Fausto/XLVI

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CENA II

MEFISTÓFELES, de guitarra às costas, e FAUSTO, descendo para a boca do teatro, observados por VALENTIM, recolhido ao portal de Marta.

FAUSTO
Arde a perene alâmpada do templo.
Repara na alta fresta!

(Apontando para uma das janelas cimeiras da Igreja)

O lume santo
circunfunde-se em luz, que a pouco e pouco
vai de círculo em círculo caindo
até penumbra, e da penumbra em trevas:
imagem deste amor na escuridade.

MEFISTÓFELES
Entendo, e até já estou com farnicoques
como os do meu Doutor. Não nos comparo
co’a lâmpada da Igreja. Só me lembra
um bichano em janeiro, quando sobe,
a arrulhar e a esfregar-se, ao paraíso
do telhado, onde a bela o está chamando.
A gente como nós ama a virtude;
mas, uma vez por outra, lá se alembra
de cobiçar o alheio, e andar à tuna.
Eu só de pôr na ideia o regabofe,
que em Valburga vou ter co’o femeaço
já depois de amanhã, não tenho fibra
que não me ande a bailar dentro no corpo.
Quem perde assim a noite é quem na ganha.

FAUSTO
Vamos nós: o tesoiro soterrado
que me fizeste ver, e que inda aos olhos
me está brilhando, entregas-mo, ou que fazes?

MEFISTÓFELES
Pode desenterrar, se o leva em gosto,
por suas próprias mãos. Que panelada
de boas peças de oiro! Eu, que lho digo,
é que já noutro dia as vi com estes,
e estive-as namorando.

FAUSTO
Não me arranjas,
ademais disso, algum condigno adorno
com que eu possa arraiar a minha amante?

MEFISTÓFELES
Ah! lembrou bem! A modo que entre as loiras
enxerguei... não sei quê... de aneis, de brincos...
Nada; um colar de pérolas.

FAUSTO
Aprovo.
Quando a vou procurar co’as mãos vazias,
vexo-me.

MEFISTÓFELES
O desfrutar gratuito às vezes
também tem seu lugar.
Noite de estrelas
como esta, meu Doutor, pede um descante.
Vamos-lho dar por baixo da janela.

FAUSTO
A do seu quarto é essa, onde estão vasos,

MEFISTÓFELES
Se ainda não dorme, escutará gostosa.
São trovas de mão cheia, e sobretudo
muito morais. Assim é que as eu logro.

(Canta, acompanhando-se com a guitarra)

Que fazes, por vida minha,
à porta do namorado,
quando inda não é sol-nado,
Catarininha?
Ai, levianita, cautela,
cautela com essa entrada!
Vais donzela; mas, coitada,
sairás donzela?
Florinha, esquiva-te à aragem,
por mais que amor te prometa
que, em fugindo a borboleta,
boa viagem!
Com ave que não tem medo
bem vai ao passarinheiro.
Catarininha! primeiro,
o anel no dedo!

VALENTIM (adiantando-se furioso)
A quem vai o descante, alma danada?
Leva-te a breca a banza, e a ti com ela.

(Arranca-lhe o instrumento e quebra-o.)

MEFISTÓFELES
Escangalhou-ma, que não tem concerto.

VALENTIM (desembainhando a espada e arremetendo com Fausto)
E agora essa caveira!

MEFISTÓFELES (à parte para Fausto, e dirigindo-lhe o braço)
Alma! Não ceda,
Senhor Doutor! Cosa-se bem comigo,
que eu lhe tenteio o jogo. Ande com ele
Esgrima-me o chanfalho! Afronte os botes,
que eu lhos aparo.

VALENTIM
Apara-me este.

MEFISTÓFELES
E aparo.

VALENTIM
Mais este.

MEFISTÓFELES
Pronto.

VALENTIM
Brigo co’o diabo.
Deu-me estupor no pulso.

MEFISTÓFELES
Ande-me, acabe-o!

VALENTIM (que, varado de uma estocada de Fausto, vai estrebuchando até cair sentado no degrau da porta de Margarida, e encostado à ombreira.)
Ai!

MEFISTÓFELES
Já está manso o bruto. Agora ao fresco!

(Ouve-se vozear e abrir janelas, em várias casas da rua; depois principiam a sair das portas os moradores com luzes)

Já anda alvoratada a vizinhança.
Fugir, que vem gentio. Eu da polícia
sei muito bem safar-me; agora em coisa
de foro crime, até o demo esbarra.

(Vão-se.)