Futuros Imaginários/Capítulo 7
7
A ESQUERDA DA GUERRA FRIA
OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO como extensões do homem foi uma publicação de sucesso construída sobre um paradoxo. Um professor de literatura inglesa escreveu um livro que virou um campeão de vendas porque falava aos seus leitores que eles deveriam assistir televisão ao invés de ler livros. Ironicamente, McLuhan precisava da palavra impressa para se tornar o profeta da morte iminente da cultura impressa. Escrever um livro importante ainda era pré-requisito para se tornar um proeminente intelectual. O valor do pensador era medido pela qualidade do texto. Durante o século XX, o papel icônico do livro dentro da vida intelectual foi reforçado pelo crescimento da mídia de massa. A própria carreira de McLuhan demonstrava como jornais, revistas, estações de rádio e canais de televisão estavam ansiosos para disseminar novas idéias saídas das universidades para o público em geral e — como em seu caso — transformar alguns acadêmicos em celebridades. Ao contrário das premissas do mcluhanismo, um livro famoso permaneceu como significante do intelectual influente na era da mídia eletrônica.
No início dos anos 1960, McLuhan alcançou um grau de reconhecimento público maior do que quase todos os outros acadêmicos dentro da esfera de influência estadunidense. Os meios de comunicação como extensões do homem foi um dos raros livros que passou do especializado mercado universitário para a lista dos mais vendidos. Fundamentalmente, sua popularidade mundial não era o resultado de uma moda passageira. Como Tom Wolfe rapidamente compreendeu, os escritos de McLuhan providenciaram a fonte teórica para a construção da nova ideologia do mcluhanismo. Removidas as ambigüidades e qualificações de Os meios de comunicação como extensões do homem, sua análise poderia ser reinterpretada como uma celebração entusiástica do futuro imaginário da sociedade da informação. E melhor de tudo, essa profecia identificava os Estados Unidos como o protótipo da emergente aldeia global. Na metade dos anos 1960, o mcluhanismo era o último modelo do novo estilo de ideologias especialmente desenvolvidas para o conflito da Guerra Fria. Já que as duas superpotências não desejavam destruir-se com armas nucleares, o confronto militar entre elas no continente europeu foi altamente simbólico. Por mais que fosse vendida como o confronto contra um inimigo externo, a Guerra Fria foi — primeira e principalmente — voltada a oponentes internos. Ambos os lados necessitavam do perigo do ataque de seu rival como justificativa para impor disciplina não só em casa, mas também dentro de suas esferas de influência.
Com a eclosão da Guerra Fria em 1948, o líder da oposição Republicana na legislatura suplicou ao presidente dos Estados Unidos Harry Truman que "desse um susto dos infernos em todo o povo estadunidense", com fantasias chocantes sobre totalitários russos sem compaixão que planejavam dominar o mundo.[1] A admiração pela vitória do Exército Vermelho contra a Alemanha nazista teve que ser rapidamente substituída pelo medo da "ameaça vermelha" que dominava a civilização ocidental. Nos anos 1950, “julgamentos-espetáculo" de espiões russos, humilhações públicas de dissidentes da Esquerda, limpezas políticas de instituições do estado, treinos de defesa civil e juramentos de fidelidade foram usados para aterrorizar a população dos Estados Unidos junto à nova ortodoxia ideológica.[2] De filmes de ficção científica sobre invasões alienígenas a seriados de TV com agentes secretos como heróis, a cultura popular estadunidense foi dominada pelo imaginário da mitologia da Guerra Fria.[3] Em uma democracia eleitoral como os Estados Unidos, a fixação de paranóia e patriotismo era o método mais eficaz de conseguir o consentimento de muitos para a hegemonia de poucos. Mais de quatro séculos antes, sob o disfarce de conselheiro de um cortesão do "príncipe" que desejava reinar sobre a Itália renascentista, Nicolau Maquiavel expôs o raciocínio cínico atrás dessa forma de política manipuladora:
Todos concordam que é muito louvável um príncipe respeitar a sua palavra e viver com integridade, sem astúcias nem embustes. Contudo, a experiência do nosso tempo mostra-nos que se tornaram grandes príncipes alguns que não deram muita importância à fé dada e que souberam cativar, pela manha, o espírito dos homens e, no fim, ultrapassar aqueles que se basearam na lealdade.[4]
