heroe se embebe e enleia,
Ao templo a formosissima rainharaínha
Marcha, de jovens com loução cortejo.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="525">525</span>
Qual nas ribas do Eurotas ou do CyntoCyntho 525
Pelos serros Diana exerce os coros,
E, de infindas Oreadas seguida,
Regra ou sortêa os publicos trabalhos. 535
Subito Enéas no tropel devisa
A CloantoCloantho brioso, AnteuAntheu, Sergesto,
E os mais que atra borrasca a longes costas
Remessara dispersos. EleElle e Achates<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="540">540</span>
Varados ficam de alegria e susto, 540
Avidos ardem por travar as dextras;
Introduzidos, quando a vez tiveram,
Rompe o idoso Ilioneu, facundo e grave:
"RainhaRaínha, ó tu que por favor supremo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="550">550</span>
Ergues nova cidade, e justa enfreias 550
Suberbas gentes, os TróianosTroianos ouve,
Que, dos ventos ludíbrio, os mares cruzam:
Livra do infando incendio a pia armada,
Poupa inocentesinnocentes, nossa causa attende.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="555">555</span>
Nem vimos nós talar com ferro e fogo, 555
Nem saquear os lybicos penates:
Armipotente e uberrimo, colonia<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="560">560</span>
Já de enotrios varões; agora he fama 560
Que, de um seu capitão, se diz ItáliaItalia:
Esta era a nossa róta; eis que em vaos cegos
Deu conoscocomnosco de salto Orion chuvoso,
E, em sanha o pelago e os protervos austros,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="565">565</span>
Nos derramou por ondas e ínvias fragas: 565
Da arêa o asylo a náufragos prohibem.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="570">570</span>
Se as armas desprezais e as leis humanas, 570
O céucéo mede as acções, premeia e pune.
Rei nosso Enéas he, que a ninguem cede,
Pio e inteiro, valente e belicosobellicoso:
Se aura etéreaethérea o sustenta e o guarda o fado,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="575">575</span>
Se os manes o não tem, sem medo somos, 575
De o penhorar primeira não te pezes.
Cidades em Sicilia e campos temos,
E do sangue Tróianotroiano o claro Acestes.
Amarrar nos permitte a lassa frota,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="580">580</span>
Mastros, remos cortar, falcar antenas; 580
Com que ledos, se ItáliaItalia nos espera,
Os socios e o rei salvo, ao LácioLacio vamos:
Mas, se te ha consumido o lybio pégo,
Optimo pae dos Teucros, nem d’Iulo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="585">585</span>
A apercebida sicula hospedagem,
E o regio amparo." O Dárdano termina:
Lavra entre os seus aprovadorapprovador sussurro.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="590">590</span>
O rosto abaixa Dido, e foi sucintasuccinta: 590
"Sus, Teucros, esforçai. Recente o estado
Ao rigor me constrange, e a defender-nos
Seu valor, seus heroes, seu vasto incendio? 595
Nem somos nós tam broncos, nem de Tyro
Tam desviado o Sol junge os cavaloscavallos.
Quer da saturnia Hesperia, quer as margens
D’Erix opteis, em que domina Acestes,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="600">600</span>
Contai com meu auxílio e salvaguarda. 600
Folgais de aqui ficar? Esta cidade
Que erijo, he vossa; as naus que se aproximemapproximem:
Não farei destincção de Phrygio a Peno.
Fôsse o rei vosso àá Libya compelidocompellido<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="605">605</span>
Do mesmo Nôto! O litoral já mando 605
E os sertões perlustrar; se he que o naufragio
Em povoado ou brenha o traz perdido."
Ambos álerta, o padre e o companheiro
Ha muitomüito almejam por quebrar a nuvem.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="610">610</span>
A Enéas se antecipa o forte Achates: 610
"Nado de Venus, que tenção meditas?
Mal acabava, a nuvem circumfusa 615
Se rompe e funde nos delgados ares.
Um deus na espalda e vulto, àá claridade
Resplende Enéas; que n’um sôpro a deusa
Ao filho a cabeleiracabelleira em fulgor banha,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="620">620</span>
Em luz purpúrea o juvenil semblante, 620
Em vivo terno agrado os olhos belosbellos:
Qual, pela indústria, com entalhos de ouro
Pário marmore, ou prata, ou marfim brilha.
