Galeria dos Brasileiros Ilustres/D. Manuel Joaquim da Silveira

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Galeria dos Brasileiros Ilustres por S. A. Sisson
D. Manuel Joaquim da Silveira


O benemérito varão que a sabedoria do governo imperial acaba de elevar à primeira cadeira episcopal do Brasil, nasceu nesta cidade do Rio de Janeiro aos 11 de abril de 1807, sendo batizado na freguesia de Santa Rita nove dias depois, conforme o louvável costume de nossos maiores.

Foram seus pais António Joaquim da Silveira, empregado vitalício da Casa da Moeda, e sua legítima consorte D. Maria Rosa da Conceição: pessoas recomendáveis pela rigidez dos seus costumes e prática das virtudes cristãs.

Educado por tão diligentes preceptores revelou o jovem Manuel, desde a sua primeira puerícia extrema docilidade de caráter, suma afeição aos seus progenitores, realçando essas nobres qualidades precoce talento e grande amor ao estudo.

Com grande aproveitamento, cursou as aulas de preparatórios que então existiam nesta capital, merecendo de seus mestres e condiscípulos os maiores gabos. Ainda em bem verdes anos havia ele terminado o curso a que então se denominava — humanidades — e convinha que fizesse escolha duma profissão em que pudesse ilustrar seu nome com mor proveito da pátria. Antes porém de abraçar qualquer carreira quis seu honrado pai, com esse juízo seguro que tanto o caracterizava, que, à semelhança do que se pratica na Inglaterra, se dedicasse ele a um meio de vida que em circunstâncias aziagas lhe fornecesse o pão pelo honesto trabalho, e mandou-lhe ensinar a escrituração mercantil, habilitando-o destarte para tornar-se um distinto guarda-livros.

Perpassou nessa época pela mente do mancebo uma veleidade que poderia talvez converter-se em ardente vocação: em seus áureos sonhos apareceram-lhe os épicos vultos dos Gamas e Cabrais; julgou-se chamado por irresistível vontade do destino à carreira marítima. Obje-tou-lhe seu pai as asperezas de semelhante mister, a que sua delicada e mórbida compleição se opunha; chorou a extremosa mãe lembrando-se das ausências a que seria condenada, e sentindo antecipadamente traspassar-lhe a alma o agudo espinho da saudade. Hesitou o mancebo, e como filho submisso submeteu-se à vontade paterna.

Engenhoso é o amor de uma mãe: vitoriosa D. Maria nesta primeira prova, quis assegurar seu completo triunfo, e habilmente desenvolvendo o germe religioso que desde o berço semeara no coração do virtuoso mancebo, fácil lhe foi de despertar nele a vocação para a vida eclesiástica.

Tomando resolutamente o seu partido, desta vez fervorosamente apoiado por seu pai, e matriculou-se o moço Silveira no curso teológico do episcopal seminário de S. José, deixando aí, como por toda a parte por onde passara, o sulco luminoso do seu grande talento e aplicação.

Faltava-lhe a idade legal para o preenchimento de seus anelos, e já como diácono recebia do sábio bispo do Rio de Janeiro D. José Caetano da Silva Coutinho o emprego de escrivão ajudante da câmara eclesiástica, e como penhor da grande confiança que em sua sisudez depositava, incumbia-o do expediente da referida câmara e do regime interno da sua casa durante uma visita que lhe fez à diocese. Do modo por que desempenhou tão honrosa comissão serve de prova a paternal afeição que lhe consagrou aquele respeitável prelado até o último instante da sua vida.

O dia 2 de maio de 1830 marcou a época mais memorável na existência do atual arcebispo da Bahia. Recebeu nele o presbiterado, tor-nou-se sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque. Pouco tempo depois cantando a sua primeira missa perante o venerando D. José Caetano, dizia este a dois amigos do jovem levita que enternecidamente lhe beijavam as mãos: Beijai-as como padre; porque não tardareis a beijá-las como bispo. Proféticas palavras, que o céu confirmou, ou antes que as ditou.

