Henriqueta/Capitulo 12
Elles não se haviam dirigido para casa, mas para o lado apposto, porque tinham avistado d'alli um vestido branco.
Henriqueta não via ainda senão os dois moços, e encostando-se ao muro balbuciou com os olhos turvos pelas lagrimas:
— Um é meu filho... o outro o noivo de minha filha!.. Qual será o meu Augusto?.. O coração me diz, que é aquelle, que me teve junto ao seio... e com que frieza se apartou de mim!.. Oh! e com que ancia o apertaria nos meus braços... o comeria de beijos!.. Meu Deus!.. Lá vem minha filha!.. a minha adorada Virginia!.. Eu morro!..
E ella se deixou cair sobre um banco, que estava alli perto, debaixo de uma pequena latada.
Os tres jovens tinham-se encontrado e voltavam para onde estava a pobre desconhecida. Esta tornou a animar-se e erguendo a cabeça afastou as folhas da latada e pensou, examinando Virginia:
— Como é linda!.. Como é graciosa!.. O mancebo mais alto a traz abraçada!.. E' então na verdade o meu querido Augusto!.. Como são lindos meus filhos!.. E como mostram amar-se!.. Misera de mim! Quanto elles me amariam, se os não tivesse abandonado!
Já não podia chorar mais. Tinha os olhos inchados e as faces ardentes. Apertou as mãos ao peito, murmurando:
― Oh, meu Deus! dai-me forças para resistir à tentação de chamal-os em altos brados... de correr a seus braços!.. Quanto poderia ser feliz e quão desgraçada sou!.. De todos os tormentos da minha culpada vida, oh, meu Deus!.. é este que te offereço em expiação de meus peccados!..
Os tres jovens se approximavam.
Henriqueta tremia, e abafou os suspiros e quasi a respiração, para os ouvir.
― Não sejas impostora, dizia o moço que trazia Virginia abraçada, confessa que nos ias procurar.
— Já te disse, respondeu a menina, sorrindo, que não deixei o avô por amor de ti.
— Tambem não direi que fosse por amor de mim. Os amores novos fazem esquecer os velhos. Se me mettia na conta, era para te não dizer chamente que ias procurar o meu amigo Feliciano. Ah, ah, ah! Como te fizestes vermelhinha! Ora, se não queres perder o credito de verdadeira, confessa a conceição.
— Não faça caso do que diz este louco, — disse o outro mancebo com ar risonho.
Virginia parou e replicou triste:
— Vejo-os a ambos tão alegres, que não tinha animo de lhes dizer onde ia, mas é preciso que o saibam, para me deixarem retroceder. Ia procurar o pae.
— Pois elle não está em casa?!..
— Não; ergueu-se muito melancolico, fez-me uma longa pratica e saiu. O avô, vendo qué eram horas de almoçar, e que elle não voltava, disse-me que o fosse procurar.
— Pobré pae!.. Tornam-lhe os seus ataques de hypocondria!.. Vou eu procural-o. Ide ambos para casa. Sei onde o hei de achar.
— Queres que vá comtigo? — perguntou Feliciano.
— Não, meu amigo. Nas occasiões de grande melancolia, só eu sei distrail-o. Foi o longo tirocinio de toda a minha vida. Desde a mais tenra infancia fui o companheiro de seus dias tristes.
— Teu pae é o homem, que mais estimo e respeito. As saudades que conserva por uma esposa virtuosa dão a conhecer a bondade de sua alma; e comtudo para mim foi duro tanto tempo... Tinha horas bem más a cogitar, porque lhe desagradaria.
― Não lhe desagradavas, pelo contrario , te estimava; mas a desgraça que succedeu a minha querida mãe, por elle a ter deixado algum tempo, o indispoz contra todos os casamentos.
― Quanto não devia ser estimavel a mulher que deixou tão longas saudades a seu marido!..
― Era um anjo!.. Ainda conservo uma vaga ideia da sua formosura e bondade. Na vespera da sua fatal jornada me acariciou muito e me recommendou que amasse e protegesse minha irmã. E, como depois da sua morte, não se viam n'esta casa senão lagrimas, uniu-se tanto esta ideia com a imagem da minha querida mãe, que me parecia que ella me alagava com seu pranto, em me beijando.
