Henriqueta/Capitulo 10
Febre lenta, e negra melancolia, fastio e insomnia, levaram o pobre Eduardo a passos largos para a sepultura. Sua alma era verdadeiramente delicada e virtuosa. E o retiro, em que sempre viveu, as maximas que sua mãe infiltrara desde o berço na sua essencia, apuraram a natural nobreza do seu modo de pensar e sentir. Quando pois soube, que sua mãe, que era o seu idolo, que era tudo quanto amava sobre a terra; quando soube, digo, que esse ser venerado e querido era uma mulher aviltada e criminosa, e que o seu nascimento era uma vergonha para elle e um remorso para sua mãe, sentiu-se acabrunhado e desejou ardentemente a morte.
Mostrava elle a mesma affeição a sua mãe; e talvez sentimentos de compaixão o fizessem ser mais terno ainda; mas, pelo cuidado, que tomava em nada dizer que offendesse a sensibilidade de sua desgraçada mãe, pela cautela, com que afastava de seus discursos as palavras ― honra e virtude ― tão naturaes em seus labios puros, bem conhecia a pobre senhora, que elle não esquecia um só momento a terrivel revelação.
Deus se compadeceu do infeliz innocente, e o conduziu em breve aos ultimos momentos, dando-lhe a coragem da virtude, e o socego da innocencia. A pessoa bôa, e que viveu sempre bem com Deus, nos umbraes da eternidade tira forças da fraqueza physica, porque a alma é forte, e anima-se a si e aos outros. O joven mostrava-se consolado por ver que deixava um mundo, em que gozara tão poucas alegrias, e ao qual o não prendia sequer uma esperança. Elle queria inspirar a sua mãe e a José as ideias, que tinha do resgate, que ia ter; mas a sua logica quebrava-se de encontro áquelles corações magoados. Henriqueta sobretudo estava n'um estado lamentavel! Parecia, que seguiria de perto seu filho ao tumulo.
― Minha mãe, lhe disse Eduardo, porque tem chorado tanto? A vida merece acaso, que se tenha saudades d'ella?..
― Meu querido filho, replicou ella suffocada em choro, e apertando-llie as mãos entre as suas, não choro por ti... O egoismo é que me faz derramar lagrimas... Eras o unico fio que me prendia á vida... quebrado elle, que será de mim, senão morro logo?! Só no mundo, com meus pesares e remorsos, que farei sobre a terra?
― Valha-me Deus!.. Não chore assim, que quasi me faz ter pena de morrer!.. Considere, minha adorada mãe, que, se eu vivesse, seria muito infeliz. Eu era um ente nullo para a sociedade, pela minha fraqueza e pouca saude. Tinha ha muito summo pesar de ser um fardo para os dois entes que me amavam. E se José adoecesse?.. Precisaria então eu de mendigar para sustentar minha mãe e o nosso bemfeitor, e tenho a alma tão altiva!.. Morreria mil vezes n'uma hora. Dos trabalhos mais humildes não me vexava, mas esmolar!.. Agradeçamos pois a Deus, minha queria mãe, a mercê que elle me faz e que eu não merecia. Se Deus não fosse tão misericordioso, teria eu mais vida, para expiar meus peccados, e...
― E os peccados de teus paes: não é isso, que querias dizer?
― Sim, minha boa mãe. Estou n'uma hora em que se não escurece a verdade. Devia pois expiar os meus erros e os dos auctores de meus dias, com mais annos de martyrio. Deus faz-me a graça de me despenar; agradeçamos-lhe tanta bondade!
― Sim!.. o eterno é justo. Leva-te a ti, porque não tinhas crimes; e deixa-me na terra, para agonizar mais algum tempo.
― O Eterno não é só justo, minha mãe, é tambem piedoso. Conserva-lhe a vida, e livra-a de mim, para que possa ir pedir perdão, antes de morrer, á sua familia.
― Que dizes, Eduardo?.. Como hei de ousar tal?!..
― Deve-o fazer... e ha de ousal-o... a seu marido sobretudo.
― Como posso esperar, que elle me perdoe?.
― Ha de lhe perdoar, minha querida mãe, porque tem soffrido muito: mas, se aquelle que offendeu fosse implacavel, Deus não o seria, e ha de perdoar-lhe completamente depois d'essa humilhação precisa. No entanto eu tenho fé, que irei para o céu rogar ao piedoso Senhor, que cedo nos reuna a ambos. E creio, que Elle me ha de ouvir.