A morte do seu protetor, ocorrida em 1833, fê-lo desejar uma posição mais estável, onde mais proficuamente se empregasse no serviço da igreja. Vagara a paróquia de N. S. da Candelária e o padre Silveira inscreveu-se como opositor a ela. Aprovado com a nota de quarenta e quatro pontos, foi pelo digno vigário capitular, monsenhor doutor Francisco Correia Vidigal, proposto em primeiro lugar. Antepôs-lhe porém a regência outro sacerdote que muito inferiormente fora classificado. Doeu-se o padre Silveira da clamorosa injustiça que lhe fora feita; mas resignou-se, e aguardou melhores dias para de novo entrar no pleito, temperando cada vez mais o fino aço das suas armas literárias.

Dois anos e meio depois deste revés (a 14 de novembro de 1836) sentava-se o padre Silveira na mesa dos opositores à paróquia de Santa Rita, a cuja obtenção ligava o maior apreço, por ser aquela em que nascera, fora batizado e residira até esse dia. O mais brilhante triunfo coroou os esforços do jovem lidador: imparciais juízes marcaram-lhe setenta e um pontos, fato até então inaudito. Como era de esperar coube-lhe o primeiro lugar na proposta; e a freguesia em peso foi cumprimentar seu ilustrado vigário. Esquecia-se porém a opinião pública que destarte o aclamava, que por uma das excentricidades do nosso regime político, acintosamente lhe contrariaria seu primeiro delegado, o regente Diogo António Feijó! Ao distinto teólogo que acabava de fazer um exame modelo foi preferido um obscuro sacerdote que apenas pôde obter a insignificante nota de sete pontos!

Curvou-se o douto eclesiástico à vontade de Deus, manifestada na injustiça dos homens: e desistiu para sempre da vida paroquial para que se sentia bastante propenso.

Tão extraordinários haviam sido os conhecimentos revelados pelo padre Silveira em seu concurso, que o então vigário capitular, cónego (hoje monsenhor) Narciso da Silva Nepomuceno desejou incluí-lo no magistério do seminário de S. José, e obtendo a sua aquiescência, mandou-lhe passar a provisão de 13 de fevereiro de 1837, pela qual o investia do cargo de lente de teologia moral, considerada como a primeira cadeira do curso teológico. Não parou aqui o testemunho de apreço que do saber do jovem eclesiástico fazia o distinto vigário capitular; porquanto, apesar da vacância da sé em que de ordinário se suspendem todas as nomeações que não são por sua natureza urgentes, despachou examinador sinodal ao novo lente de moral por sua provisão datada de 28 de junho de 1837.

Achava-se então à frente do seminário um ilustre eclesiástico (hoje falecido) a quem, não se podendo negar variada e sólida instrução, e exemplar comportamento, faltava contudo esse tino administrativo, esse tato de conhecer e apreciar a juventude através das suas metamorfoses. Sem querer irrogar injúrias à sua memória, faltaríamos à verdade se ocultássemos que mal dirigido estava então o seminário de S. José, e que profundos golpes havia sofrido a disciplina colegial.

A um tal estado convinha correr com pronto remédio. Lem-brou-se o cónego Narciso do padre-mestre Silveira, e conseguiu pelo ascendente que sobre ele exercia, vencer as repugnâncias próprias de um homem que sentia deixar o lar doméstico, a pacífica sociedade de seus livros, para arrostar com os incómodos e dissabores de uma complicada administração. A 10 de setembro de 1838 lia-se em ato de comunidade a provisão pela qual era o lente de teologia moral nomeado reitor do seminário de S. José do Rio de Janeiro.

Sem vexar pessoa alguma aumentou consideravelmente as rendas do estabelecimento elevando-as quase que ao duplo, reparou toda a capela, e fez um novo e higiénico dormitório. Foram estas as principais vantagens materiais que do seu regime se colheram: quanto às morais perguntai-o aos seus numerosos discípulos, aos que tiveram a fortuna de viver no seminário, ou frequentar suas aulas durante o seu reitorado, e todos una você dicentesvos dirão:

"Foi um pai extremoso, amigo, protetor dedicado, mestre esclarecido, de cujos lábios destilava a ciência com essa fluidez, com essa elegância, com essa natural eloquência que mereceram a Xenofonte o título d'abelha ética. Pendentes de seus lábios esquecíamos o tempo e por vezes vinha a noite surpreender-nos sem que nos tivéssemos apercebido."

