Eu, que me não sei calar

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Como acreditou este prelado mais os mexericos de caveyra, do que as lizonjas do poeta, lhe fez esta sátira.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia

1Eu, que me não sei calar,
mas antes tenho por míngua,
não purgar-se qualquer língua
a risco de arrebentar:
vos quero, amigo, contar,
pois sois o meu secretário,
um sucesso extraordinário,
um caso tremendo, e atroz;
porém fique aqui entre nós.
  
2Do Confessor Jesuíta,
que ao ladrão do confessado
não só absolve o pecado,
mas os furtos lhe alcovita:
do Percursor da visita,
que na vanguarda marchando
vai pedindo, e vai tirando,
o demo há de ser algoz:
porém fique aqui entre nós.
  
3O ladronaço em rigor
não tem para que o dizer
furtos, que antes de os fazer,
já os sabe o confessor:
cala-os para ouvir melhor,
pois com ofício alternado
confessor, e confessado
ali se barbeiam sós:
porém fique aqui entre nós.
  
4Aqui o Ladrão consente
sem castigo, e com escusa,
pois do mesmo se lhe acusa
o confessor delinqüente:
ambos alternadamente
um a outro, e outro a um
o pecado, que é comum
confessa em comua voz:
porém fique aqui entre nós.
  
5Um a outro a mor cautela
vem a ser neste acidente
confessor, e penitente,
porque fique ela por ela:
o demo em tanta mazela
diz: faço, porque façais,
absolvo, porque absolvais,
pacto inopinado pôs;
porém fique aqui entre nós.
  
6Não se dá a este Ladrão
penitência em caso algum,
e somente em um jejum
se tira a consolação:
ele estará como um cão
de levar a bofetada:
mas na cara ladrilhada
emenda o pejo não pôs:
porém fique aqui entre nós.
  
7Mecânica disciplina
vem a impor por derradeiro
o confessor marceneiro
ao pecador carapina:
e como qualquer se inclina
a furtar, e mais furtar,
se conjura a escavacar
as bolsas um par de enxós:
porém fique aqui entre nós.
  
8O tal confessor me abisma,
que releve, e não se ofenda,
que um Frade Sagrado venda
o sagrado óleo da crisma:
por dinheiro a gente crisma,
não por cera, havendo queixa,
que nem a da orelha deixa,
onde crismando a mão pôs:
porém fique aqui entre nós.
  
9Que em toda a Franciscania
não achasse um mau Ladrão,
quem lhe ouvisse a confissão,
mais que um padre da panhia!
nisto, amigo, há simpatia,
e é, porque lhe veio a pêlo,
que um atando vá no orelo,
e outro enfiando no cós:
porém fique aqui entre nós.
  
10Que tanta culpa mortal
se absolva! eu perco o tino,
pois absolve um Teatino
pecados de pedra, e cal:
quem em vida monacal
quer dar à Filha um debate
condenando em dote, ou date
vem a dar-lhe o pão, e a noz;
porém fique aqui entre nós.
  
11As Freiras com santas sedes
saem condenadas em pedra,
quando o ladronaço medra
roubando pedra, e paredes:
vós, amigo, que isto vedes,
deveis a Deus graças dar
por vos fazer secular,
e não zote de albernoz:
porém fique aqui entre nós.