Durante a crise econômica dos anos 1930, um levante de sindicatos radicais e confrontamentos políticos contestaram a ordem social nos Estados Unidos. Contudo, ao contrário de seus camaradas europeus, militantes da classe trabalhadora estadunidense nunca conseguiram estabelecer seu próprio e independente partido político de massa.[3] Essa falha em escapar do gueto sectário teve conseqüências desastrosas nos anos 1950. Uma vez que a Guerra Fria estava em andamento, tornou-se cada vez mais difícil defender qualquer forma de socialismo nos Estados Unidos. Já marginalizada, a Esquerda estadunidense estava agora manchada pelas suas afinidades ideológicas com o inimigo estrangeiro. Nos anos 1920 e 1930, radicais estadunidenses — como seus camaradas europeus e asiáticos — argumentaram apaixonadamente sobre as implicações políticas da Revolução Russa de 1917 e as máximas teóricas de seu carismático líder, Vladimir Lênin. Agarrados à posição ortodoxa, social-democratas acreditavam que o novo regime traía os princípios marxistas por abolir a democracia parlamentar e banir sindicatos independentes.[6] Em oposição, ao adotar a nova linha vinda de Moscou, leninistas declaravam que a ditadura revolucionária modernizava um país atrasado baseado nos interesses das massas. Acima de tudo, eles também estavam convencidos de que esse modelo russo de ativismo político tinha um significado universal. Enquanto os social-democratas buscavam criar uma organização de associação de massas para concorrer às eleições, os leninistas viram sua tarefa primordial na construção de um grupo pequeno e disciplinado de revolucionários profissionais: o partido da vanguarda.[7]
Como contestação à interpretação ortodoxa do marxismo, essa elite revolucionária se autoproclamava visionária do futuro pós-capitalista. Ao se tornarem Comunistas com C maiúsculo, o partido da vanguarda marcava sua tentativa de monopolizar a liderança das lutas dos trabalhadores pelo comunismo com c minúsculo. Em 1924, a morte de Lênin rapidamente levou seus seguidores a amargas divisões. Como a fábrica fordista, o Partido Comunista precisava de um diretor autocrático na gerência para decidir quem fazia o quê. Durante o final dos anos 1920, o conflito entre Joseph Stalin e Leon Trotsky para suceder Lênin como o mandante absoluto da Rússia foi expressado por uma disputa teórica entre definições concorrentes da versão leninista do marxismo. Forçados a tomar lados nessa disputa, membros do Partido Comunista estadunidense — tal como seus colegas na Europa e na Ásia — em breve se dividiram entre facções rivais de stalinistas e trotskistas. Enquanto ambos os lados se identificavam com a Revolução de 1917, eles discordavam energicamente sobre o legítimo herdeiro do legado revolucionário de Lênin: o regime de Stalin ou o exilado Trotsky. No início da Segunda Guerra Mundial, a Esquerda dos Estados Unidos estava dividida a respeito do significado do socialismo. Diferenças entre social-democratas, stalinistas e trotskistas foram simbolizadas por interpretações incompatíveis do mesmo ideal político.[8]
Na Europa Ocidental, essas disputas ideológicas se davam dentro de grandes e poderosos movimentos trabalhistas. Nenhum grupo poderia monopolizar a análise teórica da Esquerda. Socialismo nem sempre significou stalinismo, e alguns comunistas eram fervorosos anti-stalinistas. A Esquerda estadunidense, ao contrário, era muito fraca para conseguir manter a sua própria integridade ideológica.[9] Como social-democratas e trotskistas tinham pouca influência política nos Estados Unidos, a elite desse país não via problemas em adotar a terminologia do seu inimigo da Guerra Fria. Socialismo era sinônimo de stalinismo e todos os comunistas eram stalinistas. No início da década de 1950, a Esquerda estadunidense encontrou- se despossuída ideologicamente. Se o totalitarismo russo era a única forma de socialismo, era quase impossível defender qualquer alternativa radical ao capitalismo nos Estados Unidos. Ainda pior, a linguagem política da Esquerda foi manchada pela retórica da propaganda stalinista. Literalmente, criticar o capitalismo soava anti-patriótico. Todas as formas de socialismo eram não-estadunidenses por natureza. Para os conservadores, a "ameaça vermelha" provia a tão esperada oportunidade para abafar os sindicatos e o ativismo político.[10] Inicialmente, seus opositores foram lançados à confusão. Enquanto alguns tinham como prioridade a defesa das liberdades civis em casa, a maioria estava convencida de que a primeira prioridade da Esquerda estadunidense seria provar suas credenciais anti-stalinistas no confronto da Guerra Fria. Já que o socialismo — em todas as suas interpretações — era um conceito estrangeiro perigoso, uma forma mais patriótica de política radical deveria ser desenvolvida. Durante o longo período do regime conservador na década de 1950, essa ambição se tornou o chamado de luta para um novo movimento de intelectuais progressivos: a Esquerda da Guerra Fria.