Logo que cessou a proibição imposta na lei da regência de prover os benefícios canonicais, foi o padre-mestre Silveira honrado com uma prebenda na nossa catedral e capela imperial por decreto de 2 de dezembro de 1839.

No seguinte ano, havendo findado a viuvez da igreja fluminense, e sentando-se na cadeira dos Desterros, Guadalupes e Mascarenhas, o virtuoso e sábio D. Manuel do Monte Rodrigues de Araújo, foi confirmada por este a nomeação de examinador sinodal, feita durante a vacância da sé, em favor do cónego Manuel Joaquim da Silveira.

A severidade dos seus estudos, os cuidados de administração do seminário, ainda aumentados pelos ónus canonicais de que não pediu dispensa, ainda que tivesse em seu favor o direito, agravaram as enfermidades que habitualmente padecia, e puseram em risco a sua preciosa existência. Havendo conseguido a perícia dos seus hábeis médicos debelar a terrível enfermidade que o acometera foi, por conselho destes, convalescer num dos mais pitorescos arrabaldes do Rio de Janeiro. Mal pensava ele que nessa Tebaida ir-lhe-ia procurar a mais honrosa e delicada comissão que pode um sacerdote receber do seu governo. No dia 16 de fevereiro de 1843 era comunicada ao cónego Silveira a sua nomeação de capelão de S. M. a Imperatriz, a Sra. D. Teresa Cristina, cujo consórcio com o Sr. D. Pedro II acabava de celebrar em Nápoles o conselheiro Bento da Silva Lisboa, depois barão de Cairu.

Não lhe permitia seu estado de saúde o empreender tão longa viagem: imolou porém o cónego Silveira seus cómodos, quiçá a própria existência, ao desejo do monarca que de tal modo o distinguia, aceitou a nomeação e em poucos dias preparou-se para seguir na expedição, composta da fragata Constituição e das corvetas Dois de Julho e Euierpe, que a 5 de março de 1843 desfraldava as velas aos ventos, orgulhosa do seu destino.

Chegando à capital das Duas Sicílias apresentou-se ao rei Fernando II, que apreciando devidamente suas luzes e ameno trato, condecorou-o com a cruz de cavaleiro da Ordem de Francisco I.

Devera a esquadrilha brasileira demorar-se alguns dias em Nápoles, e aproveitando-se desta feliz oportunidade o cónego Silveira, sempre ávido de instruir-se, deliberou de visitar a capital do orbe católico. Posto que mais penosa, era a viagem por terra mais rica em observações, mais sítios notáveis tinha que percorrer. Deu-lhe portanto preferência. Visitando o túmulo de Virgílio, em Pausilipo, recordou-se da sua infância, das graciosas imagens colhidas as páginas da Eneida, ou das Geórgicas, e que tanto contribuíram para despertar-lhe o sentimento do belo. Atravessou o Garigliano em sua majestosa ponte suspensa, viu Gaeta, a Sebastopol do Mediterrâneo, e em Fondi contemplou a modesta câmara em que por largos anos residiu um dos mais assombrosos génios da Idade Média, o nunca assaz admirado Santo Tomás de Aquino.

Acordou de suas graves cogitações a voz do vittunno que bradava: Si vede Roma, Roma la Santa. E de fato a viúva dos Césares se mostrava indolentemente reclinada sobre as suas sete colinas, e banhando seus pés nas fulvas águas do Tibre.

A narrativa dessa piedosa excursão acha-se estampada na Minerva, revista literária que nessa época redigiam alguns amigos seus, e forma um dos mais belos trechos dessa preciosa coleção.

De volta ao seu pátrio Rio reassumiu no dia 1º de outubro do dito ano o exercício dos seus empregos com suma satisfação dos seus discípulos e subordinados.

Acabara de firmar-se, depois desta nova prova, a sua reputação de ciência e probidade; e o governo imperial aquilatando devidamente o grande serviço que acabara de prestar-lhe, galardoou-o com a comenda da Ordem de Cristo por decreto de 14 de março de 1844.

Posto que mui restrito esteja hoje o foro eclesiástico, importantes são ainda nele as funções de promotor; e por morte do último serventuário lembrou-se o nosso santo prelado de cometê-las ao digníssimo reitor do seminário episcopal de São José mandando-lhe passar a sua provisão de 20 de setembro de 1845.

