Fausto/XXVI

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa


                             CENA III

FAUSTO (só)

(Lançando os olhos à roda de si)

Clarão crepuscular, bem-vindo ao céu deste anjo!
Descei-me ao coração, mágoas de amor mimosas,
que a esp’rança alimentais como o rocio às rosas.
Ave do paraíso, em teu cerrado ninho
não vejo senão paz, contentamento, alinho.
Oh! que rica pobreza, oh! que prisão risonha!

(Dá consigo para cima da poltrona de coiro, que está ao pé da cama. Fala com a poltrona.)

Permite que um estranho o peso em ti deponha
da ventura que o enche e o assoberba. Amigo,
que em teus braços fieis, desde o bom tempo antigo,
constante hás acolhido os gostos e os pesares
de cada possessor destes quietos lares;
hereditário trono, enquanto aqui repousas,
que de ranchos pueris, volúveis mariposas
te haverão rodeado a rir de idade a idade!
Aqui, a que hoje admiro esplêndida beldade,
viria em pequenina, afável, jubilosa,
em noite de Natal beijar a mão rugosa
do avô, e agradecer-lhe os bolos de regalo
com que ele a alvoroçava ao descantar do galo.
Ai, virgem graciosa, aqui neste recinto
como que andar-me em torno a ciciar pressinto
essa alma arranjadeira, amena, dadivosa,
que te inspira qual mãe, te ensina cuidadosa
a pôr na limpa mesa o seu pano asseado,
e a realçar com a areia o solho escasqueado.
Cara mão divinal,
fazes de uma choupana um Éden terreal.

(Levanta-se, e corre a cortina do leito)

E aqui! aqui! Não sei de que ávida tremura
padeço e gozo o assalto. Ai, sonhos de ventura,
durai-me, se podeis, por horas esquecidas.
Foi aqui, puro amor, que uniste duas vidas
num êxtase dos teus, e à terra a glória deste
de obter, fruto de um beijo, um serafim celeste.
Aqui jazeu criança, arfando o terno seio
de vivaz sangue ardente e de porvir tão cheio,
e aqui foi pouco a pouco enfim, toda pureza,
unindo em si os dons da perenal beleza,

(Fala indignado consigo mesmo)

A que vieste aqui? Todo eu sou comoção.
Que intentas? Que pesar te oprime o coração?
Já não és, pobre Fausto, o mesmo que eras dantes.

.................................

Terá magia este ar? Eu, que inda há dois instantes
aos deleites carnais voava audaz, faminto,
como é que num relance enternecer-me sinto?
Somos acaso nós e os nossos sentimentos
um vil joguete do ar, qual chama exposta aos ventos?

.................................

Mas se ela agora entrasse! Ideia qual seria
a justa punição de tanta aleivosia!
Cair-lhe-ias aos pés, convulso, fulminado,
bravo Dom João Tenório em Jan Ninguém tornado!