Fausto/XIV

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                           CENA III ,CENA IV e CENA V
             * CENA III
O MESMO, e UM RAPAZOLA, simplório e acanhadíssimo.

RAPAZOLA
Eu vim há pouco tempo. Desejava
falar, podendo ser, a um grande sábio
que diz que mora aqui.

MEFISTÓFELES
Muito obrigado
por tanta cortesia. Encontra um homem
como todos os mais. Já viu a terra?

RAPAZOLA
O meu empenho todo é que me tome,
Senhor Doutor, à sua conta. Eu venho
co’as melhores tenções; dinheiro, trago
quanto me baste; e sou rapaz sadio,
bem vê. Lá a mãezinha, essa, coitada,
é que lhe custou muito eu vir-me embora.
Mas eu, sim, eu... percebe-me? trazia
na ideia outra tineta: era uma ânsia
de vir para a cidade, e aprender tudo...
como o outro que diz...

MEFISTÓFELES
Pois, meu menino,
sou por dizer-lhe que acertou co’a a porta.

RAPAZOLA (depois de ter estado a considerar mudamente no aspecto da casa; e mudando para o tom de aborrido)
Falo a verdade. Quem me dera ver
já bem longe daqui! Estas paredes,
estes tectos arcados, aborrecem-me.
Faltam-me o espaço e o ar; nem folha verde,
nem árvore descubro. Em me sentando
no banco duro de uma sala destas,
já não vejo, não oiço, e nada entendo.

MEFISTÓFELES
Tudo vai do costume. Um pequenito
recém-nascido esquiva-se da mama,
depois já busca o bico, e chuchurreia.
Aplico el cuento: as tetas da ciência
vão sabendo melhor dia a dia.

RAPAZOLA
Quem já me dera pendurado nelas!
Mas se eu não sei trepar!

MEFISTÓFELES (sentando-se doutoralmente na cadeira de Fausto, e deixando o rapaz em pé)

Vamos por partes.
Que faculdade elege?

RAPAZOLA
Eu sei! queria
tornar-me sabichão de maço e mona.
Queria compreender a natureza
e abarcar a ciência; o que se avista
na terra, e o que há no céu.

MEFISTÓFELES (que em todo o diálogo vai, de vez em quando, tabaqueando o caso, de uma grande caixa, que tirou do bolso, e pôs em cima da mesa)

E deu co’a estrada.
O tudo está em conservar o acúmen
da aplicação científica, evitando
pestes scientiæ as distracções.

RAPAZOLA
Percebo.
E essa gana trago eu. Só lembro o gosto
que eu teria, aos domingos de bom tempo,
em saltar por ’í fora.

MEFISTÓFELES
Foge a vida
more fluentis aquæ. Necessário
se faz logo com regra aproveitá-la.
Siga, amiguinho, siga o meu conselho,
que não se há-de dar mal.

(Levanta-se)

E antes de tudo
muito colegium logicum; por ele
é que um novato aprende a enfiar justinho
os pés da mente em botas à espanhola,
que assim é que é seguir, sereno e cauto,
pé ante pé, a via das ciências,
em vez de andar pulando a um lado e a outro,
qual fogo fátuo em chão de cemitério.
Depois, levam-se meses a ensinar-lhe
o que antes de ensinado é já sabido,
como o comer, como o beber, et cœtera;
Naturæ donam, sapiência infusa,
mas vulgar, mas sem brilho e sem relevo.
Acode um sábio; espostejou-se a coisa:
«Um, dois, três.» Sim senhor, é o que lhe digo.
A alma, que de ideias nos faz teias,
é como o tecelão, quando se esmera
em obra de examina: a cada piso
que ele na apianha dá, mil fios move;
voa, indo e vindo a lisa lançadeira;
no ordume a trama às cegas se entretece;
um golpe só fez tudo.
Ora o filósofo
bate a pata do espírito, e provou-nos
que o que é, devia ser; sendo o primeiro
isto, e aquilo o segundo, é consequência
ser o terceiro assim, e o quarto assado.
É corolário pois, que suprimidos
o primeiro e o segundo, era impossível
que existissem jamais terceiro e quarto
«Bela demonstração!» proclama à uma
a escola toda... mas nem meio ouvinte
nos saiu tecelão.
Pretende um sábio
conhecer e pintar qualquer vivente:
lança-lhe a garra e avia-o. Tem sem dúvida
todas as partes dele. O que lhe falta?
Unicamente o seu vivaz liame:
Encheiresin naturæ o chama a química.
Zomba de si, sem perceber que zomba.