Um ano depois elevava-o o imperante à categoria de monsenhor da catedral e capela imperial do Rio de Janeiro, honrando-o com a carta de conselho nos últimos dias do mês de janeiro de 1847.

O tato governativo que revelara na gestão do seminário indigi-tou-o ao governo para colocá-lo na administração interna dessa mesma catedral de que fora nomeado uma das dignidades. No exercício de in-spetor e fabriqueiro de que lhe investira o decreto de 15 de outubro de 1849, prestou o monsenhor Silveira verdadeiros e reais serviços, sendo entre outros digno de especial comemoração a maneira enérgica e acertada com que dirigiu as obras da mesma capela, que por uma estranhável negligência quase que tocara à sua completa ruína.

Mencionemos aqui um fato que muito abona os sentimentos patrióticos e estéticos do monsenhor Silveira.

Todos sabem que no altar-mor da capela imperial existe um riquíssimo painel do nosso famigerado pintor José Leandro, representando el-rei D. João VI e toda a sua augusta família ajoelhados aos pés de Nossa Senhora do Carmo; mas o que alguém talvez ignore é que na quadra vertiginosa que se seguiu à revolução de abril, julgou-se patriótico cobrir com uma espessa camada de tinta as régias personagens que ali se achavam figuradas. Reparando a igreja entende o inspetor que devera também reparar a injustiça; chamou hábil artista que restaurando o quadro restituiu aos fluminenses um monumento da piedade do seu bondoso rei, um legado do amigo de Valentim e de José Maurício.

Cumulado de honras, fruindo da geral estima dos seus concidadãos, nada mais ambicionava monsenhor Silveira. Havia porém se tornado muito notável para viver na penumbra em que estava; seus dias pertenciam à religião e à pátria. Sabido é o particular cuidado com que o imperador provê a todas as vacâncias de bispados, demorando-as às vezes anos em busca de algum sacerdote que lhe pareça reunir os predicados tão difíceis de possuir. Viúva achava-se a sé do Maranhão pelo passamento do doutíssimo D. Fr. Carlos de São José e Sousa que expirara entre a cruz e o evangelho. Por esse dom singularíssimo que possuem as almas elevadas de discernir o bem, compreendeu o monarca brasileiro que ninguém melhor do que o ilustrado e virtuoso monsenhor-rei-tor poderia preencher o vazio deixado pelo sábio cenobita pernambucano.

Como a explosão outrora do Vesúvio que de lavas inundou os tetos de Herculano e Pompeia, veio o decreto de 5 de maio de 1851 surpreender monsenhor Silveira quando vislumbrava num próximo futuro as venturosas veigas do descanso. Força foi aceitar, porque, como há pouco dissemos, tal homem não tinha direito de se pertencer.

Conhecido pessoalmente pela mor parte dos membros do sacro colégio, e instruído o seu processo com os mais lisonjeiros documentos, fácil foi a sua confirmação, proclamada no consistório secreto de 5 de setembro do referido ano: sendo a 25 de janeiro seguinte sagrado na capela imperial pelo seu íntimo amigo e bispo-conde de Irajá, assistido pelos monsenhores Nepomuceno e Fernandes da Silveira.

Havendo tomado posse do bispado de São Luís do Maranhão por intermédio do seu procurador, o cónego mestre-escola Luís Raimundo da Costa Leite, no dia 30 de janeiro, deixou a 25 de março

as plagas guanabarenses, saudando a 6 de abril a donosa filha de La Lavardiere, a quem porfiosamente galanteiam o Pindaré, o Itapicuru e o Mearim.

Já tinha a diocese do Maranhão bispo, faltava-lhe porém catedral. Dois raios caindo sobre a torre do majestoso templo construído pelos jesuítas e consagrado a Nossa Senhora da Vitória, haviam-no consideravelmente arruinando, tornado-o incapaz de nele serem celebrados os ofícios divinos. Funcionava o cabido na pequena capela de Nossa Senhora do Rosário, e paradas estavam as obras da sé por esgotada achar-se a exígua consignação que para ela fora votada na lei de orçamento. Magoou semelhante estado de abandono ao piedoso coração do virtuoso prelado, e mandou que, sob a sua responsabilidade, fossem continuadas as obras, logrando a satisfação de ver restaurada a principal igreja da cidade de São Luís, ben-zendo-a solenemente e para ela transferindo a sua cadeira no dia 9 de maio de 1854, com extremo júbilo dos bons maranhenses. Não podia deixar de merecer a aprovação do governo imperial o religioso procedimento do zeloso bispo; e de fato deu-lhe sua aquiescência mandando que fossem pelos cofres gerais pagas as despesas.