... uma pessoa não pode fingir ser neutra ou indiferente a respeito desse confronto mundial. Entre o Ocidente e 'nós mesmos' existe não uma identidade completa de interesses, mas uma partilha de alguns objetivos limitados, e a compreensão desses interesses nos requer a dependência do poder ocidental e também levar adiante uma variedade de propostas radicais.[11]
Por mais de uma década, os pensadores da Esquerda da Guerra Fria se dedicaram a desenvolver uma forma distintamente estadunidense de política progressista. Ao longo dos anos 1950, eles lamentavam que a administração Republicana de direita era um exemplo perfeito de muitos dos piores aspectos da cultura de sua nação: o filistinismo[NT1], o paroquialismo e a intolerância.[12] Assim como exacerbavam problemas sociais em casa, essas atitudes danificavam a posição dos Estados Unidos no exterior. Devido ao entrave nuclear na Europa, a frente mais importante da Guerra Fria era a batalha da propaganda. Cada lado dedicava gigantescos recursos à tarefa de convencer pessoas ao redor do mundo da virtude da sua causa: "operações psicológicas"[13] A segurança de longo prazo da esfera de influência estadunidense agora requeria mais do que a "força bruta" da proeminência militar e econômica. A elite dos Estados Unidos também deveria conquistar a supremacia na "força suave" da hegemonia ideológica e cultural.[14] Nesse conflito vital, o símbolo do estadunidense racista e de visão curta era um desastre de propaganda.[15] Ao contrário disso, era necessário criar uma imagem mais positiva e atraente para os Estados Unidos. Já que os conservadores eram incapazes de cumprir esta tarefa, intelectuais de esquerda agarraram a oportunidade de inventar novas ideologias para o império estadunidense. Ao assumirem esse papel crucial na Guerra Fria, eles poderiam demonstrar que o Partido Republicano não era mais o mais efetivo oponente do stalinismo. Acima de tudo, ao tornarem-se a face pública dos Estados Unidos no exterior, esses intelectuais provaram que um democrata de centro-esquerda como presidente do país seria capaz de defender os interesses da nação na arena global. Políticas progressistas não eram somente preferíveis moralmente, mas também recompensadoras politicamente.