De improviso àá rainharaínha e a todos clama:<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="625">625</span>
"Eis quem buscais, dos libyos vaos escapo, 625
Enéas sou. O’ tu que só tens mágoa
De tanto horror, que a nós de TróiaTroia restos,
Da Grecia escarneo, em terra e mar batidos,
Falhos de tudo, exhaustos, em teu reino,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="630">630</span>
Quantos pelo universo peregrinam.
Se para os bons ha numes, he justiça,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="635">635</span>
Pague-te o céucéo e a propria consciencia. 635
Que seculo feliz, que paispaes ditosos
Te houveram filha? Em quanto os vagos rios
Forem-se ao mar, em quanto em gyro a sombra
Vier do monte ao valevalle, em quanto o pólo<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="640">640</span>
Pascer os astros, onde quer que eu viva 640
Vivirá com louvor teu nome e fama."
Dice; a dextra ofereceofferece ao velho amigo,
A sinistra a Seresto, e uns após outros,
A Gyas, a CloantoCloantho, e aos mais guerreiros.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="645">645</span>
Da presença do heroe pasma a Phenissa, 645
Tal sucessosuccesso a comovecommove, e assim se exprime:
"Que fado te urge, ó filho da alma Venus,
A arduos perigos e a bravias plagas?
Es o Enéas que a deusa ao nobre Anchises<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="650">650</span>
Gerou de Simoente ás phrygias margens? 650
Bem me lembra que Teucro, expátriadoexpatriado,
Veio a Sidonia, para um novo assento,
Pedir a Belo ajuda: a opima Chypre
Já vencedor meu pae vastara e tinha.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="655">655</span>
De TróiaTroia os casos desde então conheço, 655
Teu nome, e os rêis pelasgos. Sempre ufano
Da anciã linhagem teucra, eleelle ofendido
Com entusiasmoenthusiasmo elogiava os Teucros.
Eia, àá minha morada, ó moços, vinde.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="660">660</span>
Por transes mil trazida, iguaisiguaes destinos 660
Cá me fixaram. Não do mal ignara
A socorrer os miseros aprendo."
Isto a Enéas memora, e o guia aos paços,
E em solenesolemne festejo ocupaoccupa as aras.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="665">665</span>
Nem de enviar aos nautas se descuida 665
Touros vinte, co’as mães cem gordos anhos,
Primoroso o tapiz, de ostro suberbo;
Nas mesas prataria; em ouro a historia
Patria esculpida, sucessãosuccessão longuissima
De uns a outros varões desde alta origem.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="675">675</span>
Saudoso, impaciente, o pae de Ascanio 675
Venham tambem: de escamas de ouro um manto<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="680">680</span>
Brocado, um véo com orlas e recamos 680
De croceo acantoacantho, ornatos peregrinos.
Dons maternos de Leda àá belabella Argiva,
Que a Pérgamo os trouxera de Mycenas
A’ incasta boda; e o sceptro que Ilione,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="685">685</span>
Filha a maior de Priamo, hastiava, 685
E engranzado colarcollar de perlas finas,
E aurea coroa de engastadas gemasgemmas.
Executivo ás naus caminha Achates.
Nova traça urde a Cypria, alvitres novos;<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="690">690</span>
Que Amor, no meigo Iulo transformado, 690
Com os dons nos ossos àá rainharaínha infiltre
Insano fogo. A estancia ambigua, os Tyrios
Bilingues teme; Juno atroz a inflamainflamma;
Tresnoitada a pensar, por fim conjura<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="695">695</span>
O alígero Cupido: "O’ filho, esteio 695
Dos junonios hospicios mal enxergo:
O ensejo he de tental-a. Eu receosa<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="705">705</span>
Previno os dolos, acenderaccender projecto 705
A rainharaínha; que um nume a não trastorne,
Mas firme, quanto eu mesma, a Enéas ame.
Ouve o como ha de ser. O infante regio,
Desvelo meu, do genitor chamado,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="710">710</span>
Levar a Byrsa as dadivas propõe-se, 710
Das vagas restos e das teucras chamaschammas.
Sopito em sonosomno o esconderei no idalio
Jardim sacro, ou nos bosques de CyteraCythera,
Porque os ardis não turbe inopinado.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="715">715</span>
Tu nelenelle te disfarça uma só noite, 715
Do menino as feições veste menino;
E, entre o lieu licor e as reaisreaes mesas,
Quando em seu gremio Dido, em cabo leda,
Amplexos te imprimir e doces beijos,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="720">720</span>
A’ voz da cara mãe depondo azas,
Finge gozoso Amor de Iulo o porte.
