Eurico, o Presbítero/IV

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Eurico, o Presbítero
por Alexandre Herculano


"Onde é que se escondeu enfraquecida a antiga fortaleza?"
S. Eulógio, Memorial dos Sant., L. 3º.
Presbitério de Cartéia. À meia‑noite dos idos de dezembro da era de 748.

1

Era por uma destas noites vagarosas do inverno em que o brilho do céu sem lua é vivo e trêmulo; em que o gemer das selvas é profundo e longo; em que a soledade das praias e ribas fragosas do oceano é absoluta e tétrica.

Era a hora em que o homem está recolhido nas suas mesquinhas moradas; em que pelos cemitérios o orvalho se pendura do topo das cruzes e, sozinho, goteja das bordas das campas, em que só ele chora os mortos. As larvas da imaginação e o gear noturno afastam do campo‑santo a saudade da viúva e do órfão, a desesperação da amante o coração despedaçado do amigo. Para se consolarem, os infelizes dormiam tranqüilos nos seus leitos macios!... enquanto os ver­mes iam roendo esses cadáveres amarrados pelos grilhões da morte. Hipócritas dos afetos humanos, o sono enxugou‑lhes as lágrimas!

E depois, as lousas eram já tão frias! Nos seios do torrão úmido o sudário do cadáver tinha apodrecido com ele.

Haverá paz no túmulo? Deus sabe o destino de cada homem. Para o que aí repousa sei eu que há na terra o esquecimento!

Os mares pareciam naquela hora recordar‑se ainda do rugido harmonioso do estio, e a vaga arqueava‑se, rolava e, espreguiçando­‑se pela praia, refletia a espaços nas golfadas de escuma a luz indecisa dos céus.

E o animal que ri e chora, o rei da criação, a imagem da divin­dade, onde é que se escondera?

Tremia de frio em aposento cerrado, e sentia confrangido a brisa fresca do norte que passava nas trevas e sibilava contente nas sarças rasteiras dos maninhos desertos.

Sem dúvida, o homem é forte e a mais excelente obra da criação. Glória ao rei da natureza que tiritando geme!

Orgulho humano, qual és tu mais ‑ feroz, estúpido ou ridículo?

2

Não eram assim os godos do oeste quando, ora arrastando por terras as águias romanas, ora segurando com o seu braço de ferro o império que desabava, imperavam na Itália, nas Gálias e nas Es­panhas, moderadores e árbitros entre o Setentrião e o Meio‑dia:

Não eram assim, quando o velho Teodorico, semelhante ao urso feroz da montanha, combatia nos campos cataláunicos rodeado de três filhos, contra o terrível Átila e ganhava no seu último dia a sua última vitória:

Quando a larga e curta espada de dois gumes se convertera em foice da morte nas mãos dos godos, e diante dela retrocedia a cava­laria dos gépidas, e os esquadrões dos hunos vacilavam, dando roucos gritos de espanto e terror.

Quando as trevas eram mais cerradas e profundas viam‑se à claridade das estrelas relampaguear as armas dos hunos, volteando em redor dos seus carros, que lhes serviam de valos. Como o caçador espreita o leão tomado no fojo, os visigodos os vigiavam esperando o romper da alvorada.

Lá, o sopro gelado da noite não fazia confranger nossos avós debaixo das armaduras. Lá, a neve era um leito como outro qual­quer, e o rugir do bosque, debatendo‑se nas asas da tempestade, era uma cantilena de repouso.

O velho Teodorico caíra atravessado por uma flecha despedida pelo ostrogodo Handags, que, com os da sua tribo, combatia pelos hunos.

Os visigodos viram‑no, passaram avante e vingaram‑no. Ao pôr­‑do‑sol, gépidas, ostrogodos, ciros, burgundos, turíngios, hunos, mis­turados uns com outros, tinham mordido a terra cataláunica, e os restos da inumerável hoste de Átila, encerrados no seu acampamento fortificado, preparavam‑se para morrer; porque Teodorico jazia para sempre, e o franquisque dos visigodos era vingador e inexorável.

O romano Aécio teve, porém, piedade de Átila e disse aos filhos de Teodorico: ‑ ide‑vos, porque o império está salvo.

E Torismundo, o mais velho, perguntou a seus dois irmãos Teo­dorico e Frederico: ‑ está acaso vingado o sangue do nosso pai?

De sobejo o estava ele! Ao aparecer do dia, por quanto os olhos podiam alcançar, não se viam senão cadáveres.

E os visigodos deixaram entregues a si os romanos, que, desde então, não souberam senão fugir diante de Átila.