Não correspondia porém a decoração interna do templo à sua beleza externa: assim pois pensou D. Manuel Joaquim da Silveira em reparar esta falta obtendo do 1-vice-presidente da província, o Dr. João Pedro Dias Vieira, a autorização para despender com essas obras a quantia de seis contos que foram mandados entregar-lhe pelo conselheiro João Lustosa da Cunha Paranaguá, que na cadeira presidencial do Maranhão nessa época sentava-se.

Satisfeita essa primeira necessidade estendeu o bispo suas perspicazes vistas a outros objetos de suma importância, como v. g., a reparação das matrizes, que pela mor parte caíam em ruínas, e a educação moral e intelectual do clero, que por causas que são alheias ao nosso assunto, tinha sido desprezada. Conhecendo a falta que havia na província do Piauí de sacerdotes filhos do país conseguiu da respectiva assembléia provincial a consignação de fundos no orçamento para que fossem alguns mancebos pobres fazer seus estudos eclesiásticos no seminário do Maranhão. Desta sábia medida começava a colher vantajosos resultados quando foi removido para a sé arquiepiscopal da Bahia.

Havendo despendido grande parte da sua vida no ensino e direção da juventude cuidou o novo bispo em organizar o seu seminário sobre bases sólidas e profícuas; e, sendo no seu nobre empenho auxiliado pelo governo imperial, criou mais cadeiras, provendo-as com pessoas dignas de tão difícil missão. Acanhado porém era o espaço em que funcionava o antigo seminário, não podendo caber aí os novos obreiros chamados para a vinha do Senhor. Proveu o diligente prelado a esta deficiência alcançando do guardião do convento de Santo António a cessão de um belo dormitório, a que mais tarde adicionou outro com os meios pecuniários que foram fornecidos pelo governo imperial. Graças pois aos seus esforços possui hoje o Maranhão um espaçoso seminário edificado com todas as condições higiénicas tendo um belo jardim para recreio dos alunos.

Quando se achava D. Manuel Joaquim da Silveira todo entregue ao ministério pastoral, recebeu o honroso convite, que conjuntamente com o arcebispo metropolitano D. Romualdo António de Seixas, lhes fazia a Santa Sé de irem a Roma assistir ao concílio que para aí convocara o SS. Papa Pio IX para ser definido o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Santíssima, com recomendação expressa de seguirem para a capital do catolicismo embora terminado estivesse o concílio. Dispunha-se para obedecer a tão invejável chamado, quando lhe chegou a ordem de S. M. o Imperador para que se deixasse ficar em sua diocese, visto ser absolutamente impossível estar em Roma no dia 8 de dezembro desse ano (1854) em que devera abrir-se o concílio.

Indenizou-se o bispo do Maranhão de sua falta de comparecimento pela solenidade com que festejou no ano seguinte e no próprio dia a declaração do concílio, mostrando destarte a sua ardentíssima fé por tudo quanto se refere à rainha dos anjos.

Como pai extremoso anelava D. Manuel por conhecer todos os filhos; e desde o momento em que pisou o solo de seu bispado tencionou seguir a trilha dos Bartolomeus dos Mártires, dos Cartanos Brandões, e do seu virtuoso mestre na vida episcopal D. José Caetano da Silva Coutinho.

No intervalo de nove anos em que administrou a igreja maranhense fez seis visitas: derramando por toda a parte o bálsamo das consolações, semeando a palavra do Evangelho.