A pobre mãe deitou os braços a seu filho, e longo tempo ficou assim, chorando e gemendo.
D'alli a algumas horas havia um justo de menos no mundo, e mais um santo nos céus.
Dois mezes depois na mesma sala, em que Henriqueta trabalhara, chorando pelo espaço de doze annos, estava um cavalheiro de meia edade escrevendo, na mesa que fôra de Eduardo, uma carta concebida n'estes termos:
«Rodrigo, pediste-me encarecidamente , que te dissesse o proveito, que tirara com o meu regresso á patria. Satisfarei hoje o teu pedido... Tambem querias saber se eu achava noticias da desgraçada Emilia!..
«Escrevo-te, meu amigo, em uma miseravel casa, em que ella viveu com meu filho doze annos.... luctando com a pobreza e os desgostos! O que valeu, para que não morressem de miseria, foi o trabalho d'aquelle negro, que Emilia livrou dos tormentos. Ah!.. ella foi propheta, quando me disse:
― «A compra d'este negro ser-me-ha proveitosa.
«Se tu visses agora aquella mulher tão formosa?..
«Ha tres ou quatro dias entrei n'um cemiterio. O meu coração ambiciona ha muito impressionar-se de cousas tristes. Sobre uma rasa sepultura estava uma mulher de bruços e a seu lado um negro de joelhos a prantear-se. Conheci José, e occultei-me tremendo atraz d'um mausoleu. O coração batia-me, porque tinha esperanças de encontrar finalmente o meu filho... Ai de mim!.. ai de mim!.. A sepultura sobre que via chorar era a de Eduardo. A mulher, que estava prostrada, ergueu-se. Não a conheci. Seu rosto cadaverico e coberto de lagrimas, parecia o de uma octogenaria. que ia descer á campa. Ouvi-lhe a voz... era a doce voz de Emilia!!!
― «José, dizia ella entre soluços, estas são as ultimas lagrimas que derramaremos sobre os restos do meu querido Eduardo!.. Mas espero que elle alcance de Deus a graça de levar-me breve para o seu lado... assim m'o prometteu pouco antes de voar para a sua patria!.. Foi sempre um anjo!.. Elle dizia bem!.. que faria n'este mundo pobre, desprezado... sem parentes nem amigos?.. Elle com uma alma tão nobre e votado á desgraça e ao aviltamento!.. Vamos... As forças me faltam todos os dias, e preciso de muitas para ir, onde devo... O anjo m'o disse... é preciso que eu me humilhe diante d'aquelle que offendi. Vamos, meu bom José, leva a tua dedicação até ao resto. Acompanha-me lá... lá onde estava a felicidade, e eu fiz entrar a desgraça.
«Elles se tinham ido retirando. Eu estava immovel com o coração partido. Queria beijar a sepultura de meu filho, mas temia perder de vista a mulher, que tão desgraçada fizera. Assignalei a sepultura, e segui Emilia. Vi-a entrar n'esta casa, e soube dos vizinhos que iam partir de Lisboa, e que vendiam os trastes para fazerem a jornada. Fiz comprar por terceira pessoa o mais caro possivel, quanto lhes pertencia.
«O que era de meu filho o tenho como reliquias. Ah! Rodrigo!.. elle desenhava tão bem!.. E nos seus papeis achei pensamentos tão sublimes!.. Amava sua mãe com fanatismo, a José com reconhecimento e ternura... E seu pae talvez lhe fosse odioso. Quando em creancinha vinha para mim tremendo, repellia-o com dureza; e se agora fosse elle vivo, seria eu que tremeria na sua presença. Fil-o infeliz, e já não posso reparar o mal!.. E sua mãe?!. a quem nem sequer me é dado pedir perdão, para não aggravar seus males!.. A infeliz lá vai lançar-se aos pés da sua familia... Oxalá que seja bem recebida e que morra em paz. Não terá ao menos muito tempo a soffrer o pesado fardo da existencia.
«Adeus, Rodrigo; não sei ainda se partirei outra vez para essa cidade, ou se ficarei aqui para ser enterrado junto de meu filho. Se me tornares a ver, custar-te-ha a reconhecer o infortunado Carlos.»