Henriqueta/Capitulo 1
Qual é a primavera que nos indica o tempo que fará no outomno? E quem póde saber no começo da vida o que o espera no resto?...
Ah! se uma mãe extremosa, que guia os primeiros passos de seu filho, podesse ler no futuro, quantas vezes não desmaiaria de pasmo, ou morreria de afflicção?... Felizmente nos dotou a Providencia com duas imperfeições, que fazem toda a nossa felicidade n'este mundo: o esquecimento do passado, e a ignorancia do futuro.
Não pensava Henriqueta assim, e daria metade da sua riqueza para adivinhar o porvir.
Esta menina era formosa, boa, instruida e affavel. Seus paes não tinham mais filhos, e não pouparam despezas, nem canceiras para lhe darem boa e illustrada educação.
Ella tinha preenchido todos os desejos de seus affeiçoados paes. Ninguem a via e ouvia, que a não admirasse; ninguem a tratava, que a não amasse. Não ha porém alguem perfeito. Henriqueta tinha na alma semente venenosa, que, se a não destruisse antes de germinar, podia vir a dar péssimo fructo.
Era esta semente a vaidade, que lhe vinha de conhecer, que muito valia.
Tantas vezes lhe haviam feito saber, que tinha muitos dotes e merecimentos, que se julgou no fundo d'alma digna, de que todos os joelhos se curvassem diante d'ella. Não tinha o máo gosto de fazer ver, que era o idolo de si mesma, mas agasalhava com amor dentro no peito a crença, de que merecia adorações. Era o germen que havia naturalmente de originar muitos males.
Teve a formosa donzella muitos casamentos , pelos merecimentos do seu dote, não dos seus dotes pessoaes. Vivia na aldeia e de poucos era vista. Henrique de Moraes, seu pae, de todos os pretendentes extremou dois, mancebos de que lhe deram excellentes informações, e os nomeou a sua filha, para que escolhesse. Ella nunca os havia visto. Devia pôr o dedo ás cégas. Era o jogo do par ou pernão?
Para Henrique de Moraes parecia-lhe bastante saber, que os dois pretendentes eram ricos, de boas familias, e de bom porte. Para muitos paes seria esta ultima circumstancia traste de luxo.
Para Henriqueta não a satisfaziam, com razão, estas informações. Quereria vel-os antes de se decidir; porém aquelle que viesse á sua presença ficava quasi escolhido. Seria grande a antipathia, que lhe ganhasse, para se resolver a rejeital-o depois.
— Tenho decidido, disse ella por fim; verei Julio de Castro: dizem que foi bom filho, e que é muito amavel. De Carlos da Silva tambem as informações são boas, mas pende a balança a favor de Julio.
Oito dias depois estava Henriqueta agitada e anciosa. Seu bello e interessante rosto dava signaes de inquietação.
Tudo na quinta de Rivaes mostrava alvoroço e contentamento. Esperava-se o noivo da menina. Ainda que os criados não tinham noticias officiaes do que se tratava, estavam em dia.
Nada, ou pouco se occulta áquelles, que vivem debaixo das mesmas telhas que nos cobrem, que nos servem, e nos espiam.
Ouviu-se o trote d'alguns cavallos. Todos os criados correram á porta, as criadas ás janellas.
Henriqueta estava com sua mãe e tremia. Entrou o pae e mais um mancebo, que apresentou dizendo:
— O snr. Julio de Castro.
E a este disse:
— Minha mulher e minha filha...
A donzella ficou satisfeita. Tinha o seu futuro esposo physionomia muito sympathica e agradavel; e ainda melhor lhe pareceu pelo ver ficar estatico diante d'ella, olhando-a com enlevo. Ella córou e abaixou os olhos.
Henrique de Moraes chegou-lhe cadeira , e Julio saindo da sua distracção disse sorrindo:
— Peço perdão pela minha basbaquice. Imaginei que estava sonhando.
Conversou depois com muita amabilidade. Todos ficaram namorados d'elle, paes, filha e mesmo os criados, que elle brindou na passagem com muita generosidade.
Dentro em pouco fez-se o casamento.
Foram os noivos viver no Porto, mas faziam frequentes e demoradas visitas á quinta de Rivaes, que não ficava longe.
A lua de mel foi muito longa, durou dois annos. A paixão de Julio porém, que primeiro foi quasi um frenesi, foi dando logar a sentimentos mais brandos, ainda que sempre ternos.
Se Henriqueta não tivera opinião tão elevada de seus encantos e merecimento, contentar-se-ia, e seria feliz com a affeição socegada e meiga de seu marido: mas tendo-o visto arrebatado de sua belleza, parecia-lhe mal vel-o só occupado de suas virtudes. Elle quiz trazel-a á razão, mas enganou-se no caminho. Em vez de conduzil-a com mimo e doçura a deixal-o vagar a seus negocios em liberdade e algumas vezes a distracções, que ella não partilhava, tentou acostumal-a com rude franqueza a ir onde lhe parecia, ou era mister.
O genio de Henriqueta começou a azedar-se. E não tomava ella o trabalho de occultar seu desgosto. Julio se zangava e mais se afastava de sua mulher. Ambos começaram a lançar alicerces de um templo de infortunio.