No embate ideológico contra o inimigo russo, a mais importante conquista da Esquerda da Guerra Fria foi reconciliar o irreconciliável: os ideais liberais da Revolução Estadunidense de 1776 com as ambições imperiais da classe dominante dos Estados Unidos na década de 1950. De volta ao final do século XVIII, os fundadores do país acreditaram que o propósito primário de um governo constitucional era prover um arcabouço legal para as atividades espontâneas de indivíduos donos de propriedade.[16] De acordo com John Locke e seus admiradores, essa forma de organização social prometia um grau de liberdade sem precedentes na história humana.[17] No momento em que os revolucionários estadunidenses finalmente conquistaram a independência de sua nação, os princípios do liberalismo foram gravados na constituição da nova república: o governo mínimo, o regime do direito e a economia laissez-faire. Thomas Jefferson — o escriba da Declaração de Independência dos Estados Unidos e seu terceiro presidente — se orgulhava dos Estados Unidos serem uma nação onde havia: "... um governo sábio e frugal, que deverá restringir pessoas de machucarem-se umas às outras, de outra forma deverá deixá-las livres para regular suas próprias buscas de indústria e melhorias..."[18]
Comparado às monarquias absolutistas da Europa e Ásia, os Estados Unidos eram a terra natal da liberdade pessoal. Entretanto, ao mesmo tempo, a liberdade permanecia cercada. Mulheres eram cidadãs de segunda classe. Alguns indivíduos eram propriedade de outros indivíduos. A população indígena dos Estados Unidos foi sujeita a uma campanha impiedosa de extermínio. Liberalismo significava liberdade para algumas pessoas, e não para todas elas.[19] Apesar de suas muitas falhas, essa crença serviu bem aos estadunidenses, conforme a sua república crescia de uma fina faixa de assentamentos na costa leste do continente ao poder dominante dentro de seu hemisfério. Entretanto, lá pela metade do século XX, as circunstâncias mudaram dramaticamente. Por mais flexível que o liberalismo fosse como ideologia, seus seguidores agora viam- se frente a frente com o intratável problema de que dois de seus princípios centrais — o governo mínimo e a economia laissez-faire — tornaram-se impossíveis de se colocar em prática.
Enquanto a Marinha Real dominasse os oceanos do mundo, os Estados Unidos estariam protegidos de agressões externas. Contudo, enquanto o Império Britânico desintegrava-se, o isolamento dos Estados Unidos chegava ao fim. Pela primeira vez, a nação necessitava de um grande estabelecimento militar para proteger seus interesses. No final da Segunda Guerra Mundial, o país possuía o exército, a marinha e a força aérea mais poderosos do planeta. Qualquer esperança de desmobilização militar depois da vitória contra a Alemanha e o Japão desapareceram assim que a Rússia rapidamente transformou-se de aliada à inimiga. Na era das armas nucleares, a posse de uma grande e cara força armada era incompatível com um governo mínimo. A mobilização do poderio militar estadunidense para a Guerra Fria forçou o abandono de um dos princípios fundamentais do liberalismo.
A expansão do estado dos Estados Unidos foi também incentivada pela difusão do fordismo. Na década de 1950, grandes negócios se tornaram dependentes de um grande governo para fiscalizar e direcionar a economia nacional. No início do século XIX, foi possível que uma pequena casta de políticos, empreendedores e financiadores governassem o país de uma forma íntima e informal. Porém, agora que os Estados Unidos eram a economia líder do mundo, mercados desregulados e corrupção descarada pareciam relíquias de outra era. Em seu lugar, tanto corporações capitalistas quanto o Estado utilizavam uma burocracia gerencial racional e eficiente para administrar os seus negócios. A competição de mercado foi acrescida de um planejamento hierárquico. Assim como o governo mínimo, a economia laissez-faire era um anacronismo nos Estados Unidos da Guerra Fria. O fordismo substituía o liberalismo.
A burocratização dos negócios e também da política transformou a composição da classe dominante estadunidense. Apesar de cargos políticos e herança de fortunas ainda garantirem a filiação, novas rotas para a elite foram abertas. Os gerentes de enormes burocracias corporativas e estatais estavam agora entre os mais importantes tomadores de decisão da nação. Generais, almirantes e chefes de espionagem exerciam um poder imenso tanto em casa quanto no exterior.[20] Pela primeira vez, números significativos de acadêmicos também se encontraram admitidos nos círculos internos da elite estadunidense. Durante a Segunda Guerra Mundial, cientistas foram mobilizados para desenvolver novas tecnologias militares. Com a invenção da bomba atômica, esses intelectuais demonstraram enfaticamente sua importância vital para o estado moderno. Enquanto gerações mais antigas de cientistas foram aleatoriamente absorvidas na classe dominante, o governo começava agora a sistematicamente recrutar seus sucessores em posições de liderança. Graças ao seu papel de destaque no desenvolvimento da bomba atômica, von Neumann tornou-se um membro proeminente da liderança política e militar dos Estados Unidos. O caminho que ele trilhou, outros logo seguiriam. Seja no trabalho em armamento avançado, seja no ensino de seus alunos, esses favorecidos acadêmicos também administravam grandes organizações, contribuíam com planejamento militar, participavam de comitês investigativos e criavam a propaganda da Guerra Fria. O intelectual na torre de marfim transformou-se no cientista-guerreiro-burocrata.[21] "Eles são... líderes de um novo tipo... empreendedores acadêmicos que sabem como captar dinheiro, montar uma organização e obter resultados no mundo afora."[22]