Quem contará, porém, as vitórias de nossos avós durante três séculos de glória? Quem poderá celebrar o esforço de Eurico, de Teudes, de Leovigildo; quem saberá todas as virtudes de Recaredo e de Vamba?

Mas, em qual coração resta hoje virtude e esforço, no vasto império de Espanha?

3

Era, pois, numa destas noites como a que desceu do céu depois do desbarato dos hunos; era numa destas noites em que a terra, envolta no seu manto de escuridade, se povoa de terrores incertos; em que o sussurro do pinhal é como um coro de finados, o despenho da torrente como um ameaçar de assassino, o grito da ave noturna como uma blasfêmia do que não crê em Deus.

Nessa noite fria e úmida, arrastado por agonia íntima, vagava eu às horas mortas pelos alcantis escalvados das ribas do mar, e enxergava ao longe o vulto negro das águas balouçando‑se no abismo que o Senhor lhes deu para perpétua morada.

Por cima da minha cabeça passava o norte agudo. Eu amo o sopro do vento, como o rugido do mar:

Porque o vento e o oceano são as duas únicas expressões sublimes do verbo de Deus, escritas na face da terra quando ainda ela se chamava caos.

Depois é que surgiu o homem e a podridão, a árvore e o verme, a bonina e o emurchecer.

E o vento e o mar viram nascer o gênero humano, crescer a selva, florescer a primavera; ‑ e passaram, e sorriram‑se.

E, depois, viram as gerações reclinadas nos campos do sepulcro, as árvores derribadas no fundo dos vales secas e carcomidas, as flores pendidas e murchas pelos raios do sol do estio; ‑ e passaram, e sorriram‑se.

Que tinham eles, de feito, com essas existências, mais passageiras e incertas que as correntezas de um e que as ondas buliçosas do outro.

4

O mundo atual nunca poderá entender plenamente o afeto que, vibrando‑me dolorosamente as fibras do coração, me arrastava para as solidões marinhas do promontório, quando os outros homens nos povoados se apinhavam à roda do lar aceso e falavam das suas mágoas infantis e dos seus contentamentos de um instante.

E que me importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra de Espanha gerações que compreendam as palavras do presbítero.

Arrastava‑me para o ermo um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamado vida, e de que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer.

Sabeis o que é esse despertar de poeta?

É o ter entrado na existência com um coração que transborda de amor sincero e puro por tudo quanto o rodeia, e ajuntaram‑se os homens e lançarem‑lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, fel e peçonha e, depois, rirem‑se dele:

É o ter dado às palavras ‑ virtude, amor pátrio e glória ‑ uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realida­de delas neste mundo, só encontrar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia:

É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o experimentar desenganar‑se, e a esperança nas coisas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tênue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.

Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam, ou uma voz de maldição desabridamente sincera para julgar as ações dos homens.

É então que para ele há unicamente uma vida real ‑ a intima; unicamente uma linguagem inteligível ‑ a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convivência não travada de perfídia ‑ a da solidão.

5

Tal era eu quando me assentei sobre as fragas; e a minha alma via passar diante de si esta geração vaidosa e má, que se crê grande e forte, porque sem horror derrama em lutas civis o sangue de seus irmãos.

E o meu espírito atirava‑se para as trevas do passado.

E o sopro rijo do norte afagava‑me a fronte requeimada pela amargura, e a memória consolava‑me das dissoluções presentes com a aspiração suave do formoso e enérgico viver de outrora.

E o meu meditar era profundo, como o céu, que se arqueia imóvel sobre nossas cabeças; como o oceano, que, firmando‑se em pé no seu leito insondável, braceja pelas baías e enseadas, tentando esboroar e desfazer os continentes.

E eu pude, enfim, chorar.

6

Que fora a vida se nela não houvera lágrimas?

O Senhor estende o seu braço pesado de maldições sobre um povo criminoso; o pai que perdoara mil vezes converte‑se em juiz inexorá­vel; mas, ainda assim, a Piedade não deixa de orar junto dos degraus do seu trono.

Porque sua irmã é a Esperança, e a Esperança nunca morre nos céus. De lá ela desce ao seio dos maus antes que sejam precitos.

E os desgraçados na sua miséria conservam sempre olhos que saibam chorar.

A dor mais tremenda do espírito quebrantam‑na e entorpecem­‑na as lágrimas.

O Sempiterno as criou quando nossa primeira mãe nos converteu em réprobos: elas servem, porventura, ainda de algum refrigério lá nas trevas exteriores, onde há o ranger dos dentes.

Meu Deus, meu Deus! ‑ Bendito seja o teu nome, porque nos deste o chorar.