Foi a cidade de Alcântara a primeira localidade da província (à ex-ceção da capital), que se honrou com a sua presença, chegando a ela no dia 30 de setembro de 1852, e fazendo a sua solene entrada a 2 de outubro. Características são as palavras com que abriu a visita: "Jesus Cristo tinha morrido no alto do Calvário com as costas viradas para este povo deicida que o tinha abandonado com os braços abertos, e a face voltada para o meio-dia do mundo. É vós, meus amados filhos, que Ele chamava, é em seu nome que hoje apareço no meio de vós. Preposto pelo Espírito Santo para reger parte do rebanho que Jesus Cristo adquiriu com o seu precioso sangue, vim para chamar aos pecadores, para curar a enfermidade de suas almas, porque os que estão bons não têm precisão de médicos. Assim como ele ouviu o ladrão, e perdoou a adúltera, também eu venho ouvir os pecadores, absolver seus pecados, e absolver a seus delitos."

Infrutíferos não foram estes conselhos, dignos por sua unção de um Basílio, de um Gregório de Nazianzeno, em 10 dias em que se demorou S. Exa. Revma. em Alcântara, novecentos e quatro pessoas se confessaram, e duas mil, cento e oitenta e seis receberam o sacramento da confirmação.

Infatigável atleta da Igreja apenas repousou do seu labor eis que empreende de novo a mais penosa viagem partindo a 22 de dezembro desse mesmo ano para a vila de Turiaçu, a bordo do brigue escuna ^Andorinha. É esta a última freguesia da diocese de São Luís pelo lado do norte, sendo fronteira com a do Pará. Incómodo foi o trajeto em razão do rijo vento que encrespava as águas do rio, obrigando a adernar quase que constantemente a embarcação apesar de ser alterosa para aquelas paragens. No dia 25 de dezembro em que a Igreja celebrava o nascimento do Homem-Deus chegou o bispo ao aprisco destas suas tão remotas ovelhas, que por tal modo o prezaram que havendo de retirar-se foi acompanhado em hora adiantada da noite pelas pessoas mais gradas do lugar, inclusive grande número de senhoras.

Regressando desta última visita foi acometido em Alcântara de uma violenta febre que tomou o caráter maligno: em iminente perigo estiveram seus dias: o Céu porém ouviu as preces dos seus extremosos diocesanos, e o pastor foi conservado ao rebanho.

Não se arrefeceu o zelo apostólico do ilustre varão com esta rude prova: e poucos meses depois ei-lo que afrontando o terrível Boqueirão, tão célebre nos fastos marítimos da província, vai pelo Itapicuru abaixo demandar novas almas para o céu, conquistar novos corações para a fé.

Como sempre pertransivit benefaciendo, crismou no Rosário duas mil, trezentas e doze pessoas, batizou a vinte e quatro crianças, fez catorze casamentos, retirou-se aconselhando aos pais de família a educação religiosa de seus filhos, fâmulos e escravos; passou, como celeste mensageiro, pela freguesia de Nossa Senhora da Lapa, e em Itapicurumirim, onde sua presença é festejada com três dias de luminárias; veio um ataque de febre intermitente interromper o curso de suas visitas, obrigando-o a voltar à capital.

Não sossegava o ânimo do prelado maranhense, enquanto houvesse um só sítio do bispado a que não tivesse levado o alimento da palavra evangélica. O que eram as fadigas, e até as moléstias para reter o seu espírito amante e inflamado pelas chamas da fé? Anelavam por conhecê-lo os povos do interior da ilha do Maranhão; e a 27 de dezembro de 1850 apresenta-se inopinadamente na freguesia de Vinhais, donde depois de cumpridas as formalidads do costume, encaminhou-se para a vila de Paço do Lumiar, contemplando o majestoso panorama que a seus olhos se desdobrava.

Comovido pelos testemunhos de amor e veneração que lhe votaram os ingénuos habitadores dessas brenhas, escreveu o virtuoso bispo em seu itinerário estas tocantes palavras: "Sensibilizou-me excessivamente o empenho que fazia este povo simples em me obsequiar, ofer-tando-me qualquer coisa que proferisse, e que eu recebia com mais complacência do que se me oferecesse os aromas preciosos, o ouro puro de Ofir, e as pérolas mais finas do Oriente: estes são os dons da riqueza, aqueles do coração."

Na sua visita à vila de Viana, empreendida em fins do ano de 1857, correram seus dias extremo perigo, encalhando o barco que o conduzia numa das coroas do porto, e escapando de ser vítima do majestoso e terrível fenómeno conhecido pelo nome pororoca.

