Fabulas (9ª edição)/15
O Galo que Logrou a Raposa
Um velho galo matreiro, percebendo a aproximação
da raposa, empoleirou-se numa arvore. A raposa, desapontada,
murmurou consigo: “Deixe estar, seu malandro,
que já te curo!...” E em voz alta:
— Amigo, venho contar uma grande novidade: acabou-se a guerra entre os animais. Lobo e cordeiro, gavião e pinto, onça e veado, raposa e galinhas, todos os bichos andam agora aos beijos, como namorados. Desça desse poleiro e venha receber o meu abraço de paz e amor.
— Muito bem! exclamou o galo. Não imagina como tal noticia me alegra ! Que beleza vai ficar o mundo, limpo de guerras, crueldades e traições! Vou já descer para abraçar a amiga raposa, mas... como lá vêm vindo tres cachorros, acho bom espera-los, para que tambem eles tomem parte na confraternização.
Ao ouvir falar em cachorro dona Raposa não quís saber de historias, e tratou de pôr-se ao fresco, dizendo:
— Infelizmente, amigo Có-ri-có-có, tenho pressa e não posso esperar pelos amigos cães. Fica para outra vez a festa, sim? Até logo.
E raspou-se.
— Pilhei a senhora num erro! gritou Narizinho. A senhora disse: “deixe estar que já te curo!” Começou com o Você e acabou com o Tu, coisa que os gramaticos não admitem. O “te” é do “Tu” não é do “Você”...
— E como queria que eu dissesse, minha filha?
— Para estar bem com a gramatica, a senhora devia dizer: “Deixa estar que eu já te curo!”
— Muito bem. Gramaticalmente é assim, mas na pratica não é. Quando falamos naturalmente, o que nos sai da boca é ora o você, ora o tu — e as frases ficam muito mais jeitosinhas quando ha essa combinação do você e do tu. Não acha?
— Acho, sim, vóvó, e é como falo. Mas a gramatica...
— A gramatica, minha filha, é uma criada da lingua e não uma dona. O dono da lingua somos nós, o povo — e a gramatica o que tem a fazer é, humildemente, ir registrando o nosso modo de falar. Quem manda é o uso geral e não a gramatica. Se todos nós começarmos a usar o tu e o você misturados, a gramatica só tem uma coisa a fazer...
— Eu sei o que é que ela tem a fazer, vóvó! gritou Pedrinho. E’ pôr o rabo entre as pernas e murchar as orelhas... Dona Benta aprovou.
Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.