ElaElla em sonosomno abebera o neto amado;
No colocollo amima e o sobe ao luco idalio,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="725">725</span>
Onde molemolle e suave mangerona, 725
Entre flores o abraça e fresca sombra.
E obediente os regios dons Cupido
Acha a Dido, bizarra entre os magnatas. 730
Com sequito luzido o heroe concorre;
Tomam seu posto em purpura excelenteexcellente.
Dá-se agua ás mãos, em canistréis vem Ceres,
Toalhas servem de tosada felpa.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="735">735</span>
Cincoenta moças frutas e viandas 735
Arrumam dentro, aos divos turificamthurificam;
Cem outras e iguaisiguaes moços põem nas mesas
A baixelabaixella, a bebida e as iguarias.
Em mó nas salas festivaes, os Tyrios<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="740">740</span>
De ordem recostam-se em coxins lavrados. 740
O padre, o falso Ascanio, o vulto admiram
Flagrante e a voz do deus; o manto, as joias,
De croceo acantoacantho o véo. Não farta a mente
A misera Phenissa, àá mortal peste<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="745">745</span>
Votada, e mais e mais se abraza olhando 745
O menino e seus dons. Do pae fingido
EleElle nos braços, do pescoço apensoappenso,
Mal sacia-lhe o amor, vai-se àá rainharaínha.
Com olhos e alma se lhe apega Dido,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="750">750</span>
No colocollo o assenta, sem saber, coitada! 750
Que deus afaga. O alunoalumno de Acidalia
Sicheu aos poucos remover começa,
E intenso ardor insinuar procura
N’um coração já frio e ha muitomüito esquivo.<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="755">755</span>
A primeira coberta alçada, os vinhos 755
Bolham, coroados, em bojudas copas.
Retumba o tetotecto, o estrepito por amplos
ÁtriosAtrios reboa; de aureas architraves
Pendentes lustres e os brandões acesosaccesos<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="760">760</span>
A noite vencem. Grave de ouro e gemasgemmas 760
Pede-a logo a rainharaínha, e do mais puro
Enche a taça, que desde Belo usaram
Seus avós. Nos salões tudo em silênciosilencio:
"JúpiterJupiter, se he que aos hóspedes legislas,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="765">765</span>
Tam fausto alegre dia aos meus e aos FrígiosPhrygios 765
Faze aos vindouros memorávelmemoravel: BacoBaccho
Porta-júbilojubilo assista, e a boa Juno;
Vós o convite celebrai-me, ó Tyrios."
Em honra então na mesa o vinho entorna,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="770">770</span>
Com seus lábioslabios o toca, e o dá libado 770
A BiciasBycias provocando: eleelle aguçoso
Empina a espumaespumea taça, em transbordante
Ouro se ensopa: toda a cortecôrte o imita.
Logo entoa as lições do sabio Atlante<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="775">775</span>
Em áureaaurea citaracithara o crinito Iopas: 775
Canta a solar fadiga, a Lua instavel;
Donde homens e animaes, bulcões e raios;
Donde o nimboso Arcturo, e os Triões gêmeosgemeos
E as HíadasHyadas provémprovêm; como apressados<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="780">780</span>
Se tingem no aceano os soes hybernos, 780
Ou que demora estorva as tardas noites.
Penos e Troas àá porfia o aplaudemapplaudem.
O serão entretida ia estirando
A infeliz Dido, e longo o amor bebia,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="785">785</span>
MuitoMüito de PríamoPriamo, inquirindo muitomüito 785
De Heitor; que armas da Aurora o filho tinha,
Diomedes que frisões; que jando AquilesAchilles.
"Do princípio antes, hóspede, as insidias
Graias, dice, nos conta, e o patrio excidio,<span style="font-size:90%;color:666;float:right" id="790">790</span>
E erroserrores teus; que já seteno estio 790
De praia em praia todo o mar voltêas."<ref>No original de Odorico, faltam estas aspas, óbvio erro tipográfico.</ref>
</poem>
</div>
==Notas==
<references/>
 
[[Categoria:Eneida Brazileira|Livro I]]

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