RAPAZOLA
A modo que não pesco.

MEFISTÓFELES
Em pouco tempo
há-de entender melhor, quando já saiba
reduzir e classar.

RAPAZOLA
Faz-me tudo isto
confusão tal, que sinto, me parece,
galgas de azenha a andar-me no miolo.

MEFISTÓFELES
Logo depois, tratar da metafísica.
Com ela buscará sondar a fundo
o que no humano cérebro não cabe;
mas ou lá caiba ou não, nunca nos falta
para uma pressa um termo altissonante.
Agora, estes seis meses mais chegados,
há-de ir empregando em costumar-se
a ser em tudo tudo arranjinho.
Cada dia cinco horas para a aula,
entrando sempre ao toque da sineta;
a lição bem de cor, trinchada em párrafos.
Disto saca um proveito: é ficar certo
de que o seu mestre não falseia o livro,
nem lhe acrescenta um jota. Não obstante,
desunhe-se a escrever na caderneta
quanto ele proferir como ditado
pelo Espírito Santo.

RAPAZOLA
Entendo à légua;
e é muito bom conselho. Uma pessoa,
levando para casa a coisa escrita,
vai até mais segura e mais contente.

MEFISTÓFELES (tornando a sentar-se)
Mas torno a perguntar; que ciência elege?

RAPAZOLA (depois de ter estado a cuidar entre si)
Lá da jurisprudência Deus me livre.

MEFISTÓFELES
E acho que tem razão. Não sei que exista
faculdade mais chocha. Herdam-se e testam-se
leis e direitos, tais e quais se coam
de bisavós a avós, de pais a filhos
o sangue eivado, a tísica, as alporcas.
Não há mudar, não há progresso: aviso
chama-se parvulez; o benefício
degenera em trabalho. És descendente
de Fuão? mal por ti: do teu direito
real e inato, é que o Pretor não cura.

RAPAZOLA
O teiró que eu já tinha a tal ciência
tresdobrou desta feita.

(À parte)

Isto é que é mestre.
Que achadão! que fortuna!

(Alto)

E a teologia?
Talvez que...

MEFISTÓFELES
De enganá-lo é que eu não gosto.
Na teologia há mil caminhos falsos
difíceis de evitar; há mil peçonhas
tão ruins, que estremá-las de remédios
é quantas vezes foro de impossíveis.
Também nesta ciência, o mais seguro
é não pensar por si, mas jurar sempre
na palavra do mestre. Em suma, os textos
boias são que, em se a elas aferrando,
nunca um bom nadador se vai ao fundo.

RAPAZOLA
Mas as palavras devem ter sentido.

MEFISTÓFELES
Deverão, deverão; mas não é caso
para tanto ralar, porque onde falta
ideia que se intenda, acode um texto
que vem de molde, e calafeta o rombo.
O palavrório é tudo. Com palavras
se esgrime, contra ou pró, nas magnas teses.
Com palavras arranja-se um sistema.
As palavras tem fé. De uma palavra
não se cerceia um til.


RAPAZOLA
Eu bem conheço
que tanto perguntar é de importuno;
mas gostava de ouvir-lhe um poucochinho
sobre a ciência médica.

MEFISTÓFELES
Esse estudo
leva três anos só; que são três anos
para um campo tão vasto? em se apontando
a boca de um caminho, é como um gamo:
correr e mais correr.

(À parte)

Leva de embófias!
Vou falar chão, como a diabo cumpre.

