Fausto/XXXIII

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                         CENA III
MEFISTÓFELES, e as ditas

MEFISTÓFELES
Co’o respeito a damas tais devido
peço humilde perdão desta importunidade.

(Inclina-se respeitosamente diante de Margarida.)

Saber-me-iam dizer onde é, nesta cidade
que assiste, e daqui perto, uma senhora Marta,
mulher de um Espadinha?

MARTA
A própria. Se traz carta
do meu homem, sou eu.

MEFISTÓFELES (baixo a Marta)
Bem. Visto achar-se agora
aqui esta fidalga, à tarde a qualquer hora
eu voltarei.

MARTA (em voz alta)
Não vês, Menina, as honrarias,
que deves ao Senhor? «Fidalga!» Não sabias.

MARGARIDA
Não passo, meu senhor, de uma pobre de Cristo.
Isso é bondade sua! Eu fidalga? Por isto?

(Apontando para os adereços)

Mas nada disto é meu.

MEFISTÓFELES
Que importa? que valia
tem junto a graças tais o oiro e a pedraria?
Pois esse olhar tão nobre! e a senhoril presença!
o tudo que a distingue... Encanta-me a licença
de poder demorar-me.

MARTA
Então que novidade
me traz? mate depressa esta curiosidade!

MEFISTÓFELES
Quisera-lhe trazer melhores novidades.
O seu homem morreu, e manda-lhe saudades.

MARTA
Morreu! Bem mo dizia o coração. Morreu
o meu homem! Jesus, que desamparo o meu!
Vou ter um faniquito.

MARGARIDA (a Marta)
Anime-se, vizinha!
Conforme-se!

MEFISTÓFELES
Já agora, a senhora Espadinha
há-de ouvir toda a história.

MARGARIDA
Aí tem porque eu nem quero
ouvir falar de amor; um golpe assim tão fero
dava-me logo a morte.

MEFISTÓFELES
É mundo: às alegrias
juntam-se as aflições, e o gosto às agonias.

MARTA
E o seu fim como foi?


MEFISTÓFELES
Jaz em Pádua enterrado
ao pé de Santo António; um sítio abençoado;
cama fresquinha e eterna.

MARTA
E vamos: além disso
que mais me traz?

MEFISTÓFELES
Mais nada... Ah, sim; pede um serviço
custoso, mas enfim muitíssimo preciso;
que lhe mande dizer pela alma, e de improviso,
trezentas missas. Nada e nada mais. Tão pobre
morreu, que não deixou nem meio chavo em cobre.

MARTA
O quê! pois nada nada! inteiramente nada!
Pois nem uma prendinha! Até um jornaleiro
tem sempre no bornal coisa que val dinheiro,
e não se desfaz dela, inda que peça esmola
para matar a fome.

MEFISTÓFELES
É certo; desconsola
ouvir tamanha míngua; o que eu porém lhe atesto
é que, se consumiu até o último resto,
não foi por perdulário; e fique persuadida
que se arrependeu muito, ao despedir da vida.
Fazia uns escarcéus sobre a sua desgraça,
que abria os corações.

MARTA
Que desditosa raça
não deixou a mãe Eva! O que eu prometo, amiga,
é rezar-lhe por alma.

MEFISTÓFELES (a Margarida)
Eu, deixe que lho diga,
acho que uma gentil de tanta formosura
devia já pôr casa.

MARGARIDA
Inda não há marido.

MEFISTÓFELES
Mas pode haver amante. O moço mais garrido,
mais amável, mais bom, dar-se-ia por ditoso
se chegasse a abraçar corpinho tão mimoso.

MARGARIDA
Isso cá não é uso.

MEFISTÓFELES
Uso ou não uso, queira
e arranja-se.

MARTA (a Mefistófeles)
Que mais? Porque me não inteira
de tudo, já que o sabe?

MEFISTÓFELES
Ai, sei; pois se eu me achava
em pé, junto da cama onde ele agonizava!
(No chamar cama àquilo, amoldo-me ao costume;
era um retraço podre, até pior que estrume.)
Porém lá que morreu morte cristã, morreu;
pensando mesmo assim que o grande rol que encheu
de pecados por cá talvez no grande dia
à entrada para o céu muito o atrapalharia.
«- Hoje me quero mal - dizia - pela asneira
de ter desamparado a minha companheira
e o meu riquinho ofício. É esta uma lembrança,
que dá cabo de mim. Vá; veja-me se a amansa,
para que me perdoe.»

MARTA (interrompe-o, chorando)
Há muito, coitadinho,
que eu, já lhe perdoei.

MEFISTÓFELES (continuando a frase)
«Mas se eu lhe fui daninho,
Nosso Senhor bem sabe o que ela também era.»

MARTA
Mente, mente. Olha aquilo! A Morte ali à espera
e ele ainda a mentir!