Nas fases de abertura da Guerra Fria, os gastos militares se concentraram no desenvolvimento de armamentos de alta tecnologia. Enquanto o confronto de superpotências se tornava institucionalizado, somas cada vez maiores de dinheiro foram também destinadas à pesquisa nas ciências sociais. Atracado em confrontos de propaganda com os russos, o governo dos Estados Unidos recrutava intelectuais para melhorar suas operações psicológicas ao redor do mundo. Acima de tudo, o país necessitava urgentemente de um reposicionamento razoável para o liberalismo laissez-faire. Da mesma maneira com que as ciências naturais foram utilizadas para inventar novos armamentos, cientistas sociais agora recebiam grandes contribuições financeiras de patrocinadores militares para desenvolver novas ideologias.[23] Até mesmo à época em que os republicanos estavam no poder, na década de 1950, o governo aceitava que o sucesso dessa missão dependia de uma participação dos intelectuais da Esquerda. Por mais que fossem críticos do conservadorismo em casa, radicais possuíam o conhecimento necessário para convencer estrangeiros céticos de que o império estadunidense representava progresso e modernidade. A força bruta precisava do apoio da força suave.
De volta aos anos 1930, intelectuais radicais nos Estados Unidos viviam uma existência empobrecida às margens da sociedade. Mesmo com essas dificuldades, a Esquerda estadunidense apoiou um renascimento cultural que inspirou alguns dos mais inovadores teóricos, escritores e artistas da década.[24] Esse breve momento de criatividade foi interrompido com a erupção de uma nova guerra mundial. Com medo da vitória nazista, a maior parte da Esquerda estadunidense se juntou à causa antifascista. Aqueles que foram uma vez excluídos agora tornavam-se parte integral do esforço militar. Depois que a Alemanha foi derrotada, essa reconciliação com a sociedade dominante foi consolidada pela Guerra Fria. Bastante influenciados pela crítica de Trotsky ao totalitarismo, muitos dos líderes intelectuais da Esquerda estadunidense há muito eram anti-stalinistas. No começo da Guerra Fria, essa hostilidade contra o imperialismo russo convenceu muitos deles de que os radicais deveriam continuar com o apoio ao imperialismo estadunidense. Não mais contentes em criticar impotentemente pelas margens, esses pensadores acreditavam que deveriam modelar a política dos Estados Unidos em casa e no exterior em uma direção progressista. A Esquerda trotskista cresceu e se transformou na Esquerda da Guerra Fria.[25]
[OS]... homens de poder... precisam de alguma maneira perceber as conseqüências do que fazem para que suas ações não sejam brutais, estúpidas, burocráticas, mas [ir] além [delas], [para que sejam] inteligentes e humanas. A única esperança de um governo humano é o uso extensivo das ciências sociais pelo governo.[26]
Para a elite do país, esses intelectuais radicais possuíam um recurso de valor inestimável: conhecimento íntimo do marxismo. Como o liberalismo laissez-faire era um anacronismo na época do fordismo, os estadunidenses inesperadamente se viram em desvantagem na guerra de propaganda com os russos. Mesmo com sua inferioridade econômica, autoritarismo político e fraqueza militar, seu inimigo stalinista gozava de superioridade no todo-importante campo de batalha ideológico. Esse momento de crise para o império estadunidense criou uma oportunidade para social-democratas desiludidos e leninistas arrependidos entrarem no santuário interno da elite dos Estados Unidos. Assim como os físicos nucleares durante a guerra contra a Alemanha e o Japão, eles eram as únicas pessoas com o conhecimento esotérico que poderia garantir a vitória para os Estados Unidos nessa disputa geopolítica. A força suave era agora tão importante quanto a força bruta. Uma vez que o dinheiro militar começou a patrocinar as pesquisas das ciências sociais, esses intelectuais rapidamente emergiram como os gurus das equipes multidisciplinares que desenvolviam as armas ideológicas para operações psicológicas contra o inimigo russo. Os Estados Unidos descobriram que a maneira mais efetiva de criar alternativas ao marxismo era empregar ex-marxistas para o trabalho. "O confronto final [pela hegemonia global] será entre os comunistas e os ex-comunistas."[27]
Notas:
^ 1. Arthur Vandenberg em Stephen Ambrose, Rise to globalism, página 151.
