Fui hoje ao campo da Palma

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Mulata livre e travessa por cuja esperteza lhe chamavam Maribonda. Morava na Ruda da Poeyra naquelle tempo quasi deserta e se achava de presente em casa de huma amiga no Campo da Palma, onde o poeta hia divertir-se: e ali embaraçou com ella, como diz a methafora.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaA Cidade e seus PícarosAntônia

 
1Fui hoje ao campo da Palma,
onde com súbito estrondo
me investiu um maribondo,
que me picou dentro n'alma:
era já passada a calma,
e eu me sentia encalmado,
sentido, e injuriado,
porque sendo obrigação
meter-lhe eu o meu ferrão,
eu fui, o que vim picado.

2Fiz por fechá-lo na mão,
mas o Maribondo azedo
me picava em qualquer dedo,
e escapava por então:
desesperada função
foi esta, pods me foi pondo
tão abolhado em redondo
por cara, peitos, vazios,
que estou em febres, e frios
morrendo do Maribondo.

3Dizem, que a vingança está
em lhe saber eu da casa,
porque deixando-lhe em brasa,
o fogo mitigará:
temo que não arderá
por mais que toda uma mata
lhe aplique com mão ingrata,
porque eu, o que lhe hei de pôr
há de ser fogo de amor,
que inda que abrasa não mata.

4Nesta aflição tão penosa
donde me virá socorro?
morrerei, que o por que morro,
faz uma morte formosa:
esta dor tão temerosa
me livrará de maneira,
que ou ela queira, ou não queira,
em chegando à sua rua,
se acaso se mostrar crua,
tudo irá numa poeira.