― Eu sou mais infeliz que Augusto, disse pesarosa a menina. Não tenho a menor ideia de minha mãe; ainda que me diz meu avô que ella me beijou e abraçou com muita ternura na vespera da sua partida.
― Eras muito pequenina; e eu na verdade não era muito maior, apesar de me julgar então um homemzarrão. Lembra-me que muitos dias nos deixaram quasi abandonados , quando se soube a horrivel nova da morte de nossa mãe, e que eu, altivo com a minha importancia, passava o meu tempo a guardar Virginia, e a matar as vespas, para que lhe não ferrassem; parecendo-me que fôra uma das recommendações da mãe.
Virginia apertou seu irmão ao coração, deixando cair de seus lindos olhos duas lagrimas. Augusto, ainda abraçado 'n'ella, encostou a arma, que trazia, á casinha de fresco, em que se occultava sua mãe e estendeu o braço a Feliciano, dizendo:
― Unamo-nos todos tres. Fiquem nossos corações, formando um só. Vou confiar-vos a condição, que o pae poz ao vosso casamento....
— Seja qual fôr, interrompeu o outro mancebo, desde já a acceito e cumprirei religiosamente.
― Não é cousa que te dê canceira a ti: a mim só é que diz respeito. Augusto, me disse meu pae, eu me descuidei de proteger a filha, que teu avô me entregou.... não tenho direito a esperar que Feliciano seja mais cuidadoso com Virginia... Os perigos que lhe receio não são só de assassinios, mas tambem de genero differente... Ha um periodo, na vida dos casados, de muito risco; é, quando o marido já não é amante, e a mulher é ainda moça... Por esse periodo não passei eu... Tua mãe... = As lagrimas o soffocaram e depois continuou: = Visto que se amam, consinto no casamento de minha filha, com a condição de tu seres sempre o seu segundo guarda e protector, como tens até agora sido o primeiro. Se Feliciano, por necessidade, ou por gosto se afastar de tua irmã, posta-te a seu lado... não a abandones, e que, quando Feliciano voltar, a ache como a deixou.
— Espero que me ajudes a fazer tua irmã venturosa, mas emquanto ao mais... julgo que teu pae nunca se arrependerá da honra que me faz.
— Estou certissimo que o meu logar de guarda substituto será um emprego honorario. Por agora ao menos protege tu só a nossa Virginia, que eu vou procurar o pae. Toma sentido que lhe não ferrem as vespas, como eu fazia na minha primeira campanha; porém não vás logo pedir o premio de teus serviços, como eu costumava. Assim que matava uma vespa corria a Virginia, bradando: menina... menina, dá-me um beijo, que matei uma feia.
Augusto acabando de fallar estendeu o pescoço, e beijou sua irmã, dizendo:
— Com sua licença, snr. Feliciano, este beijo foi por algumas vespas que quiz matar e não pude.
E agarrando na arma, que tinha encostada, partiu como uma setta, para recuperar o tempo perdido, seguido de seus cães.
Henriqueta o seguiu com vistas ternas, pensando:
— O meu Augusto!.. Talvez o não torne a ver!..
Virginia e Feliciano o olhavam tambem um pouco; depois o mancebo offereceu o braço á menina para leval-a mais perto de si, e se adiantaram vagarosos. Havia tanta singeleza e innocencia na linguagem da donzella, tanta delicadeza, amor e probidade nas expressões do mancebo, que a infeliz mãe ergueu os olhos ao céu reconhecida. Acreditava que Virginia seria feliz, e nunca se desviaria da estrada do dever e da virtude.
Elles tinham parado á entrada da casinha de fresco outra vez, mas não viram Henriqueta; estavam muito entretidos com o seu dialogo. Era a primeira vez que se achavam sós por sós, ou ao menos assim o pensavam.
— Vamos para o avô, disse por fim Virginia, puxando pelo braço de Feliciano para diante. Se Augusto viesse, e nos achasse no mesmo sitio, em que nos deixou, o que não diria!..
