Fausto/XXVIII

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                                    CENA V

MARGARIDA, (trazendo na mão uma lanterna, que põe em cima da mesa)
Ai que ar abafadiço o deste quarto agora!

(Abre a janela)

Mas corre bem fresquinha a noite lá por fora.
Sinto-me não sei como; estou co’uns arrepios!...
Tomara eu já que a mãe... (Credo! olha o mocho aos pios)
tornasse para casa. É celebre! Esta noite
chego a não me entender; preciso quem me afoite.

(Começa a despir-se cantando)

Reinava em Tule algum dia
um bom Rei tão fino amante,
que até morrer foi constante
à dama com quem vivia.

À hora do passamento
deixou-lhe ela um vaso d’oiro,
que foi do Real tesoiro
o mais falado ornamento.

Punham-lho sempre na mesa;
só por aquele bebia;
e o choro que então vertia
causava a todo tristeza.

Vendo o seu termo chegado,
repartiu pelos herdeiros
os bens, té aos derradeiros,
excepto o vaso adorado.

Foi isto em jantar de mágoas
que El-Rei deu à fidalguia,
em torre herdada que havia
ao rés das marinhas águas.

Como El-Rei houve bebido
o seu último conforto,
co’o braço já quase morto
levanta o vaso querido,

e por não deixá-lo ao mundo,
da janela ao mar o atira.
Ondeia o vaso, revira,
enche-se, e desce ao profundo.

No mesmo triste momento
em que o vaso se abismava,
o Rei seus olhos cerrava,
soltando o último alento.

(Abre o armário para arrumar os vestidos, e dá com os olhos no cofre)

Quem poria isto aqui! Meu Deus, eu sei de certo
que não deixei ficar o guarda-fato aberto.
Parece até milagre. É lindo o cofrezinho.
Que haverá dentro nele?... Ah!... cuido que adivinho;
é coisa de penhor que algum necessitado
traria a minha mãe. Tem um fitilho atado,
e presa uma chavinha... Abro ou não abro?... Adeus!
O ver não é furtar. Que escrúpulos os meus!

(Traz o cofre para cima da mesa e abre-o)

Que é isto, Pai do céu! Nunca em dias de vida
vi jamais coisa assim, tão linda, tão luzida.
E adereço completo! A mais rica senhora
com isto num domingo, em festa grande, fora
levar atrás de si o olhar de toda a gente.
Que bem que este colar aqui

(indicando a garganta)

tão refulgente
me havia de ficar! A quem pertenceria
tão vistoso tesoiro!

(Enfeita-se com as jóias, e mira-se ao espelho)

Eu nada mais queria
que estes brincos. A gente, assim paramentada,
té nem parece a mesma. A moça e linda agrada,
é bem certo; contudo os próprios que a elogiam
não se matam por ela: apenas principiam
a lembrar-se que é pobre, os gabos da lindeza
já vão juntos co’o dó. Coitada da pobreza!!