^ 2. Ver Frank Donner, The Un-Americans e Joel Kovel, Red hunting in the promised land, páginas 87-136.
^ 3. Ver Todd Gitlin, Television՚s screens; e Tom Engelhardt, Ambush at kamikaze pass.
^ 4. Niccolò Machiavelli, O príncipe, página 99.
^ 5. Ver Mike Davis, Prisoners of the american dream, páginas 3—7, 55—69; e Seymour Martin Lipset e Gary Marks, It didn՚t happen here, páginas 203–235.
^ 6. Em 1918, o teórico chefe da social-democracia alemã definiu sua crítica das políticas autoritárias de Lenin: Karl Kautsky, The dictatorship of the proletariat.
^ 7. Para o manifesto fundador de 1902 dessa instituição política, Ver V.I. Lenin, What is to be done? Ver também Marcel Liebman, Leninism under Lenin, páginas 25-83.
^ 8. Ver James Cannon, The history of american trotskyism, páginas 100-101; e Vivian Gornick, The romance of american communism, páginas 27-106.
^ 9. Em 1946, o Partido Socialista dos Trabalhadores — o grupo trotskista líder nos Estados Unidos — contava com somente 1.470 membros dos 145 milhões de habitantes do país. Ver Alan Wald, The New York intellectuals, página 300.
^ 10. Ver Davis, American dream, páginas 82-101.
^ 11. Irving Howe, Steady work, página 238. Howe foi um ex-trotskista que tornou-se guru do Partido Democrata.
^ 12. Ver Richard Hofstadter, Anti-intellectualism in american life, páginas 1-23.
^ 13. Ver Christopher Simpson, Science of coercion.
^ 14. Ver Joseph Nye, Soft power.
^ 15. Ver Benjamin Mays, Race in America; e Frances Stonor Saunders, Who paid the piper?, páginas 190-198.
^ 16. Ver Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, The federalist, páginas 13-83.
^ 17. Ver John Locke, Two treatises of government, páginas 374-427. John Locke era o teórico chefe da Revolução Inglesa de 1688.
^ 18. Thomas Jefferson, First inaugural address, páginas 2-3.
^ 19. Ver Alexis de Tocqueville, Democracy in America, volume 1, páginas 343-432; Democracy in America, volume 2, páginas 222-225.
^ 20. Ver C. Wright Mills, The power elite.
^ 21. Ver Stuart Leslie, The Cold War and american science; e André Schiffrin, The Cold War and the university.
^ 22. Christopher Rand, Cambridge U.S.A., página 4.
^ 23. Até 1952, o Departamento de Defesa provia 96% do financiamento governamental para pesquisa de ciências sociais. Ver Christopher Simpson, Science of coercion, página 52.
^ 24. Ver Daniel Bell, Sociological journeys, páginas 119-137; e Wald, New York intellectuals, páginas 27-192.
^ 25. Ver Wald, New York intellectuals, páginas 193-225, 267-310; Daniel Bell, Sociological journeys, páginas 119–137; e Saunders, Who paid the piper? páginas 7-56.
^ 26. Ithiel de Sola Pool, The necessity for social scientists doing research for governments, página 111.
^ 27. Ignazio Silone, The initiates, página 118.
^ NT 1 — Filistinismo — De filistino, relativo ao povo não-semita habitava a Filistéria, ou Palestina, desde o século XII a.C., os filisteus. Contemporaneamente, o termo refere-se à pessoa que é guiada pelo materialismo e é usado correntemente para significar desdenho a valores artísticos e intelectuais ou desinformação sobre uma área específica do conhecimento.

O detentor dos direitos autorais deste arquivo autoriza o seu uso por qualquer pessoa, para qualquer finalidade, com a condição de que a sua autoria seja devidamente atribuída. Redistribuição, trabalhos derivados, uso comercial e todos os demais usos são permitidos.