MEFISTÓFELES
Oiço que na agonia
muita gente de tino às vezes tresvaria
(que eu disso entendo pouco). E prosseguiu choroso:
- «Toda a vida a lidar sem hora de repouso,
e vir a parar nisto! Eu a engendrar-lhe filhos
por lhe dar gosto a ela! Entre esses empecilhos,
eu a arranjar-lhe o pão... o pão, à própria o digo,
pão negro sem conduto; eu, cruzes, inimigo!
rilhando o meu motreco, às vezes sem sossego...»

MARTA (interrompendo)
E nada de falar do meu desassossego,
da honra da mulher, do amor que ela lhe tinha!

MEFISTÓFELES
Ai! falava; pois não? Da senhora Espadinha
nunca se deslembrou. - «Quando saí de Malta
- tartameleava-me ele - há-de crer que me assalta
uma saudade tal dela e dos pequerruchos,
que não só desatei dos olhos dois repuxos,
senão que até rezei com entranhada gana
por toda aquela súcia! O céu, que não se engana,
pagou-me a devoção. Permitiu Deus aos nossos
prear uma galé de mercadores grossos,
todos relé turquesca, a qual galé levava
de mimo ao Grão Senhor, além de muita escrava
de rara formosura, uma carga, um tesoiro
de armas, de gorgorões, de pérolas, e de oiro.
Lançada ao mar primeiro a moirisma vencida,
o nosso capitão, da carga ali colhida
talhou logo quinhões, que deu proporcionados
aos que na sarrafusca andaram mais ousados,
proclamando: - O Espadinha é que foi o primeiro!

(era um pirata honrado, e amigo verdadeiro).» -

MARTA (interrompendo)
Espere! mas então... esse lote de vulto
havia de ficar nalguma parte oculto.


MEFISTÓFELES
Pois não? procure bem; nem rasto. Se avarentos
enterram, este cá foi por ares e ventos.
Em Nápoles, um dia, andando seu marido,
como estrangeiro que era, a correr divertido
as ruas da cidade, adergou que uma bela
o pescasse ao anzol de cima da janela;
e tanto gostou dele (era um ricaço ainda),
tais provas lhe embutiu a pescadora linda
do seu íntimo ardor, que as teve, até o instante
do trânsito feliz, a recordar-lhe a amante.

MARTA
Ladrão dos filhos! traste! A gente cá ralada,
e ele às soltas por lá naquela vida airada!

MEFISTÓFELES
Aí tem; por isso jaz debaixo dos torrões.
Eu, se fosse a senhora, atirava paixões
p’ra trás das costas; punha um lutozinho d’ano,
por decência, e entretanto ia-me piano piano
buscando outra fortuna.

MARTA
Outro como o primeiro!
Nem correndo co’um prego aceso o mundo inteiro
não o torno eu achar. Gaiato mais amável!
O que ele tinha só de menos convinhável
era o nunca parar; fazer seu pé d’alferes
à solteira, à casada, a todas as mulheres;
gostar dos vinhos bons das terras lá de fora,
e do maldito jogo...

MEFISTÓFELES
E mesmo assim deplora
não no ter; vamos lá. Falando sem disfarce:
ou ambos ou nenhum tem causa de queixar-se.
Ele fez-lhe o que pôde; a senhora igualmente
fez-lhe o que pôde a ele; a conta está corrente.
Com semelhante ajuste, eu próprio aceitaria
matrimoniar-me já.

MARTA
Quem? O senhor! Não ria.

MEFISTÓFELES (lá de si para si)
Ai! fujo. Esta é capaz de obrigar o demónio
a restaurar com ela o santo matrimonio.

(A Margarida)

E a menina! Que diz esse coraçãozinho?

MARGARIDA
Sobre quê? não percebo.

MEFISTÓFELES (à parte)
Imaculado arminho!

(Despedindo-se)

Minhas senhoras!

MARTA
Sai?

MARGARIDA (cumprimentando)
Meu senhor!

MARTA
Um momento,
nada mais. Poderia obter-me um documento
do quando, como, e onde, o meu consorte amado
faleceu, e onde jaz? Fui sempre, Deus louvado,
muito amiga do arranjo. Até cá no Diário
muito estimava eu ler entre o noticiário
a morte do meu tudo.

MEFISTÓFELES
Esteja descansada;
isso há-de-se arranjar, e sem lhe custar nada.
Em qualquer terra, havendo um par de testemunhas
fidedignas (e embora a gente lhe unte a unhas)
prova-se logo tudo. Em minha companhia
veio outro figurão que muito o conhecia.
Vai comigo ao juiz, depõe... Se determina
que o traga também cá...

MARTA
Pois não!

MEFISTÓFELES
E esta menina
também cá se há-de achar; não há-de? É um moço belo,
tem visto muito mundo, e não no há mais modelo
em pontos da galã.

MARGARIDA
Jesus! Um tal senhor
ver-me a mim... que vergonha!

MEFISTÓFELES
Um Rei, e Imperador
do mundo que ele fosse, afoita deveria
olhá-lo sem corar.

MARTA
Ao despedir do dia,
no quintal junto à casa, há-de ela estar comigo
à espera do senhor e do seu nobre amigo.