Prende-se à história desta excursão um fato que eminentemente honra o respeitável antístite: queremos falar da sua visita aos presos da cadeia, exortando-os ao arrependimento e rociando suas palavras com o orvalho de caridade. Nem menos patética foi a sua entrevista com os lázaros, cujo hospital cuidadosamente percorreu, consolando-os em seu infortúnio e conjurando-os a suportá-lo na graça do Senhor.

Foi a última das suas visitas a da província do Piauí que, como se sabe, faz parte integrante da província do Maranhão. Para ela saiu a 10 de outubro de 1859, regressando a 27 de janeiro seguinte. Nesses três meses e 17 dias fez D. Manuel Joaquim da Silveira todo o bem que era possível fazer: provou praticamente a excelência da religião católica e ditou pela sua edificante conduta um hino de entusiasmo e gratidão aos moradores das margens do Paranaíba, que perene lembrança guardaram do seu santo prelado.

Estranho à política, era benquisto por todas as parcialidades: compreendendo que o bispo deve ser unicamente bispo, declinou da honra que lhe queriam fazer elegendo-o deputado à assembléia geral legislativa; e pediu humildemente exoneração do cargo de primeiro vice-presidente da província para que fora nomeado.

Inteiramente identificado com o interesse das suas ovelhas, não curava o diligente e zeloso pastor de apartar-se do meio delas, quando um acontecimento imprevisto obrigou-o a levar algures sua missão apostólica. Falecera o venerando marquês de Santa Cruz, e a nenhum outro eclesiástico julgou o Imperador que melhor caberia a mitra arquiepiscopal da Bahia do que ao virtuoso prelado maranhense.

Era este um fato virgem em nossa história eclesiástica: nenhum bispo brasileiro havia ainda sido transferido duma sé para outra, nenhum acesso julgava-se possível no episcopado; assim procedendo firmou o governo um precedente de grande utilidade, porquanto convém que, à imitação do que se pratica nos demais países católicos, sejam os bispados de maior importância administrados por quem possuir o tesouro da experiência, devendo ser o lugar de arcebispo a recompensa do que melhor desempenhar o ano pastoral.

Geralmente aplaudida foi tão acertada escolha, ainda mesmo por aqueles que com ela iam ser privados de sua solicitude.

O decreto de 5 de janeiro de 1861 foi para D. Manuel Joaquim da Silveira novo testemunho do subido conceito que de suas muitas luzes e raras qualidades faz o monarca brasileiro: é mais uma prova do que já dissemos que a sua vida não lhe pertence. Com as lágrimas nos olhos por apartar-se de sua família adotiva, pegou da pena para escrever ao ministro significando-lhe a sua completa obediência às deliberações que a seu respeito se dignasse de tomar o governo.

Preconizado no consistório de 19 de março do corrente ano, foram expedidas as competentes bulas a 22 desse mesmo mês: achando-se destarte canonicamente alçado à primeira dignidade eclesiástica do Brasil. Como testemunho da grande afeição que sempre votara à igreja maranhense doou S. Exª Revma. à sua antiga catedral os paramentos pontificais que, à sua custa, comprara.

Doloroso lance foi a despedida do novo arcebispo das suas antigas ovelhas, e nos anais do Maranhão ficaram registradas as bênçãos que em prol da sua prosperidade lhe endereçaram todas as classes da população: porque todas dele haviam recebido finezas.

Conhecido em todo o Brasil, seu nome havia-o precedido na Bahia, onde triunfante foi a sua entrada; congratulando-se os briosos habitantes desta heróica província pela acertada sucessão que tinha o marquês de Santa Cruz.

Recebendo o pálio das mãos do bispo do Pará, D. António de Macedo Costa, e assumindo as rédeas da administração diocesana, dispôs-se o arcebispo a vir ao Rio de Janeiro beijar a munificente mão que incessante se tem mostrado em beneficiá-lo. Confiado o regime da igreja ao deão do cabido, embarcou-se para esta capital onde os seus numerosos amigos e admiradores tiveram ocasião de exprimir-lhe verbalmente o júbilo de que se achavam possuídos.

Pomos aqui termo à nossa pálida narrativa, desejando a S. Exª Revma. longos dias de vigorosa saúde, e ocasiões em que possam sua piedade, saber e zelo ser postos em relevo.