Estuoso Interiormente

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Estuoso Interiormente
por Arquipoeta
Tradução de Yuri Ikeda Fonseca


1.
Estuoso interiormente de violenta ira,
em amargura, eu falo com a minha mente:
feito de substância de frívolo elemento,
sou igual folha com a qual brincam os ventos.

2.
Embora seja, com efeito, próprio ao homem sábio
pôr sobre a rocha o alicerce de sua morada,
eu, insensato, sou comparado ao rio escoante,
nunca permanente sob o mesmo céu.

3.
Sou levado como um navio sem marinheiros,
como a ave errante é levada pelas vias dos céus;
correntes não me seguram, a chave não me segura,
busco meus iguais e me junto aos degenerados.

4.
A seriedade do coração me é penosa,
a diversão é amável e mais doce que o mel;
tudo que Vênus ordena é trabalho agradável,
e ela nunca habita nos corações dos inertes.

5.
Trilho o caminho largo ao modo da juventude,
agarro-me aos vícios, esquecido da virtude,
ávido de prazer mais de que de salvação,
morto na alma, tomo conta da pele.

6.
Distintíssimo prelado, peço-te a remissão:
morro de boa morte, pereço de doce corrupção;
a beleza das garotas dilacera o meu peito,
e com as que não posso tocar, adultero no coração.

7.
Coisa dificílima é vencer a natureza,
ter a mente pura ao olhar uma jovem;
nós, jovens, não podemos seguir a lei dura,
e dos corpos frívolos não se sabe uma cura.

8.
Quem, posto no fogo, não é pelo fogo queimado?
Quem é deixado casto permanecendo em Pávia,
onde Vênus os jovens com o dedo caça,
com os olhos enlaça, com a face rapina?

9.
Se colocares Hipólito hoje em Pávia,
Hipólito não existirá no dia seguinte.
Todas as ruas levam ao quarto de Vênus,
dentre tantas torres não há a torre da Aletheia.

10.
Em segundo lugar, sou acusado de jogar,
mas quando o jogo me arruína até o corpo ficar nu,
exteriormente gelado, suo de um calor da mente;
então eu forjo versos e canções melhores.

11.
Num terceiro capítulo, lembro-me da taverna:
que em tempo nenhum desprezei nem desprezarei,
até que eu enxergue os santos anjos vindo,
cantando para os mortos: “Descanso eterno”.

12.
O meu propósito é morrer na taverna,
para estarem os vinhos perto da boca agonizante;
coros de anjos cantarão, então, alegremente:
“que Deus seja bom para com este bebedor.”

13.
A lanterna da alma é acesa pelas taças;
o coração úmido em néctar às alturas voa,
a mim o vinho da taverna tem sabor mais doce
que aquele que o teu camareiro mistura com água.

14.
Alguns poetas evitam locais públicos
e elegem secretas moradias dos retiros,
estudam, insistem, não dormem nem trabalham pouco,
e enfim, no esforço, podem entregar uma ilustre obra.

15.
Coros de poetas jejuam e se abstêm,
evitam brigas públicas e locais agitados,
e embora produzam uma obra que não possa morrer,
morrem extenuados pela dedicação ao trabalho.

16.
A cada um a Natureza dá sua própria função;
eu nunca seria capaz de escrever de jejum,
comigo faminto, uma criança me venceria.
Odeio a sede e a fome tanto quanto um funeral.

17.
A cada um a Natureza dá seu próprio dom;
eu, fazendo versos, bebo o vinho bom
e puro que têm as jarras dos taverneiros;
tal vinho gera uma abundância de conversas.
              
18.
Faço versos tão bons quanto o vinho que bebo,
nada posso fazer não estando a comida comprada;
o que eu escrevo com fome não vale absolutamente nada,
depois de um cálice supero Naso na canção.

19.
A inspiração da poesia nunca me é dada
se antes não estiver a barriga bem saciada;
quando Baco subjuga o baluarte do cérebro,
Febo me invade e faz coisas prodigiosas.

20.
Eis que fui traidor de minha perversidade,
da qual me acusam os teus servidores,
mas nenhum deles é acusador de si mesmo,
embora queiram jogar e gozar da vida mundana.

21.
Já agora, à presença do abençoado prelado,
conforme as regras dos mandamentos divinos,
atire-me a pedra e não poupe o poeta
aquele cujo espírito não é culpado de pecado.

22.
Falei contra mim tudo que sei a meu respeito
e vomitei o veneno que por muito acalentei.
A velha vida insatisfaz, os novos modos agradam,
o homem vê a face, mas o coração está aberto a Júpiter.

23.
Já estimo as virtudes, irrito-me com os vícios,
renovado na alma, do espírito renasço;
recém-nascido, alimento-me de um novo leite,
não seja mais meu coração um vaso de vaidade.

24.
Ó eminente de Colônia, absolve o penitente,
tem misericórdia de quem pede o perdão,
e dá a penitência ao confesso de culpa:
de bom grado aceitarei na alma o que decidires.

25.
O leão, rei das feras, absolve seus súditos,
e contra os súditos se esquece de ter ira,
fazei vós o mesmo, príncipes das terras:
quem carece de doçura é em excesso amargo.