(Alto)

O essencial da medicina é fácil.
Lê por dentro e por fora o mundo e o homem,
e afinal vê sair-lhe cada coisa
conforme aprouve a Deus. Esbaforis-vos
num corropio à roda da ciência,
e cada qual por fim... pilha o que pilha.
Saber aproveitar as circunstâncias
é que cifra o saber. Pois bem! Figura
não lhe falta, e suponho-lhe ousadia.
Que mais quer? fie em si; verá se os outros
se não fiam também.
Co’o mulherio
é que mais se precisa habilidade.
Os seus ai-ais e ui-uis, perene tema
de eternas variações, curam-se todos
co’a mesmíssima droga. Ao que bem sabe
ser magano à socapa, inda a primeira
há-de vir que resista; é que um sujeito
com Carta de Doutor merece crédito,
e a arte que ele pratica excede a todas.
Anos empata um suplicante avulso
em vencer nicas; um Doutor fez tudo
no primeiro rompante: pede o pulso,
dão-lho logo; tacteia-o brandamente,
regala-se a estudá-lo, e vai no entanto
co’o meigo olhar incendiando a linda;
depois, sem má tenção, sem falsos pejos
apalpa-lhe a cintura, a ver não traga
demasiado aperto no espartilho.

RAPAZOLA (pulando de contente, e esfregando as mãos)
Por aí! por aí! Dessa maneira
vê-se o que há e não há.

MEFISTÓFELES
Meu caro amigo,
toda a teoria é névoas; auriverde
só a árvore da vida.

RAPAZOLA
À fé que ouvi-lo
é para mim como um sonhar delícias.
Se me desse licença, ateimaria
em causticá-lo, até roçar no fundo
poço tal de saber.

MEFISTÓFELES
Vá, não se acanhe;
até onde eu chegar...

RAPAZOLA
Eu desejava,
antes de me ir embora, merecer-lhe
a honra de escrever neste meu álbum.

(Entrega o álbum a Mefistófeles, o qual depois de escrever nele, o restitui ao dono. Este recebe-o mui respeitosamente, e lê estas palavras.)

«Eritis sicut Deus, scientes bonum et malum.»

(O rapaz fecha o livro com grande reverência, e retira-se às cortesias, até sair pela porta do fundo.)
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                       * CENA IV

MEFISTÓFELES (só)
Adopta o parecer da minha tia cobra!
Um dia no pavor com que o ânimo soçobra
lá reconhecerás, passando a ser dos meus,
se há ou se houve jamais um ente igual a Deus.
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                      * CENA V

O MESMO, e FAUSTO, que volta do corredor, já entrajado à fidalga, como Mefistófeles, mas ainda de barbas compridas

FAUSTO
Onde iremos?

MEFISTÓFELES
Escolha! Acho que poderemos
correr da sociedade os dois confins extremos,
começando na plebe, e indo do baixo ao sumo.
Que instrução! que recreio há-de encontrar, presumo,
nesta desfrutação!

FAUSTO
Com barbas tão compridas,
índole assim montês, maneiras encolhidas,
que vou eu lá tentar? Sou feito deste modo.
Detesto o conviver. Não sei, não me acomodo,
co’o bulício mundano. Onde se encontra gente,
fico como um pigmeu tolhido inteiramente.

MEFISTÓFELES
Isso, amigo, mau é; mas não há mal sem cura.
Anime-se e verá...
Mas que olha? que procura?

FAUSTO
Como havemos nós de ir? Cavalos, trens, criados...
onde estão?

MEFISTÓFELES
Nunca eu tivesse outros cuidados!
Estende-se este manto, embarca-se a seu bordo,
e despede-se o voo.

FAUSTO
Isso é melhor, concordo.

MEFISTÓFELES
De certo. Saiba mais que para tal viagem
bom será não levar grande matalotagem.
Enquanto fecho um olho, apronto o gás que deve
levantar-nos da terra. Assim, quanto mais leve
for a carga, melhor. Que rapidez! Aceite
já os meus parabéns, à conta do deleite
que tem de lhe excitar na mente comovida
o ver entrado-a nova e prodigiosa vida,

(Durante esta fala, tem Mefistófeles ido estendendo no chão a capa; e quando se está colocando sobre ela, cai o pano.)