Como iam rentes á casa de fresco, um braço do jasmineiro se enleou na franja do chaile de Virginia. Ella o desviou, e sem olhar, procurou encaminhal-o para dentro da casa de fresco, parando outra vez um momento. A mão descuidada da menina roçou pelas mãos descarnadas da infeliz mãe. Esta perdeu a cabeça com aquelle toque, e, caindo de joelhos, agarrou com força na mão fresca e mimosa de sua filha e a levou aos labios com um ardor inconcebivel.
Virginia soltou um grito de susto, e Feliciano quiz livral-a da desconhecida, que tomou por demente; mas ella lhe disse, já recuperada do sobresalto:
― E' alguma infeliz que precisa de soccorro. Deixe ver o que quer.
No entanto a esposa de Julio ficava de joelhos, apertando a mão de sua filha e beijando-a com fogo e ternura. Não era uma mãe diante de sua filha; era a mulher culpada e arrependida diante da virgem innocente, que ardia apertar ao coração, e que não ousava toca rsenão de joelhos.
Virginia se curvou para ella e lhe disse com muito carinho:
— Que tem?.. porque chora? Meu pae e meu avô são muito bons. Não a deixarão sem soccorros. Levante-se.
Era muito para a infeliz. O bafo de sua filha acabou de lhe transtornar as ideias; puxou Virginia para si, encostou a encanecida cabeça ao seio d'ella e desmaiou.
— Feliciano, bradou a donzella, esta pobrezinha morre-me nos braços!..
O mancebo amparou-as ambas, ergueu Henriqueta nos braços e animou Virginia, dizendo, que aquillo era apenas um desmaio.
— Vou chamar, quem a leve a casa, replicou a menina. Ella precisa de soccorros.
— Não é preciso, Virginia. Eu levo-a. Não peza mais que uma penna.
— Coitadinha!.. Tem só a pelle sobre os ossos!.. Talvez a pobreza lhe tenha cavado a sepultura. Ah, Feliciano!.. E' tão triste ser velho e pobre!.. Se meu avô não tivesse o tratamento que tem, teria morrido ha muito.
— Não conhece esta infeliz? Creio, que é uma, a quem Augusto deu esmola, antes de entrar. Eu vinha com tanta pressa... confesso a minha culpa, que não quiz deter-me a ver o que Augusto ficava dizendo á infeliz.
― Fez mal, Feliciano... A caridade...
— Bem sei, que para agradar a um anjo, devia antes privar-me de vel-o, do que de fazer uma boa acção. Perdoe, Virginia. Mas não sabe, quem é esta velhinha?
— Não. Nunca a vi. Mas faz-me tanta pena!.. Não sei, porque faz-me lembrar de minha avó... Porém bem se conhece que esta pobresinha ha de ser muito mais velha do que o seria minha avó, se hoje fosse viva. Morreu ha tantos annos!.. Era eu ainda bem pequena.
Tinham-se approximado de casa. Felicianó com Henriqueta nos braços, e Virginia com a arma do mancebo nas mãos, que elle tinha lançado ao chão. A mocinha tinha muito medo de armas de fogo, mas esta lhe parecia inoffensiva e leve. A mulher, que ama devéras, sente doce satisfação em se apossar de alguma pertença do seu amante.
— Ella o seguiu, mas adiantando-se para arredar uns ramos, via Feliciano que ella carregava com a sua arma e quiz oppor-se a que a levasse mais tempo.
― Não tenha medo, que lh'a estrague, disse ella sorrindo; eu vou já entregar-lh'a.
E chamou duas criadas, a quem disse, que deitassem aquella velhinha no quarto terreo, e que procurassem chamal-a á vida.
Entregou a arma ao mancebo, pedindo-lhe que fosse dizer a seu avô o que tinha succedido, e seguiu a desconhecida.
Era recolhida por caridade a filha de Henrique de Moraes na casa paterna, como uma pobre mendiga. Na casa em que fôra senhora, era agora menos que o mais infimo dos criados!.. Ainda bem que a falta dos sentidos lhe tirou a sensibilidade por algum tempo, e lhe poupou de ouvir o que diziam as criadas que a deitaram.